sábado, 7 de fevereiro de 2026

Porto seguro - Postagem do Antonio Morais.


Na despedida, me deixastes fora,

Do barco incerto, em que tu partias,

Em busca de certas alegrias,

Nas águas bravas que singras agora.


Os meus minutos se fizeram horas

E minhas horas se fizeram dias,

E os dias meus são semanas vazias

Bem diferentes daquelas de outrora.


Dizem que teu barco, no convés,

Tens outro comandante aos teus pés,

E já nem sabes se estou vivo ou morto


Mas, se teu barco entrar  em avaria

Atormentando a tua travessia;

Olha que estou ainda aqui no porto.

NA MEDIDA, SÓ LEMBRANDO - Por Wilton Bezerra, comentarista generalista.

 


É uma dica. Explicação sobre uma coisa que está ausente dos campos brasileiros: o drible. Adiantando que essa habilidade de manobra é inseparável do futebol como grande arte. O drible resulta de uma sincronia da ginga de corpo com os pés. O driblador é um fingidor. Finge que vai perder ou dar a bola para o adversário e a recolhe no instante certo. Convém lembrar que, distintamente, a finta é o drible de corpo sem a bola. O drible e a finta vêm de um aprendizado ou de uma memória corporal. 

POSICIONAL - O jogo posicional (que não significa engessamento de posições) exige repetição de movimentos, ocupação racional do espaços, força física e mental para execução do planejado. Adicione-se a isso, para o protagonismo, ocupar o campo de ataque, fazer pressão e errar pouco para não ser surpreendido. Para atingir esses objetivos no jogo, é preciso tempo de treinamento. O que, geralmente, é negado aos treinadores. 

DANADO DE RUIM - Está claro que os jogos do estadual cearense se revestem de um baixo nível de qualidade. As razões.… Esqueçam. Os jogadores correm como nunca, lutam muito e erram demais. Apesar dos resultados ruins do Fortaleza, zebra mesmo nem no jogo do bicho.  

FRASE. Como é possível ganhar todos os jogos e desagradar? Ora, basta olhar que times foram enfrente.

Amigos de Deus.



Um dia, uma pequena menina, vestida de branco, levando um ramalhete de flores, passou por um menino que estava brincando em uma rua empoeirada.

Este ao vê-la, jogou-lhe um punhado de terra, sujando todo o seu vestido como o seu sapato. Ela parou por um instante, seu rosto parecia mostrar que ela choraria, mas, em vez disso, ela sorriu e ofereceu uma flor para o menino que estava esperando para ver sua reação. 

Ele ficou, ao mesmo tempo, surpreso e envergonhado porque, em retribuição da sujeira, ele recebeu uma flor. Muitos de nós, da mesma forma, temos experimentado o amor de Deus apesar da indiferença com o que temos tratado. 

Agimos com rebeldia, mentiras, egoísmo, vaidade, e em retribuição temos recebido o amor do Senhor  que continua de braços abertos e pronto para nos abençoar. Como tem sido o nosso testemunho ao receber uma ofensa? Retrucamos de imediato? Pagamos com a mesma moeda? Guardamos um sentimento de vingança para a primeira oportunidade?

Ou como verdadeiros cristãos colocamos tudo no altar do Senhor, pedindo-lhe que perdoe o nosso agressor e preencha o lugar da possível mágoa com um amor que não possa ser retirado?

Melhor do que andar com terra na mão para atirar em nosso próximo é ocupar nossas mãos e o nosso coração com flores que venham a perfumar e embelezar o ambiente por onde passarmos.

Melhor do que chorar pelo desalento do conformismo ou da desesperança  é sorrir pela confiança de que tudo é possível  para Deus e que não há problemas que Ele não possa resolver.

Melhor do que envergonhar o nome do nosso Salvador é deixar que sua luz brilhe em todas as nossas atitudes. Use a terra das ofensas recebidas para plantar flores de vida e salvação nos corações de seus agressores!

