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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


terça-feira, 30 de junho de 2015

Em jogo, a cabeça de Dilma - Por Ricardo Noblat

O escândalo em torno da roubalheira na Petrobras subiu a rampa do Palácio do Planalto onde despacham o ministro da Secretaria de Comunicação Social Edinho da Silva, o ministro-chefe da Casa Civil da presidência da República Aloizio Mercadante, e a presidente da República Dilma Rousseff.

Em outro front, bateu à porta do Instituto Lula, na capital paulista, onde costuma ser encontrado o ex-presidente.

De duas, uma. Ou o empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC, chefe do cartel de empreiteiras que roubou a Petrobras, é um delirante formidável ou fala a verdade.

Sua delação premiada contém detalhes capazes de causar inveja a bons romancistas. O que um delator conta à Justiça só vale se for provado. Se mentir, perderá o direito a uma pena menor. Qual a vantagem de mentir, portanto?

Pessoa disse que pagou propina a políticos de vários partidos e ao PT com dinheiro desviado de contratos superfaturados para a prestação de serviços à Petrobras.

Edinho, tesoureiro da campanha de Dilma no ano passado, tomou dinheiro de Pessoa. Bem como Mercadante, candidato ao governo de São Paulo em 2010. Bem como Lula, naturalmente, para a campanha que o reelegeu em 2006.

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Dilma viajou de cabeça quente ao encontro de Barack Obama. Por sinal, sempre que o então presidente José Sarney viajava, Fernando Henrique Cardoso repetia: “A crise viajou”.

O comentário não se aplica a Dilma. A crise não é somente ela. A crise tem mais a cara de Lula e do PT. De Lula que inventou Dilma. Dele e do PT que protagonizaram até aqui os maiores escândalos da história do país.

O mensalão é a mais ruidosa obra do primeiro governo Lula. Virou trocado a se comparar com a roubalheira na Petrobras. Dilma não é inocente no caso da Petrobras.

Quem foi ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da Petrobras, e sempre fez questão de cuidar dela, não pode ser inocente. Lula, porém, por obra, graça ou omissão é o responsável por tudo.

Dilma não passa de uma gerentona sem talento, arrogante, refratária a pessoas em geral e dona de ideias econômicas ultrapassadas. Está sobrando na espaçosa cadeira que ocupa.

Para agravar a desdita dela – ou melhor: a nossa – é vítima de algo tão nativo como a jabuticaba. Pois Lula inverteu a ordem natural das coisas e age como o criador que tenta agora destruir a criatura.

Lula elegeu Dilma para mandar no governo dela e sucedê-la depois de quatro anos. Dilma nem deixou que ele mandasse tanto, nem renunciou ao direito de concorrer ao segundo mandato.

Há mais de um ano, Lula só faz criticá-la - ultimamente, porque teme ser preso e acha que Dilma nada faz para defendê-lo. Até que há 15 dias, Lula ultrapassou todos os limites. Declarou guerra a Dilma. Ele e o PT.

Procede como um implacável adversário dela, enfraquecendo-a – e ao seu governo - por toda parte. Emite sinais de que, no limite, poderá entregar a cabeça de Dilma para preservar a sua.

Não duvidem.  Lula é amoral, e dá provas disso com frequência. Se necessário, negociará com o PMDB e outros partidos aliados do PT a substituição de Dilma por Michel Temer, o vice-presidente.

Em 2018, se quiser ou se puder, tentaria voltar ao lugar de onde jamais gostaria de ter saído. (Saudades do sanduíche de ovo servido a qualquer hora da madrugada!) Afinal, foi nele ou a partir dele que descobriu os luxos que só as grandes fortunas proporcionam.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dilma não passará a mão na cabeça de ninguém. Nem na de Lula - Por Ricardo Noblat


Na sexta-feira à noite, quando se reuniu com alguns ministros no Palácio da Alvorada para avaliar por antecipação o que a VEJA publicaria em sua mais recente edição, a presidente Dilma Rousseff perguntou diretamente a Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil, e a Edinho Silva, da Comunicação Social:

- Vocês têm alguma coisa a contar sobre a arrecadação de recursos para as minhas duas campanhas?

Edinho, que foi tesoureiro da campanha do ano passado, respondeu que não. Nada de novo havia para ser contado. E reafirmou sua inocência.

Mercadante, que recebeu dinheiro de Ricardo Pessoa, dono da UTC e da Constran, para sua campanha de 2010 ao governo de São Paulo, disse que estava tudo certo com a sua prestação de contas.

No sábado, pela manhã, Dilma voltou ao assunto e os dois ministros repetiram o que haviam dito.

Ela orientou o ministro da Justiça a dizer à imprensa que o governo deseja a apuração de tudo, e em seguida embarcou para os Estados Unidos.

Por mais que tenham sido doces as palavras do ministro da Justiça em relação aos seus dois colegas, ficou claro que eles só continuarão em seus lugares se nada de mais grave surgir que possa comprometê-los.

Dilma não passará a mão na cabeça de auxiliares que pisaram na bola. Não passará mesmo. Como nada fará para salvar seu antecessor no cargo caso a polícia bata à porta dele.

É por isso que Lula anda detonando Dilma. Está se sentindo abandonado por ela. Cobra que Dilma use a força do governo para impedir que ele sofra constrangimentos.

Coitado de Lula! Se fossem apenas constrangimentos o que ele enfrentará mais adiante...

domingo, 28 de junho de 2015

Delação de empreiteiro deixa mal governo e oposição - Por Ricardo Noblat

Governo e oposição foram dormir, ontem, sob o peso das primeiras informações vazadas pela imprensa a respeito da delação premiada de Ricardo Pessoa, dono das construtoras UTC e Constran, e apontado como o chefe do cartel das empreiteiras envolvidas com a roubalheira na Petrobras.

Pessoa contou que beneficiou com dinheiro de caixa dois de sua empresa a campanha da presidente Dilma Rousseff em 2014; a campanha de Lula em 2006; a campanha de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo em 2010; e mais cinco senadores e três deputados federais. O Ministério Público Federal vai investigar se as doações foram legais ou não.

Os beneficiados declararam o recebimento das doações à Justiça Eleitoral. E poderão dizer que não sabiam que o dinheiro era de caixa 2 e teve origem em corrupção. Só serão incriminados caso reste provado que eles sabiam, sim, e que agora mentem. É possível que Pessoa tenha fornecido provas irrecusáveis do que disse. Ainda não se sabe.

Sabe-se, por exemplo, que Mercadante, segundo Pessoa, recebeu dele R$ 250 mil. Em 2010, de fato, o atual ministro-chefe da Casa Civil da presidência da República recebeu exatamente os mesmos R$ 250 mil da UTC, declarados à Justiça. Pessoa revelou que doou à campanha de Dilma no ano passado R$ 7,5 milhões. Foi quanto a campanha declarou à Justiça.

A oposição não terá a chance de partir para cima do governo com gosto de sangue na boca porque dois dos seus membros mais ilustres foram citados por Pessoa como tendo sido contemplados com dinheiro de caixa dois – o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), e o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), ex-relator do processo de cassação de José Dirceu.

Os dois distribuíram notas garantindo que as doações foram declaradas e que nada tiveram a ver com dinheiro ilegal. Foi a mesma explicação fornecida por Mercadante e pelos tesoureiros das campanhas de Lula e de Dilma. Um ministro confidenciou ao O Globo o sentimento compartilhado por gente que cerca Dilma no Palácio do Planalto.

A avaliação dessa gente é que a Operação Lava-Jato tomou uma dimensão em que os responsáveis por ela perderam o controle. Quer dizer: se não tivessem perdido o controle, ela não alcançaria a dimensão que alcançou. Por dimensão, entenda-se, a suspeição levantada contra tantas e tão importantes pessoas.

Lula pensa a mesma coisa. Só que critica Dilma por não ter interferido para impedir que a situação chegasse aonde chegou.

No mais cruel dos dias para quem tem culpa no cartório, a roubalheira do Petrolão enlameia o gabinete presidencial - Por Augusto Nunes

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Neste sábado, os leitores de VEJA saberão que a lama do Petrolão chegou ao 3° andar do Palácio do Planalto e invadiu o gabinete presidencial. A sequência de informações assombrosas contidas na reportagem de capa começa com a lista dos favorecidos com boladas desviadas da Petrobras pelo empreiteiro Ricardo Pessoa e a quantia que coube a cada um. O desfile dos recém-chegados ao acervo de alvos da Operação Lava-Jato é aberto por Lula e Dilma Rousseff. As revelações que se seguem são suficientemente devastadoras para reduzir a mera garoa a tempestade provocada pela prisão do manda-chuva da Odebrecht.

Engaiolado em Curitiba desde novembro, quando acumulava a presidência da construtora UTC e a coordenação do clube de empreiteiras formado para saquear a estatal, Ricardo Pessoa animou-se a contar o que sabia graças ao acordo de delação premiada longamente negociado com os procuradores federais que investigam a roubalheira colossal. Homologado pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, o acerto resultou em cinco dias de depoimentos prestados em Brasília.

