segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Familia - Antonio Alves de Morais.

Eu estava correndo e de repente um estranho trombou em mim: - "Oh, me desculpe por favor", foi a minha reação. E ele disse "Ah, desculpe-me também, eu simplesmente nem te vi!"  Nós fomos muito educados um com o outro, aquele estranho e eu. Então, nos despedimos e cada um foi para o seu lado.  Mas em nossa casa, acontecem histórias diferentes. Como nós tratamos aqueles que amamos...???

Mais tarde naquele dia, eu estava fazendo o jantar e meu filho parou do meu lado tão em silencio que eu nem percebi. Quando eu me virei, tomei o maior susto e lhe dei uma bronca. "Saia do meu caminho filho!"

E eu disse aquilo com certa braveza. E ele foi embora, certamente com seu pequeno coração partido. Eu nem imaginava como havia sido rude com ele. Quando eu fui me deitar, eu podia ouvir a voz calma e doce de Deus me dizendo: 

- "Quando falava com um estranho, quanta cortesia você usou! Mas com seu filho, a criança que você ama, você nem sequer se preocupou com isso! Olhe no chão da cozinha, você verá algumas flores perto da porta. São flores que ele trouxe pra você. Ele mesmo as pegou; a cor-de-rosa, a amarela e a azul. Ele ficou quietinho para não estragar a surpresa e você nem viu as lágrimas nos olhos dele."

Nesse momento, eu me senti muito pequena. E agora, o meu coração era quem derramava lágrimas. Então eu fui até a cama dele e ajoelhei ao seu lado. - "Acorde filhinho, acorde. Estas são as flores que você pegou pra mim?"

Ele sorriu, - "Eu as encontrei embaixo da árvore. Eu as peguei porque as achei tão bonitas como você!. Eu sabia que você iria gostar, especialmente da azul" Eu disse: "Filho, eu sinto muito pela maneira como agi hoje. Eu não devia ter gritado com você daquela maneira." - "Ah mamãe, não tem problema, eu te amo mesmo assim!!" - "Filho, eu também te amo. E eu adorei as flores, especialmente a azul."Você já parou pra pensar que, se morrermos amanhã, a empresa para qual trabalhamos poderá facilmente nos substituir em uma questão de dias. Mas as pessoas que nos amam, a família que deixamos para trás, sentirão essa perda para o resto de suas vidas. E nós raramente paramos pra pensar nisso.

Às vezes colocamos nosso esforço em coisas muito menos importantes que nossa família, que as pessoas que nos amam, e não nos damos conta do que realmente estamos perdendo.  Perdemos o tempo de sermos carinhosos, de dizer um "Eu te amo", de dizer um "Obrigado", de dar um sorriso, ou de dizer o quanto cada pessoa é importante pra nós.  Ao invés disso, muitas vezes agimos com rudeza, e não percebemos o quanto isso machuca os nossos queridos.

A família é o nosso maior bem!

O Cariri à época da chegada de Agostino Balmes Odísio

Monumento ao Cristo-Rei, projeto e escultura de Agostinho Balmes Odísio.
por Armando Lopes Rafael