Paulo Roberto Barbosa

Monsenhor Montenegro – por José Emerson Monteiro Lacerda (*)

Certo momento eu revi na memória alguns traços do Monsenhor Francisco de Holanda Montenegro, diretor do Colégio Diocesano do Crato, onde estudei por sete anos. Personalidade forte, ele marcou gerações e gerações durante mais de 50 anos de sua administração, nesse que foi um dos destacados educandários do interior cearense no século XX.

Vieram lembranças de duas ocasiões, quando, numa delas, fomos visitar, em Juazeiro do Norte, o Colégio Salesiano e lá conheci Padre Gino Moratelli, um sacerdote próximo ao monsenhor. Nessa visita, presenciamos Padre Gino a demonstrar uma prática de localizar veios de água com a utilização de um gancho de arbusto verde que, pressionado entre pelas duas mãos, se move ao chegar sobre o ponto indicado a cavar e achar um filão de água. Técnica da radiestesia, depois presenciei, em Crato, praticada por Antônio Hélder (Pirita), meu primo, que assim indica poços e cacimbas, tendo realizado esse mister com sucesso em mais de 100 oportunidades. 

Padre Gino, italiano dotado de boa desenvoltura na Língua Portuguesa, nos proporcionou momentos agradáveis a trazer assuntos vários, o que ainda agora permitem reviver a chance daquela hora.
Doutra vez, isto na sacada do Colégio Diocesano, Monsenhor Montenegro me convidaria a estar próximo dele assistindo ao desfile cívico do Sete de Setembro, ao lado do qual também estaria o destacado historiógrafo cearense Gustavo Barroso, de quem leria posteriormente algumas de suas obras. Este momento também marcou bem a minha ligação com Monsenhor Montenegro, sacerdote carismático, verdadeiro apóstolo da educação no Ceará. Filho de Jucás, município do centro do Estado, viera residir em Crato desde a ordenação, aqui desenvolvendo o seu magistério com excepcionalidade no colégio fundado pelo Padre Francisco Pita no princípio do século.

Outras lembranças que guardo dele foram as vezes em que nos avistávamos nas viagens da Rio Negro, nas suas idas a Fortaleza a compor o Conselho Estadual de Educação, após aposentado da Direção do Diocesano. Eis, pois, uma figura exemplar que influenciou quantos vivenciaram o seu empenho em formar a nossa juventude por décadas e décadas.


(*) José Emerson Monteiro Lacerda. Advogado e escritor.

Banho de sol - Postagem do Antonio Morais.


Abriste a janela, par a par,
Deixando o sol entrar, com ousadia
Puseste a menor roupa que havia,
Que tudo permitia bronzear.

Fechastes os olhos, feliz por fechar...
Te entregando ao sol do meio dia
Que cada vez, cada vez mais ardia
Num iminente orgasmo luminar.

Não pude me conter, enciumado,
E aquele nevoeiro carregado
Pedi que o sol, no céu, encarcerasse

E tu deixastes, que teu banho,
Num desejo ardente, sem tamanho,
Em vez do sol eu mesmo terminasse.

Autor José de Moraes Brito.

CHICO CURTO - Por Xico Bizerra.


Foto Xico Bizerra.

Depois de Garrincha está por aparecer um ponta-direita do porte de Chico Curto, que jogou no Rebelde, do Crato, em meados dos anos 50. 

A sorte do Camisa 7 do Botafogo era que naquele tempo não havia youtube pro povo ver a desgraceira que Chico fazia com seus marcadores. Tão bom era que, coisa incrível naquela época, o Ferroviário, da Capital, foi buscar-lhe no Crato para integrar o time tricolor da RVC. 

Chico Curto chegou a ir, mas nunca se habituou às concentrações e, um belo dia, depois de um exaustivo treinamento e com saudades do Cabaré de Glorinha, pro Crato voltou, para se reintegrar, como crooner, na orquestra que lá tocava. Chico Curto também cantava. 

Nunca foi um Orlando Silva, não chegou a ser um Garrincha, mas viveu arrodeado de putas, bebendo cachaça da boa e cantando boleros. 

