segunda-feira, 29 de junho de 2026

Zaqueu, a autoridade - Antonio Alves de Morais

A cidade de Cedro devido ser isolada apresenta algumas dificuldades para os visitantes. Transportes por exemplo não é fácil encontrar. Se perder os de hoje pode esperar pelos do amanhã. Certa feita eu retornava do Icó e resolvi vi por dentro, passando pelo Cedro. Por volta das três horas da tarde já na saída da cidade vi aquele homão saindo de um quiosque em direção a estrada balançando os braços no maior desespero: pare aí, pare aí! Do carro conheci o Zaqueu. Inicialmente ele perguntou se eu podia levá-lo até Várzea-Alegre. Depois que me conheceu disse: Como vai o amigo, agora você vai esperar que eu tome o resto da minha cerveja! Está vendo que abusado?
Fiquei no carro olhando o Zaqueu no maior pagode, na maior folia com uma cabocla tomando a cerveja. Depois de terminar a cerveja, Zaqueu sentou-se na poltrona e demos seqüência à viagem. Na chegada de Várzea-Alegre tinha uma blitz da policia militar. O policial se aproximou do carro, deu boa tarde e perguntou: se vier alguma autoridade civil, eclesiástica ou política se identifique: Zaqueu lascou: tem eu, fui candidato a vereador “os fela da puta dos eleitores” deram de garra de minhas enxadas todas e votaram noutro corno. O policial quase morre de rir e nos liberou, eu deixei Zaqueu em Várzea-Alegre e voltei para o Crato.

VITÓRIA X VEXAME - Wilton Bezerra, comentarista generalista.

Nesta segunda-feira, 28/06, o torcedor brasileiro preparou o seu espírito para uma vitória convincente do Brasil contra um respeitável adversário, o Japão. 

Nesse caso, os nossos impulsos primitivos não nos deixam aceitar outro resultado que não seja o triunfo.

Do contrário, a palavra vexame será ouvida do Oiapoque ao Chuí.

*INEXPLICÁVEL*

Há placares em um jogo de futebol que nunca serão compreendidos.

Esse 0 x 0 de Portugal e  Colômbia, por exemplo.

Foi o tipo do jogo cuja qualidade as grandes plateias merecem.

A Colômbia, que mereceu vencer, ofereceu uma exibição-show de três jogadores: Puerta, Árias e James Rodrigues.

O empate sem gols foi uma judiação. 

domingo, 28 de junho de 2026

Bicentenário de nascimento de um ilustre cratense -- Armando Lopes Rafael


Dr. Leandro Bezerra Monteiro
   

     Ao longo da sua história, Crato serviu como “torrão-natal” de ilustres personalidades. Uma delas foi Leandro Bezerra Monteiro (1826-1911), deputado geral no Brasil Imperial, líder católico e “advogado de nomeada”. Dr. Leandro possuía o mesmo nome do avô, o legendário Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro (1740–1837). Este, o patriarca do clã Bezerra de Menezes no Cariri cearense. Dr. Leandro Bezerra Monteiro, o neto homônimo, fez seus primeiros estudos em Crato, sua terra natal. Depois frequentou escolas nas cidades de Jardim e Icó, sendo posteriormente aluno do Liceu, em Fortaleza, capital do Ceará. O curso de humanidades, concluiu-o no Colégio das Artes de Olinda (PE). Em 1847, com 20 anos de idade, iniciou o curso de Ciências Sociais e Jurídicas, na Academia de Direito de Pernambuco, aonde recebeu o título de Bacharel, em 1851, aos 25 anos de idade.

   Em 1852, já vamos encontrá-lo residindo em Sergipe. Lá, em 31 de janeiro daquele ano, ocorreu o seu casamento com uma parenta, Emerenciana de Siqueira Maciel Bezerra, oriunda de um dos clãs mais importantes da então província de Sergipe del Rey. Durante seis anos, Se. Leandro foi magistrado em Sergipe. E sempre conservou – no decorrer da sua existência – as mesmas convicções morais, religiosas e políticas que caracterizaram seu avô, o Brigadeiro.

