
Feliz 2021. As primeiras chuvas banham nosso Ceará, de forma discreta,
mas, acendem em nós a esperança de bom inverno. Com data de aplicação
prevista para 14/03/2021 visando selecionar alunos para o segundo
semestre de 2021, em 09/12/20, foi anunciado o Vestibular da
Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, na qual sou professor, com
muita honra, e uma curiosidade nos livros sugeridos me moveram a tecer
comentários a certame tão bem e diligentemente organizado pelo meu
confrade na Academia Sobralense de Estudos e Letras, o Prof. José
Ferreira Portella Netto, honrado cidadão e grande profissional. Os três
últimos romances indicados fizeram o tempo voltar quando vi São
Bernardo, de Graciliano Ramos; As Três Marias, de Rachel de Queiroz e
Iracema, de José de Alencar. Não só porque li os livros, evidentemente.
Tenho uma preservada segunda edição (1938) de São Bernardo. D’As Três
Marias tenho primeira, segunda, terceira edições e outras clássicas. De
Iracema não tenho primeiras edições, mas, possuo muitas comemorativas.
“Iracema” é o sexto romance de José de Alencar (1865), de cunho
indianista é precedido por Guarany (1857) e sucedido por Ubirajara
(1874). Ler Iracema, vez por outra adquiro uma nova edição saída de modo
especial ou que seja edição com número fechado (100ª de tal editora
etc.), dá uma saudade da infância e da curiosidade de conhecer o grande
cenário da primeira parte de Iracema, Ipu. Ali está o véu de noiva e
parece que até ouvimos suas passadas naquelas matas. Depois, crescido,
encontrei seu segundo cenário, a praia de Iracema, onde ela aguarda
Martin, com Moacir que alguns etimologistas definem como “filho da dor”,
o primeiro brasileiro miscigenado, conforme a lenda. Alencar é o
fundador do romance nacional.
Quanto ao “As Três Marias” penso até que me faço suspeito em falar. O
cenário do livro é o “viveiro adorado”, Colégio da Imaculada Conceição
de Fortaleza. Lendo o início do romance, ainda hoje, tenho a impressão
de que estou ingressando no Colégio. Maria Augusta (Guta), era a própria
autora, Rachel. Maria da Glória é Odorina que se casou e foi residir no
Cariri. Maria José é Alba, amiga querida de Rachel que faleceu no
acidente aéreo em que também morreu Castelo Branco. Podemos dizer que
“As Três Marias” é romance-autobiográfico, não autobiografia, pois, em
sua genialidade, a autora deu novas faces a personagens e espaços
desenvolvidos na trama. O livro é de 1939. Rachel, com menos de 30 anos,
já é escritora conhecida em todo o País, pelo sucesso da clássica obra
prima “O Quinze” (1930). Ela viveu quase 93 anos e afirmou a mim uma
vez: “Vivi muito. Sofri muito e tomei pouco juízo”. A escritora recebeu
título de doutora honoris causa da UVA. É uma das mulheres mais
importantes do século XX, a primeira mulher a ingressar na Academia
Brasileira de Letras, possuidora de rara inteligência e franqueza.
Apontei-me suspeito porque sou afilhado, biógrafo e tive a honra de ser
seu amigo. No Imaculada conheci a “Santa” Irmã Elisabeth Silveira e a
querida Profa. Norma Soares que teve importante participação na UVA. A
obra já foi destaque no vestibular anterior.
Mas, a curiosidade maior para mim entre os três autores é que
Graciliano era amigo de Rachel e a escritora foi responsável por salvar
“Angústia”, escrito em 1936, que Graciliano queria jogar no lixo. Enredo
para uma outra conversa por conta do espaço. Alencar era neto da
heroína Bárbara de Alencar e Bárbara também é quinta-avó de Rachel.
Nestes três livros temos Rachel amiga de um e prima de outro. Salve
Rachel!
(*) José Luís Lira é
advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do
Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito
Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina)
e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É
Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte
livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais
brasileiras.