segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Ética mudou — ou mudamos nós? - Diario do poder, David Gertner.

 

Não vivemos uma era sem valores. Vivemos uma era em que os valores passaram a depender de quem os invoca.

Vivemos repetindo que a ética está em crise. Mas talvez o diagnóstico esteja equivocado.

A ética não desapareceu. Ela foi adaptada.

Hoje ninguém se declara contra princípios. Todos falam em justiça, responsabilidade, direitos, democracia, verdade. A disputa não é sobre a importância da ética. É sobre o seu significado — e, principalmente, sobre quando ela deve valer.

O que mudou não foi o vocabulário moral. Foi o critério.

A mentira virou “narrativa”.

A manipulação tornou-se “estratégia”.

A censura passou a ser “proteção”.

A vigilância é “personalização”.

A corrupção é “interpretação”.

Nada é negado. Tudo é reclassificado.

Em ambientes polarizados, a ética tornou-se condicional:

é absoluta contra o adversário,

é contextual quando protege os nossos.

Esse deslocamento é mais profundo do que parece. Substituímos princípios universais por lealdades identitárias. O certo deixou de ser aquilo que é coerente — e passou a ser aquilo que é conveniente ao grupo.

A tecnologia apenas acelerou esse processo.

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