    Atraído pela política, Dr. Leandro foi eleito vereador e presidente da Câmara de Maruim (SE). Dos seus eleitores sergipanos, também recebeu o mandato de deputado provincial (hoje deputado estadual). Em 1860 conseguiu ser eleito Deputado Geral do Império (que corresponde hoje a deputado federal), pela Província de Sergipe del Rey. Em 1863, já residindo no Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, teve seu mandato de deputado encerrado, em face da dissolução da Câmara, prática comum no sistema parlamentarista, vigorante àquela época. Sem mandato, o Dr. Leandro mudou-se com a família para a cidade de Paraíba do Sul, interior da província do Rio de Janeiro, onde passou a atuar como advogado, em sociedade com seu primo, o cratense Dr. Leandro Ratisbona. Em pouco tempo, Leandro Bezerra conquistou a simpatia da população daquela região, mercê a sua postura exemplar, aliada à competência profissional. 

    Consta que Dr. Leandro nunca aceitou advogar contra os fracos e, sempre que possível, procurava um acordo que não prejudicasse as partes litigantes. Em Paraíba do Sul, foi colaborador dos jornais “O Paraybano” e “O Provinciano”. Naquela cidade fundou a Casa de Caridade e o Asilo Nossa Senhora da Piedade, destinados ao tratamento de doentes e à educação gratuita de crianças pobres. Em reconhecimento por esses serviços, foi vereador por doze anos, oito dos quais como presidente da Câmara Municipal de Paraíba do Sul.

   No seu segundo mandato como deputado geral, conseguiu um lugar na História Brasil, por ter sido um desassombrado defensor dos bispos Dom Vital Gonçalves de Oliveira, (de Olinda e Recife), e Dom Antônio de Macedo Costa (de Belém do Pará), ambos presos e condenados a trabalhos forçados, no triste episódio da chamada “Questão Religiosa”. Em 15 de novembro de 1889, um golpe militar, comandando pelo Marechal Deodoro da Fonseca, derrubou do trono o Imperador Dom Pedro II e instaurou a forma de governo republicana no Brasil. Monarquista convicto, desgostoso com esse golpe de estado, Dr. Leandro abandonou definitivamente as atividades políticas. Passou a utilizar suas horas vagas ensinando o catecismo e preparando crianças para a primeira comunhão.  Findou sua exemplar existência terrena em 15 de novembro de 1911, aos 85 anos, na sua casa, no bairro Fonseca, em Niterói.

Cronologia

1826 – Em 11 de junho, nasce Dr. Leandro Bezerra Monteiro na cidade de Crato (CE).

1847 - Inicia o curso de Ciências Sociais e Jurídicas, na Academia de Direito de Pernambuco, com vinte anos de idade.

1851 – Recebe o título de Bacharel, aos vinte e cinco anos de idade. 

1852 – Fixa residência na Provincia de Sergipe del Rey, onde se casa, em 31 de janeiro, com uma parenta, Emerenciana de Siqueira Maciel Bezerra.

1860 – Eleito deputado geral (hoje deputado federal), por Sergipe, mandato interrompido em 1863 por dissolução da Câmara. 

1864 – Fixa residência na cidade de Paraíba do Sul, estado do Rio de Janeiro.

1872 – Eleito, mais uma vez, Deputado Geral por Sergipe. Nessa legislatura ganha destaque nacional pela defesa que faz dos bispos de Olinda, Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira e do Pará, Dom Antônio Macedo Costa, processados e presos pelo Governo Imperial.

1877 – Eleito, novamente, deputado geral, agora pelo Ceará, mandato interrompido em 1878 pela ascensão do Partido Liberal.

1880 – Em 31 de julho é iniciada construção da Casa de Caridade de Paraíba do Sul, que foi concluída e inaugurada em 4 de abril de 1883.

1889 – No dia 15 de novembro um golpe militar, comandando pelo Marechal Deodoro, derruba do trono o Imperador Dom Pedro II e instaura a forma de governo republicana no Brasil. 

1911 – No dia 15 de novembro morre no bairro Fonseca, em Niterói.    


