Crato, o segundo berço de Morais
(Palavras proferidas em 18 de setembro de 2026 no Instituto Cultural do Cariri, em Crato-CE)
Antônio Alves de Morais está chegando, nesta noite, ao Instituto Cultural do Cariri como “Sócio Honorário” desta instituição. Fui convidado para apresentar-lhe as boas-vindas em nome do nosso Instituto. Convivo, já há muito tempo, com Morais. Posso dizer que o conheço razoavelmente. Aqui no ICC admiramos seu jeito discreto e o seu senso de humor. Todos nós temos por ele afeto e respeito. Mas gostaria, de iniciar minha saudação, mencionando um fato pungente que sobrevive no coração deste novo confrade.
E o faço, como uma singela homenagem a dona Nair, amor único e por longo tempo de Morais, recentemente falecida. Dou o meu testemunho: para Nair, Morais foi mais do que um marido. Foi um amigo, na verdadeira acepção do termo. Diz a sabedoria árabe que “as dores passadas devem ser vividas com parcimônia”. Por isso faço esta breve menção. Pois sabemos que Morais ainda está vivenciando este momento de futuro do pretérito. E sabemos todos que o silêncio, às vezes, diz tudo o que não precisa ser repetido...
Dito isto, permitam-me lembrar algumas atividades literárias de Antônio Alves de Morais. O que são atividades literárias? São produções, interpretações, criações, divulgações e publicações de textos; são encontros ou ações práticas ligadas à leitura. Como se vê, é muito amplo o conceito de “atividade literária”. E Antônio Morais se enquadra perfeitamente nesse conceito.
Ele já escreveu e publicou dois livros; é autor de vários trabalhos nos quais abordou temas diversos como a genealogia, biografias, crônicas e contos. É vasta, pois, a miscelânia literária de Morais. Ele criou e mantém dois blogs na Internet. São dois blogs muito acessados: o “Blog do Sanharol” e o blog “O Crato de Outrora”. Morais também já é membro honorário da Academia de Letras Juvenal Galeno, de Fortaleza. É uma presença constante nos meios de comunicação social, pois escreve assiduamente, deixando a pena produzir seus escritos de forma sincera, objetiva e coerente com o seu modo de pensar.
Antônio Morais, o profissional
Ademais, nas suas atividades profissionais – quando gerenciou agências bancárias de importantes instituições financeiras – Morais deixou um legado de respeito, competência e firmou laços de amizade com a comunidade cratense. Ele dirigiu, em dois períodos, o Lions Clube Crato Centro; foi Assessor do Governo do Estado do Ceará, na gestão do nosso confrade Dr. Lúcio Alcântara. Não seria ocioso relembrar que Morais é um exemplo de cidadão e chefe-de-família...
Antônio Morais, sinônimo da comunidade do Sanharol
Pesquisador de tudo que se relaciona com Várzea Alegre, Morais prioriza nesse tudo a localidade do Sanharol, aonde veio ao mundo, no dia 1° de outubro de 1948.
Fernando Pessoa tem uma poesia que diz: “O (Rio) Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Para Morais, o Riacho do Machado é o mais bonito riacho do mundo, pois esse riacho nasce em Várzea Alegre e para Morais Várzea Alegre é um mundo....
Numa conversa, ele me disse: Sanharol para mim é tudo...Trata-se, pois de um lugar atávico de Várzea Alegre. Atávico no sentido de se constituir num pedaço de terra herdado dos seus antepassados; um sítio que passou de pai para filho por seguidas gerações, preservando características antigas, as quais, às vezes, somem, mas reaparecem com o passar do tempo... Antônio Morais descende em linha direta de Raimundo Duarte Bezerra, o famoso “Papai Raimundo (este nascido por volta de 1762 e falecido em 1854), considerado o patriarca e figura símbolo da fundação de Várzea Alegre.
