segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

5,1% ou 16,6%? O desemprego que o Brasil não quer enxergar - Por David Gertner.

 


O que fica fora da conta oficial e por que isso distorce o debate econômico.

O Brasil vive hoje um paradoxo estatístico. De um lado, o governo comemora uma taxa de desemprego de 5,1%, apresentada como prova inequívoca de sucesso econômico. De outro, a percepção social dominante é a de que o trabalho falta, os empregos são precários e milhões sobrevivem de bicos, auxílios ou desistiram simplesmente de procurar.

A pergunta incômoda é inevitável: o desemprego no Brasil é mesmo de 5,1% — ou estamos diante de uma taxa real próxima de 16,6%?

A diferença entre esses números não é retórica. É metodológica. E, sobretudo, política.

A taxa de desemprego divulgada pelo governo não é calculada sobre a população total, mas apenas sobre a chamada força de trabalho, que inclui exclusivamente duas categorias: pessoas ocupadas e pessoas que procuraram emprego ativamente nas últimas semanas. Quem não se encaixa nesses critérios simplesmente desaparece da estatística.

Hoje, os números aproximados são: cerca de 103 milhões de ocupados, cerca de 5,5 milhões de desocupados oficiais e uma força de trabalho de aproximadamente 108,5 milhões. Com esses dados, chega-se ao índice amplamente divulgado de 5,1% de desemprego.

Tecnicamente correto. Socialmente enganoso.

Ficam fora dessa conta cerca de 15 milhões de brasileiros classificados como subutilizados, desalentados ou inseridos em ocupações precárias, informais ou intermitentes. São pessoas que não têm trabalho estável, não contam com renda digna e dependem, muitas vezes, de auxílios governamentais ou bicos ocasionais para sobreviver. Ainda assim, não entram na estatística do desemprego. Na prática, são tratados como se o problema não existisse.

Se esses 15 milhões fossem considerados desempregados de fato, o cálculo mudaria radicalmente. Os desocupados reais saltariam para cerca de 20,5 milhões e a força de trabalho para aproximadamente 123,5 milhões. Ao aplicar a fórmula padrão, o resultado é claro: a taxa de desemprego subiria para algo em torno de 16,6%.

É importante deixar claro que este exercício não propõe substituir a taxa oficial, mas sim evidenciar o quanto a metodologia vigente subestima a dimensão real da exclusão do mercado de trabalho no Brasil.

Quando comparado a países de renda média semelhante, o contraste torna-se ainda mais evidente. Em economias como México ou Chile, a diferença entre desemprego oficial e subutilização tende a ser significativamente menor do que no Brasil, indicando mercados de trabalho menos excludentes e com maior capacidade de absorção produtiva. Aqui, o desemprego “cai” muitas vezes porque as pessoas saem da estatística, não porque entram no mercado formal.

O debate se torna ainda mais delicado diante de denúncias internas de funcionários do IBGE, outrora uma das instituições técnicas mais respeitadas do país. Relatos apontam para pressões políticas, mudanças metodológicas oportunistas e uma ênfase seletiva nos indicadores mais favoráveis ao governo. Nada disso invalida automaticamente os dados, mas corrói a confiança pública. Estatística oficial não pode servir para propaganda. Seu papel é iluminar a realidade — não maquiá-la.

O problema central não é técnico. É ético. Ao excluir milhões da conta, o governo pode comemorar números, mas não enfrenta o drama de quem trabalha sem direitos, vive de renda instável ou simplesmente perdeu a esperança de ser absorvido pelo mercado formal.

A taxa de 5,1% pode ser verdadeira dentro de um recorte específico. Mas a taxa de 16,6% está muito mais próxima da vida real brasileira. Ignorar isso não melhora a economia. Apenas melhora o discurso — e aprofunda a distância entre os números oficiais e a experiência cotidiana da população.

Um comentário:

  1. Quando se tem um mentiroso no poder, quem o elegeu se sente represntado. E, Se acha no direito de acreditar nas mentiras e mentir também.

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