O violino do Padre Cícero
Este famoso sacerdote – nascido em Crato e existência quase toda vivida
em Juazeiro do Norte – continua sendo o arquetípico do caririense:
religioso, temente a Deus, caritativo e de boa índole. Episódios da
vida desse invulgar sacerdote continuam a ser “redescobertos”. A fama do
Padre Cícero só faz crescer, principalmente depois da “reconciliação”
que a Igreja Católica adotou no tocante à herança espiritual do
sacerdote.
Tempos atrás foi publicado por Joaquim Arraes de Alencar Pinheiro
Bezerra de Menezes (carrega no DNA a boa índole de paz, honradez e
benquerença do pai, Cesar Pinheiro Teles. Joaquim tem também no sangue
os ideais políticos da defesa social dos pobres, herança da família
materna, cujo exemplo maior foi seu tio, o ex-governador Miguel Arraes
de Alencar) um artigo sobre um violino que o Padre Cícero adquiriu
quando de sua única visita à Roma, para se defender das acusações e
sanções impostas pelo Bispo de Fortaleza.
Como dizia, Joaquim Pinheiro resgatou, naquele escrito, que o Padre
Cícero trouxe de Roma dois violinos. Um deles foi presenteado a um
parente do sacerdote. O outro, Pe. Cícero deu, em 1929, ao seu afilhado
(por quem o sacerdote tinha grande afeto) o tabelião Antônio Teófilo
Machado (mais conhecido por Machadinho), titular de um cartório em Crato
durante décadas no século passado.
Sobre o violino

Trata-se de um Maggini, modelo 1715, provavelmente adquirido de segunda
mão, uma vez que a marca havia deixado de ser fabricada décadas antes
de ser adquirido pelo Padre Cícero. Segundo Joaquim Pinheiro, no fundo
do instrumento, embaixo da tampa, foi colado um papel e nele consta:
“Adquirido pelo Pe. Cícero em Roma – Itália 1898. Of. a Antônio Machado
em 26/03/1929 – Ceará – Juazeiro”.
Antônio
Machado tinha grande amor pelo violino, mas cedeu-o gratuitamente ao
músico Paulino Galvão que passava uma temporada em Fortaleza. Indo morar
no Rio de Janeiro, Paulino Galvão foi colega de orquestra do violinista
cratense Virgílio Arraes, um “spalla” da Orquestra Sinfônica do Teatro
Municipal do Rio de Janeiro. Ambos tocaram em outras orquestras e
trabalharam juntos em muitas ocasiões, inclusive em gravações de
cantores famosos brasileiros. Paulino Galvão requereu sua aposentadoria e
mudou-se para uma cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro,
deixando de tocar profissionalmente. Uma curiosidade: apesar de raro e
do valor incalculável, o violino jamais foi comercializado, após chegar
ao Brasil. Por isso passou, sucessivamente, de mãos em mãos, sempre a
título de presente ou doação.
Nas mãos de Virgílio Arraes

Virgilio Arraes
Passados alguns anos, Virgílio Arraes resolveu visitar Paulino Galvão
na cidade onde estava morando e manifestou desejo de adquirir o violino
que pertencera ao Padre Cícero. O músico aposentado respondeu que o
instrumento era valioso demais para ser vendido e por esta razão não o
venderia. Mas, na hora da despedida, pediu para o visitante aguardar um
pouco. Voltou ao interior da casa e retornou com o instrumento raro, e o
entregou a Virgílio Arraes, dizendo que era presente. Apenas pediu que
cuidasse bem dele.
Depois disso, o violino
do Padre Cícero, foi presenteado a várias pessoas. Nunca foi vendido. E
ainda hoje está bem guardado e bem conservado. Dias atrás, Joaquim
Pinheiro me deu a notícia de que – mantendo a tradição – o violino mais
uma vez trocou de mãos. Ele foi doado, por Virgílio Arraes, a uma
profissional da música erudita, no caso a Professora Yeldes Machado, que
vem a ser descendente do tabelião Antônio Teófilo Machado (Machadinho).
Saiba mais sobre Virgílio Arraes Filho

