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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


quinta-feira, 30 de junho de 2011

A DIVINA COMÉDIA - Canto XI - O Inferno - Por Vicente Almeida



Canto XI

Túmulo do papa Anastácio Explicação sobre a justiça infernal

Gravura de Gustave Doré

Chegamos à beira de um precipício, onde havia um barranco derrubado, cujas pedras formavam uma grande rampa que permitiria nossa descida. Porém, o ar denso e fedorento que emanava do abismo, nos afastou de sua borda, de forma que tivemos que nos proteger sob a cobertura de uma tumba onde estava escrito: "Aqui jaz o papa Anastácio que Fotino desviou do bom caminho".

- Nós teremos que atrasar um pouco a nossa descida para que possamos nos acostumar com este ar poluído - disse Virgílio.

- Devemos então encontrar uma forma de aproveitar esse tempo utilmente - sugeri.

Ele concordou. Iniciou, então, uma detalhada explicação sobre a geografia dos três círculos restantes do inferno.

- Meu filho, depois deste barranco há mais três círculos, concêntricos, organizados em degraus, como os anteriores. - disse ele. - Toda a maldade é alcançada ora através da violência ora através da fraude. Embora ambas sejam odiadas pelo céu, a fraude, por ser uma perversão exclusiva do homem, desagrada mais a Deus. Os fraudulentos, portanto, são colocados nas valas mais profundas do inferno, onde sofrem muito mais.

O próximo círculo (sétimo) que nós encontraremos é o dos violentos, que se divide em três giros, classificados de acordo com a vítima da violência praticada.

No primeiro giro estão aqueles que praticaram violência contra o próximo ou contra os bens do próximo. Lá sofrem os assassinos, assaltantes e tiranos em grupos diferentes, de acordo com a gravidade de seus crimes.

No segundo giro estão aqueles que praticaram a violência contra si próprios ou contra seus próprios bens. Os suicidas e gastadores que arruinaram suas próprias vidas (no jogo, por exemplo) se encaixam neste grupo.

No último giro do sétimo círculo estão aqueles que praticaram violência contra Deus. São os que, orgulhosos, não acreditaram nele ou que o atacaram com blasfêmias, através da destruição e desprezo pela sua criação ou pela exploração da criação dos seus filhos através da usura.

Nos dois últimos círculos estão os que praticaram a fraude. Eles premeditaram seus atos e têm plena consciência do mal que causaram. Um homem pode praticar dois tipos de fraude: contra pessoas que confiam nele ou contra estranhos que podem suspeitar dele. Este último tipo só destrói o vínculo do homem com a natureza e é punido no oitavo círculo onde encontraremos hipócritas, aduladores, ladrões, falsários, simoníacos, sedutores e trapaceiros. O primeiro tipo de fraude desfaz não só o vínculo do homem com a natureza, mas também aquele vínculo de confiança estabelecido com outros homens. É, portanto, no menor dos círculos, no nono e último, junto com Dite (Lúcifer), onde são punidos os que traíram aqueles que neles confiaram.

Quando o mestre concluiu seu discurso, perguntei-lhe:

- Por que alguns pecadores cumprem suas penas (mais leves) fora da cidade de Dite e outros cumprem penas mais pesadas dentro da cidade? Por que todos não estão aqui?

- Será que tu já esqueceste o que diz a tua Ética - respondeu -, quando ela explica em detalhes, as três coisas que ao céu mais desagradam: incontinência, malícia e bestialidade? A culpa por ter pecado por causa de incontinência ofende menos a Deus. Se você lembrar com cuidado essa doutrina, entenderá por que aqueles lá de cima foram separados destes maliciosos aqui em baixo.

A explicação foi bastante esclarecedora, mas uma dúvida ainda me atormentava. Eu não entendia como a usura podia ser um pecado de ofensa a Deus. Fiz, então, essa pergunta a Virgílio, que me respondeu:

- Mostra a filosofia, àquele que a compreende, como a Natureza se manifesta a partir do intelecto divino e da sua Arte. Se recorreres a tua Física, encontrarás, bem no início, como a vossa Arte também imita a Natureza. E, como o aprendiz que segue os ensinamentos do seu mestre, a Arte, sendo filha do homem, torna-se quase neta de Deus. Se lembras o que diz o Gênese, logo no início: convém ao homem tirar da Natureza e de sua Arte os meios para a sua sobrevivência. Mas o usurário, ao seguir outros caminhos, agride à Natureza e a Arte, que dela deriva, pois em outra coisa (o dinheiro) põe suas esperanças.

A aurora já se aproximava e o mestre me chamou para continuar a jornada, pois ainda faltava muito antes que chegássemos à descida para o rochedo.

No Canto XII, veremos Minotauro - Centauros - Círculo da violência (7) - Rio de sangue

30/06/2011

Resultado melhor Postagem de Junho 2011.

São exatamente 18 horas. Encerramos as indicações para a melhor postagem de Junho com o presente resultado:

Desafios do Blog do Sanharol - Por Magnolia Fiuza - 28 indicações.

Taquicardia Academica - Por Dr. Savio Pinheiro - 15 indicações.

Orgulho de ser Nordestina - Por Fafá Bitu - 02 indicações.

Varias postagens contaram com uma indicação.

Portanto a melhor postagem de Junho, na opinião da grande maioria dos comentaristas foi - Os Desafios do Blog do Sanharol postagens de Magnolia Fiuza.

Obrigado pela participação.

São João dormiu? - Por Claude Bloc


 São João chegou e passeou pelo terreiro. Olhou pra fogueira e sorriu: "por onde andei o ano inteiro?" Pensou e pensou, sorrindo: "bem que dizem as pessoas - São João dormiu, São Pedro acordou"...

E bem acordado deu a volta ao redor da fogueira e olhou para aquele fogo incendiando as lembranças mais antigas. Faíscas brilharam mais fortemente quando ele se curvou e puxou um pedaço daquela lenha incandescente. Lembrou-se de quando era festejado lá na Serra Verde, das latadas cobertas de palha de coqueiro, do chão batido e molhado para dominuir a poeira, das fogueiras bem altas, dos bolos de Mãe Cãida, da sanfona afinada de Chico Jucá, brigando com o violão e o pandeiro de Cícero... Das brincadeiras de "pau de sebo", "corrida de saco", "passa anel", "mala" e os "contratos" de padrinhos, primos, compadres... à beira da fogueira:

"São João disse
São Pedro confirmou
Que você fosse meu compadre
Que São João mandou."

Ah, Seu Hubert. Ah, Dona Janine... Onde andam Manuel Dantas, Mãe Mina, Chiquim, Pedim, Zefinha? Cadê Cãida, Naninha, Joaquim Carlos, Seu Antonio Coelho e a dança das facas?
Cadê o povo da Serra Verde, minha gente?

E São João passou a mão nos cabelos ondulados, fechou os olhos e percebeu que naquela noite estava em um terreiro diferente, em uma casa diferente. Aquela gente era quase a mesma, mas muitos haviam partido lá pras nuvens para assistir a festa lá de cima. 

Nessa noite São João não dormiu. São Pedro foi chegando devagar, trazendo de volta a alegria pra festa. A música pipocou no ar junto com as gargalhadas, os traques, os pichites, as bombas, as chuvinhas, os fogos...

O vento frio se enroscou na fogueira e as estrelas se acenderam pra alegrar a gente.

E tome dança, quadrilha e brincadeira.
E tome graça, animação e fogueira.

Depois da festa, o dia já clareando, São João abraçou cada um. Beijou de mansinho as crianças e adormeceu...

Claude Bloc

Coisas nossas, por Zé Nilton


Macularam o meu objeto de desejo.

