Cariri: Caldeirão Cultural do Ceará
Banda cabaçal em Barbalha
De há muito, a região do Cariri é considerada o Caldeirão Cultural do Ceará. Esse "caldeirão" é o somatório dos saberes e celebrações
que formam o Patrimônio Imaterial da nossa região, com destaque para as
manifestações religiosas do povo caririense. Parte desse acervo veio de
milhares de romeiros que, atraídos pela herança espiritual do Padre
Cícero, fizeram de Juazeiro do Norte o sacrário de seus costumes e
tradições. Muitos deles se fixaram no Cariri, trazendo para cá suas
tradições populares, as quais, se juntaram ao caldo cultural que aqui já
existia desde o início de 1700, fruto da colonização portuguesa.
Este mês de junho que hoje finda, foi permeado das tradições católicas
mais autênticas do Cariri. Começou com a festa de Santo Antônio, em
Barbalha. Teve continuidade com as festas de São João e São Pedro. São
as três festas joaninas. Na abertura da Festa de Santo Antônio, o centro
histórico de Barbalha ficou cheio de grupos da tradição popular como as
bandas cabaçais, os penitentes, os reisados e as lapinhas, dentre
outros. No Cariri, essas festas são comemoradas desde a nossa povoação,
no início do século XVIII, mas também sofreram adaptações e acréscimos
por conta da imigração de contingentes populacionais oriundos da chamada
Nação Romeira que se espalha pelo interior do Nordeste.
Festa do Pau da Bandeira, em Barbalha
O patrimônio cultural do Cariri na visão de Oswald Barroso
Poucas pessoas definiram tão bem o patrimônio cultural do Cariri como
Oswald Barroso. É dele o conceito a seguir transcrito:
“Poucas regiões do Brasil têm, como o Cariri, uma natureza tão pródiga,
uma história tão rica e uma cultura popular tão diversificada. Festas,
folguedos, ritos, mitos, lendas, narrativas orais, artesanatos, mestres
brincantes e de ofício, santuários e sítios sagrados, marcos históricos e
conjuntos arquitetônicos, sítios naturais e redutos ecológicos,
tradições culinárias, passeios e belas paisagens, feiras e mercados,
enfim, um número infinito de possibilidades e atrações a serem
exploradas. Junte-se a isto uma vida intelectual e acadêmica em pleno
crescimento, com sólidas instituições públicas, universidades, artistas,
escritores e um plantel de profissionais técnicos e liberais da melhor
qualidade”.
O que é “Patrimônio Cultural Imaterial”
Reisado no bairro do Horto, em Juazeiro
Segundo a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e
Cultura– UNESCO, o “Patrimônio Cultural Imaterial” de um povo é
transmitido de geração em geração e é constituído de “práticas,
representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com os
instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais a eles associados –
que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos
reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.”
Os bens culturais de natureza imaterial estariam incluídos nas seguintes categorias: Saberes - conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades; Formas de expressão - manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas; Celebrações
- rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da
religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social; Lugares - mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e se reproduzem práticas culturais coletivas.
História: como surgiu a devoção a Nossa Senhora da Penha
Não é só em Crato, Campos Sales e Maranguape (no Ceará) que Nossa
Senhora da Penha tem grandes festas religiosas, já que é a padroeira
dessas cidades. A origem dessa devoção, comemorada entre nós no dia 1º
de setembro, surgiu quando Nossa Senhora apareceu a um agricultor
chamado Simão Vela, no oeste da Espanha, numa serra chamada Penha de
França., por volta de 1434. Da Espanha essa devoção passou para Portugal
e desta nação veio para o Brasil, na época colonial.
Em outras localidades brasileiras, a festa de Nossa Senhora da Penha
ocorre no dia 8 de setembro. É o caso de Vitória, capital do Estado do
Espírito Santo, cuja comemoração é considerada, pela Igreja Católica,
como a “terceira maior festa religiosa do Brasil”, ficando atrás somente
da comemoração que homenageia a Padroeira do Brasil, em Aparecida (SP),
e do Círio de Nazaré, em Belém, no Pará.
