Minha querida Icó-CE, em 1968, de um dia para outro mudou da água para vinho. Máquinas gigantescas, caminhões de todos os tipos, caçambas, tratores, acampamentos, centenas de trabalhadores provindos de outras regiões, principalmente do Estado da Bahia, muito dinheiro circulando, etc. Era a chegada do progresso: A construção da BR-116.
A monotonia cedeu lugar para uma cidade agitada. Tertúlias, vesperais, matinês eram improvisadas em todas as ruas. Festas dançantes que antes aconteciam apenas durante os festejos do Senhor do Bonfim, no 1º andar do Teatro Municipal das Ribeiras dos Icós e no sótão do prédio da Cadeia Pública, viraram rotinas.
Aos sábados e domingos, em bares, restaurantes e residências, só se ouvia o sanfoneiro Juracir soltando a goela no mundo. Juracir fez uma verdadeira revolução musical. Ele utilizava as letras e as melodias dos sucessos dos cantores da jovem guarda (José Roberto, Roberto Carlos, Jerry Adriane, Wanderley Cardoso, Carlos Gonzaga, Eduardo Araújo etc.), e tocava com zabumba, triângulo, pandeiro e sanfona, adaptados em ritmo de forró-pé-de-serra.
Nos fins de semana ele tocava de manhã, de tarde, e a noite até amanhecer o dia. Dinheiro Juracir ganhou muito nesse tempo. Entretanto as cordas vocais engrossaram de um jeito que ainda hoje ele é rouco. A voz é um pouquinho pior do que a de Leonardo Sertanejo.
Na rua do cruzeiro, antiga zona da Cidade (Nos anos 80 foram demolidos todos os bares, salões de dança e os quartos, para construção do atual prédio onde funciona o DNOCS), a movimentação era intensa. Prostitutas da Paraíba, de Fortaleza e de todas as cidades circunvizinhas lotavam esses ambientes, se aventurando em busca do dinheiro fácil que era gasto pelos técnicos, engenheiros, topógrafos, motoristas, operadores de máquinas, mecânicos, pedreiros, serventes etc.
O forró lá começava muito cedo: 19:00 horas. Era ao vivo. Não vou declinar o nome dos cantores e dos músicos que animavam essa zona da cidade, porque os que não viraram estrelas são hoje septuagenários, octogenários, pais de muitos filhos, netos e bisnetos, merecem ser preservados.
Eu freqüentava esse ambiente acompanhando Fransquim. Esse meu amigo era muito conhecido por lá. Mas eu ia somente para ver o Conjunto Musical. E com essa memória privilegiada que Deus me deu, o repertório que eles tocavam lá (Pouco mais de 6 músicas), eu decorei todo.
Certa vez eu estava malhando ferro na oficina e cantando em ritmo de baião alagoano: Que musiquinha mole mole de cantar, é só laiá-laiá, é só laiá-laiá, a gente gruda na cabocla sem cansar, é só laiá-laiá, é só laiá-laiá. Quando o maestro toca a introdução, bate o pé no chão, oi, bate o pé no chão.
A letra da música era só isso. Mas a sanfona solava a melodia, o violão arpejava, a zabumba, o triângulo e o pandeiro faziam a maior estripulia. Prá falar a verdade, eu acho essa música mais bonita do que todas que as bandas de forrós tocam hoje em dia. Vou justificar: O ambiente era o cabaré da cidade, mas os cantores não falavam essa palavra e nem apelavam para as esculhambações que a juventude é obrigada a consumir atualmente.
O que é fato é que de repente meu pai se aproximou e me fez uma pergunta: Ei moço, onde diabo você aprendeu essa música? Eu tinha 13 anos de idade, mas encontrei uma resposta convincente: Oh xente, mestre Assis Félix, nosso vizinho, amanhece o dia cantando... Porque?
Meu pai nunca me flagrou olhando o conjunto tocar, porque ele só ía prá lá no Jeep. Quando Fransquim anunciava: João Dino lá vem teu pai... Eu pulava a janela e tome pé.
Meus amigos, o hotel de Jeremias, único da cidade na época, ficou praticamente alugado aos baianos que exerciam os cargos de chefias.
Os quartos eram superlotados. E esses caras utilizavam o oitão do hotel para os encontros amorosos. A partir das 21:00 horas as moças iam chegando e eles, como quem não quer e querendo, se aproximavam. Pouco tempo depois acontecia o acasalamento.