Para José do Vale Feitosa, adolescente.

Anseio por chegar o momento do estalo de memória tal qual ocorreu ao escritor Paulo Elpídio de Menezes. Em certa ocasião de sua vida – vupt! – qual um ponto crítico, e ele começou a rememorar o que viu e viveu em sua terra natal, desde os tempos de menino, até ser “expulso” pelos mandatários da época. Deixou tudo muito bem escrito no clássico “O Crato do meu tempo”. Já lá se vão 51 anos da primeira edição.

Aqui e ali vou me recordando de acontecimentos do passado, principalmente daqueles que mexeram com “as minhas coisas”.

Talvez fosse 1966 ou 67. Num tempo qualquer, a juventude de Crato entrou no maior frisson. As rádios da cidade anunciavam o mais esperado show do ano, na Quadra Bi-centenário. Nada mais nada menos do que a famosa, a mais bonita, a boa de canto, de pernas, de tudo, a namoradinha do Brasil, a ternurinha, uma brasa, mora, a Wanderléia.

Gamei a louraça de cara logo após ouvir “já chegou já chegou, novamente a bonança, todo o mal já passou, já chegou a esperança, vamos cantar”.... (Tempo de Amor). Como também “nós somos jovens, jovens, jovens, somos exército, exército de surf.” (Exército de Surf).

Levava a sério a minha paixão pela Wandeca, e não gostava nada quando meu primo Edísio Lima, sempre afeito a paródias, cantava para me irritar: “já chegou, já chegou, Postafen na farmácia, e a bunda das moças, já não cabe nas calças”...


Naquela noite foi demais. Tomei emprestados uns trocados a Zé Lopes, meu velho amigo. Diziam que nascemos juntos. Xavier, o mais velho da turma era perverso: - vocês parecem meus ovos, só andam juntos...

Pois bem, Zé Lopes me adiantou o ingresso e descemos, à boquinha da noite, com outros amiguinhos, para ver e ouvir, de perto, o objeto de meu desejo e de todos os jovens embalados nos Beatles, no iê, iê, iê, em Roberto, Erasmo, Jerry, Ronnie Von, na turma da jovem guarda.

Meus olhos se encheram de lágrimas e o meu coração disparou quando Elton Dantas gritou do meio da quadra:

- E com vocês, ela, a rainha da jovem guarda, Waaaadeeerléééia! Delírio total. A cada canção gritos, aplausos e choros.

Nunca havia visto uma mulher de calça comprida como a dela. Era uma calça colant preta, que deixava suas generosas curvas à vista e a nossa libido em polvorosa.

Quando o show chegou ao fim, um desastre total. A turma dos sem vergonhas cerca a Wanderléia, e haja um passa- passa de mãos, de dedos... A coitada corre para o portão de saída, abraçada ao trôpego Elton Dantas, cujo corpo todo virou um receptáculo de porradas sofridas ao longo do infindável percurso.

Fiquei arrasado. Macularam o objeto de meu particular desejo... De onde estava enxerguei muito bem no meio da turba de mãos bobas e dedadas um deles, que por infelicidade, era meu colega de escola.

No outro dia, comentário geral nas ruas, nas praças e na escola. Era nego falando disso e daquilo. Fulanos diziam não terem lavado as mãos ainda. Sicranos passaram a noite cheirando as mãos. Beltranos dizendo de outras coisas feitas com as mãos, à noite toda.

Eu, puto, olhava pro meu colega, com vontade de descer-lhe a mão no pé do ouvido. Me contive. O gajo era metido a valentão. Gelava todo mundo por lá. Era o rei do parangolé.

Mas um dia fui vingado. Ah, se fui! O tal sujeito inventou de ser ator. Rosenberg Cariry o tornou cangaceiro. Lá estava ele, o valentão, enfrentando de trabuco e muito jogo de cena a soldadesca desorientada nas caatingas do sertão, ao lado do famoso Corisco, ex-bando de Lampião.

Numa dessas refregas um tiro certeiro lhe abateu. Vi o meu desafeto cair mortinho da silva bem na minha frente. Pronto, disse comigo, taí o que você queria seu fela! Ri de mim para mim, saboreando o prato frio da vingança pelo cometimento cruel sobre a deusa dos meus sonhos.

Um abraço pro Nemezinho, o sempre cangaceiro nos filmes do amigão Rosa.

Suas famosas peripécias nessa Craterdan são coisas nossas.

E para quem gosta, convido a escutar no programa Compositores do Brasil desta quinta, a partir das 14 horas, na Rádio Educadora do Cariri (www.radioeducadora1020.com.br), com o grande Roberto Martins falando de sua história, e cantando suas belas músicas.

Bom fim de semana.

Posse da Magnifica Reitora.

Foto - Blog do Crato.

A Professora Antônia Otonite de Oliveira Cortez toma posse como Reitora da Universidade Regional do Cariri (URCA), às 16h30 de hoje, no Palácio da Abolição, em Fortaleza, juntamente com o Vice-Reitor, José Patrício Melo. A solenidade será presidida pelo Vice-Governador, Domingos Filho, e também contará com a presença do Secretário da Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Estado, René Barreira, e o Reitor da URCA, Professor Plácido Cidade Nuvens, que deixa o cargo. Na próxima segunda-feira, dia 4 de julho, será realizada a transmissão de cargo, em cerimônia no Salão de Atos da URCA, a partir das 19 horas. A solenidade será acompanhada por pró-reitores, diretores de centro, coordenadores de cursos, familiares e amigos dos novos gestores da Universidade.

Antônia Otonite de Oliveira Cortez

Professora da URCA, casada, mãe de três filhas e avó, graduada em História pela Faculdade de Filosofia do Crato. Fundadora da URCA e defensora de uma instituição pública e gratuita. Integrante do Departamento de História. Foi coordenadora do Curso de História por dois mandatos, Chefe do Departamento, eleita de 1993 a 1995. É Especialista em História pela PUC de Minas Gerais e Mestra em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; pesquisadora da área de história cultural; membro do grupo de trabalho no âmbito da SECITECE, para elaborar o PCCV da UECE, URCA e UVA, além de outros trabalhos desenvolvidos. Foi Vice-Reitora da URCA, no mandato de 2007 a 2011, destacando-se por uma ampla atuação, também coordenando o sistema MAPP/URCA (Monitoramento das Ações e Projetos Prioritários – Investimentos). É autora do livro A Construção da “Cidade da Cultura” (Crato – 1889 a 1960), no prelo.
Otonite é varzealegrense.

