"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS DE JOÃO DINO – CAMA SANTIFICADA

Na maioria das vezes dura muito pouco o sucesso dos artistas que já aparecem superlotando casas de show’s. Você vai recordar comigo agora alguns nomes e algumas bandas que aglomeraram públicos de 10, 20, 30, 40, 50 mil pessoas, e que ainda desconhecidos apareceram na grande mídia da SOMZOOM SAT, TV globo, SBT, TV Bandeirantes, TV Record etc.: Roberto Vilar(Papudinho) Lairton dos Teclados, Lacraia, Sandro Lúcio, Amado Edilson, Tony Nunes, João Inácio Júnior, Frank Aguiar (Esse, com cara de cão faminto, latindo, se refugiou na Câmara Federal, gostou, é Vice-Prefeito de São Bernardo do Campo-SP e ocupa o cargo de Secretário de Cultura), Tayrone Cigano (Esse fez um show num dia de domingo à tarde no Crato Tênis Clube, no dia seguinte apareceu na TV Verde Vale agradecendo a presença das 14 mil pessoas que o assistiram. Ou seja: Ele confundiu a lotação do CTC com a capacidade de público do Estádio Romeirão), KLB, as 8 bandas de forró do empresário Emanuel Gurgel (Só a Mastruz com Leite sobreviveu) etc.

Esses artistas e bandas em pouco tempo de estrada atingiram o ápice de suas carreiras e desapareceram. Eles não tiveram tempo de conquistar o público.

Meu caso é muito diferente. Meu público, desde maio de 1982, é de aproximadamente 500 pagantes. E eu conheço, e sou amigo, escuto conversas e confidências, tomamos cafezinhos juntos, visito as residências dos meus fãs e também os recebo em minha casa... Tenho uma dúzia de compadres, adquiridos através de amizades que nasceram nas minhas serestas...

Acredito que por essas e outras razões é que já estou atingindo três décadas sempre em evidência. Nunca apareci na rede Globo. Porém faço uma média de 10 serestas por mês. Ininterruptamente durante todos esses anos.

É claro que exageros acontecem. Alguns fãs às vezes exigem coisas que a gente não pode e nem deve fazer, por exemplo: Chorar em velórios de parentes deles, ouvir queixumes de problemas familiares os mais diversos, inclusive financeiros etc.

Vou descrever um caso. Um caboclo lá de Sousa-PB, Tico caminhoneiro, que sempre freqüentou minhas serestas, conheceu uma moça em uma dessas ocasiões. Namorou, saiu, casou, teve filhos, eu sou o padrinho de um dos meninos.

Por coincidência, há um mês, nos encontramos em Barbalha-CE. Na hora em que ele apeou do caminhão, já foi dizendo: Olá compadre... Eu estava mesmo querendo lhe ver... Compadre quando você for para aquelas bandas, dê uma passadinha lá em casa para conversar com sua comadre. Procure dar uns conselhos para ela. Sua comadre virou carola de todas as igrejas da cidade. Só vive rezando compadre. Só liga a TV para assistir missas e sermões desses padres modernos. É Fábio (Júnior) de Melo, é Marcelo Rossi, é Reginaldo Manzzoti. Reza de manhã, de tarde, de noite.

Eu passo de mês viajando. Quando eu chego lá em casa, em tempo de subir pelas paredes, está ela lá de joelhos, um bocado de garrafa d’água em cima do rádio e da televisão, e tome reza... Compadre a coisa é séria... Eu vou terminar perdendo a paciência e arranjando outra mulher.

Eu falei: Compadre você não está exagerando, será que você não já está embelezado por outra mulher?

A resposta dele: Ainda não estou não compadre. O problema é que sua comadre nem me ver mais dentro de casa. Eu entro, saio, tomo banho, me perfumo todo, me organizo dos pés à cabeça etc e tal.
Quando ela vê que eu estou com aquelas intenções, acende uma vela das grandes, com um raminho chuvisca a cama com água benta, se ajoelha ao lado do santuário, e se dana a rezar.

Para ser ainda mais convincente ele foi até a cabine do caminhão, trouxe uma fotografia para me mostrar (A foto é essa que está aí em cima), e desabafou: Compadre, veja com os seus próprios olhos como está nossa cama de casal... Tem retrato de santo por todos os lados... É Jesus Cristo com a coroa de espinhos e Nossa Senhora chorando, São Sebastião com as flechas enfiadas no corpo, São Jorge Guerreiro matando o dragão com sua espada, Padre Cícero, Frei Damião, Santa Luzia, Mãe Raínha, Bento XVI, e o Papa João Paulo II acenando com a mão, assim como quem está sinalizando: Esbarre aí...

Compadre, meu casamento está no fim. Eu já não sei mais o que fazer. Eu ainda gosto muito dela. Embora muito cansado, às vezes eu fico esperando até meia noite. Mas quando ela começa a puxar o terço da misericórdia, pense numa reza que não tem fim. Eu adormeço... Não vejo mais nada... Acordo no outro dia com os meninos pulando em cima de mim.

Eu ouvi atentamente toda essa história. Comovido com a difícil situação do meu compadre fiz alguns comentários e lhe orientei como proceder. Depois eu conto prá vocês o resultado.

A propósito, será que os artistas que eu citei no início dessa história têm fãs confidentes assim como eu tenho Tico Caminhoneiro? Seria esse o segredo dos meus 30 anos de carreira artística?

1 comentários:

  1. João Dino,

    Você narrando suas estórias deixa-nos em uma ansiedade incomum.São ótimas.E você é o nosso sucesso regional,já inraizou.

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