Os leitores das minhas histórias e crônicas já devem ter descoberto que eu sou viciado em ouvir rádios. Aos domingos, justamente no horário em que eu estava acordando ou voltando das minhas serestas, Dr. Coracy estava apresentando o Programa “Viver com Saúde”, em uma das emissoras daqui de Juazeiro do Norte. E eu gostava tanto do programa que o acompanhava também na TV Verde Vale.
Além de ser um grande médico, muito estudioso e dedicado, um bom orador, ele esbanjava conhecimentos sobre todos os assuntos que eram debatidos com os colegas e autoridades que estavam sendo sabatinados e/ou entrevistados por ele, em seu “VIVER COM SAÚDE”. Dr. Coracy fazia um programa de utilidade pública.
Nesse dia ele estava muito inspirado. Orientando as mulheres sobre como manter um casamento sempre em alta. As palavras dele: Em primeiro lugar o cuidado com os filhos, os deveres escolares da garotada, aquelas cantigas de ninar etc.
Concluída essa tarefa chega a vez de uma boa ducha bem relaxante, com um sabonete bem aromático, bem cheiroso, uma higiene bem caprichada etc e tal.
Depois uma camisola bem sensual daquelas que as atrizes usam nas novelas. Pronto... Daí é só esperar o maridão chegar, envolvê-lo naquele clima... O resto a própria natureza se encarrega de fazer.
Eu achei essas colocações muito lindas. E acredito que a verdade é essa.
Por um momento eu fiquei pensativo. Passou um filme na minha cabeça. Lembrei-me de um casal do Bairro do Rosário da minha querida Icó-CE: Minha prima Francinete Laurentino e meu grande amigo Chico de Rosinha.
Meus amigos, sem exagero... Pense num casal que nunca brigou. Eu visitei a casa desses meus amigos no mês de dezembro do ano passado. Chico, aos 70 anos, sofreu um avc, e está sofrendo muito, lutando para sobreviver. Observando cada palavra do que jurou no Altar Mor da Igreja do Rosário, sob as bênçãos do Pe. Vieira, Francinete, tem sido sua fiel companheira, o que de certa forma alivia muito o sofrimento dele. É dedicação total... E sempre foi assim.
Lembro-me muito bem quando nas festinhas familiares, aniversários, batizados, casamentos... Nos velórios, que eram verdadeiras noites de festas no nosso Bairro, Francinete antes de se alimentar servia logo tudo que havia de melhor para Chico de Rosinha. O melhor pedaço da titela da galinha, o feijão verde com queijo, a paçoca temperada com manteiga da terra, o arroz de leite, o aluar de abacaxi para Chico não se engasgar com a comida etc. Depois que Chico estava bem alimentado, em segundo plano estava ela e em terceiro os meninos.
E acreditem meus amigos, ela teve 22 filhos, dos quais vingaram e estão perambulando pelo mundo, também procriando nessa mesma proporção, 18.
Para vocês entenderem melhor a solidez desse relacionamento, eu vou dizer só uma: Chico de Rosinha fugiu de um navio que estava atracado no cais do porto de Fortaleza, largou o emprego de soldado da Marinha do Brasil, voltou para Icó nos anos 60, a fim de se casar com Francinete, e brada para todos os cantos do mundo ouvir que jamais se arrependeu dessa proeza. Precisa dizer mais alguma coisa?
Pois bem, voltando à orientação de Dr. Coracy. Eu fui comentar com Francinete o discurso dele na rádio, ela fez foi achar graça... E disse mais: Primo velho, esse Doutor é fraco da bola... Esse negócio de água de cheiro, sabonete, ducha, óleo, perfume, pó, banha disso, banha daquilo etc., essas coisas faz é atrapalhar... Quanto mais natural for cheiro da mulher mais o homem gosta. É justamente o odor, o aroma das partes de baixo, daquelas coisas, que levanta o astral do homem.