Fonte - Blog do Crato.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O SEQUESTRO DE GETÚLIO - Por mundim do Vale



O Sr. Matias quando era delegado civil de Várzea Alegre, prendeu uma vez um sujeito que havia furtado uns porcos. Para ser liberado, o preso Pagou a carceragem com uma novia de porca que era fruto do próprio crime.
O delegado levou a novia para a sua propriedade no sítio Vazante e botou junta com um barrão para cruzamento. Quando a novia pariu foram três leitões preto e um vermelho. A mãe vendo a misturada matou os pretos e rejeitou o vermelho. Sem amamentação o leitão sobrevivente ficou desnutrido.
Zezim de Matias com pena do bacurim levou para dentro de casa para ser alimentado na mamadeira. O porquinho foi resistindo e se tornou o mascote do sítio, toda a vizinhança gostava dele, botaram até o apelido de Getúlio. Apenas O sr. Matias era que dizia:
- Getúlio não vai escapar.
Mas com aqueles cuidados Getúlio foi crescendo e engordando até se tornar um porco pronto para o abate.
No sítio mameluco morava um filho bastardo do Sr. Matias de nome Adauto, que não era chegado ao trabalho, nunca deu um murro numa broa. Sabendo da história, Adauto fez um plano para furtar o porco. Saiu de madrugada, botou um bornal no focinho do porco, amarrou as patas, botou o porco no ombro e foi vender a Antônio Pagé.
O desaparecimento de Getúlio gerou uma grande tristeza e surgiu os seguintes comentários:
- Getúlio foi roubado.
- Isso foi os bichos que comeram.
- Bicho não foi não, que não tem sangue nem cabelo no chiqueiro.
- Então foi gente cum raiva de padim Matia.
- Uma hora dessa Getúlio já virou foi lingüiça.
O Sr. Matias dizia:
- Eu não disse a vocês que Getúlio não escapava.
Passados alguns dias o Sr. Matias mandou um recado para que Adauto viesse na Vazante que ele tinha um assunto muito sério para falar com ele.
Quando Adauto recebeu o recado pensou com ele mesmo:
- Arre égua! Pai já tá bem sabendo qui foi eu qui afanei Getúlio.
Quando Adauto chegou na Vazante Seu Matias estava sentado numa espreguiçadeira na sombra do oitão e foi logo dizendo:
- Suba Adauto! Que eu quero ter uma conversa com você.
Adauto subiu a calçada, estirou a mão mais trêmula do que mão de salgador de toucinho e falou:
- A bença pai!
- Deus lhe abençoe.
- Pai. Eu vim aqui morrendo de veigonha, prumode pidir perdão a pai.
- E o que foi que tu fez dessa vez Adauto? Não vá me dizer que andou inbuchando alguma moça?
- Num foi isso não pai.
- E o que foi? Diga logo.
Adauto ficou mais aperreado do que preá em fogo de broca:
- Bem.... Bem.... Bem....
- Diga logo Adauto! Nada nesse mundo pode ser pior do que a tua pessoa. Tu é igual a mandacaru, nem dar sombra nem encosto.
- Apois eu vou dizer logo. É pruque eu tava pricisando, o cão vei me atentar, aí eu carreguei Getúlio e fui vender a Ontõe Pagé.
- Pois você deixe de tolice que Getúlio era seu.
- Era meu Cuma pai?
- Quando eu vi que Getúlio corria o risco de não escapar, fiz uma promessa com São Raimundo para se ele vivesse, eu engordar e lhe dá de presente no dia do seu aniversário, que vai ser domingo. Era esse o Assunto que eu tinha pra lhe falar.


Reprisado para: Nonato e Fernando Souza, bisnetos do delegado Matias

A DIVINA COMÉDIA - Canto X - O Inferno - Por Vicente Almeida

Canto X

Espírito de Farinata - Espírito de Cavalcanti

Passávamos por um caminho secreto, entre a muralha e as sepulturas, quando eu perguntei ao mestre:

- Mestre, estas pessoas aqui enterradas, podemos vê-las? Pergunto isto já que todas as tumbas estão descobertas e ninguém as guarda.

- Elas serão um dia fechadas - respondeu, - quando aqui retornarem com os corpos que deixaram lá no mundo. Este cemitério que aqui vês é para Epicuro e seus seguidores, que acreditavam que a alma morreria junto com o corpo. E quanto à outra questão que me fizeste, ela será em breve respondida, assim como o desejo que escondes de mim será atendido.

Túmulos dos heréticos dentro da cidade de Dite.
Ilustração de Gustave Doré (séc XIX).


- Ó meu bom guia - falei - eu não escondo meu coração, e se pouco falo, é porque tu mesmo me pedisse isto outras vezes.

- Ó toscano que falais com tamanha honestidade. Por vosso sotaque reconheço que sois de minha cidade natal. Daquela nobre cidade que tratei, talvez, de forma muito dura.

Isto eu ouvi soar de uma das tumbas. Assustado, fui para mais perto do mestre, que disse:

- Volta! O que estás fazendo? Vê Farinata que já se ergueu. Tu o verás em pé, da cintura para cima.

Eu já lhe fixava o olhar, e lá estava ele, imponente, como se nutrisse grande desprezo pelo inferno. Virgílio guiou-me até ele, dizendo:

- Vai, e escolhe tuas palavras com cuidado.

E quando eu estava diante de sua tumba, ele me olhou um pouco, meio desdenhoso e perguntou:
- Quem foram os vossos ancestrais?

E eu, que só desejava contentá-lo, nada escondi e contei-lhe a verdade. Com isto, ele levantou um pouco as sobrancelhas, mas depois disse:

- Tão duros na oposição foram a mim, aos meus parentes e ao meu partido, que por duas vezes eu os expulsei.

- Mas duas vezes eles retornaram - repliquei -, coisa que os vossos partidários nunca conseguiram fazer.

Enquanto conversávamos, fomos repentinamente interrompidos pelo surgimento de outro vulto, residente naquela mesma tumba, que pude ver apenas do queixo para cima. Creio que estivesse de joelhos. Ele olhou em volta esperando ver alguém. Não encontrando quem ele procurava, falou chorando:

- Se neste cárcere cego vais por grandeza de engenho, onde está meu filho? Por que ele não está contigo?

- Eu não estou só - disse-lhe - aquele que ali espera me guia por estas trevas; aquele por quem, talvez, teu Guido nutria um certo desprezo.

Pelo seu modo de falar e pela sua pena, não foi difícil descobrir de quem se tratava, por isso minha resposta foi tão direta. Mas subitamente ele ficou em pé, e gritou:

- Como? Disseste que ele nutria? Então ele não mais vive? Então a luz doce não mais brilha nos seus olhos?

E quando percebeu que a resposta demorava demais, ele subitamente afundou e não apareceu mais.

Farinata continuava no mesmo lugar onde estávamos quando a conversa fora interrompida. Não se incomodou e sequer olhou para ver o que acontecia. Ele simplesmente continuou de onde tinha parado:

- Se eles não sabem como retornar, isto me dói mais que o fogo deste leito. Retornar não é fácil. Em menos de 50 luas, vós mesmo sabereis como é difícil retornar de um exílio. E como eu espero que vós estareis de volta ao doce mundo, dizei-me, por que vosso partido é tão duro com os meus, nas leis que cria contra eles?

- Certamente, tudo começou com o massacre que tingiu o rio Árbia de vermelho. - respondi, e ele balançou a cabeça.

- Nisso não fui só eu - respondeu - mas certamente eu também não teria ido se não fosse por uma boa causa, mas, quando eles decidiram, unânimes, pela destruição de Florença, fui somente eu que me levantei e ousei defendê-la de rosto aberto.

- Que agora encontre a paz, a vossa descendência - respondi-lhe - mas gostaria que vos me esclarecesses uma coisa. A mim pareceu, se bem entendi, que todos vós têm a capacidade de ver o futuro, mas com o presente, o mesmo não ocorre.

- Os espíritos são capazes de prever o futuro, mas não podem ver o presente. Um dia, quando a porta para o futuro for fechada para sempre, todo o nosso conhecimento será findo.

- Então - pedi, arrependido - dizei àquele que desceu na tumba que o filho dele ainda vive. Foi por não compreender que os espíritos nada sabiam do presente, que eu fiquei em silêncio.

O mestre já me chamava, então, fiz uma última pergunta a Farinata. Perguntei-lhe se havia outros conhecidos que com ele compartilhavam aquela tumba.

- Com mais de mil jazo neste valo. - respondeu - O imperador Frederico está comigo, e também o Cardeal Ottaviano. Sobre os outros, eu me calo.