Tempos tranqüilos e difíceis, aqueles do final da década 30 do século XX...
Os dias corriam devagar. A inexistência dos meios de comunicação, como os existentes hoje, aliada à precariedade das estradas carroçáveis, contribuía para as populações do hinterland cearense só tomar conhecimento dos acontecimentos, ocorridos alhures, vários dias depois de suas ocorrências. Os jornais de Fortaleza, por exemplo, chegavam ao Cariri com um atraso de dois dias, pois eram transportados nos barulhentos trens da Rede de Viação Cearense, puxados pela “Maria Fumaça” (assim denominado pela população o vagão da caldeira a vapor, alimentada por carvão ou lenha) que faziam o percurso Fortaleza-Crato, e vice-versa, em dias alternados da semana.
A edição do jornal O Nordeste, órgão oficial da Arquidiocese de Fortaleza, editado numa terça-feira, 28 de novembro de 1939, chegou, certamente, atrasado a Crato. E desta vez veio com uma longa e pouco elucidativa manchete: Imitando o Cardeal de Paris, no seu programa de “estaleiros” para igrejas. Abaixo da manchete, em letras menores, o complemento explicativo: “O grande surto renovador das matrizes da Diocese do Crato”.
Ilustraram a reportagem, na primeira página, duas fotos: uma de Dom Francisco de Assis Pires, bispo diocesano de Crato, a outra, da fachada do novo Palácio Episcopal, recém construído. Perdido na vasta matéria este pequeno trecho: Graças ao espírito iluminado do virtuoso prelado que governa os destinos da Diocese de Crato, as velhas matrizes vem se remodelando em belos e majestosos templos. E depois de citar as igrejas dotadas de “embelezamento”, descrevendo as melhorias nelas introduzidas, “O Nordeste” explicou: “Sua Excia. Revdma. o Sr. Dom Francisco e os Revdmos. Vigários encontraram na pessoa do professor Agostinho Balmes Odisio, o complexo de aptidões para a realização dos trabalhos acima descritos”
Tempos tranqüilos aqueles...
Mas, quem era esse Agostinho Balmes Odísio, no qual os vigários encontraram um “complexo de aptidões”? Tratava-se, na verdade, de talentoso artista, nascido na Itália, escultor, arquiteto, autor de peças teatrais e que, nas horas vagas, gostava de escrever e fotografar. Ele viveu apenas seis anos no Cariri, entre 1934 e 1940. Neste curto espaço de tempo, foi autor de bom número de obras de arte, fincadas no Sul do Ceará, sendo a mais conhecida a Coluna da Hora, com 29 metros de altura, encimada pela estátua do Cristo Redentor, com 6 metros – totalizando 35 metros – ainda hoje considerada o ícone da cidade de Crato e o cartão-postal mais conhecido da Princesa do Cariri. O monumento está localizado na Praça Francisco Sá, também projetada pelo escultor italiano.
Quando chegou ao Cariri, Agostinho encontrou uma região promissora, mas atrasada “ano-luz” em relação ao Sudeste brasileiro, onde ele vivera os últimos vinte anos. Em Juazeiro do Norte, onde se fixou, a quase totalidade das casas não dispunha de energia elétrica, e a iluminação noturna era proporcionada por candeeiros com pavios, alimentados a querosene. Não havia água encanada nas residências. As famílias utilizavam grandes potes de barro para armazenar o líquido, que era transportado no lombo de jumentos. A maioria das casas era de taipa e chão batido. E mesmo as construídas com tijolo possuíam cômodos escuros, com pouca ventilação. Além disso, as residências eram destituídas de instalações sanitárias. As mais aquinhoadas possuíam, no quintal, uma “sentina”, a latrina, com um buraco aberto no chão para as necessidades fisiológicas dos seus habitantes. O mau cheiro dali exalado, vez por outra, invadia o ambiente domiciliar. Banhos? Só os “de cuia” , como eram conhecidos os asseios corporais, feitos com a água contida num balde de flandre, cujo líquido era tirado por meio de um pequeno caneco de alumínio.
Não existiam hospitais no Cariri. Além do mais, a região possuía um dos maiores focos de “tracoma” do Brasil, ou seja, a doença da inflamação da conjuntiva (o revestimento delgado e resistente que reveste a parte posterior da pálpebra) causada por vírus e bactérias, que penalizou com a cegueira a muita gente no Cariri.
Tempos difíceis, aqueles...
Texto e postagem: Armando Lopes Rafael

EX-GOLEIRO JURANDIR FALECEU EM JUAZEIRO - Wilton Bezerra, comentarista generalista.