O mundo perdeu um craque. O mundo não ganhou um artista. O Crato viu um homem feliz.

Quem quer ser membro do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados? - Por Ricardo Noblat


Quem aspira presidir o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados? Quem gostaria de ser apenas um dos membros do Conselho?

Aspirantes a presidente não passam de dois ou três se tanto. Simples membro do Conselho, ninguém gostaria de ser.

Não se trata de vaidade. Do tipo: só aceito fazer parte do Conselho na condição de presidente. Não.

São 513 os deputados federais. A quase totalidade deles prefere passar longe das cadeiras reservadas aos 21 conselheiros titulares e 21 suplentes. Por quê?

Cabe ao Conselho zelar pelo comportamento ético dos deputados. E a ele cabe punir com a cassação de mandato os que cometerem crimes graves.

O corporativismo na Câmara é grande. No Senado, idem.

De resto, o que um deputado faz para ser cassado é o mesmo que o outro também costuma fazer. Com uma única diferença: alguns poucos são descobertos e processados. Dos processados, raros os que perdem o mandato.

É uma dor de cabeça julgar os colegas. E não deixa de ser arriscado. Quem hoje julga, amanhã poderá ser julgado. E aí...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O FINAL DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - Pedrinho Sanharol.


Luiz Inacio, o conhecido Boca de Fogo.

No final do ano de 1944, acontecia os horrores da segunda guerra mundial, comandada pelo ditador Adolf Hitler.

As notícias chagavam em Várzea Alegre atrasadas e destorcidas. Atrasadas porque o sinal da Rádio Globo chegava a passar vários dias sem alcançar a nossa cidade.

Destorcidas porque os nossos conterrâneos que tinha o acesso eram os senhores Fábio Pimpim e Hamilton Correia, dois torcedores ferrênios do regime nazista.

Quando as notícias dos Holocaustos chegavam ao sítio serrote, Luís Inácio ( Boca de Fogo ), dizia:

Eu acho é pouco. Pruque num levaro ome pra lá? No dia qui o tenente chegou aqui cum o caminhão, pra levar o povo, eu quís ir, mais ele num quis me levar, levou foi o Bêbo Ontõe Goberto.

Em abril de 1945 o ditador já bastante debilitado da saúde, teve o seu Bunker em Berlim bombardeado pelos países aliados. Esse fato contribuiu para o seu suposto suicídio no dia 07 de maio de 1945. 

Com aquela grande baixa, a Alemanha afrouxou e com a sua rendição a guerra chegou ao seu final.

Voltando para Várzea Alegre vejamos as repercussões.

Antônio Bitu foi a cidade fazer umas compras e soube da notícia que a guerra havia acabado. Naquele momento ele viu a alegria do povo e teve a informação que os dois nazista de província estavam escondidos. Chegando de volta no Sítio serrote, encontrou Boca de Fogo afiando uma foice.

Bitu na sua empolgação gritou:

Ei Luís, a guerra acabou-se !

Luís respondeu em cima da bucha:

Ou trabái Pirdido !

Qual?

Esse meu aqui. Apois eu tava amolando essa foice era pra cortar o pescoço de HITLER.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

5,1% ou 16,6%? O desemprego que o Brasil não quer enxergar - Por David Gertner.

 


O que fica fora da conta oficial e por que isso distorce o debate econômico.

O Brasil vive hoje um paradoxo estatístico. De um lado, o governo comemora uma taxa de desemprego de 5,1%, apresentada como prova inequívoca de sucesso econômico. De outro, a percepção social dominante é a de que o trabalho falta, os empregos são precários e milhões sobrevivem de bicos, auxílios ou desistiram simplesmente de procurar.

A pergunta incômoda é inevitável: o desemprego no Brasil é mesmo de 5,1% — ou estamos diante de uma taxa real próxima de 16,6%?

A diferença entre esses números não é retórica. É metodológica. E, sobretudo, política.