É improvável que outro participante do escândalo saiba tanto quanto Ricardo Pessoa. “As confissões deram origem a 40 anexos recheados de planilhas e documentos que registram o caminho do dinheiro sujo”, informa um trecho da reportagem de 12 páginas, dividida em 9 blocos, que expõe o que há de mais relevante no copioso material obtido por VEJA.

O mais recente lote de revelações impressiona pela fartura de detalhes e pelo cinismo do elenco. Os canastrões do faroeste à brasileira agiram com o desembaraço do bandidão depois do quinto uísque no saloon do vilarejo sem xerife. Já descobriram que ainda há homens da lei no Brasil. Vão ver o fim do filme numa cela de cadeia

A lista de políticos a quem Pessoa diz ter dado dinheiro obtido no PetrolãoDinheiro ilegal doado para candidatos dentro da lei é crime? É a primeira questão levantada pela delação premiada do dono da UTC

Ricardo Pessoa revela detalhes do esquema de corrupção da Petrobras e entrega a lista dos beneficiados com o dinheiro desviado: as campanhas eleitorais de Dilma e Lula, deputados, senadores e ministros do governo(VEJA.com/VEJA)

O engenheiro Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, tem contratos bilionários com o governo, é apontado como o chefe do clube dos empreiteiros que se organizaram para saquear a Petrobras e cliente das palestras do ex-presidente Lula. Desde a sua prisão, em novembro passado, ele ameaça contar com riqueza de detalhes como petistas e governistas graúdos se beneficiaram do maior esquema de corrupção da história do país. Nos últimos meses, Pessoa pressionou os detentores do poder - por meio de bilhetes escritos a mão - a ajudá-lo a sair da cadeia e livrá-lo de uma condenação pesada. Ao mesmo tempo, começou a negociar com as autoridades um acordo de delação premiada. o empresário se recusava a revelar o muito que testemunhou graças ao acesso privilegiado aos gabinetes mais importantes de Brasília. O Ministério Público queria extrair dele todos os segredos da engrenagem criminosa que desviou pelo menos 6 bilhões de reais dos cofres públicos. Essa negociação arrastada e difícil acabou na semana passada, quando o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou o acordo de colaboração entre o empresário e os procuradores.

VEJA teve acesso aos termos desse acerto. O conteúdo é demolidor. As confissões do empreiteiro deram origem a 40 anexos recheados de planilhas e documentos que registram o caminho do dinheiro sujo. Em cinco dias de depoimentos prestados em Brasília, Pessoa descreveu como financiou campanhas à margem da lei e distribuiu propinas. Ele disse que usou dinheiro do petrolão para bancar despesas de 18 figuras coroadas da República. Foi com a verba desviada da estatal que a UTC doou dinheiro para as campanhas de Lula em 2006 e de Dilma em 2014. Foi com ela também que garantiu o repasse de 3,2 milhões de reais a José Dirceu, uma ajudinha providencial para que o mensaleiro pagasse suas despesas pessoais. A UTC ascendeu ao panteão das grandes empreiteiras nacionais nos governos do PT. Ao Ministério Público, Pessoa fez questão de registrar que essa caminhada foi pavimentada com propinas. 

sábado, 27 de junho de 2015

Planalto monta linha de defesa frágil para Dilma - Por Josias de Souza



Ao confirmar que transferiu R$ 7,5 milhões do dinheiro roubado da Petrobras para a tesouraria da campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2014, o empreiteiro Ricardo Pessoa transformou a presidente da República numa personagem irreconhecível —uma mistura de administradora ingênua com candidata distraída. Na presidência do Conselho de Administração da Petrobras, Dilma não viu a ação dos assaltantes. No palanque eleitoral, usufruiu do produto do roubo.

Consumado o constrangimento, o Planalto montou uma linha de defesa precária. Nesse enredo, a presidente continuará fazendo pose de aliada dos investigadores. Repetirá que a Lava Jato só avança porque os governos do PT criaram as condições. Tomará distância do caixa de sua campanha, mas ecoará o discurso de que o dinheiro da eleição foi 100% legal. E seus auxiliares cuidarão de relaçar que as construtoras enroladas doaram verbas também a candidatos da oposição.

Essa linha de defesa é frágil porque exige que a plateia aceite Dilma como uma cega atoleimada. E supõe que a Procuradoria, o STF o próprio TSE aceitarão passivamente a conversão da Justiça Eleitoral em lavanderia de verbas mal asseadas. Se tudo funcionar como planejado, Dilma chega ao final do mandato como uma presidente de desenho animado.

Às vezes parece faltar-lhe o chão. Mas Dilma continua caminhando no vazio. Se reconhecer que está pisando em nada, despencará. Acha que, simulando que não se deu conta, conseguirá atravessar o abismo. Torce para que ninguém estranhe nada e para que não lhe façam muitas perguntas. Só não pode olhar para baixo.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O significado das palavras no país maravilhoso de Alice Odebrecht - Por Ricardo Noblat

Quando Alice atravessa o espelho, ela conhece um personagem das histórias que os avós contam aos netos desde muito tempo. Figura estranha, é um ovo, mas não gosta que o chamem de ovo. Atende pelo nome de Humpty Dumpty.

Alice para junto ao muro onde Humpty Dumpty está sentado e começam um papo bastante curioso. Palavras novas, que Alice nunca ouviu, como “desaniversário”, ou com novos significados que Humpty Dumpty lhes dá.

“Quando uso uma palavra”, diz Humpty Dumpty em tom levemente sarcástico, “ela significa exatamente aquilo que escolhi como significado, nem mais nem menos”.

“A questão é”, retruca Alice, “se você pode fazer as palavras terem significados tão diferentes”.

“A questão é”, replica Humpty Dumpty, “quem é o chefe, só isso”.

Humpty Dumpty tem inteira razão? A questão é só essa: quem é o chefe?

Adiante.

O que significa “sobrepreço”?

A Polícia Federal apreendeu na sede da Odebrecht, em São Paulo, um e-mail enviado pelo executivo Roberto Prisco Ramos para executivos da empresa, incluindo Marcelo Odebrecht, seu presidente.

No e-mail, cujo assunto é “sondas”, havia menção a sobrepreço.

A existência deste e-mail é uma das principais provas apresentadas pelo Ministério Público Federal contra o presidente da Odebrecht. Quer dizer que ele sabia das manobras do cartel de empreitras dentro da Petrobras e que participava diretamente delas.

Segundo o Dicionário Aulete, sobrepreço quer dizer preço cobrado acima da tabela ou do normal.

No Dicionário online de português quer dizer “valor exigido acima ou sobre o preço normal assinalado em tabela”

No Houaiss, preço cobrado além do que seria normal, ou do preço tabelado”.

É a língua que falam a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro.

Na língua particular dos advogados da Odebrecht, “sobrepreço” não passa de “uma expressão de mercado”. Nada a ver com preço cobrado além.

Adiante.

E o que significa "destruir?"

Houaiss: demolir; por no chão; eliminar; exterminar; destroçar; devastar; estragar; desfazer; extinguir; reduzir a nada.

O Aurélio concorda com o Houaiss.

A Polícia Federal, anteontem, apreendeu um bilhete manuscrito de Marcelo Odebrecht endereçado aos seus advogados, onde ele manda “destruir e-mail sonda”.

Advogados dele acusaram a Polícia Federal de querer “tumultuar o processo”. Argumentaram que “destruir”, no caso, não se referia à destruição de provas.

Destruir queria dizer "descontituir", "rebater" e "infirmar".

Sem dispor de advogados tão caros e talentosos como os que estão a serviço de Marcelo Odebrecht, o ex-deputado Carlos Margno Ramos, de Rondônia, envolvido na roubalheira da Petrobras, encontrou uma maneira bem mais barata de safar-se.

Ouvido pela Polícia Federal, disse que perdeu parte da memória. Justamente a parte que poderia lhe causar embaraços. Ou força-lo a mentir.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A solidão de Dilma - Por Ricardo Noblat

Pobre Dilma. Na última quinta-feira, Lula a criticou duramente, ao seu governo e ao PT. Disse que ela e ele estavam no “volume morto” e o PT, abaixo do volume morto.

Anteontem, voltou a bater no governo e no PT. Quanto a ele, se disse cansado, velho. Tem razão.

Fora o líder do governo na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT-CE), ninguém saiu em defesa de Dilma. Nem ela mesma.

Guimarães disse que Lula deveria ter feito as críticas no âmbito do governo e do partido. Para não fornecer munição aos adversários.

E Dilma reconheceu o direito de Lula criticá-la. Ordenou aos seus ministros que nada comentassem a respeito.

Para completar o quadro de solidão da presidente da República, a bancada do PT no Senado lançou uma nota de apoio a...A Lula, vítima de uma “campanha sórdida”, movida pelo “ódio”, apesar de ser “uma das raras e fantásticas lideranças que conseguem transcender os limites de sua origem social, de sua cultura e do seu tempo histórico".