 


Em 1973, nos deram a incumbência de conseguir um goleiro para o Guarani de Juazeiro. Se valendo da aproximação que tínhamos com Ivonísio Mosca de Carvalho no Ceará, conseguimos a liberação do jovem Jurandir. 

Já com o futebol de Juazeiro participando do campeonato estadual, o Guarani passou a contar com um dos maiores goleiros de sua história. 

Permanecendo na terra do Padre Cícero até falecer, neste sábado, 8 de agosto, Jurandir defendeu também o Icasa. 

Tinha 76 anos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O papel da democracia - Margareth Tatcher

O papel da demogracia não é assegurar que os melhores cheguem ao poder, e sim garantir que os piores não permaneçam nele para sempre.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Nos tempos de estudantes - Antonio Alves de Morais.

 

Nos tempos de estudante, em Várzea-Alegre, os doutores José Sávio Pinheiro e José Bitu Moreno, colegas de classe no Ginásio São Raimundo, tiveram um entrevero, um  arranca rabo daqueles que nem o Secretário de Estado Americano conseguia fazer a reconciliação.

O jeito encontrado foi, imaginem, partir para um duelo. Escolheram o local e marcaram o horário, cada um mais afoito. No horário marcado Dr. José Sávio, miudinho, chochinho, decidiu: Eu vou é nada, e, lá não foi. O Dr. José Bitu Moreno fez a mesma coisa.
No outro dia, no colégio, antes da aula começar, houve o encontro dos desafiantes. Dr. José Sávio mais do que atrevido falou: E aí cara, passei pra mais de três horas te esperando e você não apareceu para me encarar?
Dr. José Bitu replicou, é isso mesmo, eu achei que devíamos ir a uma outra rodada de negociações, assim talvez encontrássemos uma solução mais adequada para nossa arenga. O fato é que nenhum dos dois foi ao encontro marcado.
Dr. José Bitu Moreno não negou o DNA do avô José Bitu do Inharé, um conselheiro de brandura impar.
No dia 18 de Julho de 2026, mais de meio século depois eu encontrei os dois num evento cultural em Mangabeira fomos fotografatos juntos.
Eu até me lembrei do episódio, mas não falei para eles temendo que reascendessem as brasas do desafio.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

CLUBES ACIMA DA SELEÇÃO - Wilton Bezerra, comentarista generalista.

 

O hexa mundial para a seleção do Brasil é, hoje, uma missão quase impossível.

E daí, vamos fechar as portas do futebol? "Não, amigos" (como diria um certo narrador).

Os clubes, esses sim, é que devem ser colocados acima da seleção.

Quem forma jogadores, investe em preparação e estruturas e mantém interesse maior do torcedor é o clube.

É nesse ponto onde o futebol brasileiro vacila. Pela velha doença da falta de estratégia ou mesmo pela incompetência crônica.

Grandes equipes andam vivendo fases agônicas. Por estagnação ou passos para trás.

E o futebol imita a natureza: é implacável ao impor ciclos de vida, sobretudo para os que param no tempo.

Há preocupações com a nossa paróquia.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A ópera da vida - Por Dr. Jose Bitu Moreno

Capela de Maria de Bil - Foto de Wiltom Bitu Moreno.

Ontem foi o primeiro dia de abril desse ano de 2007. Ficamos em casa, enquanto lá fora brilhou o sol e os pássaros cantaram até altas horas. Dentro de casa também ouvimos música, e dessa feita foi Carmen de Bizet. Bela ópera, belas melodias, como bela é a vida com seus diversos e misteriosos desígnios. As crianças assistiram pesarosos e excitados o desfecho fatal da ópera. Eu me desloquei do enlevo dado pela beleza que a obra inspira, até à beira do desconforto e da tristeza, aquele negro precipício que às vezes se enxerga quando se debruça na própria alma, ou na arte, ou na beleza superlativa.