A taxa de desemprego divulgada pelo governo não é calculada sobre a população total, mas apenas sobre a chamada força de trabalho, que inclui exclusivamente duas categorias: pessoas ocupadas e pessoas que procuraram emprego ativamente nas últimas semanas. Quem não se encaixa nesses critérios simplesmente desaparece da estatística.

Hoje, os números aproximados são: cerca de 103 milhões de ocupados, cerca de 5,5 milhões de desocupados oficiais e uma força de trabalho de aproximadamente 108,5 milhões. Com esses dados, chega-se ao índice amplamente divulgado de 5,1% de desemprego.

Tecnicamente correto. Socialmente enganoso.

Ficam fora dessa conta cerca de 15 milhões de brasileiros classificados como subutilizados, desalentados ou inseridos em ocupações precárias, informais ou intermitentes. São pessoas que não têm trabalho estável, não contam com renda digna e dependem, muitas vezes, de auxílios governamentais ou bicos ocasionais para sobreviver. Ainda assim, não entram na estatística do desemprego. Na prática, são tratados como se o problema não existisse.

Se esses 15 milhões fossem considerados desempregados de fato, o cálculo mudaria radicalmente. Os desocupados reais saltariam para cerca de 20,5 milhões e a força de trabalho para aproximadamente 123,5 milhões. Ao aplicar a fórmula padrão, o resultado é claro: a taxa de desemprego subiria para algo em torno de 16,6%.

É importante deixar claro que este exercício não propõe substituir a taxa oficial, mas sim evidenciar o quanto a metodologia vigente subestima a dimensão real da exclusão do mercado de trabalho no Brasil.

Quando comparado a países de renda média semelhante, o contraste torna-se ainda mais evidente. Em economias como México ou Chile, a diferença entre desemprego oficial e subutilização tende a ser significativamente menor do que no Brasil, indicando mercados de trabalho menos excludentes e com maior capacidade de absorção produtiva. Aqui, o desemprego “cai” muitas vezes porque as pessoas saem da estatística, não porque entram no mercado formal.

O debate se torna ainda mais delicado diante de denúncias internas de funcionários do IBGE, outrora uma das instituições técnicas mais respeitadas do país. Relatos apontam para pressões políticas, mudanças metodológicas oportunistas e uma ênfase seletiva nos indicadores mais favoráveis ao governo. Nada disso invalida automaticamente os dados, mas corrói a confiança pública. Estatística oficial não pode servir para propaganda. Seu papel é iluminar a realidade — não maquiá-la.

O problema central não é técnico. É ético. Ao excluir milhões da conta, o governo pode comemorar números, mas não enfrenta o drama de quem trabalha sem direitos, vive de renda instável ou simplesmente perdeu a esperança de ser absorvido pelo mercado formal.

A taxa de 5,1% pode ser verdadeira dentro de um recorte específico. Mas a taxa de 16,6% está muito mais próxima da vida real brasileira. Ignorar isso não melhora a economia. Apenas melhora o discurso — e aprofunda a distância entre os números oficiais e a experiência cotidiana da população.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Braveza - Por Dr. José Flavio Vieira.