Nossa Senhora da Penha é ainda a padroeira da cidade de São Paulo e
Itapira (ambas em SP), Serra Talhada (PE) e Resende Costa (MG), dentre
outras.
E como essa devoção veio para o Cariri
A atual catedral de Crato remonta a uma humilde capelinha de taipa,
coberta de palha, construída – por volta de 1740 – pelo capuchinho
italiano, Frei Carlos Maria de Ferrara. Este frade foi o fundador do
aldeamento da Missão do Miranda, núcleo inicial da atual cidade de
Crato, criado para abrigar e prestar assistência religiosa às populações
indígenas que viviam espalhadas ao norte da Chapada do Araripe.
Em janeiro de 1745, conforme pesquisa feita pelo historiador Antônio
Bezerra, foi colocada numa das paredes da então capelinha de Nossa
Senhora da Penha uma pedra com histórica inscrição. Tratava-se do
registro da consagração e dedicação do pequeno e humilde templo, início
da atual catedral de Crato. A inscrição foi feita por frei Carlos Maria
de Ferrara, e nela constava que a capelinha fora consagrada a Deus Uno e
Trino e, de modo especial, a Nossa Senhora da Penha e a São Fidelis de
Sigmaringa, este último oficializado – no governo episcopal de Dom
Fernando Panico – como o Co-padroeiro de Crato.
Abaixo, o texto constante da inscrição rupestre, infelizmente desaparecida:
“Uni Deo et Trino
Deiparae Virgini
Vulgo – a Penha
S Fideli mission.º S.P.N. Fran, ci Capuccinor.m
Protomartyri de Propaganda Fide
Sacellum hoc
Zelo, humilitate labore
D. D.
Sup. Ejusdem Sancti.i Consocy F.F.
Kalendis January
Anno Salutis MDCCXLV”.
A devoção a Nossa Senhora das Dores

Podemos afirmar, com toda segurança, que a cidade de Juazeiro do Norte –
hoje conhecida em todo o Brasil, graças à figura do Padre Cícero Romão
Batista – teve seu início como fruto da devoção a Nossa Senhora das
Dores. Pois, a exemplo da maioria das cidades brasileiras de antanho,
Juazeiro do Norte também nasceu em torno de um templo católico. A
escritora Amália Xavier de Oliveira assim descreveu os primórdios desta
cidade, no seu livro “O Padre Cícero que eu conheci”:
“Ordenara-se Sacerdote o Pe. Pedro Ribeiro de Carvalho, neto do
Brigadeiro, porque filho de sua primogênita, Luiza Bezerra de Menezes, e
de seu primeiro marido, o Sargento-mor Sebastião de Carvalho de
Andrade, natural de Pernambuco. Para que o padre pudesse celebrar
diariamente, sem lhe ser necessário ir a Crato, Barbalha ou Missão
Velha, a família combinou com o novel sacerdote a ereção de uma
capelinha, no ponto principal da Fazenda, perto da casa já existente”.

A imagem primitiva de Nossa Senhora das Dores adquirida pelo Brigadeiro
A primeira imagem de Nossa Senhora das Dores, venerada na capelinha de
Joaseiro, foi adquirida pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro em
Portugal. E foi venerada como padroeira da Fazenda Tabuleiro Grande e,
posteriormente, pela povoação do “Joaseiro”, por cerca de 60 anos.
Zélia Pinheiro, escrevendo ¬ no opúsculo Sesquicentenário de Fé –
sobre a inauguração, em 19 de agosto de 1884, da nova capela de
“Joaseiro”, esta já construída pelo Padre Cícero, em substituição à
primitiva, edificada pelo Brigadeiro, narra: “(…) Continuava como
Padroeira Nossa Senhora das Dores e fora colocada no Altar a mesma
imagem trazida de Portugal para a Capelinha da Fazenda Tabuleiro Grande.
Era uma imagem em estilo bizantino, de madeira, muito bem esculpida,
tendo setenta e cinco centímetros de tamanho e permaneceu no Altar-Mor
até setembro de 1887, quando foi trocada pela imagem que até hoje está
lá”.