Damos a palavra a Joaquim Pinheiro: “O ex-proprietário do violino do
Padre Cícero, Virgílio Arraes Filho, merece comentário à parte. Nascido
no Crato, filho de Virgílio Arraes e de Marcionilia de Alencar Arraes,
surpreendeu sua mãe quando, aos oito anos, afinou e tocou o bandolim a
ela pertencente, sem nunca ter tido uma única aula de música. Diante do
prodígio, seus pais procuraram o maestro da banda municipal para que lhe
transmitisse noções da 1ª arte.
Ainda
criança, ouviu uma música no rádio e sentiu-se atraído pelo som do
violino, que jamais havia visto. Comunicou aos pais que não queria mais
tocar bandolim e sim violino. “Seu” Virgílio (proprietário da primeira
sorveteria do Crato – Sorveteria Brasil - e ex-prefeito de Campos Sales,
onde nasceu) mandou buscar o instrumento no Rio de Janeiro. Resolvido
um problema, surgiu outro: não havia professor no Cariri. A família
mudou-se para Fortaleza. Os mestres da capital cearense perceberam o
enorme talento do aluno e aconselharam o aluno brilhante ir estudar na
então capital brasileira, o Rio de Janeiro.
No
Rio de Janeiro a carreira foi meteórica: primeiro lugar no vestibular na
escola de música da UFRJ (1953), primeiro colocado no concurso público
para a orquestra do Teatro Municipal, onde foi o primeiro violonista
(“Spalla”) durante muitos anos. Músico da Orquestra Sinfônica
Brasileira, da orquestra da TV Globo e muitos outros feitos. Único
músico a tocar no cinquentenário (1959) e centenário do Teatro Municipal
do RJ. Em seu currículo constam performances nos mais importantes
palcos do mundo, inclusive com a orquestra do Royal Ballet de Londres,
onde foi aplaudido pela realeza Inglesa e recebeu cumprimentos pessoais
da princesa Anne, filha da Rainha Elizabeth II.
Participou de gravações com consagrados nomes da MPB, como Roberto
Carlos, Chico Buarque de Holanda, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Simone,
Fagner, Djavan, Dalva de Oliveira, Orlando Silva e muitos outros”.
Mestres da Cultura do Cariri
Dos onze Mestres da Cultura, selecionados recentemente pela Secretaria
de Cultura do Ceará, 6 (seis) são do Cariri. A conferir. De Juazeiro do
Norte: Mestre de Reisado Antônio, Mestre de Banda Cabaçal Expedito
Caboco e Siará, Mestre Cabaceiro. De Crato: Mestre de Luxeria em Lixo
Reciclável Aécio de Zaíra e o Mestre em Dança de Coco Dona Edite do
Coco. Da cidade Aurora foi selecionado o Mestre em Esculturas Gil
D’Aurora, que também fabrica rabecas. Eles são chamados de “tesouro vivo
da cultura popular cearense”.
O que são os Mestres da Cultura
Anualmente, a Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) seleciona e
diploma pessoas, grupos ou comunidades que realizam com maestria o
delicado trabalho de preservar as tradições culturais que nasceram e se
firmaram de forma espontânea no nosso Estado. Eles são chamados de
“Mestres da Cultura”. Entre as dezenas de mestres que existem nas
cidades e comunidades cearenses, a Secult realiza uma seleção via edital
desde o ano de 2004, quando este programa foi criado pelo ex-governador
Lúcio Alcântara. Os escolhidos para o título de Mestre da Cultura
recebem do Estado auxílio vitalício de um salário-mínimo por mês.
Um “Mestre da Cultura” de Barbalha
"Seu" Jaime
Jaime Arnaldo Rodrigues, “Seu” Jaime, 76 anos, possui um fábrica de
mosaicos na cidade de Barbalha. Hoje, as novas gerações só conhecem os
revestimentos de pisos feitos com ladrilho-cerâmico industrializado.
Mas, até a década 70 do século passado, os pisos no Cariri eram
revestidos com mosaicos artesanais. Existiam muitas fábricas de mosaicos
no Cariri. Todas desaparecem com a chegada do piso-cerâmico. O artesão
Jaime Arnaldo Rodrigues passou mais de 40 anos produzindo – na cidade de
Barbalha – mosaicos artesanais. E voltou a fabricá-los há poucos anos.
Por isso recebeu o título de “Mestre da Cultura” da Secult-Ceará.
Por que o mosaico tem valor?
Mosaicos fabricados em Barbalha
Alguns leitores podem perguntar: e qual a importância artística do
mosaico?. Embora não seja mais fabricado, o mosaico, além de ecológico,
possui valor artístico e histórico que merece preservação. Trata-se de
um ladrilho, feito de placa de cimento, areia, pó de mármore e pigmentos
com superfície de textura lisa. O mosaico é um dos traços da cultura do
Cariri que nos liga forte e imediatamente à península ibérica e seus
valores não apenas europeus, mas fortemente orientais, via universo
moçárabe. O mosaico vem do processo de fabricação onde a cura se dá na
água, sem qualquer processo de queima, que agrida o meio ambiente. Além
do mais, o mosaico possui alta resistência ao desgaste.
Tem um formato quadrado, de 20 x 20 cm, com acabamento liso e cores
firmes, além de ser um produto artesanal, hoje raríssimo. Dai a
importância de se preservar a produção do mosaico na cidade de Barbalha.
O antigo Palácio Episcopal Bom Pastor, residência dos bispos de Crato,
ainda conserva pisos de diversos desenhos de mosaicos, fabricados pelo
escultor italiano Agostino Balmes Odísio, que residiu em Juazeiro do
Norte entre 1934 a 1940.