Fontes de Consulta:

Pesquisas na Internet

https://pt.wikipedia.org/wiki/Leandro_Bezerra_Monteiro  - Consulta feita em 06 de novembro de 2023.


Pra que serve verador - Antônio Alves de Morais

Em 1912, o prefeito de Várzea-Alegre Cel Antônio Correia Lima perguntou ao Tabeleão José Alves Feitosa, o conhecido Dudau: Pra que serve verador? Sim, não houve erro de digitação, é verador mesmo.

Dudau, homem de  sabedoria impar  e vasto conhecimento, andou explicando: para criar leis, ajudar na fiscalização da aplicação dos recursos etc.

"Ora mais essa", disse o Coronel prefeito, eu não preciso que me ensinem a gastar o dinheiro meu que dirá o dinheiro dos outros!

Um século depois, desta celebre pergunta, eu me pergunto: Pra que serve uma câmara de vereadores manipuláveis e subservientes.

Nem pra dar nomes a ruas serve mais.

Li ontem, no Blog do Crato, um texto do Historiador Armando Lopes Rafael, no qual ele narra com precisão uma aberração da Câmara de Vereadores do Crato.

Rua cuja denominação a historia registra, sendo rebatizada com uma outra personalidade. Maior absurdo três ruas com o mesmo homenageado.

Diante destas aberrações repito a frase do Coronel Antonio Correia Lima: Pra que serve verador? E querem aumentar o número deles !

sábado, 27 de junho de 2026

Quatros Mãos em defesa do Brasil -- Humberto Mendonça – empresário



     Dias atrás, li um artigo – escrito pelo jornalista Alexandre Garcia – mostrando os descalabros nos setores administrativo/político do Brasil atual. Seria ocioso repetir a súmula daquele artigo, o qual foi amplamente divulgado nas redes sociais e, por isso mesmo, já é de amplo conhecimento dos brasileiros bem informados. No entanto, inspirado no que escreveu Alexandre Garcia, eu acrescento outras análises, feitas por mim. Sou um velho e calejado observador  do quadro caótico imposto ao Brasil. Por isso faço   esta reflexão a quatro mãos. As minhas e as de Alexandre Garcia.

   A recente operação da Polícia Federal contra o senador e líder do governo Jaques Wagner (PT-BA) – extensiva ao banqueiro Augusto Ferreira Lima – gerou um desgaste político imediato e dividiu, ainda mais, a base política do atual governo Lula.  A Polícia Federal investigou se o senador Jaques Wagner teria recebido propinas para favorecer o Banco Master, incluindo, no Congresso Nacional, pautas sobre crédito consignado e prejudicando o Fundo Garantidor de Créditos– FGC, do Banco Central. Não deu outra. As buscas e apreensões em imóveis do senador citado, resultaram  em novas acusações a Jaques Wagner. Uma delas: ele teria recebido um apartamento de luxo e feito viagens caríssimas – pagas pelo Banco Master –   em troca da defesa dos interesses escusos do Banco, nos altos escalões administrativos do Brasil. Sem detalhar na grande quantia de dinheiro, em moedas estrangeiras, apreendida no apartamento de Jaques Wagner.

   As investigações da 9ª fase da “Operação Compliance Zero”, atingirem diretamente o núcleo político do governo Lula. Este, nocauteado, sentiu o profundo impacto gerado na base governista; provocando tensões com o STF e desmantelando a articulação política no Senado às vésperas da corrida eleitoral deste ano. O desgaste do governo Lula a menos de 100 dias das eleições do próximo 4 de outubro, atingiu o entorno dos desafios na economia cambaleante. Aumentou a fadiga eleitoral e a pressão da oposição. Pesquisas recentes indicam que 47% da população brasileira avalia que a corrupção aumentou durante o atual governo. Esse cenário de desconfiança tem sido alimentado por outras investigações em andamento. Uma delas os desvios indevidos nos salários dos aposentados do INSS.