Bonito, não?

Dilma está acuada pela Operação Lava Jato, o ajuste fiscal que se arrasta, as péssimas notícias sobre a economia, a rejeição popular e, agora, as críticas disparadas por Lula.

Não sabe como sair do buraco em que se meteu – a não ser dar tempo ao tempo e torcer pelo sucesso do ajuste.

À crise econômica soma-se a política. É grande o vazio de líderes. E num regimento presidencialista como o nosso, se o presidente não lidera... 

terça-feira, 23 de junho de 2015

O que Lula diz não bate com o que ele fez. Nem com o que Dilma faz - Por Ricardo Noblat

No dia em que Lula disse: “Hoje a gente só pensa em cargo, a gente só pensa em emprego, a gente só pensa em ser eleito e ninguém mais trabalha de graça”, a coordenação política do governo anunciou mais uma rodada de liberação de emendas parlamentares ao Orçamento e de distribuição de cargos em troca de votos para aprovação no Congresso do resto do ajuste fiscal.

O dinheiro das emendas e os cargos não contemplarão apenas o PT, é claro.  De resto, enquanto governou por dois mandatos, foi Lula que viciou o PT em cargos, empregos, eleições e trabalho pago. Mas a coincidência da crítica feita por Lula com a revelação das miçangas a serem usados pelo governo para seduzir o Congresso, confirma que o buraco é bem mais embaixo. Lula prega o que não fez e o que Dilma, sua criatura, não fará.

O mensalão foi uma maneira explícita, descarada de pagar a parlamentares para que votassem como o governo queria. Parte do dinheiro empregado na compra dos votos acabou desviada dos cofres públicos, segundo o

Supremo Tribunal Federal, cuja maioria dos ministros deve seu emprego a Lula e Dilma. A liberação de dinheiro para honrar emendas ao Orçamento faz parte da lei.

Nem por isso, junto com a ocupação de cargos por afilhados dos políticos, deixa de ser outra maneira de comprar votos. Uma maneira menos sem vergonha, digamos assim. Mas é só. O dinheiro das emendas deveria servir para a realização de pequenas obras nos redutos eleitorais de deputados e senadores. O governo está careca de saber que parte dele enriquece os autores de emendas e seus apaniguados.

Interessado, a se acreditar no que diz, em promover uma revolução no PT que se esclerosou, Lula poderia começar a refletir sobre como governar sem distribuir dinheiro e cargos.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Dilma é pesadelo do qual Lula não pode acordar - Por Josias de Souza


O governo Dilma Rousseff tornou-se uma espécie de latifúndio improdutivo que ninguém quer dividir. Num instante em que o Datafolha informa que apenas 10% dos eleitores aprovam a atuação da presidente, até Lula se afasta do alambrado. O criador refere-se à criatura como um conto do vigário em que ele também caiu.

Munido de pesquisas próprias, Lula teve um surto de óbvio. Em conversa com religiosos, disse que o prestígio da ex-supergerente “está no volume morto”. Mas Lula não enxerga um culpado no espelho. Ele se vê no rol das vítimas que Dilma puxa para o fundo. “O PT está abaixo do volume morto. Eu estou no volume morto.”

A taxa de reprovação de Dilma bateu em 65%, informa o Datafolha. Lula lava as mãos: “Gilberto [Cavalho] sabe do sacrifício que é a gente pedir para a companheira Dilma viajar e falar. Porque na hora que a gente abraça, pega na mão, é outra coisa. Política é isso, o olhar no olho, o passar a mão na cabeça, o beijo.”

A aversão a Dilma alastra-se inclusive pela base da pirâmide, de onde o PT costuma extrair mais votos. Entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, apenas 11% aprovam a presidente, enquanto 62% a rejeitam. Lula enxágua as mãos:

“Tem uma frase da companheira Dilma [na camanha presiodencial] que é sagrada: ‘Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa’. E mexeu. Tem outra frase que é marcante, que é a frase que diz o seguinte: ‘Eu não vou fazer ajuste, ajuste é coisa de tucano’. E fez. E os tucanos sabiamente colocaram Dilma falando isso [no programa de TV] e dizendo que ela mente. Era uma coisa muito forte. E fiquei muito preocupado.”

A ruína de Dilma, ilusão suprema, dá a Lula a sensação de que sua preocupação é útil.

Para 63% dos entrevistados do Datafolha, o ajuste fiscal de Dilma afeta sobretudo os mais pobres. E Lula, limpando o seu discurso de orador inocente: “Falar é uma arma sagrada. Estamos há seis meses discutindo ajuste. Ajuste não é programa de governo. Em vez de falar de ajuste… Depois de ajuste vem o quê?”

Deterioram-se também as expectativas dos eleitores. Para 73%, informa o Datafolha, o desempego irá aumentar no próximo período. Em fevereiro, pensavam assim 62% dos pesquisados. Para Lula, falta gogó à gestão Dilma. “Os ministros têm de falar. Parece um governo de mudos.” Irrita-se especialmente com o mutismo da Casa Civil. Eu disse “pelo amor de Deus, Aloizio [Mercadante], você é um tremendo orador. É certo que é pouco simpático…”

Todos são culpados pela crise, menos o criador do mito da gerentona infalível. A crise faz Lula insinuar que seu retorno seria algo restaurador em 2018. Mas um detalhe escapa ao sábio da tribo petista: assim como um ovo é algo que não pode ser desfritado pelo cozinheiro, Dilma é um pesadelo do qual Lula não tem como acordar.

domingo, 21 de junho de 2015

Depois de ter criado Dilma, Lula a destrói - Por Ricardo Noblat


A oposição foi incapaz de produzir um diagnóstico tão devastador do governo da presidente Dilma e da situação do PT. Todo o mérito cabe a Lula, segundo reportagem de Tatiana Farah e Julianna Granjeia publicada, hoje, em O Globo. Durante encontro com religiosos, Lula não poupou sequer ele mesmo.

Sua frase “Dilma e eu estamos no volume morto. O PT está abaixo do volume morto”, entrará certamente para a História da política recente do país como a mais emblemática do período de 12 anos e seis meses do PT no poder. Como Lula é um bom frasista, não se descarte a possibilidade de ele cometer ainda uma frase melhor.

A reunião de Lula com religiosos aconteceu anteontem, no Instituto Lula, em São Paulo. Contou com a presença de Gilberto Carvalho, ex-secretário da presidência da República no primeiro governo Dilma. Ligado aos chamados movimentos sociais, foi Gilberto que levou os religiosos para conversar com o ex-presidente.

Por sinal, a essa altura, depois da prisão dos presidentes das empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez, as duas maiores do país, e de novas revelações trazidas pelas edições de fim de semana das revistas VEJA e ÉPOCA, é possível que Lula viesse a admitir que não somente o PT está abaixo do “volume morto”, mas ele também.

O desabafo de Lula deve ter sido gravado. O que sugere isso é a citação de tantas frases com começo, meio e fim, além do colorido da fala costumeira de Lula. Ficará difícil para ele desmentir o que lhe foi atribuído. Quanto a Dilma... Só lhe restará o silêncio. E a indignação com o que disse seu criador.

Um dos momentos mais constrangedores para Dilma no desabafo de Lula é este, quase ao final do encontro do ex-presidente com os religiosos:

- Tem uma frase da companheira Dilma que é sagrada: “Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa”. E mexeu. Tem outra frase, Gilberto, que é marcante, que é a frase que diz o seguinte: “Eu não vou fazer ajuste, ajuste é coisa de tucano”. E fez. E os tucanos sabiamente colocaram Dilma falando isso (no programa de TV do partido) e dizendo que ela mente. Era uma coisa muito forte. E fiquei muito preocupado.

Ou seja: Lula endossou a crítica mais frequente feita pela oposição à Dilma. Reconheceu que ela mexeu no direito dos trabalhadores. E que mentiu ao dizer que não faria ajuste fiscal. De resto, batizou o governo Dilma de “governo de mudos”. E censurou “a companheira” por não viajar para defender seu governo. Injustiça! Dilma tem viajado muito.

Para ilustrar as dificuldades enfrentadas pelo PT e por ele, Lula citou uma pesquisa de opinião pública aplicada em parte do ABC paulista, justamente onde o PT nasceu.

- Acabamos de fazer uma pesquisa em Santo André e São Bernardo, e a nossa rejeição chega a 75%. Entreguei a pesquisa para Dilma, em que nós só temos 7% de bom e ótimo — comentou Lula.

Lula relembrou uma recente conversa que teve com Dilma – e ao fazê-lo diante de pouco mais de 30 pessoas, foi, no mínimo, desleal com Dilma. Não se revela conversa com presidente.

- Eu fiz essa pergunta para Dilma: “Companheira, você lembra qual foi a última notícia boa que demos ao Brasil?”. E ela não lembrava. Como nenhum ministro lembrava. Como eu tinha estado com seis senadores, e eles não lembravam. Como eu tinha estado com 16 deputados federais, e eles não lembravam. Como eu estive com a CUT, e ninguém lembrava.

