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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


sexta-feira, 3 de março de 2017

023 - O Crato de Antigamente - Por Antônio Morais

A última vitima do Caldeirão - Coronel Ronald Brito.

Depois de percorrer algumas propriedades do cariri, morando de favor, o beato José Lourenço assentou-se na Fazenda Caldeirão no Município de Crato, imóvel este que pertencia ao Padre Cícero. Antes do seu estabelecimento definitivo, ele já comandava uma legião de trabalhadores temporâneos, que lhe obedeciam e seguiam seus passos fanaticamente. Se algum fazendeiro estava em dificuldade para limpar um grande roçado, solicitava seus préstimos e ele lá comparecia com cinquenta, cem ou duzentos homens; o serviço era feito em horas ou em poucos dias. O pagamento ficava a critério do beneficiado; um boi, um cavalo, sacos de milho, feijão, rapaduras, etc, ou simplesmente um muito obrigado. O rateio das doações era feito entre todos. E assim, quando o Beato foi morar naquele lugar já levava um “regimento”. As terras que não produziam nada viraram uma Canaã.

O poder publico, da época, ainda não acreditava no que o beato apostou: parceria, mutirão, irrigação, obediência e trabalho. Ficou enciumado com o sucesso da comunidade e haja perseguição, ate que veio a ordem para a destruição do assentamento.


Comandando uma fração de tropa vinha da Capital um jovem oficial, já conhecido no meio policial pelo seu caráter violento e inata malvadeza: Tenente João Inácio de Vinhas. Antes de deflagrarem a ação, os comandantes maiores falando a tropa, fizeram ver aos futuros combatentes, que apesar de ser uma guerra, no campo de batalha eles iriam encontrar mulheres e crianças, que deveriam ser respeitadas ao máximo. Depois do bombardeio, a infantaria avança e o Tenente à frente do seu pelotão ficou cego. Matava homem, mulher, menino, porco, galinha e de resto ateava fogo nos casebres. A carnificina foi grande.

Quase no final da refrega, sai de uma toca uma mulher arrastando uma criança; a arma do oficial funcionou: matou a criança e feriu a mulher. Nisso o marido aparece intercedendo pela esposa, mas Inácio assegura que vai acabar com o sofrimento dele e dela. Seu policial, mate-me, mas deixe-a viver para criar os outros três inocentes. Que nada jagunço safado, vai ela e você também! Se é assim homem, pode matar-nos, mas fique sabendo que no dia de sua maior agonia, você chorara pelos os seus e pelos meus. Dois tiros ecoaram nas quebradas da Chapada do Araripe.

Quarenta anos se passaram. O já coronel Inácio estava deitado na sua rede no alpendre aproveitando a brisa, quando foi rendido por dois marginais. Ainda esboçou resistência, tentando pegar seu revolver em cima de um tamborete, mas foi dominado. Sendo obrigado a entrar na residência, vê também serem rendidas à filha e a neta. Imobilizado, o velho militar assistiu ao estrupo de ambas; enquanto desesperado enchia-se de raiva, lembrou-se do episodio do Caldeirão e chorou copiosamente pelos dois fatos. O coronel entrou em depressão morrendo dias depois e, como todos os que participaram daquela matança, até aquele dia já haviam morrido de maneira misteriosa ou trágica, acreditamos que o Cel Inácio foi a ultima vitima do Caldeirão.

2 comentários:

  1. O que restou do Caldeirão a Igrejinha, sem gente, como testemunha silenciosa do massacre adormecido na sua solidão.

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  2. Bastante emocionado com a narrativa, muito bom precisamos demais de gente que não deixe nossas histórias morrer, ficarem esquecidas no passado, como é bom poder ler essa história.

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