Carmen e José morrem a todo instante nesse vasto mundo. Carmen foi a mesma Maria, que um dia Bil matou, por puro ciúme e despeito, sob o sol de meio dia no sítio Inharé, na cidade de Várzea-Alegre, quando ela grávida do terceiro filho, levava comida para o pai na roça. José foi o mesmo que de incontrolável e excessivo amor, ou sentimento de posse, ou não sei que ferida d´alma, matou sua esposa num domingo fatídico, em Marília, e depois se matou ...eu os pude ver no pronto socorro, jogados em macas diferentes, mas por acaso virados um para o outro, e como que mirando-se, no vazio de seus olhos e da existência perdida. Impressionantes os meandros da vida, inescrutáveis seus precipícios, a morte sombreando escandalosamente cada manisfestação vital.

Maria se tornou uma lenda e virou santa para as pessoas da região. De longe se pode ver sua capelinha branca encrustada na serra.

- Carmen um dia existiu, pai? – André me pergunta com uma entonação triste.

Carmen, José, o amor, a vida, a paixão desenfreada, o ciúme, o egoísmo, a fatalidade, a loucura, o instinto homicida...

- Sim, André, um dia Carmen existiu, viveu em Sevilha, na Espanha – Eu lhe respondo com convicção, sabendo que vida e arte são ao final um só corpo, mistura de ficção e realidade. Carmens e Josés vivem e morrem a cada instante dentro de cada um de nós.

Dr. Jose Bitu Moreno.

NOSSA CONTRIBUIÇÃO PARA O RÁDIO ESPORTIVO DE JUAZEIRO DO NORTE - Wilton Bezerra, comentarista generalista.

Quando em 1967 a equipe esportiva da rádio Progresso AM de Juazeiro do Norte começou a ser formada, estávamos lá (pra sorte nossa). 

Com Jussier Cunha, como narrador, se buscou mais um locutor. Dalton Medeiros foi contatado, mas não aceitou a proposta. "Irresponsavelmente", enviei carta para Francisco Silva, o Foguinho, que estava na Emissora Rural de Petrolina. 

O velho Fogo apressou-se e veio bater no meu endereço, na rua Dr. Diniz. 

Com ajuda de João Barbosa, diretor comercial, convenci o Dr. Geraldo Barbosa, gerente e nosso compadre, de que a contratação era cara, mas fundamental. 

Fechou-se a maior contratação do rádio esportivo juazeirense à época. Depois, veio a saída de Foguinho. Para não deixar cair a qualidade e a audiência, foram chegando, pela ordem, Luiz Carlos e Carlos Alencar. 

Até Heron Aquino e Hamilton Lima do rádio cratense narraram pela Progresso por pequenos períodos. 

O nosso poder de persuasão junto aos dirigentes da querida emissora contribuiu para valorização dos profissionais do rádio esportivo da região. 

Tenho o maior orgulho disso. 

Na foto, Wilton Bezerra, Jussier Cunha e Foguinho. Abaixo, da esquerda para a direita, Hamilton Lima, Heron Aquino, Carlos Alencar e Luiz Carlos.

DANÇA LENTA - Antonio Alves de Morais.

Alguma vez voce já observou crianças brincando num carrocel? Ou ouviu a chuva batendo no chão? Alguma vez seguiu o vou erratico de uma borboleta? Ou fixou o olhar no sol no crepusculo? É melhor voce diminuir o passo. Não dance tão depressa. 

O tempo é curto, a musica vai acabar. Voce corre atraz de cada dia voando? Quando você pergunta "como vai"? Voce escuta a resposta? Quando o dia finda, voce fica deitado na cama, com os proximos afazeres rolando por sua cabeça? É melhor voce diminuir o passo. Não dance tão depressa. O tempo é curto, a musica vai acabar.