Lula deu um tiro de bazuca no governo de sua companheira. Ele a criou. Ele a destrói.

sábado, 20 de junho de 2015

Marcelo Odebrecht para Lula e Dilma: “É para resolver essa lambança. Ou não haverá República na segunda-feira” - Por Marcelo e Otávio


Os presidentes da Andrade Gutierrez, Otávio, e da Odebrecht, Marcelo, presos pela operação que lava a jato a alma do Brasil

Revoltado com sua prisão, Marcelo Odebrecht ameaçou entregar Lula e Dilma Rousseff.

Antes de ser levado pela Polícia Federal na manhã de sexta-feira, segundo a Época, ele fez três ligações.

Uma delas para um amigo que tem interlocução com Dilma e Lula – e influência nos tribunais superiores em Brasília.

“É para resolver essa lambança”, disse Marcelo ao interlocutor, determinando que o recado chegasse à cúpula de todos os poderes. “Ou não haverá República na segunda-feira.”

Ui!

Nas últimas semanas, segundo fontes ouvidas pela revista, o presidente da Odebrecht teve encontros secretos com petistas e advogados próximos a Dilma e a Lula.

“Transmitiu o mesmo recado: não cairia sozinho. Ao menos uma dessas mensagens foi repassada diretamente à presidente da República. Que nada fez.

Quando os policiais amanheceram em sua casa, Marcelo Odebrecht se descontrolou.”

Que bom.

Antes mesmo de chegar à carceragem em Curitiba, ele estava “agitado, revoltado”, nas palavras de quem o acompanhava.

Ótimo.

Seu pai, Emilio Odebrecht, patriarca da família que ergueu a maior empreiteira da América Latina, já vinha tendo acessos de raiva com o avanço da Operação Lava Jato:

“Se prenderem o Marcelo, terão de arrumar mais três celas”, repetia ele. “Uma para mim, outra para o Lula e outra ainda para a Dilma.”

Perfeito. Estamos na torcida para não haver República do PT na segunda-feira.

O fim do 'grande demais para ser preso' - Por Mirian Leitão.


A operação Erga Omnes mostra que os investigadores da Lava-Jato não acham que exista alguém que seja grande demais para ser preso. Marcelo Odebrecht, presidente da Odebrecht, é talvez o mais importante empresário do país hoje. A empreiteira tem operações no Brasil e no exterior há três gerações, e não apenas obras das quais se fala muito ultimamente, como o porto de Mariel, mas até o aeroporto de Miami. Segundo os investigadores, a empresa teria pago propina a Paulo Roberto Costa.

No primeiro depoimento de Alberto Youssef, cujo áudio chegou a vazar pela internet, no ano passado, ele fala especificamente de reuniões com Carlos Farias, executivo da empreiteira que também está preso.

O presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, comandou a empresa e foi presidente do conselho de administração da Telemar, hoje Oi.

A operação Erga Omnes chegou à elite do empresariado brasileiro e se torna, desde a manhã de hoje, a mais profunda tentativa de combater a corrupção e é o fim da ideia de que uma pessoa pelo seu tamanho constrangeria a Justiça e a Polícia Federal.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Renan comemora decisão do TCU e Cunha defende análise das contas pelo Congresso DAIENE CARDOSO E ISADORA PERON - O ESTADO DE S. PAULO

Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, o TCU foi criado como linha auxiliar do Parlamento e é um órgão de assessoramento do Poder Legislativo
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), avisou nesta quarta-feira, 16, que o Congresso vai retomar, após 12 anos, o julgamento de contas presidenciais. O anúncio foi feito horas depois de o Tribunal de Contas da União (TCU), em decisão inédita, fixar prazo de 30 dias para a presidente Dilma Rousseff explicar pessoalmente, por ofício, irregularidades de R$ 281 bilhões no balanço apresentado pelo governo federal em 2014, entre elas as chamadas "pedaladas fiscais", no valor de R$ 37,1 bilhões.
Depois que vencer o prazo concedido a Dilma, os ministros do TCU, que estavam rachados entre a aprovação e a inédita reprovação das contas, vão dar o parecer final, que será encaminhado ao Congresso. Tradicionalmente, o Congresso ignora as decisões do TCU, como fez durante o governo Lula e em relação aos balanços do governo Collor. Pela primeira vez em 80 anos, as contas do governo podem ser reprovadas por causa de 13 distorções verificadas. A corte nunca adiou seu parecer para questionar diretamente o chefe do Executivo. A tradição é a aprovação, com ou sem ressalvas.
'Se a nossa prerrogativa é analisar contas, que analisemos', disse Cunha
'Se a nossa prerrogativa é analisar contas, que analisemos', disse Cunha
Cunha, que impõe na Câmara uma pauta de oposição ao governo, se reuniu na tarde desta quarta-feira com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para definir qual a melhor forma de fazer a votação: por sessão do Congresso ou apreciação de cada Casa. "As instituições têm de funcionar: se a nossa prerrogativa é analisar contas, que analisemos", justificou.
O peemedebista preferiu não comentar o posicionamento do TCU, mas lembrou que o tribunal foi criado como linha auxiliar do parlamento. "Ele (TCU) não é um tribunal de decisão, é um tribunal de assessoramento do Poder Legislativo para que a gente faça o nosso papel - que já devíamos estar fazendo - de apreciar contas", disse, acrescentando ser "obrigação constitucional" analisar o balanço. "Esse episódio vai produzir um ganho importante de a gente voltar ao tema."
Na mesma linha, Renan sinalizou que levará o julgamento adiante. "Acho que os poderes estão cada vez mais tentando cumprir a sua parte. Isso é muito bom para a democracia."
A oposição comemorou a decisão, por entender que a tese do impeachment foi reforçada. "A presidente está agora encurralada. Trata-se de um fato inédito que gera constrangimento para Dilma", afirmou o líder do PPS na Câmara Rubens Bueno (PR).
Mas, na avaliação do advogado-geral da União (AGU), Luis Inácio Adams, Dilma foi favorecida. "O governo ganha com essa decisão porque poderá apresentar o contraditório, poderá explicar as contas", disse, logo após o fim da sessão no TCU. "O governo tem condições de esclarecer tudo, como já tem esclarecido em relação ao tema que se convencionou chamar de pedalada fiscal."
Evidência. A pressão sobre o governo deve crescer. Ao longo de 30 dias, até que a defesa de Dilma seja recebida e analisada pelo TCU, a deterioração das contas públicas continuará em evidência no meio político e também no mercado financeiro. O acórdão foi aprovado pelos ministros por unanimidade, sob o argumento de que, frente às graves distorções verificadas, não há condições de apreciar as contas agora para envio ao Congresso, como ocorre todos os anos.
Os integrantes do tribunal justificaram que, diante da possibilidade de que as contas sejam rejeitadas, a decisão de ouvir Dilma dará "segurança jurídica" a uma futura opinião do TCU. O governo poderia anular na Justiça um eventual parecer pela reprovação, alegando desobediência ao princípio da ampla defesa.
Ao ler seu voto, o relator do processo, Augusto Nardes, fez duras críticas às manobras da equipe econômica do governo. "Se existe uma Lei de Responsabilidade Fiscal, ela tem de ser para todos, não só para o prefeito, para o governador. Tem de ser para a Presidência da República e a presidente tem de dar exemplo para os outros gestores", afirmou o relator ao fim da sessão. "Essa é a mudança de comportamento que todo o País quer", acrescentou.
A presidente não é obrigada a responder. Pode se pronunciar "caso manifeste interesse e entenda necessário". Mas no Palácio do Planalto, auxiliares presidenciais garantiam que ela responderá. Na decisão, o TCU cobra explicações. Os questionamentos são feitos diretamente a ela porque, conforme a Constituição, as contas são apresentadas pelo presidente da República. "As contas são dela", disse Nardes.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

TCU manobra para salvar a própria face e não desgastar tanto Dilma - Por Ricardo Noblat

Poucas horas antes de se tornar pública a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre as contas do governo de 2014, perguntei a um dos seus ministros:

- Existe a possibilidade de as contas serem simplesmente rejeitadas?

Assustado, o ministro respondeu antes mesmo da pergunta ter sido completada:

- É claro que não. Isso seria igual a depor a presidente.

O que aconteceu depois foi uma manobra para dar ao governo uma segunda chance de se explicar e, de quebra, salvar a face do tribunal, que deixará a impressão de ter sido rigoroso.

Por unanimidade, os ministros concederam ao governo um novo prazo de 30 dias para que justifique as irregularidades em suas contas detectadas por Augusto Nardes, ministro-relator do caso.

Só que, desta vez, a justificativa terá de ser assinada pela presidente da República, não mais por órgãos do governo.

Nunca antes na história de mais de 80 anos do TCU, um presidente da República foi convocado a dar explicações pessoais.

Nunca antes na história do TCU e na história do Congresso, as contas de um presidente foram rejeitadas.

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Se tivesse dependido unicamente do voto de Augusto, as contas de 2014 teriam sido rejeitadas, sim.