O Coronel Gumercindo Braveza era um matozense da gema. Nascera por ali, há mais de 70 anos e defendia sua terra, se preciso fosse, de trabuco na mão. Também pudera! O velho Gumercindo carregava no peito a honra de fazer-se a quarta geração dos bravezas – fundadores da pequena vila. Parte do sitio onde o Coronel vivia – São Vicente de Matozinho - dera origem ao povoado, ainda nos meados do século XIX. Ali tomara posse de umas terras devolutas o primeiro Braveza que ainda ostentava o fraque e o bigodão, em um retrato na sala de visitas do casarão da fazenda. As terras do Coronel já não tinham a fertilidade de outrora. Aos canaviais antigos substituiu o capinzal, e o eito e a bagaceira agora estavam representados pelo gado que preenchia toda a paisagem da fazenda e rumina dentro do velho engenho, hoje de fogo morto. O Coronel, no entanto, mantinha o orgulho, a vaidade, e a empáfia de outrora. Longilínea como vareta de soca-soca vestia-se de palito de linho branco, chapéu Pinto Vilela e cromo alemão. Educado, profundamente cerimonioso, Gumercindo falava pausadamente, com um silencio quase teatral, entre uma frase e outra. Sua palavra, em geral, devia aceitar-se como definitiva, ele não engolia discordância: sabia ser ríspido e bravo quando necessário. Neguinho que fizesse munganga ou querequequé nas barbas do Coronel podia se preparar para mão de pilão no toutiço ou tiro de sal no mucumbu. O homem não tinha muito senso de humor: era sim-sim, não-não. Por outro lado, o velho não se apresentava muito festeiro não. Em tempos remotos, no verdor dos anos, gostara de um arrasta-pé e até fundara o primeiro bordel da cidade, na chamada Rua do Caneco Amassado. Uma necessidade, explicava, para conseguir manter os homens no final de semana em Matozinho. Senão escapavam todos, sorrateiramente, para as cidades vizinhas. As cãs, no entanto, lhe impingiram também, um pouco a contra gosto, as insalubridades da virtude. Agora, comparecia a Vila, apenas aos sábados, no dia da feira, para rever os amigos, resolver algumas pendências e comprar alguns piqualhos para o São Vicente. Permanecia na sua casa da Rua Cerbelon Braveza, até a missa do domingo, quando, à tardinha, retornava para a labuta do sitio. Dizia-se que o escritório do Coronel, na vila, estava montado no café de Dona Ridinaura. Ali, em geral, tomava o caldo de mocotó pela manha, almoçava um porco na rola e, muitas vezes, jantava um prato mais leve como mungunzá ou buchada. Aproveitava, também, para atualizar-se com as ultimas fofocas de Matozinho. Dona Rirri, como carinhosamente a chamavam, mantinha uma espécie de SNI naquelas brenhas. Ela especulava tudo, mantinha um exercito de fofoqueiros amestrados, descobria mofados, inventava verdadeiros dossiês contra desafetos e disseminava as noticias com uma velocidade invejável. O slogan da casa era: Quem com quem dona Rirri? Gumercindo, no entanto, mantinha-se impassível, não perguntava nada, ouvia tudo com a cara de quem não estava gostando, mal disfarçando a curiosidade. Brigava, freqüentemente, com Rirri, por outra razão, a velha tinha fama de careira e gostava de explorar: o preço dependia da cara de leso de cada cliente. Pois bem, um belo dia o velho Gumercindo caiu doente. Fumante de um escora carroça, desde os quinze anos, com dimensões de charuto cubano, começou a mostrar-se rouco, piorando do pigarro habitual. Enrabou as meizinhas do boticário Janjão, sem demora. A pedido de um filho botou-se para capital, e lá se constatou tratar-se de um câncer na laringe. Semana depois, Dona Rirri deu a noticia no café: Gumercindo sofrera uma operação muito grande para tirar um quisto canceroso da goela e agora estava quase sem falar.
Alguns meses depois, correu a nova na vila: Coronel Gumercindo voltara. Alguns amigos mais chegados foram visitá-lo, evitando, no entanto, falar na doença e entrar em detalhes sobre aquela voz metálica e aquele lenço branco no pescoço, que, ao que se dizia, cobria um buraquinho por onde, agora, o Coronel respirava. O velho estava um pouco abatido, mais brabo do que sempre e o povo evitava perguntar qualquer detalhe: menos por consideração e mais por medo da resposta.
No sábado, Gumercindo, por fim, rompendo as resistências, voltou ao escritório: o café da dona Rirri. Foi recebido com festa: a velha olhava para ele com uma curiosidade nunca vista. Aparentemente medindo o tempo de sobrevida que o Coronel teria depois daquela operação. Rirri estava num pé e noutro para perguntar detalhes, esforçando-se para entender aquela voz de Pato Donald que saia do pescoço do Coronel. Mas cadê coragem? Se o homem já era mais grosso do que apito de navio quando estava bom, imagine agora acossado por uma doença deste tamanho! Rirri serviu o porco na rola do Coronel e ficou rodeando o homem como um mestre salas, esperando uma deixa, um mote, para entrar em detalhes sobre o quisto canceroso. O Velho manteve na maior cara de pau, o tempo todo serio que só boi mijando. Dona Rirri debulhou o mundo de fofocas acumuladas durante sua ausência, mas Gumercindo ouviu tudo calado, sem dar muita bola. No fundo, sabia que qualquer comentário abriria margem para perguntas pessoais que alimentariam os comentários do café, nas próximas semanas. Terminado o almoço, rápido pediu a conta e se escandalizou com o preço da dolorosa. Forçou a voz carvenosa que parecia sair de dentro de um barril e sapecou: Vinte e cinco reais! Tá ficando doida Rirri, que exploração é esta? Duas vezes mais caro do que na capital. Isso é um roubo, um assalto, um comunismo! Ridinaura, finalmente, teve o mote que esperava: Mas Coronel, tudo tá na maior carestia. Tudo subiu! A carne subiu! O arroz subiu! O sal subiu! O feijão subiu! A farinha subiu! O café subiu! Por falar nisso, o que é este buraquinho que o senhor tem aí no gogó? O Coronel disparou o trabuco:
É o cu, Dona Rirri! O cu! Tudo num subiu? Pois o cu subiu também e agora ta aqui no pescoço!

