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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

SOLIDÉU - DR. MOZART CARDOSO DE ALENCAR.



Ruy Maranhão do Rego Barros, medalhão da Escola de Medicina do Recife, educado ali, em Colégio de Padres Jesuítas, muito religioso, foi contemporâneo do poeta e hospede da mesma pensão familiar, em Salvador, ao lado dos colegas Francisco Chaves Brasileiro, José Pimentel, Arlindo Teles,Machado Pontes e Osório Abath, nos três primeiros anos do curso de medicina.

Transcorria o aniversário do Francisco Chaves Brasileiro, o mais velho da turma, que estava sendo homenageado pelos companheiros.

Era um almoço lauto e festivo. Quando os cérebros se achavam impregnados pelo vinho, o Ruy extemporaneamente, começou a dissertar sobre cerimonias do solidéu, aquele barrete chato e roxo que o bispo usa sobre a tonsura. E dizia: o Bispo ao levantar-se pela manha, após persignar-se coloca o solidéu sobre a tonsura. Daí em diante, durante todo o dia, ao sentar-se a mesa para as refeições e após servir-se delas, ao persignar-se novamente , ele tira o solidéu. Tirar o solidéu aí, significa suspender e soltar sobre a tonsura o tal barrete escariante.

Na igreja, ao paramentar-se para celebrar, o bispo tira o solidéu. Estando sem a mitra, quando as cantoras bradam: gloria in excelsis Deu, o bispo tira o solidéu; quando vai dormir, o bispo tira o solidéu.

Mais de meia hora o Rui falou minuciosamente sobre esse ritual do solidéu. Calou-se. Fez-se profundo silencio. Ninguém deu uma palavra. O poeta, súbito, levanta-se, limpa a boca com um lenço, empertiga-se, como se fosse saudar o aniversariante, olha para todos, volta-se para o Ruy e lhe pergunta:

Ruy, você que está ao par
Dessas coisas lá do céu,
Quando o bispo vai cagar
Também tira o solidéu?

Também... só faltou isso. E o Ruy danou-se! Foi uma polvorosa.


3 comentários:

  1. Do Livro Doce de Pimenta da autoria do medico e escritor Dr. Mozart Cardoso de Alencar, a melhor obra literaria que conheci nos ultimos tempos.

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  2. É verdade, Morais. Passei um tempão, ontem, na agradável companhia de Dr. Dantes. Mente brilhante e glosador de mancheia. Esse mancheia ele usou nas suas estórias.
    Por causa disso, eu vou voltar a escrever. Vai ser tipo assim, "As coisas do Crato".
    Aliás, bem atrás o Vicelmo escrevia uma coluna no famoso "A Ação", com o título "As coisas". Era a que eu mais curtia, pela irreverência do sempre irreverente Antonio Vicelmo.
    Portanto, em sua homenagem, toda semana, as quintas, vou firmar uma coluna na Sanharol.
    O Sanharol é bom demais porque, entre outras coisas, fala de nossa vidinha. Eu adoro isto.

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  3. Obrigado Zé Nilton.

    E como eu sei um bocado de prosopopeias do Crato, prometo que cada causo que você contar eu conto outro na area de comentarios. Portanto, serão dois causos, o seu e o meu. Vamos começar com Chico Soares, Noventa, Melito, Incha Tetê, etc - voce é quem escolhe.

    Abraços.

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