   Mas Lula não enfrenta somente escândalos de corrupção. Neste terceiro mandato, ele está envolvido noutros desafios estruturais em várias frentes. As principais dificuldades concentram-se no descontrole da dívida pública, que pressiona as contas do país. Nunca antes na história, os brasileiros pagaram tantos tributos ao governo federal. A dívida pública brasileira, no entanto, já cresceu mais de R$ 3 trilhões de reais, desde o início do atual governo, passando de R$ 7,2 trilhões em 2022 para os atuais R$ 10,4 trilhões, o que representa cerca de 80% a 91% do PIB (Produto Interno Bruto). A inflação voltou a superar o teto estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional. E em meio a tudo isso, Lula tenta administrar as tensões constantes com um Congresso Nacional de perfil conservador e clientelista, onde os bilhões gastos com as “emendas parlamentares” só faz crescer... Encerrando: para quem está buscando um desabafo ou querendo entender o sentimento do brasileiro sobre as dificuldades do país, a famosa moda de viola "A Coisa Tá Feia", de Tião Carreiro e Pardinho resume a situação desta desorganizada república...

Restos mortais de Mons. Rubens Lóssio foram transladados para a cidade de Jardim - Armando Lopes Rafael.

 


      Semana passada, os restos mortais do monsenhor Rubens Gondim Lóssio – que se encontravam sepultados em Recife – foram transladados para Jardim, no Ceará, terra natal do ilustre falecido. Familiares do saudoso monsenhor Rubens trouxeram seus venerandos despojos da capital pernambucana, para serem inumados no jazigo da sua família, existente num dos cemitérios da cidade de Jardim.

Quem foi monsenhor Rubens

     Monsenhor Rubens Gondim Lóssio (1924–1993) foi um importante sacerdote, educador e intelectual cearense, nascido e com grande atuação na Diocese de Crato. Nascido em Jardim (CE), destacou-se por sua grande erudição e dedicação religiosa. Foi o grande reformador e introdutor da benefícios na Catedral de Nossa Senhora da Penha, de Crato.

     Ministério Religioso: Ordenado padre em 1947, foi Cura da Sé Catedral de Nossa Senhora da Penha, em Crato – durante 15 anos – onde deixou grande legado nas festividades religiosas e pesquisas históricas, como estudos sobre a chegada da imagem histórica da padroeira.

    Atuação Acadêmica: Foi professor de instituições de ensino no Crato, incluindo a Faculdade de Filosofia, que foi embrião da Universidade Regional do Cariri (URCA). Exerceu também a função de reitor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), em dois períodos sucessivos. 

    Legado Cultural: Foi membro do Instituto Cultural do Cariri, sendo o primeiro ocupante da Cadeira Dom Francisco de Assis Pires. Mons. Rubens foi, em síntese, uma valoroso homem que deixou seu nome inscrito na vida religiosa do sul do Ceará. 

MAZZOLA - Wilton Bezerra, comentarista generalista.

MAZZOLA - Aos 10 anos de idade, na cidade de Crato, fui fisgado por duas coisas: o rádio e o futebol. Copa do Mundo de 1958. Jogo Brasil 3 Áustria 0. Narrações de Pedro Luiz e Edson Leite, pela Rádio Bandeirantes. 

Dois gols de Mazzola e um de Nilton Santos. Um nome se fixou na nossa mente: Mazzola, cujo nome verdadeiro é José João Altafini, nascido em Piracicaba, São Paulo. Foi artilheiro e ídolo do Palmeiras. Fez dois jogos pela seleção brasileira de 1958. 

Transferiu-se, depois, para o futebol italiano, onde se tornou uma lenda defendendo Milan, Juventus e Napoli, com o nome de Altafini. Encerrada a carreira, enveredou, com sucesso, pela carreira de comentarista de futebol da TV italiana. 

Em 1986, Copa do Mundo no México, estávamos no setor de imprensa do estádio Jalisco de Guadalajara, quando, de repente, sentou-se ao nosso lado uma figura que logo reconheci: Mazzola. Fui remetido de volta ao passado da criança que começou a gostar de futebol, a partir de dois gols daquele que, agora, estava ao meu lado. 