Ocorre que o governo conta com maioria de votos entre os oito ministros do TCU. E Augusto perderia a parada.

O TCU é um órgão de assessoria do Congresso. Seus ministros são indicados pelo Congresso e pelo governo. O que ele decide depende do Congresso para de fato valer.

Em seu voto, Augusto afirmou que irregularidades cometidas no ano passado em relação aos gastos públicos impedem a aprovação das contas de Dilma. Ao todo, ele listou 13 irregularidades e fez 25 recomendações.

- As contas não estão em condições de serem apreciadas em razão dos indícios de irregularidades. Não foram fielmente observados os princípios legais e as normas constitucionais - disse.

Entre as irregularidades, estão as chamadas "pedaladas" fiscais, que permitiram ao governo segurar despesas com ajuda dos bancos públicos que pagam, por meio de transferências, benefícios como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida.

- É preciso dar um basta nisso – decretou Augusto, apontando que em 2014 R$ 37 bilhões dessas dívidas foram escondidas. "A Lei de Responsabilidade Fiscal não pode ser jogada pela janela."

No total, as dívidas escondidas pelo governo em 2014 com bancos e fornecedores chegaram a R$ 256 bilhões.

2014 foi o ano da reeleição de Dilma. O governo gastou muito mais do que estava autorizado a gastar.

Em qualquer lugar isso configura um escândalo. Afinal, a eleição de 2014 não foi disputada pelos candidatos em igualdade de condições, como manda a lei.

Atos pessoais de Dilma, como a emissão de decretos aumentando despesas sem autorização do Congresso, também foram considerados ilegais por Augusto.

Assessores de Dilma confidenciam que ao fim e ao cabo, quem pagará pelos erros encontrados nas contas do governo não será a presidente, mas o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o ex-secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin.

Mas reconhecem que a decisão do TCU anunciada hoje causará um sério desgaste na imagem do governo e de Dilma, inclusive lá fora

Investidores estrangeiros se perguntarão: como confiar em um país cujos números oficiais são manipulados?

terça-feira, 16 de junho de 2015

Trinta e cinco anos depois de Lula, Dilma também paralisa a GM. Ou: A obra dos companheiros - Por Reinaldo Azevedo.

Só Luiz Inácio Lula da Silva havia conseguido antes este prodígio, no tempo em que era sindicalista e o Brasil crescia a taxas com as quais o governo petista não pode nem sonhar: parar toda a General Motors do Brasil. Isto mesmo: o governo Dilma, assim, iguala o seu feito ao do então sindicalista: paralisar toda a produção de uma montadora. No fim da década de 70, Lula se limitava a cobrar melhores condições de vida para os trabalhadores. No início da década de 80 — e o PT foi criado em 1981 —, as greves já faziam parte de uma estratégia de tomada de poder.

E eles tomaram. No 13º ano de governo, para corrigir a soma de besteiras feitas nos 12 anteriores, o país tem de mergulhar na recessão, com doses cavalares de juros, e a produção despenca. O emprego, naturalmente, vai junto.

Nesta segunda, as linhas de montagem de São José dos Campos (SP) e Gravataí (RS) da GM colocaram 6.200 metalúrgicos em férias coletivas. Os 5.500 da sede da empresa, em São Caetano, no ABC paulista, já estavam parados desde o dia 11. E nada indica que a situação vai melhorar. Os especialistas são unânimes em afirmar que os efeitos da recessão ainda não chegaram com toda força ao mercado de trabalho.

A economia brasileira caminha para uma séria encalacrada. A dificuldade que tem o governo para emplacar seu ajuste fiscal passa a impressão de que, sei lá, Joaquim Levy está sendo draconiano. O pior é que não está. Para equilibrar as contas, o superávit primário teria de ser muito maior. O resumo de um especialista como Celso Pastore, em entrevista à Folha, é o seguinte: a retomada do crescimento será muito mais lenta do que se imagina.

Mais uma vez, o mercado voltou a elevar a expectativa de inflação para este ano: 8,79%. O grupo que mais pressiona a taxa é o de alimentos, o que vai bater diretamente no bolso dos mais pobres: há cinco meses, ele sobe pelo menos dois pontos acima da renda nominal dos trabalhadores: no acumulado dos últimos 12 meses, ficou em 8,19%, contra uma evolução nominal da renda de 6,28%.

A política recessiva tem um efeito paralisante sobre o consumo, que era a âncora da festa petista. Segundo o Banco Central, o nível de endividamento das famílias é o mais alto em dez anos.

Qual é a alternativa? Pois é… Na entrevista que concedeu a Jô Soares, que foi ao ar na sexta-feira, a presidente Dilma falou de um país no qual, certamente, boa parte dos brasileiros gostaria de viver. Mas que só existe, hoje, no discurso e na imaginação dos petistas.

André Torretta, presidente da consultoria A Ponte Estratégia, especializada na classe C, informa ao Estadão que a água, luz e supermercado agora abocanham uma parcela bem maior da renda desse grupo. Por isso, a nova classe média vem cortando supérfluos: iogurte, bolacha recheada, hambúrguer na praça de alimentação e cinema aos fins de semana. O carro, conquistado em suaves prestações, não raramente fica na garagem por causa do combustível caro. A intenção de consumo das famílias está no menor nível em cinco anos.

O que impressiona, meus caros, é que nada disso se fez da noite para o dia. Os prudentes advertiam para a insustentabilidade do modelo petista desde o segundo mandato do governo Lula. Os visionários vislumbravam os pés de barro do arranjo desde o primeiro. Mas a soma de delírio de poder, má-fé e ideologia rombuda impediu que se fizesse a coisa certa.

Agora o que temos é isso aí. E a alternativa pode ser pior. Se o mercado perceber que o governo afrouxa no ajuste — e a pressão do desemprego pode levar a esse afrouxamento —, o país corre o risco de perder o grau de investimento. E, aí sim, a gente vai ver o que é dificuldade.

No início de sua carreira política, Lula parou a GM. No fim de sua carreira política, o modelo lulista… parou a GM. Antes, ele queria o poder; agora ele é o poder.


No dia l7 de Julho de 1950 o Crato Tênis Clube foi inaugurado. Os tempos eram outros.  Até o inicio da 
década de 70 do século passado para frequentar uma simples vesperal de Domingo teríamos que nos apresentar de terno e gravata, em trajes a rigor. Imaginemos uma festa social para escolha da "misse mirim" do ano, cuja a vencedora foi "Salambó" filha do saudoso, nobre e honrado professor e dentista Dr. Gutemberg Sobreira. 

Os meus colegas Colégio Estadual Anário, Severiano e Zé Leite Dias infucaram de ir, me seduziram, fui junto. A grana era pouca ou quase nada. 

Lá estávamos nós nos salões muito chique, Severiano parecia o apóstolo Judas, Anário com a calsa pegando marreca e o paletó com medo de bufa e o Zé Leito aleijado, torto, uma parte do terno no joelho e a outra no sovaco. O Anario havia colocado uma pedra de três quilos no bolso do paletó dele! Eu, vou deixar que eles me descrevam.

Pedimos quatro cubas montila ao Fuim, garçom muito conhecido do meio social a época. Ele nos serviu sob o olhar desconfiado do Paulo Frota, dono do restaurante do clube. Passamos a festa andando pelos corredores girando os cubos de gelo com o dedo. Nenhum dos quatro dançou na festa, ninguém se arriscou a levar uma mala. Uma aventura, hoje  não  me arrependo das estripulias que cometi, lamento por não puder fazê-las novamente. 

Estas lembranças objetivam resgatar a foto abaixo do "Conjunto do Hildegardo", pelo que representou para sociedade e para os jovens cratense, naquela que foi a fase mais dourada de nossas vidas. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

PT sem petismo - Por Ricardo Noblat

A história do PT guardará o nome de João Vaccari, ex-tesoureiro do partido, preso por envolvimento com corrupção na Petrobras.

Ele foi citado na abertura e no fechamento do 5º Congresso do PT, em Salvador.

Na quinta-feira à noite, lembrado por um militante, Vaccari ganhou três minutos de aplausos.

No sábado à tarde, elogiado por Rui Falcão, presidente do partido, foi de novo demoradamente aplaudido.

Nenhum dos 720 congressistas mencionou os nomes de José Dirceu, ex-ministro de Lula, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, ambos condenados como mensaleiros. Foi como se jamais tivessem existido.

Quanto à corrupção, assunto incômodo para petistas de todos os matizes, nada se discutiu no congresso.  Por isso ficou de fora da “Carta de Salvador”, documento com 3.834 palavras.

Um anexo à “Carta” reuniu as 13 resoluções aprovadas pelo congresso. Com 4.730 palavras, dedica à corrupção menos de 600. Dessas, 415 se ocupam do que os governos do PT fizeram para combatê-la.

As demais informam que o partido promoverá uma campanha de comunicação a respeito. E criará um grupo de "juristas progressistas" para refletir sobre o papel da Justiça “na criminalização da política, dos partidos e dos movimentos sociais”.