Dr. Jose Flavio.

INQUIETAÇÕES - Por Wilton Bezerra, comentarista generalista.

A gente escreve para, entre outras coisas, tirar as pixilingas da cabeça. Ou seria por obrigação?

Não é para dizer tudo que a humanidade precisa saber. Imagina.

Empilhamos palavras e frases e esbarramos na angústia do cotidiano e na conformação em sobreviver. Como se sobreviver bastasse.

Por que se repete a ladainha "os tempos estão difíceis?" Quando foi que os tempos não foram difíceis?

As pessoas, quase sempre,  viveram em conflitos. A filha da empregada acaba de fugir com o palhaço de um circo da periferia e a bronca está no Mundo. A menina é "de menor".

Parece que o estado natural do homem é de viver sempre em conflito.

Nos "tempos difíceis" atuais, tem a ditadura da mesmice, da imbecilização, mistura de cinismo e vulgaridade.

Uma dose do individualismo generalizado dá para mostrar que o contigente comprometido com a alegria é muito pequeno.

Se os poderes têm liberdade para usurpar outros poderes, diga-se que os lobos vão acabar com a família dos cordeiros.

Por que tanta coisa fora do eixo para consumir nossa beleza? Hein?

E nisso que dá, quando a gente escreve se metendo com a realidade.

Corremos o risco de perder a pista do que procuramos

Bem feito.

A Centelha -- por J.Flávio Vieira


     Um dia, ouvindo uma saudação minha a um ex-professor, ela confidenciou a amigos que gostaria que fosse  eu o escolhido par saudá-la em alguma solenidade. Achou, em meio a minhas palavras laicas, mas banhadas de poesia, que havia alguma coisa de sagrado nelas, afinal a poesia é sempre  um tipo de  prece, de oração .
O tempo passou, encontramo-nos tantas e tantas vezes, pelas ruelas da vida e, infelizmente, o momento da saudação nunca chegou.
Hoje, ela partiu e as palavras já não ressoam e já não parecem ter força ou sentido.

       A rigor, diante de uma vida tão longa e pródiga, nem deveríamos ter motivos para blues e tristezas, mas para celebração pela dádiva de uma existência tão fulgurante. Nossa madre foi uma criatura ímpar. Profundamente espiritualizada,  dirigiu os destinos de muitas gerações de caririenses, sem ranço, com profunda compreensão dos conflitos de idade, usando sempre o amor como mola mestra do educar.