Foi uma sensação incrível. A foto trás Mazzola, aos 87 anos, enviando uma mensagem de otimismo ao torcedor brasileiro. Estar numa Copa do Mundo nos proporciona grandes momentos de felicidade, emoção e grandes recordações.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Premonição? - Carlos Eduardo Esmeraldo

Naquela noite, inicio de dezembro de 1965, eu fui dormir pensando na viagem que faria ao Crato no dia seguinte. Um pouco de ansiedade me envolvia por completo. Primeiro pelas férias há tantos dias aguardadas. Depois pela viagem aérea que sempre me deixava um pouco tenso. Embalado por essa ânsia, adormeci e tive um sonho tão nítido quanto preocupante. Estávamos na nossa casa do São José e na sala de visitas havia um caixão de defunto. Um velório era acompanhado por muita gente do lugar. Cheio de curiosidade, olhei para ver quem era o morto. O velho Mamundo estava dentro do caixão completamente inerte. Uma tristeza invadiu minha alma, pois Mamundo era um personagem da minha infância. Ele era nosso vizinho de sítio, no São José e há muitos anos morava na nossa casa. Foi casado com uma prima de meus pais. Quando ele ficou viúvo, entrou num desespero de fazer pena, totalmente sem planos para enfrentar tamanha solidão. Meus pais convidaram Mamundo para passar alguns dias na nossa casa. E ele por lá ficou mais de trinta anos. Agora, num sonho estranho, ele jazia inerte naquele caixão. De repente uma das minhas irmãs disse: “Finalmente essa praga morreu!” Fiquei tão chocado com essa frase e mais ainda quando vi Mamundo levantar-se bruscamente do caixão e apontando o dedo para minha irmã disse: “Você está pensando que eu morri? Pois eu não morri, não! Quem vai morrer é seu pai!”

Acordei sobressaltado, olhei o relógio, três horas da madrugada. Não consegui mais dormir no restante daquela noite. Aquele sonho me deixou completamente preocupado, pois temia muito que meus pais morressem antes que eu concluísse meus estudos. A cada passagem do trem suburbano do outro lado da Ribeira, sentia-me no São José, com o tão familiar apito e o barulho dos rolantes dos trens. E um medo muito grande me encheu por completo. Aquele sonho mexeu comigo.

Durante o vôo não conseguia me livrar da preocupação que o sonho me trouxera. Bobagens, sonhos são apenas sonhos, talvez apenas projeções inconscientes dos nossos medos. Tentava desse modo me livrar daquele mau estar.
Quando o velho DC-3 pousou no Aeroporto de Fátima, de longe se avistava a pequena estação de passageiros. Tomei um susto porque não vi meu pai, que sempre costumava me esperar nessas viagens. Em seu lugar estavam dois irmãos. Mal desci do avião, perguntei a eles: “Por que papai não veio?” “Papai está doente. Apareceu um derrame abaixo das duas axilas.” Responderam. Novamente o sonho da noite anterior voltou a me incomodar.

Uma semana depois da minha chegada, um primo médico foi com meu pai ao Recife, onde na véspera do Natal daquele ano ele foi submetido a uma cirurgia para retirada dos gânglios sob suas axilas, tendo a biopsia constada que se tratava de melanoma, um dos tipos de câncer mais mortal. A previsão dos médicos era a de que ele teria no máximo três meses de sobrevida.

Meu pai viveu ainda seis meses. Durante esse tempo, ele tinha consciência do seu estado e enfrentou aqueles dias com muita serenidade e confiança, que somente a certeza dos que crêem na imortalidade da nossa alma podem ter. Nos seus últimos dias, nossa casa ficou repleta de familiares e de uma multidão de amigos, que a gente não imaginava que meu pai fosse tão querido.

Percebendo que suas forças estavam acabando, ele chamou os filhos para uma última conversa. Por ser o filho caçula, fui o último a ouvir suas palavras, quase num sussurro. Foi muita emoção! De imediato, eu não compreendi porque ele me agradeceu as alegrias que eu lhe havia proporcionado. Depois entendi que ele estava dizendo o que esperava de mim no futuro. E durante toda a minha vida, eu procurei norteá-la pelo exemplo de vida que meu pai deixou. Um homem honesto, correto, amigo de todos sem distinção e de uma postura moral irretocável. Agora, depois de quarenta e três anos daquela despedida, espero haver correspondido àquele agradecimento que, para mim foi um direcionamento para o futuro.