Depois disso, calou-se e desapareceu. Eu perguntei ao mestre sobre o que esperar das previsões de Farinata e ele me respondeu:

- Guarde em memória tudo o que aqui ouviste contra ti, mas espere até chegares a encontrar Beatriz, pois o olhar dela tudo conhece.

Dobrando agora à esquerda, caminhamos do muro para o meio, onde começava uma vereda que descia para um fosso profundo, de um ar mais espesso e malcheiroso.

Veja no Canto XI - Túmulo do papa Anastácio e a Explicação sobre a justiça infernal

28/06/2011

BLOG HUMOR - COVEIRO PRATICO.

Uma freira gaúcha, moradora do Convento Santa Inês de Rio Grande, na hora da morte, pediu para escreverem no seu túmulo:
Nasci virgem
Vivi virgem
Morri virgem
O coveiro achou que eram muitas palavras e escreveu:

Devolvida sem uso.



Nossa outra metade - Clotilde Tavares

Somos, pela maneira de perceber o mundo, seres incompletos. Vivemos buscando desesperadamente a nossa "metade". Às vezes pensamos ter encontrado e o nosso primeiro desejo é ficar até que a morte separe. No início da relação com a nossa "outra metade", ali do lado, nos sentimos completos e felizes. Mas muitas vezes, ele resolve ir embora e lá estamos nós partidos, fragmentados, chorando e cantando como o poeta: "ó pedaço de mim, ó metade arrancada de mim...'

Depois de alguns episódios de fracassos ficamos com a impressão de que algo está errado. Começamos, então, a procurar um relacionamento que não nos deixe tão perdidos ao acabar, porque descobrimos, já não tão surpresos, que sim... Os relacionamentos acabam!!! É quando percebemos como é difícil conseguir uma relação rica e criativa, inteira, sem dependência. Aí vem a pergunta: o que os homens procuram nas mulheres e as mulheres procuram nos homens? Quantas pessoas não se queixam que o casamento não deu certo, que o namoro não deu certo... Contam que, apesar de terem se dedicado tanto ao outro, de terem amado, cuidado e convivido, de repente a outra pessoa simplesmente deixou de amar. E se queixam dizendo: "ah, eu investi tanto nessa relação!" É isso que fazemos. Investimos nas relações. Investimos como se fosse um negócio. Agimos como quando colocamos o dinheiro na poupança e esperamos que os juros aumentem para que o investimento cresça!

Damos amor, fidelidade, sexo, companheirismo, cumplicidade e, quando o retorno não vem é o caos! O investimento não teve retorno! Ora, nos negócios existe o risco. Pode dar certo ou não. E quando não dá não adianta culpar o mercado ou o corretor. Trata-se apenas de juntar o que sobrou e reinvestir novamente em outras condições, ou sair à francesa, retirar-se do mercado por um tempo, pra evitar maiores prejuízos! O amor, entretanto, não é um mercado. Amamos para amar ou para ser amados? Para as duas coisas, você diria... Mas, na verdade, a gente só pode se responsabilizar pelo nosso sentimento, nunca o do outro.

Mas, já que amamos e estamos sempre procurando um jeito de misturar a nossa vida com a de alguém... O que se diz nesse momento é: siga em frente e seja feliz. Nunca um adeus dolorido vai ser pior do que um ficar por ficar!

Clotilde Tavares


Homenagem justa e merecida - Por Rodrigo Bezerra Bitu

Ele era casado com minha Tia Fransquinha, mas isso não impedia de nós chamá-lo de Tio Carlitos. Recebia a todos sempre com muita alegria e hospitalidade em sua casa, onde ao chegarmos na varanda tinha uma plaquinha com os dizeres: "Aqui mora Gente Feliz!"

Obrigado Zé Helder por homenagear meu Tio Carlitos, agora grupos folclóricos e de quadrilhas se apresentam na Quadra Poliesportiva Carlos Gonçalves Cassundé – “Carlito” e isso é um orgulho para todos nós.

Uma justa homenagem a este que foi um grande jogador do nosso torrão amado, fica com Deus Tio Carlitos, todos nós o amamos. Temos certeza que estais ao lado do senhor com um grande sorriso como sempre tinhas, feliz com esta homenagem!

Inaugurações, quadrilhas juninas e forró abrem oficialmente o festival de quadrilhas de Várzea Alegre.

Ontem foi dia de festa.

Eles foram chegando. Uns mais cedo, uns mais tarde. Uns com parcimonia, outros com euforia. E foram preenchendo o vazio de muitos dias de silêncio.


E o grupos foram se formando e se enturmando. A prosa se misturava aos sorrisos. Uma glosa de prosa em versos livres.


Lá pra fora, o fumódromo, o cervejódromo, a trova e o travo. Mas, sem dúvida, uma linha de graça (s)em rima.


Sorriso? Ganhamos muitos - o verdadeiro presente. A sincera expansão da amizade.

A praça e os poetas. A placa e a música para quebrar o ritmo da noite. Quebrar? Claro que não. Emendar os laços da amizade, isso sim.
O que é ser madrinha numa festa de aniversário? Certamente é realçar a amizade grande, antiga e profunda. É permitir que outras amizades floresçam. É sim !
É unir o passado ao presente e esperar que o futuro se estabeleça para firmar as certezas. É (re)ver o tempo (re)fazendo os encontros deixados nas entrelinhas.

É colher a juventude como um néctar e um bálsamo e sentir que ainda está em nós essa grande alegria de viver.

É não fazer diferenças. É querer bem.
É ter a bondade no coração e abraçar o amigo.
É poder dizer: Sou FELIZ! Tenho AMIGOS!!



Esperei Vicente & Valdenia, Morais, Sávio e Fran o convite era por aqui mesmo, via blog.

Abraço a Rajalegre

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Descoberto porque a aba lateral havia sumido...


Olá, pessoal,

Durante os últimos dias, a aba lateral direita do Blog do Sanharol e do Blog Cariricaturas sumiu e foi parar lá no final. Quando isso acontece, é porque alguém postou alguma coisa copiando e colando de outro site sem seguir os procedimentos que recomendamos. Uma postagem poderá destruir um Blog se a pessoa não souber fazer.

NUNCA, absolutamente NUNCA se deve copiar de outro site ( a não ser dos blogs da nossa rede, que já são filtrados desse tipo de coisa ) diretamente para a janela de postagem. Artigos de jornais, revistas, sites devem primeiro ser copiados e colados no bloco de notas do windows, para retirar todas as imagens e a diagramação original. Depois, copie o texto limpo do bloco de notas para a janela de postagem. As fotos do outro site devem ser salvas em seu computador, e só depois trazidas do seu computador para a janela de postagem e colocadas nos locais apropriados.

O pessoal pensa que postar em Blog é só copiar de um lugar e jogar no outro...não é assim. Postar em Blog exige responsabilidade e sobretudo, FALTA DE PREGUIÇA em fazer a coisa da maneira correta. Só assim, preservaremos este espaço que é de todos. A postagem que causou o problema já se encontra na segunda página, por isso que tudo voltou ao normal. Isso é apenas um probleminha. Coisas muito mais graves podem acontecer...

Abraços,

Dihelson Mendonça

O desabafo do pedreiro.

Enviado por Cesário Saraiva Cruz.

Não precisa escrever nada. Não há o que acrescentar. Basta vê e ouvir o video. Está pronto. Completo.

video

domingo, 26 de junho de 2011

O parto, a próstata e a vingança - Luiz Fernando Verissimo.

