Páginas


"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

E os cobras, onde estão? – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Não faz muito tempo que as cidades do Cariri não tinham uma universidade. Muitos cratenses, por falta de recursos, não conseguiram concluir um curso superior por não existir na região aquele que correspondesse à opção desejada. Outros concluíam os cursos de Economia e Direito, ou os de formação para professores até então existentes no Crato, como História, Letras, Geografia e Ciências. Para os pais era um sacrifício incalculável manter os filhos estudando em um grande centro. Muitas famílias cratenses foram forçadas a migrar do Crato para Recife, Salvador, Natal, Fortaleza, João Pessoa e outros centros universitários para acompanharem os filhos que para lá seguiam, a fim de obterem uma formação profissional. Isso representava um grande prejuízo para a região, que se empobrecia com a partida de preciosos valores humanos.

O professor Manoel Batista Vieira, carinhosamente conhecido por Vieirinha por todos os cratenses, fazia parte da linha de frente de excelentes mestres que consagraram o Crato como cidade pioneira na educação no interior do Estado e centro cultural do sertão nordestino. Durante muitos anos ele lecionou latim e português em vários colégios do Crato.

A história a seguir me foi narrada pelo primo e cunhado Huberto Esmeraldo Cabral e confirmada pelo filho do Professor Vieirinha, o médico José Flávio Pinheiro Vieira.

Quando os filhos do velho Vieirinha precisaram ingressar na universidade, ele decidiu acompanhá-los. Requereu a aposentadoria e mudou-se para capital pernambucana.

Para o professor Vieira, homem afeito às coisas do sertão, acostumar-se a viver numa grande cidade foi uma dificuldade indescritível. Sua vida ali, no meio de tantos rostos estranhos, fazia com que para ele, os dias se arrastassem como se fossem séculos. Até que um dia, viu um aviso para seleção de professor de português para um colégio da rede pública. Após muito matutar, e incentivado pelo amigo Monsenhor Rubens Lócio, resolveu se inscrever. Ao chegar à mesa de inscrição, a funcionária perguntou de onde ele era e se possuía experiência como professor. Ele mostrou toda a documentação comprobatória, afirmando que era cearense de Várzea Alegre e lecionara por alguns anos nos colégios do Crato, conforme ela poderia observar em sua documentação. Ao verificar que ele era do interior cearense, a funcionária encheu-se de superioridade e desejando intimidá-lo perguntou: “O senhor vai ter coragem de se inscrever? Aqui só tem cobra!” E o professor Vieirinha respondeu: “É moça, não custa nada “os minhocas” enfrentarem ‘os cobras’.” As palavras daquela funcionaria encheram de brios o professor Vieira, que fez uma revisão apurada de todo latim e português, que havia aprendido em anos de estudos no Seminário do Crato e no Seminário Maior de Fortaleza, onde concluíra teologia.

Após prestar as provas exigidas pelo concurso, no dia marcado para divulgação do resultado, o professor Vieira voltou ao local onde fizera a inscrição e procurou a mesma funcionária. Ela começou a consultar a lista dos aprovados, procurando encontrar o nome dele de baixo para cima. E ele observava: “Olhe mais em cima, moça”. E ela continuava olhando os nomes em ordem decrescente. Quando já percorria a metade da folha, ela lhe disse: “É, parece que o senhor não passou!” E o nosso Vieirinha insistia: “Mas moça, olhe mais em cima, por favor. Bem mais em cima!” Ela, a contragosto, obedeceu, até que chegou ao topo da lista. E tomada de grande surpresa, exclamou: “Puxa! O senhor foi aprovado em primeiro lugar!” E nosso Vieirinha com a humildade e misto de bom humor que lhe eram característicos, perguntou: “Moça, e os cobras onde estão?”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

6 comentários:

  1. Carlos Eduardo.

    Assim você me mata de saudade. Não vou falar nada do velho Vieira porque voce já falou tudo. Mas depois que os filhos se formaram ele voltou para os sertões, para o campo, viver a vida que gostava, desejava e merecia. Em sua fazenda no municipio de Potengi certa vez o visitei e em nossas conversas perguntei um dia: Professor como vai? Ele respondeu: estou bem Rajalegre, de manhã tiro o leite das vacas e o resto do dia passo alimentando os burregos enjeitados. Quer vida melhor? Notava-se pelo brilho dos olhos e pelo sorriso que ali estava um homem abosolutamente realizado e feliz.

    ResponderExcluir
  2. Carlos, como já disse no Cariricaturas: seu texto me trouxe uma saudade forte do meu mestre.

    Você contou a história com o bemo humor que ela merece.

    Abraço,

    Claude

    ResponderExcluir
  3. Carlos Eduardo,

    Algumas vezes encontrei o Vieirinha na Avenida João de Barros, em Recife, próximo ao viaduto da Encruzilhada, assistindo à sua contumeira missa dominical.

    Certa vez, ao lhe perguntar pelas novidades do interior do Ceará, ele respondeu-me: - Vou deixar de me corresponder com o meu povo, pois a última carta que recebi, acho que por preguiça, só tinha notícia de morte. Com certeza, foram no cartório e copiaram tudo.

    Bom texto e bela recordação.

    Um Abraço.

    ResponderExcluir
  4. Prezados amigos: Morais, Claude e Dr. Sávio Pinheiro (Se for dos Pinheiro que sobrevivem no Crato, então somos ainda parentes)

    Agradeço a participação de vocês. Tenho nítido na minha memória uma cena que se repetia todos os inícios de ano: um garoto de oito anos, com a lista do material escolar sendo atendido pelo Vieirinha (assim eu o chamava) na Livraria Católica, de sociedade dele com o Professor José do Vale Feitosa. A livraria estava repleta de estudantes e alguns pais de alunos. Pela atenção aos meus pais que eram primos da mulher dele, Vieirnha me dava certa prioridade e pessoalmente me atendia. E o pagamento? Nem sei quando era realizado. Talvez só depois da moagem. Quando Huberto Cabral me contou essa história, resolvi prestar essa pequena homenagem.
    Um grande abraço!

    ResponderExcluir
  5. Para Vieirinha, meu pai cultural, toda minha ternura e uma saudade incalculável.

    Fátima Arraes

    ResponderExcluir
  6. Meu querido mestre na língua portuguesa. Saudade imensa.

    Raimundo Nonato Rodrigues, o paraibano.

    João Pessoa, 23 de maio de 2014.

    ResponderExcluir