BRASIL VENCE FÁCIL ATRAPALHADA ESCÓCIA - Por Wilton Bezerra, comentarista generalista.

A seleção brasileira venceu seu segundo "amistoso" na Copa (o primeiro foi contra o Haiti), enfiando 3 X 0 no  atrapalhadissimo time da Escócia.

Vini Júnior, responsável pelas únicas jogadas ofensivas da seleção que realmente valem, marcou os dois gols do primeiro tempo.

O Brasil teve apenas que adiantar suas linhas e jogar no território adversário. Serviu-se, sem maiores problemas.

Na segunda fase, depois de marcar o terceiro gol, com Matheus Cunha, andou concedendo à Escócia o direito de umas leves cutucadas.

Numa delas, Alisson fez boa defesa.

Chegada a "hora do recreio" (momento das substituições), Ancelotti colocou Fabinho, Martinelli, Endrick e Neymar, este somente para um "leve aquecimento".

Embora a opinião geral dê conta da melhor apresentação da seleção, achamos que todos os circuitos do time não parecem ligados.

O adversário, o mais fraco até aqui, deu margem para um futebol mais envolvente, definitivamente convincente.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Saudade é o amor que fica. - Antônio Alves de Morais.


Dr. Rogério Brandão, médico oncologista.

Como médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional  posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além. Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional.

Comecei a freqüentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria. Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer. Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim! Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas de químicos e radioterapias.




Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar. Vi-a chorar muitas vezes; também vi medo em seus olhinhos; porém, isso é humano! Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção. — Tio, — disse-me ela — às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores...

Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida! Indaguei: — E o que morte representa para você, minha querida?— Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é? (Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exatamente assim.)— É isso mesmo.— Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei "entupigaitado”, não sabia o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança.— E minha mãe vai ficar com saudades — emendou ela. Emocionado, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei: — E o que saudade significa para você, minha querida?— Saudade é o amor que fica!

S A U D A D E - Por Antônio Pereira


Antônio Pereira, natural de São José do Egito, ficou nacionalmente conhecido, graças à definição que deu de saudade:

Saudade é um parafuso,
Que, na rosca, quando cai,
Só entra se for torcendo,
Porque, batendo, não vai;
E, se enferrujar por dentro,
Pode quebrar, mas não sai!

Saudade é a borboleta,
Que não conhece a idade;
Voando vai, lá, vem cá,
Misteriosa, à vontade;
Soltando pelo da asas,
Cegando a humanidade!

Saudade é como cobreiro
Desses que dão na cintura!
Saudade é como lanceta,
No peito da criatura;
Tocou no gume, se corta;
Tocou na ponta se fura!

Saudade é como o enxerco
Desses de pé de aroeira;
Não se planta, nasce e cresce
Entranhado na madeira!
É rosa, mas, ninguém sabe
Quem seja a mãe da roseira!

Quem quiser plantar saudade,
Primeiro, escalde a semente;
Depois plante, em lugar seco,
Onde bata o sol mais quente;
Pois, se plantar no molhado,
Quando nascer mata gente!