Ela com 19 e eu com 20 anos de idade. Lua-de-mel, viagens, prestações da casa própria e o primeiro bebê, tudo uma beleza.
Anos oitenta, a moda na época era ter uma filmadora do Paraguai. Sempre tinha ou tem um vizinho ou mesmo amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambinha por um precinho muito bom!
Hora do parto, ela tinha muita vergonha, mas eu, teimoso, desejava muito eternizar aquele momento.
Invadi a sala de parto com a câmera no ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. “Não, amor! Que vergonha!”
Todo mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir ao filme. Perdi a conta de quantas cópias eu fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram os meus orgulho e tesouro.
Três anos se passaram aí nova gravidez, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro, tudo como antes. Como ela "categoricamente" me disse que não queria que eu a filmasse dessa vez, sem ela esperar, invadi a sala de parto e mais uma vez com a câmera ao ombro cumpri o mesmo ritual.
As pessoas que me conhecem sabem que em mim havia naquele momento apenas o amor de pai e marido apaixonado nesse ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração de meu orgulho.
Agora eu com 50 ela com 49. Nada que se comparasse ao fato de ela, nessa semana, num instinto de vingança, invadisse a sala do meu urologista, com a câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata.
Eu lá, com as pernas naquelas malditas perneiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um!) quase na minha garganta e minha mulher gritando: Ah! Doutoooor! Que maravilha! Vou fazer duas mil cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!
Meus olhos saindo da órbita fuzilaram aquela cachorra, mas a dor era tanta que não conseguia nem falar.
O miserável do médico, pra se exibir, girou o dedão!!! Ah! eu na hora vi o teto a dois centímetros do meu nariz.
E a minha mulher continuou a gritar como se fosse um diretor de cinema: Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar dessa vez. Vou dar um close agora... Na hora alcancei um sapato no chão e joguei na maldita.
Agora amigos, estou escrevendo este texto pedindo aos amigos, parentes e outro mais que se receberem uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago a taxa de reembolso.

PARABÉNS EM CORDEL - Sávio Pinheiro


PARA CLAUDE BORIS

QUADRA:

Santo Antônio anunciou,
São João, o céu, coloriu,
Claude aniversariou
São Pedro, em festa, sorriu.

SEXTILHA:

Numa praça edificada,
Sob um sol abrasador,
Os jambeiros se formaram,
Pintando o chão de outra cor,
Modificando a paisagem,
Que a Claude ver com amor.

SEPTILHA:

O colorido do jambo
Iluminou a janela
Refletindo em suas retinas,
O que Deus guardou pra ela:
Uma flor vendo outra flor
Num jardim encantador
Naquela Casa Amarela.

OITAVA:

Uma poeta sensata,
Que declama em serenata
De forma meio abstrata,
Não sabe o valor que tem.
Criando versos, a vi,
Na aquarela, entendi,
Dando aulas, eu ouvi,
O valor que a Claude tem.

DÉCIMA:

A Claude admira a serra,
Que faz o mato crescer,
Fazendo a flor florescer
Adubada sobre a terra.
No campo ela desenterra
A memória mais bonita.
No aniversário, medita:
Terei só paz e beleza,
Pois amando a natureza
Deus me abrirá uma fita.

MARTELO:

Mês de Junho tem festa de São João
Tem fogueira, pamonhas e canjica,
Tem quadrilha com grupo que pratica,
Tem a dama animada com quentão.
Tem no céu encarnado, o foguetão,
Que explode e anima o povo inteiro.
Tem a Claude dançando no terreiro
Numa data pra lá de especial,
Pois na roça ela brinda o seu natal
Na sanfona, no bombo e no pandeiro.

E QUEM É O PAI?

Depois de ter reconhecido como seu o filho da jornalista Míriam Dutra em outubro de 2009, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ouviu um pedido dos seus três filhos com a socióloga Ruth Cardoso: faça um exame de DNA.

Ele fez dois. O primeiro no final do ano passado.

De posse do resultado, que deu negativo, FHC foi a Londres, na companhia de um amigo, para um encontro com Míriam.

Ao mostrar-lhe o resultado, disse:

Eu não sou o pai biológico de Tomás.

Ela devolveu:

E quem é?

O segundo exame foi feito às vésperas do carnaval deste ano. Também deu negativo.

Não basta que FHC mantenha o reconhecimento do filho para que ele se torne automaticamente um dos seus herdeiros. Para isso terá de adotá-lo. Assim evitará contestações futuras na Justiça.

Blog do Ricardo Noblat.

Sordade.

"Saudade - Palavra comumente usada para designar a falta que se sente de outrem, quer seja um ente querido, um amigo ou o ser amado.
Ela, a palavra saudade me faz lembrar de uma música do velho Gonzagão (Luiz Gonzaga), que cantava assim:

Se a gente lembra só por lembrar
Do amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pra o cabra se convencer
Que é feliz sem saber
Pois não sofreu


Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade entonce aí é ruim
Eu tiro isso por mim
Que vivo doido a sofrer


Saudade, ao menos para mim, pode ser um sentimento que cause bem-estar, quando se lembra de algo bom, uma boa lembrança do passado, mas também pode ser ruim quando da ausência por circunstâncias alheias a nossa vontade, como a distância física".

Quem nunca chorou ouvindo uma musica ou vendo fotos antigas?

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sábado, 25 de junho de 2011

Chico de Amadeu - O grande homenageado.

Homenagem a Chico de Amadeu
Nos eventos juninos deste ano, a prefeitura inaugura mais um espaço público e presta homenagem a uma das figuras mais carismáticas e querida do município, o sanfoneiro Francisco Teixeira Siebra - “Chico de Amadeu”.
A praça que recebe o seu nome, ganhou também uma estátua do músico em tamanho natural. A homenagem é justa, já que o sanfoneiro foi considerado o artista que mais tocou durante o tradicional “Forró de São Pedro do CSU”,  festa que acontece há 28 anos na quadra do centro social. Parabens ao prefeito pela iniciativa.

Bloghumor

BÊBADO E A DAMA DE PRETO.

Começou a música e um bêbado levantou-se cambaleando e dirigiu-se a uma senhora de preto e pediu:
Hic... Madame, me dá o prazer dessa dança?
E ouviu a seguinte resposta:
Não, por quatro motivos:
Primeiro, o senhor está bêbado!
Segundo, isto é um velório!
Terceiro, não se dança o Pai Nosso!
E quarto porque Eu sou o padre "Madame"!
É a puta que o pariu!

A DIVINA COMÉDIA - Canto IX - Inferno - Por Vicente Almeida

Canto IX
Erínias e Medusa Círculo da heresia (6) - Túmulos

Dante e Virgílio aguardando alguem abrir o portão
da cidade de Dite - Gravura de Gustave Doré
O medo me tomou quando vi o semblante do mestre, que se aproximava, e dizia quase para si:
- Precisamos triunfar, se não... Mas não, ora! A ajuda nos fora prometida! Como demora!
Eu vi muito bem como ele mudou de tom ao tentar encobrir o que falara, ou a palavra que não havia pronunciado, por isso mais medo tive ainda, pois a frase que ele deixara incompleta, eu completei com sentido pior.
- Alguma vez já desceu, a estes círculos profundos do inferno, alguém do Limbo? - perguntei-lhe.
- Isto é raro - respondeu-me o mestre -, mas é verdade que eu mesmo já fiz esta viagem e desci até o círculo mais profundo, quando uma vez fui convocado. Não se preocupe, pois conheço bem o caminho.