Voce disse alguma vez a uma criança "vamos deixar para fazer isto amanhã?" E na sua pressa não viu a tristeza dela? Perdeu contato, deixou uma boa amizade morrer porque voce nunca tinha tempo para ligar e dizer "Oi"? É melhor diminmuir o passo. Não dance tão depressa. O tempo é curto, a musica vai acabar.

Quando voce corre tão depressa para chegar a algum lugar, voce perde metade da satisfação de chegar lá. Quando voce se preocupa e se apressa em seu dia todo, é como se fosse um presente que não foi aberto. Um presente jogado fora. A vida não é uma corrida. Leve-a mais devagar. Ouça musica. Antes que a canção acabe.

Vivamos sem odio, sem magoas, sem machucar pessoas, principalmente as pessoas que vivem mais proximas da gente. Pessoas que nos amam como somos e com as quais somos verdadeiros, sem mascaras, com nossas dificuldades e somos perdoados.

Que bela canção!

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Dr. Jose Bitu Moreno - Por João Bitu

Dr. Jose Bitu Moreno.

Orgulho de nossa família e de todos os seus conterrâneos Varzealegrese por se destacar pelo profissionalismo e competência na área de medicina, tanto nacional como internacional.
Senti muita alegria pelo nosso encontro em Agosto de 2009 na residência dos meus pais no sítio Sanharol, terra de nossas origens. Dr. José Moreno Bitu, competência, simplicidade, humildade, o tripé que faz galgar de prestígios no campo da medicina. Parabéns e que Deus lhe ilumine cada vez mais nas suas atividades do dia-a-dia.

Você é um bom filho
Dotado de sabedoria
Deus é seu protetor
Na ciência e tecnologia
Receba os nossos parabéns
De toda a sua família

Do seu primo

João Bastos Bitu

sábado, 1 de agosto de 2026

Habeas Pinho - Dr. Arthur Moura

Em 1955, em Campina Grande, na Paraíba, um grupo de boêmios fazia uma serenata numa madrugada do mês de Junho, quando chegou a policia e apreendeu o violão. Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo Cunha Lima, então recentemente saído da Faculdade e que também apreciava uma boa seresta. Ele peticionou em juízo para que fosse liberado o violão. Aquele pedido ficou conhecido como “Habeas Pinho” e enfeita as paredes de escritórios de muitos advogados e bares de praias no nordeste. Eis a famosa petição:
Exmo. Senhor Juiz de Direito da Segunda vara desta Comarca:

O instrumento do crime, que se arrola
Neste processo de contravenção.
Não é faca, revolver nem pistola,
É simplesmente, Doutor, um violão.

Um violão, Doutor, que na verdade,
Não matou nem feriu um cidadão,
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade,
Ao crime ele nunca se mistura,
Inexiste entre eles afinidade.

O Violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida,
Que cantam as mágoas e que povoam a vida,
Sufocando suas próprias dores.

O Violão é musica e é canção,
É sentimento de musica e de alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório
Porem seu destino se perpetua,
Ele nasceu para cantar na rua,
E não para ser arquivo de cartório.

Mande soltá-lo pelo amor da noite.
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite,
De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão Dr. Juiz,
Em nome da justiça e do direito,
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe encheu o peito?

Será crime, e, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua o desgraçado,
Deixando ali as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento,
Juntando esta petição aos autos nós pedimos
E pedimos também deferimento.

Ronaldo Cunha Lima - Advogado


Despacho do Juiz.

O Juiz Arthur Moura, sem perder o ponto, deu a sentença no mesmo tom:

Para que eu não carregue remorso no coração,
Determino que seja entregue ao seu dono,
Desde logo, o malfadado violão.

Recebo a petição escrita em verso,
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo, que há de belo no universo.

Que seja o sol, ainda que a desoras,
E volte a rua, em vida transviada
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de lua, plena madrugada,
Venha tocar a porta do Juiz.

A chegada de George Gardner a Crato - por Armando Lopes Rafael

Crato, 1859 - aquarela de José Reis, acervo do Museu de Artes de Crato.