Ela é muito engraçada. É pobre, porém muito feliz, tudo que faz é rindo, sempre bem humorada, de bem com a vida. Ouvindo-a contrariar a orientação de Dr. Coracy eu me pus a recordar o passado. Passou um filme na minha cabeça. Cheguei à conclusão de que não era brincadeira. Ela estava falando sério.
Francinete saía de casa às 3 horas da manhã para trabalhar no açougue. Passava o dia na pedra cortando carne de porco e vendendo quilo por quilo. Tudo que sobrava ela colocava dentro das tripas e fazia lingüiça para negociar com os bodegueiros, no caminho de volta prá casa.
Quando chegava, já ao anoitecer, Chico estava com os amigos jogando baralho. Ela passava por ele, piscava o olho, dava uma sacudida nos cabelos e acenava com a cabeça para o lado do quarto (Isso na frente de todo mundo. Eu, adolescente, presenciei várias vezes essa cena), e dizia: Vamos lá... Vai querer hoje?
Vocês sabem como é jogo de baralho. Para quem gosta de um pintado, qualquer coisa se torna menos importante. Por isso, às vezes Chico respondia: Espere um pouco... Agora não... Deixe-me terminar essa partida.
Nessa hora Francinete ficava desapontada, se insinuava, desfilava prá lá e prá cá a fim de chamar a atenção dele, e ameaçava: Se quiser venha logo porque depois que eu for lá na cacimba do rio tomar banho, tu sabes que eu não quero mais conversa com essas coisas... Depois que eu tomo banho, nem vem que não tem...
Ao ouvir essa ameaça Chico juntava o baralho, se despedia dos amigos, entrava pela porta da cozinha, colocava a tramela por dentro para os meninos não entrarem, e pouco tempo depois Francinete saía assobiando e cantando, rumo à cacimba que ficava distante uns 500 metros, localizada às margens do Rio Salgado.
Terminado aquele merecido banho à base de bucha de coco do Pará com sabão pavão, ela colocava uma rodilha de pano sobre a cabeça, e sobre essa rodilha uma lata de flandre contendo 20 litros d’água, tirava num só fôlego até em casa.
Essa água era para Chico tomar banho. Todos os homens do Bairro do Rosário morriam de inveja da vida de Chico de Rosinha. Além de ter se casada com uma das mulheres mais bonitas da cidade, vivia em constante lua de mel.
As primeiras chuvas do ano, quando caem do céu sobre o Cariri do Ceará, normalmente fazem transbordar o Rio Grangeiro, provocando transtornos e causando prejuízos incalculáveis aos comerciantes cratenses e a todas as pessoas que possuem imóveis localizados naquela área. São essas mesmas chuvas que quando chegam ao Rio Salgado se transformam em festa para os olhos, riqueza para a agropecuária, versos e poesias para o povo sertanejo.
Um belo dia de domingo o Rio Salgado de Icó amanheceu de barreira a barreira. A população aproveitou para tomar banho e se deslumbrar com aquele lindo espetáculo da natureza.
Francinete estava tomando banho com uma camiseta listrada e uma calçola de tecido de chita, que realçavam a silhueta do seu corpo. De repente Chico de Rosinha fixou o olhar penetrante nas partes dela e rolou a libido. Os dois se despediram dos amigos e imediatamente voltaram prá casa.
Seja sincero caro internauta... Responda-me: Sua mulher ainda lhe causa esse tipo de vexame? E você, será que ainda desperta nela o que Chico de Rosinha ativa nas células de Francinete?
Sim, vocês entenderam porque minha prima Francinete contesta a orientação de Dr. Coracy? Ela procedia exatamente ao contrário. Prá ela nunca teve essa história de menino aprender a ler, botar menino prá dormir, se assear antes do acasalamento etc. Mesmo assim, já completou bodas de ouro, e o amor, até hoje, só fez crescer.


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