Façamos outra reflexão sobre a ligação de Morais com o Sanharol. A palavra Sanharol vem de uma abelha preta que não tem ferrão. Trata-se de uma espécie nativa do Brasil, conhecida popularmente como “arapuá” ou “abelha-torce-cabelo”. A palavra vem do tupi refletindo o comportamento defensivo desta espécie. Morais, como essa abelha, também não tem ferrão. É sempre uma pessoa de temperamento ameno, franco e cordial. Existe, como se vê, um “entranhamento” profundo, sentimental e substancial entre a personalidade afável de Morais e a palavra “Sanharol”. Morais sabe, como poucos, as histórias dos clãs que fizeram a história, a cultura e o desenvolvimento rural de Várzea Alegre. E seu pedaço de terra – o velho e querido Sanharol do seu clã – possui muitas ligações com outros tradicionais troncos familiares daquela região.
Esta é uma referência ao “Morais–memorialista”. Acrescida de uma vantagem: Morais não foi egoísta. Socializou, ou seja, repartiu com todos os seus conhecimentos, deixando, assim, preservados para as futuras gerações – por meio de centenas de crônicas e artigos – o que escreveu e publicou.
As memórias e crônicas, escritas por Antônio Morais, contribuíram para preservar suas raízes atávicas, isto é, a história, os fatos e os “causos” de seus ancestrais e da sua comunidade. Até o surgimento da Internet essas memórias se resumiam a conversas informais que poderiam desaparecer com o tempo. Quase nada ficava registrado por escrito. Graças a Morais essa antiga tendência foi modificada quando produziu registros escritos.
Hoje, já se olha para Várzea Alegre com uma visão da forte identidade daquele município. Visão feita por suas festas populares tradicionais ou religiosas, a exemplo do novenário a São Raimundo Nonato. Hoje vemos, também, a Várzea Alegre das manifestações folclóricas... E Várzea Alegre ganhou destaque pela animação e resistência cultural, a exemplo do seu carnaval, com seus blocos históricos e tradicionais, como a Escola de Samba Unidos do Roçado de Dentro.
E como estamos numa noite de reconhecimento e gratidão, cumpre-me lembrar que Várzea Alegre está imortalizada pela ação de um dos seus mais ilustres filhos: Antônio Batista Vieira, amplamente conhecido como Padre Vieira, sacerdote, escritor de renome e ex-deputado federal. Padre Vieira continua sendo um símbolo máximo de inteligência, de defesa dos humildes, se constituindo numa projeção cultural e política gestada da gente de Várzea Alegre. O mesmo Padre Vieira que ficou na memória coletiva dessa cidade como um homem sábio, humilde, e que ainda não recebeu – da parte dos seus conterrâneos – uma homenagem à altura de tudo que ele representou (e ainda representa) para a memória de Várzea Alegre...
Mesmo correndo o risco de cometer omissões, eu ouso lembrar outras personalidades que marcaram o patrimônio moral e cívico de Várzea Alegre: como o ex-prefeito João Alves Lima (João Francisco) e o honrado político Joaquim de Figueiredo Correia, que foi governador do Ceará, quando na qualidade de Vice, legitimamente eleito, assumiu várias vezes as rédeas política e administrativa do nosso Estado. E ainda cito outro varzealegrense de valor: Odilon Máximo de Morais. Professor e reitor da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL), reconhecido com honrarias locais por sua trajetória acadêmica.
Ao final de tudo que foi dito, eu sintetizo minha fala dizendo:
Caro Morais: como sócio do ICC externo a você este sentimento de acolhida de todos pela chegada do mais novo recipiendário do nosso sodalício: Seja muito bem-vindo ao nosso Instituto Cultural do Cariri. Aqui, nesta instituição voltada unicamente para divulgar a cultura, cada chegada é importante; cada história tem valor e cada dia é uma nova chance de aprendermos, crescermos e sonharmos juntos com um mundo melhor e mais fraterno. É uma honra e uma grande alegria recebe-lo na nossa irmandade.