As medusas tentando petrificar Dante e Virgílio
Ilustração de Gustave Doré
Virgílio continuou a falar, mas, de repente, minha atenção se voltou para o céu onde vi três Fúrias infernais. Eram figuras femininas, ungidas de sangue e com serpentes ferozes no lugar dos cabelos. O mestre, que já conhecia as escravas de Proserpina, me apontou:
- Olha! São as Erínias ferozes! Aquela é Megera, à esquerda, e aquela que chora à direita é Aleto. Tesífone é a do meio.
Elas gritavam alto e com as unhas rasgavam o peito. Eu fui para junto do poeta, tomado pelo medo.
- Venham, Medusa chama, venham! - gritavam - vamos transformá-lo em pedra! Que pena que deixamos Teseu escapar!
- Fecha os olhos e volta-te! - gritou Virgílio - pois se a górgona vier e tu olhares para ela, não haverá mais volta ao mundo! - e com estas palavras ele me virou de costas e, não confiando nas minhas mãos que já estavam sobre os olhos, colocou as dele sobre as minhas e lá as manteve.


Os demônios barraram a entrada de Dante e Virgílio, mas um anjo
desceu das alturas para abrir os portões da cidade de Dite.
Ilustração de Gustave Doré

De repente, ouvi um grande estrondo e uma ventania tomou conta do ar levantando poeira e fazendo um barulho assustador. Depois, o inferno começou a tremer. Ele então tirou as mãos dos meus olhos e disse:
- Agora vira-te e olha na direção do pântano, onde a bruma é mais espessa.
Olhei e vi mais de mil almas apavoradas no ar, fugindo, saindo do caminho de um ser que vinha, caminhando sobre o Estige, sem molhar os pés. Ele afastava o ar sujo com as mãos, e essa aparentava ser a única coisa que o incomodava. Eu tinha certeza, agora, que ele vinha do céu. Voltei-me para o guia mas ele fez um sinal para que eu permanecesse em silêncio.
O anjo chegou e tocou as portas de Dite com uma pequena vara, fazendo com que elas abrissem sem esforço.
- Ó almas mesquinhas - ele começou, sobre as portas da cidade sombria - por que resistis contra aquela vontade que nunca pode ser negada e que, mais de uma vez, só fez aumentar vosso sofrimento?
Depois de falar, voltou pelo mesmo caminho por onde tinha chegado. Nós depois prosseguimos, seguros por suas palavras sagradas, e entramos sem dificuldades pela porta principal.

Túmulos do heréticos
Ilustração de Gustva Doré

dentro da cidade, encontramos um cemitério de tumbas abertas, de onde se ouvia o lamentar de muitas vozes que queimavam em brasa dentro das covas.
- Mestre - perguntei -, que sombras são estas que aqui jazem e que só podemos perceber pelos seus lamentos?
- São os hereges e seus seguidores. - respondeu-me Virgílio - Em cada tumba repousam os réus de uma mesma seita, que são torturados pelo fogo eterno.
Dobramos, então, à direita, e continuamos a caminhar entre a muralha da cidade e as sepulturas.

No Canto X Espíritos de Farinata e Cavalcanti - uma profecia sobre Dante

25/06/2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Aba lateral do Blog desapareceu. Estamos procurando solucionar o problema

Olá, Amigos,

Desde a manhã de ontem a barra lateral de vários blogs simplesmente SUMIU. Estamos trabalhando no sentido de ver quem levou a mesma, rs rs rs. Até agora, mesmo após pesquisar no google, nada foi encontrado. Pode ser que ela retorne automaticamente. O blog Cariricaturas também foi afetado pelo problema, apesar de o design ser diferente.

Abraços,

Dihelson Mendonça

Blog Humor.

VALOR DO CONHECIMENTO.

O Quim, o Zé e o Joca trabalhavam numa obra. De repente, o Quim caiu do 15º andar e morreu.
O Zé disse:
Um de nós tem que avisar a mulher dele.
Ao que o Joca respondeu:
Eu sou bastante bom nessas coisas, eu vou!
Passada uma hora, o Joca estava de volta, com um engradado de cerveja.
O Zé perguntou:
Onde arranjou isso?
Foi a viúva do Quim que me deu.
Como é? Você diz que o marido dela morreu e ela te dá uma caixa de cerveja?
Não foi bem assim. Quando ela abriu a porta, eu disse:
- Você deve ser a viúva do Quim.
Ela respondeu:
Não, eu não sou viúva!
E eu disse:
Quer apostar um engradado de cerveja comigo?

Luiz Gonzaga Junior - Gonzaguinha.

Gonzaguinha era filho do cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento e de Odaleia Guedes dos Santos, cantora do Dancing Brasil, que morreu de tuberculose, aos 46 anos. Acabou sendo criado pelos padrinhos Dina e Xavier.

Compôs a primeira canção "Lembranças da Primavera" aos catorze anos, e em 1961, com 16 anos foi morar em Cocotá com o pai para estudar. Voltou para o Rio de Janeiro para estudar Economia, pela Universidade Cândido Mendes. Na casa do psiquiatra Aluízio Porto Carrero, conheceu e se tornou amigo de Ivan Lins. Conheceu também a primeira mulher, Ângela, com quem teve dois filhos: Daniel e Fernanda. Teve depois uma filha com a atriz Sandra Pêra: a atriz Amora Pêra.

Foi nessa convivência na casa do psiquiatra, que fundou o Movimento Artístico Universitário (MAU), com Aldir Blanc, Ivan Lins, Márcio Proença, Paulo Emílio e César Costa Filho. Tal movimento teve importante papel na música popular do Brasil nos anos 70 e em 1971 resultou no programa na TV Globo Som Livre Exportação.

Característico pela postura de crítica à ditadura, submeteu-se ao DOPS, assim, das 72 canções mostradas, 54 foram censuradas, entre as quais o primeiro sucesso, Comportamento Geral. Neste início de carreira, a apresentação agressiva e pouco agradável aos olhos da mídia lhe valeram o apelido de "cantor rancor", com canções ásperas, como Piada infeliz e Erva. Com o começo da abertura política, na segunda metade da década de 1970, começou a modificar o discurso e a compor músicas de tom mais aprazível para o público da época, como Começaria tudo outra vez, Explode Coração e Grito de alerta, e também temas de reggae, como O que é o que é' e Nem o pobre nem o rei.

As composições foram gravadas por muitos dos grandes intérpretes da MPB, como Maria Bethânia, Simone, Elis Regina (Redescobrir ou Ciranda de Pedra), Fagner, e Joanna. Dentre estas, destaca-se Simone com os grandes sucessos de Sangrando, Mulher, e daí e Começaria tudo outra vez, Da maior liberdade, É, Petúnia Resedá.

Em 1975 dispensou os empresários e se tornou um artista independente, o que fez em 1986, fundar o selo Moleque, pelo qual chegou a gravar dois trabalhos. Nos últimos doze anos de vida, Gonzaguinha viveu em Belo Horizonte com a segunda mulher Louise Margarete Martins—Lelete e a filha deles, a caçula Mariana.

Após uma apresentação em Pato Branco, no Paraná, Gonzaguinha morreu aos 45 anos vítima de um acidente automobilístico às 07:30h do dia 29 de abril de 1991, entre as cidades de Renascença e Marmeleiro, enquanto dirigia o automóvel rumo a Francisco Beltrão, depois ia a Foz do Iguaçu. Este trágico acidente encerrou de forma repentina a sua brilhante carreira.

O que é, o que é.
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SEXTA DE TEXTOS - Sávio Pinheiro

Ainda vivendo a semana da formatura da minha filha Beatriz Jucá Pinheiro, escrevi este soneto, após me deliciar com a leitura do seu livro-reportagem.

UNIDOS NO ROÇADO

O samba traduzido em arte fina
Refaz, no mato, o dom da criação
Criando em recatado coração
Um sonho amalucado, que alucina.

Saudade, que transcende e que fascina
Faz crer no dom divino da oração.
Daí, o bravo grupo em comunhão
Marcar em passo nobre a grande sina.