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O Clero de Bom Humor – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O Padre Gilson, ao celebrar missa na Lagoa Redonda, um bairro da periferia de Fortaleza, ouvia uma resposta diferente para a tradicional saudação: “O Senhor esteja convosco”. Apurou bem os ouvidos e notou que uma velhinha, que sentava no banco da frente, assim respondia a essa oração: “Ele está com medo de nós”.
***
Padre Pita, um irmão do nosso inesquecível Padre Lauro, era também muito apegado à sua carteirinha de cédulas. Quando rezava a missa das nove horas do domingo, em Fortaleza, ao pronunciar o “eu pecador” e dizer: “porque pequei muitas vezes, por minha culpa,” (bateu com a mão nos peitos e sentiu falta da carteira), imediatamente colocou as mãos sobre os dois bolsos laterais da batina, enquanto dizia: “por minha tão grande culpa”, (e a carteira também não estava lá). Por fim, prosseguiu a oração levando as mãos aos dois bolsos de trás, exclamando: “por minha máxima culpa”. Gritou: “Roubaram minha carteira!”
***
Os alunos do Curso Cientifico do Colégio Diocesano do Crato viram um jumento roendo tocos de capim de burro pelos cantos do meio-fio da Rua Nelson Alencar. Conduziram o animal até a sala de aula, durante o intervalo do recreio. O Padre David entrou para aula de Física, fez de conta que não viu o animal na sala e ministrou sua aula com toda tranqüilidade possível, como era seu costume. Ao final, foi até o local onde o jumentinho a tudo assistia com redobrada atenção e assim falou para o burrico: – “Avise aos seus colegas que na próxima aula vai haver prova.”
***
Anualmente, o saudoso Padre Murilo celebrava a páscoa dos funcionários da Coelce em Juazeiro do Norte. Entre as inúmeras virtudes das quais ele era possuidor, uma eu admirava muito, pois assim como eu, ele era torcedor do Vasco da Gama do Rio de Janeiro. Em 1988, a páscoa ocorreu depois de um jogo decisivo do Vasco contra o Flamengo. O Vasco sagrou-se campeão carioca, ao vencer seu rival com um único gol marcado pelo jogador Cocada, um ex-flamenguista. Na benção final da missa, após pronunciar a mensagem: “Ide em paz, que o Senhor vos acompanhe”, o Padre Murilo emendou: “Agora vocês vão para casa, comam uma cocada e bebam um copo d’água.”
***
Dario Maia Coimbra, mais conhecido pelos juazeirenses por “Darinho”, devia vinte cruzeiros a um amigo que faleceu, sem que antes ele tivesse pagado tal dívida, naturalmente corroída pela inflação. Então ele foi se informar com o Padre Murilo, se ele poderia celebrar uma missa pela alma do seu credor com o dinheiro daquela dívida, e mandar o que sobrasse para os familiares do morto. Padre Murilo lhe respondeu que com aquela quantia não daria para celebrar nem meia missa. – “Nem mal celebrada?” – Insistiu Darinho. – “Nem celebrada por mim.” – Respondeu Padre Murilo.
***
Padre Quinderé, talvez o mais espirituoso dos sacerdotes cearenses, chegou atrasado para celebrar a missa das seis horas na Igreja do Carmo. Quando vestia os paramentos na sacristia, uma velhinha se aproximou pedindo para que ele a ouvisse em confissão, pois não desejava passar um dia sem comungar. Ele lembrou-se que a confessara na tarde anterior e perguntou: “Criatura de Deus, que pecado tão grave você cometeu de ontem para hoje?” Então a beata perguntou: “Padre, eu queria saber se ventar na Igreja é pecado?” – “Depende, se não apagar as velas, pode ventar à vontade.”
***
Os vizinhos do Padre Quinderé estavam escandalizados com o que se passava na casa do sacerdote, situada numa esquina. Então convocaram um senhor muito católico para ir falar com ele. “Monsenhor, desculpe-me vir até aqui ocupar seu precioso tempo. Mas está acontecendo uma coisa na sua casa, que está chocando toda a vizinhança. Temos certeza que não é do seu conhecimento.” – “Explique-se logo homem.” – Suplicou-lhe o padre, com muita curiosidade. – “É que a Maria, sua cozinheira, deixa a janela do quarto do oitão somente encostada e depois das dez horas da noite, o namorado dela entra no quarto pela janela.” O padre agradeceu a informação e prometeu tomar as providências. Cedo da noite, armou uma rede no quarto do oitão e disse para a empregada: “Maria hoje eu vou dormir aqui. Você vá dormir no seu quarto.” – “Mas padre, e o leite que eu recebo do leiteiro todas as manhãs pela janela?” – Perguntou-lhe a empregada. – “Vá receber pela porta da frente.” – Dito isso, o padre deitou-se e aguardou até as dez horas da noite. Ouviu a janela ser aberta e fez-se dormindo. O namorado da Maria foi direto para rede e passou a mão por baixo. O padre levantou-se de um só pulo e disposto a enfrentar o invasor, perguntou: – “Que é que você está fazendo aqui, rapaz?” – “Padre Quinderé, desculpe se eu lhe acordei, mas eu só queria saber que dia é hoje?”– Gaguejou o namorado da Maria. – “E você está pensando que o meu “fiofó” é calendário? ”– No dia seguinte, Maria não amanheceu mais na casa do padre.
***
Padre Quinderé, no final da vida, retirou-se para Maranguape, sua terra. Definhava a olhos vistos, estando em pele e osso, além de cego. O Arcebispo de Fortaleza foi visitá-lo. Para confortá-lo disse: – “Padre Quinderé, o senhor é um homem feliz. Está preste a atravessar os umbrais do Paraíso e falar com Jesus, contemplar a face de Deus.” E o padre, com a voz quase inaudível, sussurrou: – É, mas Maranguape é tão bonzinho!”