O congresso ensinou ou reforçou duas coisas: o PT está longe de morrer como querem seus adversários. E longe de voltar a se parecer com o que foi.

Congresso de partido por aqui se resume a aclamar seus líderes e a deliberar sobre o que eles propõem.

Em Congresso do PT, a discussão corre solta. Quem tem mais votos, leva. E, salvo Lula, os demais líderes não escapam a duras críticas.

Entenda-se por petismo um conjunto generoso de valores, princípios e boas ideias que foram desprezadas tão logo o partido chegou ao poder.

Ou antes, quando Lula concluiu que para o PT chegar lá precisava jogar conforme as regras do jogo. Para tal orientou Dirceu.

O partido fez concessões reprováveis. Desfigurou-se. Mergulhou na lama. E está ameaçado de perder sua base social.

O PT não está apenas “machucado” como admite Lula. Atravessa a pior crise dos seus 35 anos.

Reelegeu Dilma pelo pau do canto. E à custa de um formidável estelionato eleitoral. Nem Fernando Collor, deposto por corrupção, foi tão impopular quanto Dilma é.

Os 30% dos brasileiros que preferiam o PT se reduziram a 5%. O partido perdeu o monopólio das ruas desde 2013.

Parte dos petistas que não se reconhece no atual PT alimentou o sonho de que o 5º Congresso pudesse marcar o início da reconciliação entre o partido e o petismo. Pois sim...

Obediente a Lula, a tendência majoritária impôs sua vontade sem ceder em absolutamente nada. De resto, algemou o partido ao governo. Optou assim pela paralisia.

Foi o triunfo da insolência burra.

Envelhecido, o PT avisou aos eventuais interessados: “Quem quiser venha conosco pelo que fizemos até aqui, e que já foi muito”.

Não acenou para eles: “Quem quiser venha conosco pelo que já fizemos e pelo que ainda pretendemos fazer”.

A saber: isso, aquilo e aquilo outro. Tópicos de uma nova agenda capaz de atrair uma nova esquerda e de agradar aqueles à procura de uma ideologia.

Na véspera da instalação do congresso, a propósito de meios para financiar campanhas, Jaques Wagner, ministro da Defesa, disse que o PT não é melhor do que os outros. Portanto, não deve recusar dinheiro de empresas privadas.

Ora vejam! O PT que há 12 anos se apresentava como um partido diferente dos outros suplica, agora, para ser tratado, pelo menos, como igual aos outros.

sábado, 13 de junho de 2015

Além da bandeira mais bela e do hino mais bonito do mundo, o Brasil também tem o maior time de corruptos de todos os tempos.

Entre tantas outras tolices patrioteiras, nossas crianças aprendem na escola que o Brasil tem o hino mais belo do mundo (muitíssimos acordes acima da Marselhesa) e a bandeira mais bonita do mundo, embora ninguém se arrisque a sair por aí combinando camisa amarela com calça verde e paletó azul. O que esperam os professores de ufanismo para ensinar à garotada que, desde a descoberta do Petrolão, o país pode orgulhar-se de também ter fecundado o maior time de corruptos da história?

Ao contrário da bandeira e do hino, trata-se de uma hegemonia incontestável. Desde o Dia da Criação, nenhuma outra quadrilha havia ultrapassado a barreira do bilhão de dólares. A turma do Petrolão foi a primeira - e usando como gazua uma única empresa dominada pelo partido no poder, o que torna ainda mais impressionante a proeza consumada pelos saqueadores da estatal. A ladroagem planetária na Fifa, por exemplo, mal passou dos 150 milhões de dólares. Sozinho, o ex-gerente Pedro Barusco roubou 200.

Lula tem razão: com o Brasil Maravilha ninguém pode - pelo menos no campo da delinquência. Em nenhum lugar do mundo existiu (e dificilmente existirá) outro ajuntamento de corruptos capaz de fazer o que fez, protegido pela mão amiga do governo lulopetista, nosso timaço de incapazes capazes de tudo.

Isso é que é São João - Por A. Morais

Estamos a 10 dias do São João, a festa mais tradicional dos nordestinos. Para que você possa ir se exercitando e se preparando para o “tirinete”, aí está um pequeno ensaio. Veja como é que se dança. Parece até um beija-flor peneirando no ar. Observem bem esta danada do vestido encarnado.

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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Petrobrás causa mal-estar com os EUA - Por CLÁUDIA TREVISAN - O ESTADO DE S. PAULO

Investigada pela Justiça americana, estatal foi incluída no Fórum de CEOs Brasil-EUA, enquanto empreiteiras foram excluídas
WASHINGTON - O governo brasileiro incluiu a Petrobrás no Fórum de CEOs Brasil-Estados Unidos, o que provocou desconforto do lado americano. Além de estar no centro da Operação Lava Jato, a estatal é investigada nos EUA pelo Departamento de Justiça e pela instituição que regula o mercado acionário. Em compensação, Brasília excluiu do fórum três empreiteiras investigadas no mesmo escândalo: Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Odebrecht.
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A nova composição do grupo ainda não foi anunciada oficialmente, mas já deverá estar em vigor na reunião que o grupo terá em Brasília na próxima semana, com participação da secretária de Comércio dos EUA, Penny Pritzker, e a responsável na Casa Branca por relações econômicas internacionais, Caroline Atkinson. Os representantes do governo brasileiro serão o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e do Desenvolvimento, Armando Monteiro.

Segundo uma fonte que acompanha de perto o relacionamento bilateral, o governo dos EUA manifestou perplexidade com a inclusão da Petrobrás no grupo. Outra fonte disse que o lado americano teve dificuldade em entender a lógica de retirar as empreiteiras investigadas na Lava Jato e incluir a companhia que está no centro do escândalo de corrupção.
Mas a decisão final sobre a escolha dos CEOs é do governo de cada país e a presidente Dilma Rousseff insistiu na manutenção da Petrobrás. Os americanos preferiram não se opor e interpretaram a decisão como um passo do Brasil no esforço de recuperar a credibilidade da companhia.
Além disso, o setor de petróleo e gás é uma das áreas promissoras na relação econômica bilateral e a companhia é vista como potencial cliente ou parceira de empresas americanas.
A Petrobrás será a única estatal no Fórum de CEOs, estabelecido com o objetivo de reunir representantes do setor privado do Brasil com negócios nos Estados Unidos e vice-versa. Criado em 2007 pelos então presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, o grupo é integrado por 12 dirigentes empresariais de cada país. 
A missão do fórum é fazer recomendações aos governos sobre aspectos econômicos e comerciais da relação bilateral. No encontro de Brasília serão discutidas propostas a serem encaminhadas aos presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama durante a visita oficial que a brasileira fará a Washington nos dias 29 e 30. 
O lado brasileiro sustenta que a retirada das empreiteiras e a inclusão da Petrobrás integram um processo mais amplo de renovação do fórum. Além de Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, deverão sair do grupo as companhias Vale, Suzano, Votorantim e o banco Safra. Entram Petrobrás, Ambev, Bradesco, Dasa, Eurofarma, JBS e Kroton Educacional. Permanecem Coteminas, Cutrale, Embraer, Gerdau e Stefanini. 
Mas a manutenção dos dirigentes das empreiteiras era politicamente insustentável em razão da Operação Lava Jato, avaliaram as fontes ouvidas pelo Estado. Como todas as empresas do lado brasileiro, as três construtoras integravam o fórum desde sua criação, em 2007. Delas, a Odebrecht é a que tem maior presença nos EUA, onde está desde 1990. A companhia é responsável por várias obras de construção na Flórida e no Texas, entre os quais o terminal norte do Aeroporto de Miami. 
Os Estados Unidos estabelecem critérios para a seleção dos dirigentes empresariais que integram o fórum, escolhidos para mandatos de três anos. No Brasil, não há um período claro para renovação nem requisitos determinados para a nomeação. “É no dedômetro”, disse outra fonte.
Espionagem. O último encontro do Fórum de CEOs Brasil-Estados Unidos ocorreu em março de 2013, em Brasília. A reunião seguinte estava prevista para outubro daquele ano, em Washington, no âmbito da visita de Estado que a presidente Dilma Rousseff faria aos Estados Unidos. A presidente, no entanto, cancelou a viagem depois da revelação de que a Agência de Segurança Nacional (NSA) havia espionado comunicações suas, da Petrobrás e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Escolhidos em agosto de 2013, os CEOs americanos nunca chegaram a se reunir com seus pares brasileiros, já que a relação entre os dois países ficou virtualmente congelada com a crise gerada pela atuação da NSA. A visita de Dilma aos Estados Unidos no fim do mês será o mais forte símbolo de normalização do relacionamento entre os dois países.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O PT treme de novo - Por O Estadão


Em 2005, Duda Mendonça confessou ter recebido do PT 5 milhões de dólares por debaixo do pano, dinheiro depositado em contas bancárias no exterior. Era o começo do mensalão. Agora, empresários admitem ter pago 150 milhões de reais em propina ao PT e a aliados. É o início do petrolão

Augusto Ribeiro de Mendonça Neto: ele confessou à PF ter pago 150 milhões de reais de propina para manter contratos com a Petrobras – e disse que parte desse dinheiro foi abastecer o caixa eleitoral do PT(Leo Pinheiro/Valor/VEJA.com)

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o primeiro a fazer acordo, revelou como funcionava a quadrilha dentro da estatal, as vinculações partidárias dos criminosos e a identidade dos empreiteiros envolvidos. Depois dele, foi a vez de o doleiro Alberto Youssef apresentar o nome de aproximadamente cinquenta políticos que receberam propina, entre deputados, senadores, governadores e ministros. O mosaico do golpe bilionário aplicado contra a Petrobras começou a ganhar forma a partir das informações, das pistas e das provas fornecidas pelos dois delatores. Na semana passada, o juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, divulgou um conjunto de depoimentos prestados por executivos da empresa Toyo Setal, uma das fornecedoras de serviços à Petrobras, que acrescentam ao caso ingredientes com imenso potencial de destruição. Segundo esses relatos, o PT não só é apresentado como o responsável pela montagem e pela operação do esquema de corrupção na estatal como também se nutriu dele. E ainda mais grave: dinheiro da corrupção pode inclusive ter ajudado a eleger a presidente Dilma Rousseff.