Na lida da sofrida agricultura
Ousou e fez jorrar outra cultura
Regando-a na batida do pandeiro.

A Escola, que o roceiro edificou
E que ao som do batuque, eternizou,
Faz jus a este momento verdadeiro.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Blog Humor.

ESTATÍSTICA
Estudo revela que depois de fazerem amor, 10% dos homens voltam-se para o lado direito, 10% para o lado esquerdo e os outros 80% voltam para casa!"

MARIDO VAIDOSO ...
O marido vaidoso compra um sapato novo. Chega em casa e fica andando pra lá e pra cá e nada da mulher perceber sua nova aquisição.
Para chamar a atenção ele resolve tirar toda roupa. Completamente nú, ele aparece novamente andando pra lá e pra cá. A mulher finalmente pergunta: Ficou doido? O que você faz andando pra lá e pra cá, com esse pinto pendurado à mostra? O marido aproveita a oportunidade e responde:
É que ele está olhando para o meu sapato novo.
E ela retruca:
Por que você não comprou um chapéu?

UMA BOA AÇÃO - Por Vicente Almeida

Você já parou para se perguntar quantas boas ações faz por dia, ou quantas deixa de fazê-lo, mesmo sabendo que nada lhe custaria?
Você já parou para se perguntar quantas oportunidades perde, de praticar uma boa ação por dia, ou quanto custa uma boa ação?
Sinceramente, estes são questionamentos que devemos nos fazer freqüentemente.
Se é uma realidade que queremos sempre o nosso bem, por que então não desejarmos o bem do próximo, contribuindo para que assim seja?
Imagine que você não praticou nenhuma atitude solidária durante todo o dia e assim chegou a noite, mas, antes de colocar o seu corpo na horizontal para o repouso esperado, ainda há tempo para ganhar o dia com uma boa ação. E você se desejar realmente encontrará um meio, não importa a hora ou o lugar.
O preço efetivo de uma boa ação, muitas vezes, custa apenas uma palavra amiga que conforte alguém em desespero, amargurado ou angustiado.
Pode também muitas vezes, custa apenas um sorriso seu, para alguém que saiu de casa em desespero, sabe-se lá Deus por que! E o seu sorriso naquele momento suavizará a dor daquele transeunte com quem você cruzou e não imagina o bem que lhe fez. Poderá até ser apenas um “Bom Dia”! Uma “Boa Tarde”! Ou “Boa Noite”! Se pronunciados com carinho suavizará as dores da alma daquele a quem dirigimos a palavra.
Uma boa ação, muitas vezes custa apenas o trabalho de voltar o pensamento para uma pessoa ou família, e desejar sua felicidade, ou que seja bem sucedido em algum objetivo nobre.
Poderemos praticar boas ações não com aquela moeda que às vezes deixamos escorrer de nossas mãos até as de um pedinte/mendigo, agredindo-o grosseiramente. Boa ação seria que essa moeda fosse acompanhada de uma palavra amiga, ou mesmo de um simples olhar de paz. Isto multiplicaria seus bens e aumentaria sua luz interior. “Uns repartem o que é seu e ficam cada vez mais ricos, outros arrebatam o que não é seu e estão sempre na pobreza – Prov. 11-.24 ”
É preciso procurar entender a luta desse povo simples, compreender e aceitar suas limitações, ser solidário. Eles buscam apenas sobreviver. Essa gente gostaria tanto de ter alguém para um dedo de prosa, ao menos uma vez na vida. Você iria se surpreender com sua história. Perca alguns minutos do seu precioso tempo com essa gente!
Boa ação, é também não estimular conflitos principalmente entre irmãos que se nivelam. O verdadeiro cristão, jamais procura propositadamente desnortear um irmão com palavras que visam desenvolver ou acentuar discórdia, pois sabe que essa conduta não gera felicidade.
Diariamente ajude alguém, no mínimo: Com um sorriso! Um olhar dirigido com amor! Uma palavra confortadora! Mas por favor, não abra a boca para desdenhar do seu irmão carente. Ele talqualmente você, também é filho do altíssimo em difícil provação neste planeta, e precisa de você – Sim, exatamente você. Por favor: Não destrua a ponte por onde um dia poderá passar.
Para ser solidário: Não espere a chegada do natal para alimentar alguém. Não espere uma catástrofe natural para enviar alimentos aos necessitados. Não espere o dia do ancião para valorizá-lo. Não espere o dia das mães para enaltecê-las somente naquele dia.
Todos os dias, todas as horas e em todos os lugares, Deus nos mostra oportunidades imperdíveis para a solidariedade. Não vire as costas – Por favor!
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Feliz dia de Corpus Christi – Hoje, solenemente celebramos o mistério da eucaristia. Mais um excelente dia para a solidariedade.
Escrito por Vicente Almeida
23/06/2011

Coisas nossas, por Zé Nilton


Sobre origens

Para o prof. Antonio Alves - o Toínho - de Ponta da Serra

Coisas nossas lembrar as origens e a caminhada humanas do estado de natureza para a cultura, do nomadismo ao sedentarismo e nos situarmos nessa história enquanto sociedade.

Historicamente tudo começa lá pelo quaternário, último período da Era Cenozóica, quando o homem, surgido mais precisamente no sul da África, iniciou seu processo de caminhada pela terra em busca de alimentos na qualidade de caçadores-coletores.

Pelo caminho o homem vai se cruzando com outros bandos humanos até mais adiantados, porque deram a largada primeiro. Instaura-se o processo de miscigenação que hoje nos leva a crer não haver “raça” pura na face da terra.

Dizem os especialistas em Antropologia, Arqueologia e Paleontologia, animados pelos historiadores das sociedades primitivas, que já bem adiante, pelo Neolítico, os homens se encontram chegando à América do Norte pelo estreito de Bering, numa dessas marés baixas das Eras Glaciais, e paulatinamente, vão ocupando todo o continente americano, quando já estavam mais aprimorados enquanto espécie - o chamado “Homo sapiens”.

Enquanto a antropóloga Niede Guidon, executiva do Museu do Homem Americano, no Piauí, assume que chegamos por aqui por volta de 60 mil anos, seu colega do México, Juan Comas, registra 22 mil anos como marco de nossa entrada no continente.

Hoje, nova polêmica está em curso quanto às rotas de chegada. Em vez de uma só, pela ponte terrestre do Estreito de Bering, há possibilidade de outra, pela costa americana, através de embarcações. Um recente estudo A História da Humanidade Contada pelo Vírus, de Stefan Cunha Ujvari, Editora Contexto, 2008, dá conta da presença de ovos do Ancylostoma duodenale, aquele do nosso Jéca Tatu, em cropólitos (massa fecal fossilizada) em índios americanos. Esses ovos não poderiam ter migrado pelo gelo, por razões óbvias, dentro do intestino de levas e levas de sapiens.

Bom, mas nós aqui dessas bandas do Ceará, como por todo o interior do Nordeste, somos descendentes de índios da grande nação Cariri, que habitava desde o norte da Bahia até o norte do Piauí, passando por Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Interessante observar que as condições sócio-ambientais permitiram a manutenção de traços bem característicos em nossa população, basta prestar atenção em nosso biotipo. Temos um corpo assim, uma cabeça assim...

No grande Cariri encontramos muitos conterrâneos com feições bem nítidas, na compleição física, da herança cariri. Isto porque nosso cruzamento teria sido recorrentemente entre índios com índios, índios com europeus, já que o estoque negróide pouco se reproduziu por aqui.

Costumes e mais costumes nos saltam à vista ou, de tanto familiar, não nos apercebemos sobre suas origens.