NOTA: Monsenhor José Alves Quinderé foi um sacerdote de extraordinárias virtudes, aliada a alegria de viver consolidada pela fé na ressurreição. Ex-professor de Latim do Liceu do Ceará, fundador do Colégio Cearense, deputado estadual em duas legislaturas e secretário do Arcebispo de Fortaleza, Dom Manoel da Silva Gomes.
Para saber mais sobre o Padre Quinderé, recomendo aos amigos a leitura do livro: “Padre Quinderé, o Apóstolo da Alegria.” de Fernanda Quinderé, Edições ao Livro Técnico, Fortaleza – 2004.

terça-feira, 23 de junho de 2026

O último Coronel - Antônio Alves de Morais.

Li, outro dia, um relato mencionando o coronelismo de outrora, e lembrando de uma preciosidade atribuída ao austero Cel. Mario da Silva Leal, chefe político da antiga UDN na região centro sul do estado.

Deputado Estadual por duas legislaturas e que fez historia por sua destacada liderança das décadas de 40 e 50. Proprietário de um grande latifúndio com base territorial no município de São Mateus, hoje Jucás.

O comentário sustenta que se o Cel Mario oferecesse guarida a qualquer recomendado de amigo não tinha nem perigo da policia entrar nas Tabocas, onde morava. Os macacos voltavam da primeira cancela.

Em uma escola municipal do Poço do Mato, hoje Caipu, a professora perguntou ao aluno: Dilermando onde está o sujeito desta oração? Xavier matou Joaquim! Dilermando cravou a resposta no ato: Na fazendo do Cel Mario Leal fessôra.

O Coronel Mário Leal nasceu na Fazenda Castro, do Município de Cariús, na época pertencente a Jucás (São Mateus), antigo solar dos Leais que já apareceu nas crônicas dos primeiros tempos do Império e nas lutas de Pinto Madeira, guarnecendo a região do Alto Jaguaribe.

Ele era filho do abastado fazendeiro e prestigiado chefe político daquela zona, o Coronel Manoel da Silva Pereira da Costa Leal, o “Né do Canto”. 

Cel. Mário fez os primeiros estudos na própria casa paterna, na fazenda Canto, com o professor Francisco Bezerra que deixou fama de mestre-escola rigoroso e eficiente ensinando a diversas gerações.

Deputado Estadual em duas legislaturas, marcou presença e posição em todas as grandes decisões do Estado, principalmente nas campanhas eleitorais, sempre ao lado de Virgílio Távora, já que era mais moço do que Fernandes Távora e o irmão João Leal.



Foram seus contemporâneos nas diversas frentes políticas do interior do Ceará os lideres Teodomiro Sampaio, de Jardim; José Geraldo da Cruz, de Juazeiro do Norte; Argemiro Sampaio, de Barbalha; Raimundo Augusto, de Lavras da Mangabeira; Chico Martins, de Mombaça; Major Feitosa, de Cococi, Dr. Gouveia, de Iguatu e Chico Monte, de Sobral, Filemon Teles, do Crato.

Considerado o último coronel do Sertão, Mário Leal, faleceu na clinica Gêneses de Fortaleza, aos 93 anos, no dia 13 de outubro de 1990.