A meninada, é claro, não perdia a oportunidade de assistir filme pornô, ao vivo. A varanda do grupo escolar era o ponto de apoio. Aconteceram muitos casos interessantes. Mulheres bêbadas não aceitavam a quantia de dinheiro oferecida. Homens bêbados tentavam fazer vale, deixar fiado.
Um dia nós exageramos nas observações. Queríamos ver de perto prá contar de certo. Enquanto isso o bêbado repetia: Vão embora se não eu atiro em vocês. Tiroteio prá nós era coisa muito normal nesse tempo. Ninguém deu a menor importância.
Mas quando esse bêbado apontou o revólver em nossa direção e apertou o gatilho, foram somente dois tiros, mais clareou toda a rua. Nesse dia em fiquei sabendo a quantidade exata de curiosos daquele cinema pornô: Éramos doze... E a surpresa: Na agonia, na hora da carreira, apareceram adultos e até um sujeito casado.
O governador do Estado do Ceará, na época o Advogado de Mombaça, Dr.Plácido Aderaldo Castelo, observando o clima de violência no Icó, mandou um veículo Rural Wills novinho para o Ten. Lucas promover a ordem com mais rapidez.
Nesse tempo o governador era amigo dos policias e se preocupava com o bem estar da população.
Poucos dias depois lá estávamos nós assistindo a mais uma sessão de filme pornô à luz da lua, quando o Ten. Lucas surpreendeu um casal no oitão do hotel de Jeremias em pleno ato sexual.
As fortes luzes da rural wills focalizaram a cena a pouco mais de três metros de distância. E o Tenente, com aquela voz militar de antigamente, bradou: Que esculhambação é essa aí sujeito?
O baiano se pôs de pé, e fechando a braguilha da bermuda, argumentou: Oh meu rei... Porque estás tão nervoso? Estou urinando aqui porque o mictório do hotel está lotado, visse?.
O Tenente Lucas se esgoelando: Urinando é? Você está me achando com cara de otário, é?... E essa mulher deitada aí no chão, o que ela está fazendo?
O baiano, com a cara mais lisa do mundo respondeu: Valei-me meu Senhor do Bonfim... Se a autoridade não tivesse me avisado eu ia terminar urinando em cima dela...


Prezado João Dino.
ResponderExcluirEm 71, não sei precisar bem o ano. Fui convidado por uma colega do Colegio Estadual para uma festa no Icó.
Meu irmão, uma festa com a nata da sociedade, pois houve uma briga que não sei te dizer as proporções.
Politicos se atirando de revolver, morreu autoridades. Eu não dou muita noticia porque quando deram o primeiro tiro eu estava a cinco metros do pessoal e quando deram o segundo eu já vinha na entrada de Lima Campos tão grande a carreira e o medo. Sinceramente nunca vi uma coisa daquelas.
ESSA BRIGA ACONTECEU NO CABANA CLUBE DE ICÓ. FAMÍLIAS RIVAIS FORAM PARA AQUELA FESTA EXCLUSIVAMENTE PARA REALIZAREM AQUELE FESTIVAL DE BALAS. A PERÍCIA DETECTOU QUE MAIS DE 40 ARMAS FORAM UTILIZADAS. POR ISSO SEMPRE SE CONCLUIU QUE TODOS FORAM PREPARADAS PARA A BRIGA. FELIZMENTE TINHAM MUITOS AMADORES ENTRE OS PARTICIPANTES, QUE NÃO SABIAM ATIRAR. POR ISSO APENAS UM CIDADÃO TOMBOU MORTO. BALEADOS FORAM MUITOS.
ResponderExcluirOUTRA GRAÇA, PELO MENOS PARA MIM, É QUE NAQUELE TEMPO O CLUBE NÃO ACEITAVA NEGROS NO QUADRO SOCIAL. ISSO JUSTIFICA PORQUE VOCÊ NÃO ME VIU NAQUELE TIROTEIO. ERA A BRIGA PELO PODER. E DUROU MUITO TEMPO.
EU COMECEI A FREQUENTAR O CABANA CLUBE DE ICÓ, ALGUNS ANOS MAIS TARDE, PORÉM COMO ARTISTA, NO PALCO.