      Soube acompanhar os tempos e suas mudanças,  vezes cataclísmicas e estonteantes, sem estardalhaço, com os pés fincados sempre no chão da sua religiosidade, mas com os olhos fitos no futuro.  Lembro que convidado para fazer uma palestra no seu colégio, sobre Gravidez na Adolescência, alguns professores preocuparam-se sobre a necessidade de apresentar imagens anatômicas e meios anticonceptivos, temendo mexer com sua susceptibilidade.

         Madre Feitosa assistiu a toda a apresentação com uma tranquilidade monástica, em nenhum instante demonstrou qualquer excessivo pudor ou mostrou-se incomodada  com as fotografias e as imagens projetadas. Sabia que, no fundo, o amoral reside na alma das pessoas e nas suas disformes relações com o mundo e não em frágeis palavras ou meras ilustrações.

           Sempre imaginei que a possibilidade de melhorarmos o planeta depende do nosso esforço em ampliar o sentido de família. Quando o homem conseguir entender que somos parte de uma imensa parentela, muito além do simples clã sanguíneo, e que nossa casa chama-se Terra, que somos todos irmãos, independentemente de cor, de raça, de reino, de religião, de condição social, a sobrevivência sustentável do planeta estará assegurada. Nossa Madre  não teve filhos biológicos, mas tornou-se uma invejável matrona bíblica, pelo simples fato de adotar  milhares de alunos como rebentos seus.

         Cuidou-os e orientou-os utilizando o mais poderoso instrumento pedagógico: a compreensão substituindo a punição; o diálogo aberto ao invés do autoritarismo; a força do exemplo  antepondo-se ao vazio das palavras. Não bastasse isso, nossa Madre Feitosa fez-se o esteio espiritual de muitos pais e amigos, orientando vidas, mostrando caminhos, confortando e amparando pessoas nas fases mais tenebrosas de suas trajetórias. Próximo dela tínhamos a certeza de que sua espiritualidade fluía das regiões mais abissais da sua alma. Não era um simples verniz, um mero adereço. Era uma pessoa de muitas certezas e poucas dúvidas.  A autoridade saltava do seu sorriso, das suas palavras doces, pausadas e medidas. E foi, certamente, esta centelha interior  que a manteve lépida, atuante, vívida por quase um século.

          Queria ter dito todas estas palavras antes da solenidade final a que todos um dia estaremos sujeitos. Mas teimo em encontrar no meio do desapontamento da perda, motivos de celebração e de regozijo. Turva-me a tristeza da impermanência, mas louvo e congratulo-me com vida por nos ter privilegiado por tanto tempo com sua presença. Destituídos da couraça material, sobrevivemos nas obras que edificamos.

        Alguns esculpem na lâmina das águas, poucos na dureza magmática das rochas. Madre Feitosa burilou almas, lavrou na seara do espírito. Seu sorriso e seu doce continuarão vivos , fulgurantes em todos aqueles que um dia dela se acercaram. A luz com que ela iluminou nossos caminhos era um mero reflexo da centelha do divino que dela se irradiava.

Crato, 28/12/2019

sábado, 31 de janeiro de 2026

DUAS LUAS - Por Xico Bizerra

Estava reparando o céu e avistei mais de uma lua. A de São Jorge estava lá, com dragão e tudo. A outra, vazia de santos e animais, clareava tanto quanto aquela. 

Sempre me ensinaram que apenas uma lua morava num céu tão grande. Para que tantas estrelas e uma lua só? Todos a vêem grande, solitária e indecifrável. 

Fiquei a imaginar que aquela segunda lua talvez se prestasse para substituir a lua primeira quando chegasse o sol. Mas não: quando o sol desponta a lua não mais há, já foi passear no Japão ou noutras terras distantes. 

E agora? Como vou explicar ter visto duas luas? Só posso garantir que jamais vou esquecer que numa noite de setembro beirando o outubro que se achegava reparei o céu e vi mais de uma lua e elas clareavam o chão com a mesma intensidade. 

No meu céu cabe uma lua dupla e ambas são verdadeiras. Melhor guardá-las só pra mim, acreditar na verdade das duas luas e esconder de todos que as vi para que não digam que estou aluado. Duplamente aluado.

Xico Bizerra