Em 2005, o marqueteiro Duda Mendonça assombrou o país ao revelar a uma CPI do Congresso os detalhes da engenharia criminosa montada pelo PT para pagar as dívidas da campanha presidencial de Lula. Contratado pelo partido para cuidar da propaganda eleitoral de 2002, Duda recebeu parte do pagamento - 5 milhões de dólares - em depósitos clandestinos no exterior. Era o início do até então maior escândalo de corrupção da história. Sob os holofotes do Congresso, Duda mostrou extratos, ditou o nome dos bancos estrangeiros e os valores ocultos pagos lá fora. A história do partido mudaria para sempre desde então. Seus líderes - definidos pelos ministros do Supremo Tribunal Federal como "profanadores da República" - foram julgados, condenados e enviados à cadeia. No auge da crise, o PT temeu sucumbir à gravidade dos seus pecados, mas resistiu, reelegeu Lula, elegeu e reelegeu Dilma Rousseff, mas, ao que parece, não aprendeu nada com o susto do mensalão.

Em acordo de delação premiada, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, um dos executivos da japonesa Toyo Setal, confirmou que participava de um cartel de empresas que comandava as obras da Petrobras e, em contrapartida, entregava uma parte de seus ganhos aos partidos do governo - exatamente como disseram o ex-diretor Paulo Roberto e o doleiro Youssef. No caso da empresa japonesa, o "acerto" era feito com o diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque. Militante petista, Duque foi alçado ao posto por indicação do mensaleiro José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, atualmente cumprindo pena de prisão por corrupção. Duque seria o responsável por coletar a parte do PT junto às empreiteiras que integravam o chamado "clube" do bilhão. Era ele também que decidia os valores que deveriam ser repassados diretamente ao partido. "Os pagamentos se deram de três formas: parcelas em dinheiro, remessas a contas indicadas no exterior e doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores", declarou o empresário. Definidos os porcentuais e a metodologia de distribuição, os detalhes eram combinados com o tesoureiro do PT, João Vaccari. É desse trecho do depoimento que eclode uma constatação de estremecer: o delator confirmou que a Toyo Setal enviou parte do dinheiro roubado da Petrobras ao caixa eleitoral do PT, simulando uma doação legal.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

'Estamos no mesmo saco, eu, o Lula, a Dilma', diz Dirceu - Por RICARDO GALHARDO - O ESTADO DE S. PAULO




Ex-ministro critica postura do ex-presidente e faz alusão à Lava Jato

Passados 10 anos da eclosão do mensalão, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, condenado a 7 anos e 11 meses de prisão por corrupção ativa, não esconde a mágoa em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à presidente Dilma Rousseff. 

Em conversa com amigos na semana passada, Dirceu usou a palavra “covardia” para se referir à postura que considera omissa de Lula e Dilma durante todo o processo do mensalão. Omissão que, segundo ele, se repete agora, em relação à Operação Lava Jato, na qual Dirceu é investigado, e faz com que todos os petistas condenados ou não, inclusive o ex-presidente e a atual, carreguem a pecha de corruptos. 

“De que serve toda covardia que o Lula e a Dilma fizeram na ação penal 470 e estão repetindo na Lava Jato? Agora estamos todos no mesmo saco, eu, o Lula, a Dilma”, disse Dirceu, segundo relatos colhidos pela reportagem.

Durante uma década Lula se esquivou de fazer publicamente a defesa dos correligionários envolvidos no esquema de corrupção que, segundo o Supremo Tribunal Federal, serviu para comprar apoio parlamentar ao governo do PT. 

Até o julgamento, em 2013, alegava que preferia esperar a decisão do Supremo. Depois colocou o assunto de lado, apesar de todos pedidos para que desse ao menos uma palavra de solidariedade aos companheiros presos.

Aos amigos com quem falou na semana passada, Dirceu disse desconhecer as razões de Lula e fez uma ressalva ao dizer que o ex-presidente não faz “nem a defesa dele mesmo”. 

domingo, 7 de junho de 2015

Movimento no Congresso busca dividir receitas da União com governos regionais - Por RICARDO BRITO - O ESTADO DE S. PAULO

BRASÍLIA - Diante da baixa popularidade da presidente Dilma Rousseff, que atravessa uma crise política e econômica, um movimento suprapartidário passou a defender a mudança de uma série de leis e até da Constituição para reduzir a influência da União sobre a gestão dos recursos públicos no País. A intenção do grupo é aprovar, até setembro, propostas no Congresso que aumentem a fatia das receitas repassada pela União a Estados e municípios ou, pelo menos, impedir que o governo federal permita a criação de novas despesas para serem bancadas pelos governos regionais.

A articulação é patrocinada pelos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), mas envolve senadores, deputados, governadores e prefeitos de partidos da oposição e até da base, inclusive do PT. Participam dessa discussão os ex-governadores tucanos José Serra (SP) e Antonio Anastasia (MG), a senadora e ex-prefeita paulistana Marta Suplicy (sem partido), o senador e ex-ministro de Dilma Fernando Bezerra (PSB), entre outros.

Desde março, comissões e grupos de trabalho começaram a ser criados nas duas Casas Legislativas para tentar aprovar as alterações nas leis com o objetivo de alavancar candidaturas de aliados nas eleições municipais do próximo ano e também de candidatos a governos estaduais em 2018. Na próxima terça-feira, por exemplo, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), estará na Câmara para debater o pacto.

As mudanças visam também a garantir condições para a retomada dos investimentos de Estados e municípios sem a necessidade de aportes do governo, como vinha ocorrendo desde gestão Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação do grupo é que, no momento de ajuste fiscal, a União não terá mais capacidade para emprestar recursos ou subsidiar ações nos próximos anos e os entes regionais terão de procurar outras formas de se financiar.

“Politicamente, é o único momento de aprovarmos essas propostas. Esse é o momento de fragilidade do Executivo. Na hora em que ele voltar a se fortalecer, ficaremos novamente à míngua”, afirmou o presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, um dos principais entusiastas e defensores da mudança na redistribuição de recursos.

Contribuições. Parlamentares já listaram mais de 50 proposições legislativas, entre projetos de lei e propostas de emenda à Constituição (PEC), para irem à votação. Uma das principais demandas é mudar a lei para determinar que recursos de contribuições passem a ser repartidos com Estados e municípios. Atualmente, toda essa verba fica nos cofres da União, ao contrário dos impostos, como o Imposto de Renda e o Imposto sobre Produtos Industrializados, que são repartidos com os governos regionais.

De acordo com dados do Tesouro Nacional, as duas principais contribuições, a Cofins e a CSLL, responderam no ano passado por R$ 261,3 bilhões da arrecadação do Executivo federal. A título de comparação, a União transferiu R$ 210,1 bilhões em 2014 para Estados e municípios.

A queixa desses entes regionais é que, nos últimos anos, o governo reduziu proporcionalmente a participação dos impostos no bolo tributário e aumentou somente a presença das contribuições. “Esta proposta é uma das primeiras que vai à votação”, afirmou o senador petista Walter Pinheiro (BA), presidente de uma comissão designada pelo presidente do Senado destinada a aprimorar o pacto federativo. Um assessor próximo de Renan admitiu ao Estado que a mudança no rateio dos recursos das contribuições é uma das prioridades do peemedebista.

Parlamentares também defendem que, se o governo reduzir alíquotas de impostos que tenham repercussão nos cofres municipais e estaduais, caberá à União arcar com a diferença. A política de desoneração foi adotada pelo governo Lula em 2008 para reduzir os efeitos da crise internacional e permaneceu até o fim do primeiro mandato de Dilma.

