Não vivemos uma era sem valores. Vivemos uma era em que os valores passaram a depender de quem os invoca.
Vivemos repetindo que a ética está em crise. Mas talvez o diagnóstico esteja equivocado.
A ética não desapareceu. Ela foi adaptada.
Hoje ninguém se declara contra princípios. Todos falam em justiça, responsabilidade, direitos, democracia, verdade. A disputa não é sobre a importância da ética. É sobre o seu significado — e, principalmente, sobre quando ela deve valer.
O que mudou não foi o vocabulário moral. Foi o critério.
A mentira virou “narrativa”.
A manipulação tornou-se “estratégia”.
A censura passou a ser “proteção”.
A vigilância é “personalização”.
A corrupção é “interpretação”.
Nada é negado. Tudo é reclassificado.
Em ambientes polarizados, a ética tornou-se condicional:
é absoluta contra o adversário,
é contextual quando protege os nossos.
Esse deslocamento é mais profundo do que parece. Substituímos princípios universais por lealdades identitárias. O certo deixou de ser aquilo que é coerente — e passou a ser aquilo que é conveniente ao grupo.
A tecnologia apenas acelerou esse processo.