Dois anos fazia que George Gardner viajava pelo Império do Brasil, pois aqui aportou em 22 de julho de 1836.
Ele chegou ao Ceará, ao meio dia de 22 de julho – na data que completava dois anos do seu desembarque no Rio de Janeiro. Certamente, foi com alívio e alegria que o Botânico inglês contemplou a foz do Rio Jaguaribe, emoldurada pelas areias brancas do litoral cearense, ponto final da travessia. Mas só no dia seguinte, 23 de julho, utilizando um bote, ele desceu pelo rio, até atingir, a pouca distância, a vila de Aracati.

Gardner não demonstrou interesse em conhecer a vila de Fortaleza que, desde 1810 era a capital do Ceará. Optou por percorrer outras povoações do interior. No Ceará, o roteiro traçado pelo pesquisador incluiu, além de Aracati – porto por onde se exportava o couro e o charque produzidos na Província – a vila de Icó, importante entreposto comercial, em pleno sertão. Seu destino final, na Província do Ceará, era a vila de Crato, menor e mais atrasada que as duas acima citadas e localizada ao sopé da Chapada do Araripe.
As redondezas de Crato eram dotadas de exuberante vegetação – com boa variedade de fauna e flora nativas – possuindo dezenas de fontes naturais, além de depósitos de fósseis do período Cretáceo Inferior. Era isso que atraía o interesse do intelectual inglês. Gardner demorou cerca de 12 dias em Aracati. No dia 3 de agosto, sob forte chuva, rumou, com seus ajudantes e algumas malas, em busca de Icó, onde faria uma parada antes de atingir Crato.
Ao final da tarde do dia 9 de setembro de 1838, após ter cavalgado sobre terra plana e arenosa, de ter contemplado grandes plantações de cana, onde sentiu o cheiro do mel vindo dos engenhos de rapadura, a invadir a atmosfera com seu aroma adocicado, avistou Crato. Extasiado com a beleza da localidade, ele escreveu as linhas abaixo:

"Impossível descrever o deleite que senti, ao entrar neste distrito, comparativamente rico e risonho, depois de marchar mais de trezentas milhas através de uma região que, naquela estação, era pouco melhor que um deserto.

A tarde era das mais belas que me lembra ter visto, com o sol a sumir-se em grande esplendor por trás da Serra do Araripe, longa cadeia de montanhas, a cerca de uma légua para Oeste da Vila, e o frescor da região parece tirar aos seus raios o ardor que pouco antes do poente é tão opressivo ao viajante, nas terras baixas.

A beleza da noite, a doçura revigorante da atmosfera, a riqueza da paisagem, tão diferente de quanto, havia pouco, houvera visto, tudo tendia a gerar uma exultação de espírito, que só experimenta o amante da natureza e que, em vão eu desejava fosse duradoura, porque me sentia não só em harmonia comigo mesmo, mas “em paz com tudo em torno".
Texto e postagem: Armando Lopes Rafael

Profeta de chuvas - Antonio Alves de Morais

Em 1970, fui colega do Pedro Norões no Banco do Cariri S/A. Tinha um profeta de chuvas pras bandas do sitio Araçás, que anotava todas as previsões num caderno e trazia para Pedro Norões datilografar numas folhinhas de papel, rejuntar e deixar igual um livrinho com as previsões. Um almanaque.
Para ver se o profeta prestava bem atenção ao que fazia, Pedro Norões mudou a previsão de uma chuva do dia 14 de outubro a tarde para o dia 15 pela manhã.
Assim, oito dias depois, estava o profeta a reclamar: Dizia, olhe seu Pedro Norões a chuva é no dia 14 a tarde e o senhor anotou para o dia 15 pela manhã! Então, Pedro Norões morrendo de dar risadas disse: compadre, eu estou planejando queimar minha broca no dia 14, por essa razão passei a chuva para o dia 15.