Contudo, se por um lado estimulou a compra de carros, geladeiras, fogões e máquinas de lavar, a iniciativa federal causou uma diminuição de R$ 117 bilhões em repasses ao Fundo de Participação dos Municípios em sete anos, segundo a CNM.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Lula perdeu a utilidade - Por Reinaldo Azevedo


Coitado do Lula! Não fosse ele absolutamente indigno da minha pena porque muito poderoso, eu estaria aqui a lamentar a sua sorte. Afinal de contas, o homem armou a reação à esquerda contra a presidente Dilma Rousseff, e o tiro saiu pela culatra. Depois de incentivar os senadores Paulo Paim (PT-RS) e Lindbergh Farias (PT-RJ) a liderar um movimento anti-Dilma, o Babalorixá de Banânia resolveu recuar e, agora, decidiu pedir que os esquerdistas, seus amigos, tenham mais tolerância com ela.

Que coisa, hein? Primeiro ele colabora para demonizar a presidente da República e depois procura assoprar, afirmando não ser bem assim… Eu fico muito impressionado ao constatar como Lula perdeu a biruta. Comete, hoje em dia, erros incompreensíveis, que não cometeria há alguns anos. É fadiga de material. Lula perdeu a utilidade.

E por que é assim? Porque o PT jamais foi governo em tempos de escassez. O partido existe e se formou para denunciar injustiças reais ou imaginárias, pouco importando se as respostas que oferecia à sociedade eram ou não viáveis.

Tomem como exemplo o fator previdenciário. O chefão petista foi presidente da República por longos oito anos. Não mexeu na questão. Dilma governou por mais quatro. Também ignorou o tema. Um deputado da base aliada decidiu propor a extinção do mecanismo. Como essa tal base aliada está notavelmente desarticulada, a proposta passou na Câmara.

Muito bem! A única coisa razoável, segundo a matemática, que a presidente tem a fazer é vetar a medida. Ocorre que Lula e os petistas decidiram transformar o que é uma questão contábil num tema de natureza moral. Até porque, com o baixo pragmatismo que sempre os orientou, argumentam que o fim do fator previdenciário vai começar a onerar o governo do sucessor de Dilma. Sendo assim, que mal tem?

Sobra, no entanto, um pouco de bom senso à presidente e, caso não mude de ideia, ela está mesmo disposta a vetar a mudança se for aprovada também no Senado. Agora Lula se diz preocupado com os desdobramentos. É mesmo? Justamente ele, que está na raiz da reação ao possível veto? Justamente ele, que, segundo o senador Paulo Paim, estimulou os companheiros do partido a votar contra a orientação do governo?

Lula foi, nos tempos da abastança, o Midas da política. Parecia transformar em ouro tudo aquilo em que tocava. Como as circunstâncias da economia internacional eram favoráveis ao país — e até as da crise mundial o foram —, ele podia pontificar à vontade. Aquela realidade não existe mais. O cenário é adverso. E os erros que se acumularam em 12 anos de gestão cobram agora a sua fatura.

Momentos assim pedem realismo do governante ou do homem de estado, ainda que o preço seja a impopularidade, momentânea ou nem tanto. Não, senhores! Lula não está preparado para isso. Ele só sobe prometer e anunciar generosidades. E julgou que conseguiria, a um só tempo, apoiar Dilma e lhe fazer oposição. Viu, no entanto, que isso não é possível. Ou por outra: pouco importa se a oposição que ele lidera está à esquerda; o fato é que ele colabora para gerar a sensação de que, “com esse governo, não dá”.

Ocorre que isso, obviamente, não é bom também para o seu partido. Para a infelicidade de Lula, aos olhos do eleitorado, Dilma é o PT, e o PT é Dilma, o que, convenham, é um fato. O ex-Poderoso Chefão tentou a quadratura do círculo, que consistiu em se opor às medidas de ajuste propostas pela presidente, porém preservando-a da hostilidade popular. A operação, obviamente, era impossível. Ademais, ninguém precisa de petistas para enxovalhar o governo nas ruas. A população faz isso por conta própria.

Lula, em suma, resolveu brincar de oposição, acreditando que isso lhe acarretaria, e ao partido, algum bem. O tiro saiu pela culatra. Os que se opõem ao petismo há mais tempo rejeitam a sua companhia no terreno da oposição. Os que se opõem ao petismo há mais tempo cobram de Lula que tenha vergonha na cara e saia em defesa de Dilma. Os que se opõem ao petismo há mais tempo repudiam seu oportunismo. Afinal, um criador não abandona assim a sua criatura. O senhor Luiz Inácio Lula da Silva não venha agora posar de doutor Victor Frankenstein, arrependido de ter dado à luz a sua criação.

Tenha a decência, Lula, de apoiar o governo que você ajudou a eleger e a reeleger. Você não é bem-vindo, Lula, na oposição

terça-feira, 2 de junho de 2015

Renan e Cunha lançam projeto para que nomes da Petrobras sejam aprovados pelo Senado.

Regras valem para estatais e bancos públicos; ministros ficarão proibidos de participar de Conselhos de Administração

Os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), apresentaram nesta segunda-feira o anteprojeto da Lei das Estatais, que dá mais transparência à gestão das estatais e bancos públicos.

A principal inovação é que os presidentes de empresas como Petrobras, Caixa, Correios, BNDES e Banco do Brasil sejam aprovados pelo Senado.

Com isso, o Senado ganha poder de aprovar a indicação destas grandes empresas, sejam elas de economia mista ou de empresa pública. Isso quer dizer que eles passarão por uma sabatina e depois pela votação, sendo que o voto é secreto.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

II Padrino! - Por Ricardo Noblat


Em um sábado de junho, há exatos 10 anos, depois de tomar uns tragos a mais na Granja do Torto, uma das residências oficiais do presidente da República em Brasília, Lula falou em renunciar ao mandato.

Acabara de saber que o publicitário Marcos Valério, um dos operadores do mensalão, ameaçava envolve-lo no escândalo. A informação vazou no fim da tarde. Soube por um ministro. E a postei no meu blog.

Aquela foi a primeira vez que Marcos Valério pediu dinheiro ao governo para não contar o que sabia.

Avisado em São Paulo onde passava o fim de semana, José Dirceu, na época ministro-chefe da Casa Civil da presidência da República, voou às pressas a Brasília com a missão de apascentar Lula e de garantir o silêncio de Valério.

Conseguiu. Mais tarde, o dinheiro pedido acabou entregue.

No segundo semestre de 2006, Valério voltou a atacar. Procurou o senador Delcídio Amaral (PT-MS), então presidente da CPI dos Correios que investigava o caso do mensalão.

Queixou-se de estar quebrado. Acumulava dívidas sem poder honrá-las. Seus bens haviam sido bloqueados. Caso não fosse socorrido, daria um tiro na cabeça ou faria com a Justiça um acordo de delação premiada.

Delcídio pediu uma audiência a Lula. Recebido no gabinete presidencial do terceiro andar do Palácio do Planalto, reproduziu para o presidente o que ouvira de Valério.

Em silêncio, Lula virou-se para uma das janelas do gabinete que lhe permitia observar parte da vegetação do cerrado. O silêncio durou menos do que pareceu a Delcídio. Lula estava fisicamente abatido.

Então perguntou ao senador: "Você falou com Okamoto?" Delcídio respondeu que não. E Lula mais não disse e nem lhe foi perguntado. Seria desnecessário.

Paulo Okamoto era uma espécie de tesoureiro informal da família Lula. Hoje, é o presidente do Instituto Lula, local de despacho do ex-presidente em São Paulo. Delcídio, que nega o encontro com Lula, falou com Okamotto. E bastou.

Naquele mesmo ano, Valério gravou um vídeo com partes da história do mensalão que comprometem Lula. Fez quatro cópias. Deu três a Renilda, com quem era casado. E mandou uma para quem mais poderia se interessar por ela.

Ordenou a Renilda que entregasse as três copias aos jornais O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo caso ele desaparecesse ou fosse morto.

Faltou alguém em Nuremberg! Faltou alguém na denúncia oferecida pela Procuradoria Geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a "organização criminosa" que tentou se apossar do aparelho do Estado.

Desviou-se dinheiro público. Comprou-se o apoio de partidos. Subornaram-se deputados para que votassem como o governo queria. E eles votaram.

Ao O Estado de S. Paulo, depois de ter deixado o governo, Dirceu disse que nunca fizera qualquer coisa sem que Lula soubesse.

À Playboy, afirmou que Lula jamais daria um cheque em branco a qualquer pessoa.

A mim, contou que Delúbio Soares era amigo de Lula, dele não. A um parlamentar, segundo a VEJA, desabafou: “Lula devia falar das visitas que o Valério fez à Granja do Torto”.

O STF condenou Dirceu por chefiar a quadrilha dos mensaleiros e por corrupção. Em seguida o absolveu do primeiro crime.

O processo do mensalão passará à História como o que condenou o maior número de pessoas por corrupção – 25, entre elas Marcos Valério, sujeito à pena de 37 anos, a maior.

E também como aquele onde uma organização criminosa agiu sem que ninguém a chefiasse. Está para se ver.