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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


sexta-feira, 3 de março de 2017

Documentos da história varzealegrense – pesquisa feita por George Ney Almeida Moreira


Cronologia varzealegrense

1857

28 de fevereiro

Declaração feita por Joaquim Alves Bezerra, filho de Papai Raimundo, relativa ao patrimônio de São Raimundo Nonato.

"Eu, abaixo assinado, como administrador do glorioso São Raimundo, declaro que meu Santo possui quatrocentas (400) braças de terra de patrimônio no sítio Várzea Alegre, extremando da parte do Nascente com terras de José Bezerra da Costa, ao Poente com João Alves Bezerra, ao Sul com Joaquim Alves Bezerra, ao Norte com Antônio Duarte Bezerra.

Lavras, 28 de fevereiro de 1857
Joaquim Alves Bezerra
Conferido e registado, do que pagou 50 réis

Lavras, 4 de março de 1857
O Vigário Luís Antônio Marques da Silva Guimarães

[APEC]

28 de julho

"São lidos e julgados objetos de deliberação e mandados imprimir os seguintes projetos:
(...)
Nº. 12 - A assembleia legislativa provincial do Ceará resolve:
Art 1º. Ficam criadas cadeiras do ensino primário para o sexo masculino na povoação de S. Raimundo da Várzea Alegre nas Lavras, no Quixadá de Quixeramobim, na Venda do município do Icó (...)"
(...)
[Pedro II, nº. 1705, 28 jul. 1857, p. 3]

1860


19 de julho


Argumenta o Sr. Mendes Guimarães ao presidente do poder legislativo em sessão ordinária neste dia [19.07.1860]:

"Tendo, senhor presidente, de apresentar também à consideração da casa uma emenda transferindo o distrito de paz da povoação de S. Caetano para a da Várzea Alegre, termo das Lavras, direi por esta razão suscintamente algumas palavras.
O distrito de S. Caetano vai sem contestação em uma grande decadência, é um antigo povoado, mas que todos sabem tem perdido completamente de sua importância ao passo que a povoação da Várzea Alegre é talvez a mais importante das povoações n'esta província.
Tem um grande comércio, alimentado pela muita população que ali já existe, e no meio do qual conta-se não pequeno número de pessoas capazes de bem desempenharem aquelas funções, que terão de exercer pela criação do distrito de paz."

Finalmente assegura:

"Várzea Alegre é superior em tudo a S. Caetano."

Vai à mesa e apoia-se o seguinte artigo aditivo:

<>

[Pedro II, nº. 2048, 21 jul. 1860, p. 2]


1861


11 de maio


Segundo portaria:

"O presidente da província em virtude do art. 2 da resolução provincial n°. 900 de 11 de agosto de 1859; remove a bem do serviço público os professores Raimundo Nonato Pontes Pereira e José Sismundo Batista Xenofonte, aquele da cadeira do ensino primário de Santana do Brejo Grande, para a cadeira do mesmo ensino na Várzea Alegre no termo das Lavras, e este para a de Santana, assim como marca a cada um dos referidos professores o prazo de dois meses afim de que dentro dele tomem posse das referidas cadeiras, de conformidade com o que determina o art. 5º. da citada lei: o que se comunicará a quem competir."
[Pedro II, nº. 117, 23 mai. 1861, p. 2]

O professor Raimundo Nonato de Pontes Pereira viria a casar-se com uma neta de Papai Raimundo, a senhora D. Teresa de Jesus Maria (Dondon), filha esta do Major Joaquim Alves Bezerra e de Antônia Correia Lima. O casal retromencionado gerou, dentre outros, Amélia Máximo de Pontes (a esposa de Francisco Moreira de Carvalho Pimpim - Major Pimpim). Vejamos abaixo uma breve relação da prole do professor Raimundo Nonato e de D. Teresa:

1.Maria    [*18.01.1866]    [~23.01.1866]
2.José    [*10.06.1867]    [~23.06.1867]
3.Sérgio    [*13.01.1869]    [~22.01.1869]
4.Amélia    [*13.06.1863]    [~24.06.1863]
5.Joaquim    [*??.09.1868]    [~15.09.1868]
6.Benedito    [*19.10.1871]    [~19.12.1871]
                

03 de setembro


É desta data portaria:

"Nomeando sob proposta do Dr. chefe de polícia para o cargo de subdelegado do distrito da Várzea Alegre ao cidadão Antônio Gonçalves de Araújo, ficando exonerado daquele lugar, a bem do serviço publico, o cidadão que o exercia."
[Pedro II, nº. 209, 12 set. 1861, p. 2]

Dito cidadão Antônio Gonçalves de Araújo era genitor do "escritor analfabeto" Pedro Tenente.


1862


17 de julho

É desta data uma nota de obituário colérico da província cearense dando conta de 210 vítimas em terras varzealegrenses.
[Pedro II, nº. 164, 17 jul. 1862, p. 2]


15 de novembro

Transcrição da reunião da Assembléia Provincial cearense registra a fala do Sr. Theodulpho, onde declara que:

"A freguesia de Lavras é povoada por 27 a 28 mil almas, nela existem além de outras, uma importante capela na povoação da Várzea Alegre, povoação que oferece vantagens consideráveis não só para merecer a categoria de vila, como ser elevada a matriz.

Foi dirigida ao Prelado Diocesano uma petição dos habitantes daquela povoação pedindo a criação de uma freguesia, criação tanto mais necessária e conveniente, quando não oferece dificuldade alguma, por isso que se limitava a separar-se da freguesia de Lavras, o território necessário, compreendendo doze mil almas, e ficando a de Lavras com 16 mil sem ofender outras freguesias limítrofes: o Diocesano ouvindo informações sérias com relação a freguesia de Lavras e a de uma outra freguesia na Boa Vista, e em outros lugares, sempre respondeu que não podia assentir visto como esperava pôr-se a par das necessidades, para então poder resolver satisfatória e conscienciosamente."
[Pedro II, nº. 265, 19 nov. 1862, p. 2]


1870


09 de setembro


A Assembléia Legislativa Provincial do Ceará resolve:

Art. 1°. Fica elevada a categoria de vila a povoação de Várzea Alegre, tendo por limites do respectivo termo os mesmos da freguesia.

Art. 2º. Haverá um escrivão do crime, cível, órfãos e mais anexos no mencionado termo.

Revogam-se as disposições em contrario.
[Pedro II, nº. 193, 14 set. 1870, p. 3]



1871

09 de setembro


Publicada resolução provincial:

“Nº. 1.422 da mesma data [09.09.1871] marcando os limites do município de Várzea Alegre, que serão os seguintes:  partindo da Aba da Serra, da casa do finado Lourenço da Costa Lima, onde sempre confinou com a freguesia de Lavras, pela estrada que segue para a cidade de Icó, conservem não só as primitivas divisões, como também compreendam os sítios Baixio, Olho d’Água, Gangorra, Mulungu e Marrecas, sendo que este último sempre foi a linha divisória entre a primeira freguesia e a do Icó”.
[O Cearense, nº. 109, 22 set. 1871, p. 1]

1872


28 de maio

Dos mais sangrendos o clima que circundava o nascente município de Várzea Alegre. Em matéria publicada nesta data dá-se conta dos crimes seguintes:

1  Na Serra Nova Manoel Joaquim assassinou a Luiz Bernardo.
2  No lugar Mundo Novo Luiz Carlos assassinou a Pedro Inácio.
3  Na Serra dos Cavalos Raymundo Correia e seu filho João Raymundo assassinaram ao inspetor de quarteirão Raymundo José.
4  Na povoação da Venda Manoel Antônio Mendes assassinou a João de tal.
5  No sítio S. Vicente um tal Régio assassinou a Antonio de tal.
6  Na Venda Maria Alexandrina assassinou o próprio filho.
7  No Umary Paulino José de Castro tentou assassinar ao padre Claudino.
8  Vicente Garra tentara assassinar a Francisco Pedro.
9  No sítio Pimentas Antônio Vicente espancou barbaramente a Maria Cidreira e cortou-lhe os cabelos.
10  Caetano Patrício Barbosa e outros espancaram a Vicente Reinaldo.
11 No sítio Junco João Antônio Ferrer espancou a Ana Teresa de Jesus.
12 No lugar Lages Joaquim Pereira espancou a viúva Maria Joaquina.
13 Joaquim Bandeira, no Tabuleiro da Cruz, espancou gravemente a Ana Joaquina.
14 No Tabuleiro Alegre Marcos de tal espancou mortalmente a Pedro Antônio Ribeiro.
15 Antônio Pelado e outros espancaram a uma patrulha que fazia a ronda.
16 No sítio Unha de Gato Fidélis Moreira da Silva espancou a sua enteada de nome Cândida.
17 Alexandre Pinto, na Venda, deu uma punhalada no subdelegado.
18 Na Canabrava José Furtado de Lacerda surrara ao oficial de justiça João Manoel Cavalcante.
19 Na Venda Pedro Gonçalves espancou a Pedro Brito.
20 21 No Juazeiro Antônio da Silva surrara a seu cunhado Manoel da Silva e este por sua vez espancou aquele.
22 No sítio Roça Velha Francisco Palhano e Cesário Batista esfaquearam a João Correia Lima.
23 Vicente Ferreira esfaqueou ao liberto Alexandre.
24 O coletor provincial Bemvenuto Boa Ventura Bastos, foi agredido em sua casa sofrendo uma formidável cacetada.
25 No lugar Acauã José Eleutério e seus filhos esbordoaram gravemente a José Pereira de Queiroz e filhos.
26 No sítio Emas foi barbaramente espancado João de tal.
27 Na povoação de S. Caetano um filho de T?? deu uma facada em José Antônio Marques da Silva Guimarães.
28 No Cedro, Bernardino Correia Lima espancou barbaramente a seu irmão Teotônio Correia Lima.
29 No Saco dos Bois Agostinho de tal esfaqueou a sua cunhada Eugênia.
30 No Trapiá Henrique de tal esfaqueou a um seu morador.
31 José da Silva espancara e ferira a Joana Maria da Conceição.
32 Vicente Parnaíba furtou de pastos de criar 2 rezes.
33 João Antônio Linhares passou e fabricou cédulas falsas.
34 Norberto Félix de Sousa passou notas falsas na povoação de Várzea Alegre. Preso, o criminoso foi solto pelo subdelegado.
35 Sebastião Correia Lima na Várzea Alegre tomou à força bruta do poder de uma escolta um preso.
36 Na Venda Abel Pedro de Alcântara tomou do poder do subdelegado o preso Alexandre Pinto.


[O Cearense, nº. 43, 28 mai. 1872, p. 2]

Este o estado de terror que grassava aquele infame território.

1887


27 de junho.

Em data supra referida foi exonerado do cargo de subdelegado de polícia do distrito de S. Caetano do termo de Várzea Alegre João de Holanda Cavalcante. Nomeado em seu lugar o alferes José da Costa Vilar Filho.
[Pedro II, nº. 53, 03 jul. 1887, p. 1]

1889

03 de janeiro

Em carta endereçada ao Bispo os paroquianos varzealegrenses queixam-se sobre o Pe. Joaquim Manoel de Sampaio, e citando caso anterior ocorrido na freguesia de Milagres pedem seu afastamento.

"Continua o vigário Joaquim Manoel de Sampaio a afastar-se cada vez mais do caminho que devia trilhar como sacerdote, e sacerdote encarregado de promover o bem das almas dos fiéis de uma paróquia.
Não somos inimigos de padres, Exm. Sr. Bispo.
Conhecemos alguns que, infelizmente, são o terror das famílias e vivem entregues a todos os vícios, especialmente ao da embriaguez, e que não ocultam, pelo contrário ostentam o seu ódio à moralidade e aos bons costumes.
Conhecemos outros que, acobertados com a capa da hipocrisia, querem ser tidos na conta de virtuosos, quando são mais perigosos do que aqueles, pois se pode evitar-se muito bem a mordedura de um cão danado, é difícil evitar-se a de um que morde de furto.
Lastimamos, porém, que isso se dê e, se estivesse em nossas mãos, a igreja católica, a quem temos por mãe, não seria obrigada tantas vezes a envergonhar-se das misérias de alguns dos seus ministros.
O vigário Joaquim não é um homem perdido, como muita gente talvez suponha; mas é incapaz de exercer o cargo de que se acha investido.
Completamente falto de bom senso, e amante da paraty, não liga aos deveres de seu cargo a devida importância, e ei-lo a descompor e a injuriar aos seus paroquianos, ora de púlpito, ora pelas colunas de jornais, obrigando a muitos a afastarem-se da igreja e a pedirem a S. Exc. que os livre de tamanha praga, como já pediu e felizmente obteve o povo da freguesia de Milagres, onde o vigário Joaquim chegou ao ponto de excomungar do púlpito ao juiz de direito d’aquela comarca, Dr. Barros, como afirmou o Dr. Cartaxo em artigos publicados no Cearense.
Não somos inimigos de padres, Exm. Sr. Bispo, repetimo-lo, e a prova é que até hoje temos tratado com a maior consideração a todos os padres que tem estado n'esta freguesia.
NAo somos inimigos de padres, mas não podemos ser amigos do vigário Joaquim, que não o quiz, ser nosso, e que está incompatibilizado conosco.
E como nada nos contriste mais do que sermos obrigados a fugir da igreja, por sabermos que em lugar do um bom pastor iremos encontrar lá um inimigo, pedimos a S. Exc., pelo amor de Deus e da nossa santa religião, que nos dê um vigário que tenha juízo, porque o que o tiver saberá cumprir os seus deveres e conseguintemente conquistará o respeito e a amizade de todos os seus

Paroquianos.

Várzea Alegre, 3 de Janeiro do 1889."


[Pedro II, nº. 14, 1º. fev. 1889, p. 2] Publicado originalmente no Facebook de George Ney Almeida Moreira

5 comentários:

  1. E eu pensava que o primeiro desentendimento entre padre a paroquianos havia sido em 1919 com a venda do patrimônio acima citado pela Major Joaquim Alves pelo padre Lima, mas que nada, Padre Joaquim Manuel Sampaio já aprontava as dele bem antes.

    Um estudo valiosíssimo para todo aquele que se interessa pela história de Várzea-Alegre. Parabéns ao George Ney pela trabalho e ao Armando Rafael pela postagens.

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  2. Interesse estudo. Reforçando a importância do Major Joaquim Alves para a nossa história e reafirmando a necessidade de preservar a nossa memória....

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  3. Estudo digno de aplausos. Muito bem detalhado. Merece ampla divulgação

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  4. Não tem como ignorar fatos como estes completamente alheios a maoria dos nossos Conterrâneos assim como eu que amam nossa terra :confesso que me emociona tamanho empenho dos historiadorés e respatadores da história da nossa gente;meu arquivo pessoal está mais rico, e meu coração cada vez mais cheio de gratidão a todos que colaboram essa reliquia.Obrigada Amigo Antônio Morais você faz parte desta história. Abraço fraterno e carinhoso a todos.

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  5. Flavio Cavalcante, Sargento Horizonte e Fatima Bezerra.

    O Georne Ney apresenta um trabalho de pesquisas realizados nos livros registros da Igreja, uma fonte seria, tavez a unica que exista daqueles velhos tempos. Vi um comentário desmentindo as informações. Isto eu não faria para não desmerecer o criterioso trabalho de resgate da historia.

    Outra dia fiz uma postagem de 1962, eu já tinha dez anos, vi e participei do evento e apareceu alguém para dizer que estava equivocado. Quando os fatos provam plenamente que eu estava e estou certo na minha declaração.

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