Quem não gosta de uma redinha após o almoço. De uma tapioca, beiju... O uso do cachimbo é bem presente pelas mulheres em comunidades campesinas. As falas de algumas pessoas lembram sons da língua indígena. A cor da pele e dos cabelos. Os trejeitos musicais de bandas de pífanos. E vai por aí...

Então, meus amigos, gostaria de juntar à História do vencedor à do vencido, e lembrar eles também nesse momento de comemorações ancestrais.

Aliás, uma das maiores lembranças em favor dos índios habitantes dessas terras antes da vinda dos europeus, é aquela em que, por ordem da carta régia de 05 de março de 1755 e da lei de 06 de junho do mesmo ano, as autoridades luso-brasileiras fazem chegar aos rincões do Brasil os alvarás de criação de “vilas de índios”, minudenciando os detalhes das instalações físicas até a constituição do governo local. Há um cuidado em manter orientações exaradas desde 1680 em favor da integridade indígena, um sempre apelo da coroa em tornar todas as humanidades vassalas do reino português.

Obedecendo fielmente as orientações de 1755, as primeiras autoridades da Vila Real do Crato foram compostas por seis senadores. Seguindo a carta régia o poder executivo ficou nas mãos de um índio, José Amorim e de um colonizador, o abastado agropecuarista com título honorífico do Estado Português, o capitão Francisco Gomes de Melo. Aliás, como ainda não havia instituída a figura do prefeito por esses tempos, os dois foram elevados ao status de “juízes ordinários”.

Tem uma turma na historiografia local que não vibra com a condição de um índio ter sido também nossa autoridade primordial. Mas é a História que o conduziu àquele mister, muito embora logo, logo, a Câmara do Senado advogue todo o poder municipal para si.Mas aí é outra história...

Nesta foto lhes apresento Rosa Carlos de Melo, residente na Serra do Araripe. Uma índia cariri em tudo, no jeito de ser, de fazer e de falar.

Rosa Carlos de Melo é coisa nossa, e através dela eu saúdo a memória de nossos antepassados.

Convido-os para ouvir pela Rádio Educadora, nesta quinta, às 14 horas, o encanto dos festivais da canção no Brasil, no programa Compositores do Brasil, através também da www.radioecudadora1020.com.br

Bom fim de semana.

Distrações na oração

(publicado no Jornal "A Presença "- nº 241 - Setembro de 2004 -- Paróquia de São Mamede – Lisboa)

São Bernardo de Claraval (1094-1153 ) foi um dos maiores santos de França e até da Igreja: Fundador da Ordem de Cister, conselheiro de Papas e reis, promotor da segunda Cruzada, pregador e poeta.

Conta-se em sua vida esta história pitoresca. Certa vez o santo ia de viagem montado no seu cavalo, de hábito branco e com religiosa gravidade.

Como os santos inspiram confiança, ao passar por um povoado aproximou-se dele um humilde lavrador e começou a conversar com o famoso abade, de quem tanto se falava no mundo. Meteram-se na conversa assuntos de coisas devotas e Bernardo queixou-se de que às vezes, pelos inúmeros assuntos que o preocupavam, não conseguia rezar com a devida atenção que desejava.

-- Que é que diz, Senhor Abade? - exclamou o bom lavrador. Então o senhor se distrai quando está a rezar? Palavra de honra, julgava que fosse santo!

-- E você, meu filho - replicou o grande santo – você não padece de distrações na oração ?

-- Não, não, Senhor Abade - assegurou com firmeza o lavrador. Deus me livre de tal falta de respeito a Ele. Eu, quando me ponho a rezar, ponho-me a rezar e mais nada. Caio de joelhos, ergo as mãos, e já não estou mais neste mundo. Podem tilintar moedas de ouro ou tocar trombetas a meu lado. Eu cá estou a rezar! Deus e eu, e mais nada!

O santo sorriu e exclamou:
-- Grande e extraordinária graça é essa, meu filho! Asseguro-te que só para almas muito escolhidas é que a bondade de Deus costuma conceder essa graça (e São Bernardo cravou no homem um olhar e um sorriso de paterna desconfiança). Não me leve a mal, amigo, mas eu sinto a tentação de desconfiar. Rezar sem distrações, será possível?

-- É tão verdade o que acabo de dizer, como tenho o Céu como verdade - respondeu um pouco melindrado o bom e espontâneo camponês.

-- Tiremos a prova agora mesmo - acrescentou o santo. Se você for capaz de rezar sem distrações um Pai-Nosso, dou-lhe este cavalo em que estou montado !

-- O quê, santo Abade! Fala a sério, dá-me o seu cavalo?

-- Já lhe disse e torno a lhe propor. Se for capaz de rezar um Pai-Nosso sem nenhuma distração, o cavalo é seu!

O lavrador, radiante, fazia festinhas na cabeça do animal e exclamava:
-- Cavalo forte e elegante, eu já te tenho!

E começou a prova. O homenzinho inclinou a cabeça que segurou com as mãos, como se quisesse prender o pensamento naquela hora. E começou a rezar baixinho: "Pai-Nosso, que estais nos Céus..."

Foi pronunciando as palavras com religiosa atenção, e recolhido como uma piedosa imagem.

Quando chegou no "O pão nosso de cada dia" parou um instante, levantou o rosto e perguntou ao santo: -- Diga-me, padre Abade, o senhor me dá também as rédeas?

-- Meu filho - continuou o santo - que pena! Nem cavalo, nem rédeas, porque você se distraiu!

O lavrador, lançando um olhar saudoso para o animal, suspirou:

-- Ai, que rico cavalinho eu perdi agora!

Que lição podemos tirar desta história?
Há duas espécies de distrações: as exteriores, que são por exemplo, olhar para o lado, fixar-se nas pessoas que entram e saem, ler qualquer coisa, fazer comentários, etc. Tais distrações podemos e devemos evitar. Porém, distrações interiores ou mentais, ninguém as consegue evitar.
Santa Tereza de Ávila dizia com graça, que “a imaginação é a louca da casa", que andava sempre a vaguear em nossa cabeça. É um cinema que nos mostra o filme dos acontecimentos da vida, ou as imaginações que o demônio quer fazer girar em nosso interior.
Tais distrações são inevitáveis.

A DIVINA COMÉDIA - Canto VIII - O Inferno - Por Vicente Almeida

Canto VIII

Flégias - Demônios - A cidade de Dite

Dante e Virgílio Atravessando o Rio Estige.
O Clarão ao fundo é a cidade de Dite.
Pintura de Eugene Delacroix Seculo XVIII

Eu devo explicar que, bem antes de chegarmos ao pé daquela torre, já observávamos as duas chamas que havia no seu cume. Na escuridão do rio, outra luz tão distante que quase não se via, respondia com um sinal. Voltei-me ao mar de toda sabedoria, e perguntei:
- Que sinais são estes? E aquela outra chama, o que ela responde? Quem é que as provoca?
- Sobre esta lama imunda em breve poderás perceber o que se espera - respondeu Virgílio.

O barqueiro Flégias deixando Dante e Virgílio na entrada da cidade de Dite
Gravura de Gustage Doré

Mal ele terminara de falar, da escuridão surgiu um barquinho pilotado por um barqueiro solitário, cortando a água em nossa direção.
- Chegaste, alma culposa! - gritou ele ao ancorar.
- Flégias, Flégias, desta vez tu gritas em vão - respondeu o meu senhor, - pois só vais nos levar à outra margem e nada mais. Contendo a sua ira, o barqueiro concordou. Meu guia calmamente embarcou e depois eu entrei, e só então o barco pareceu carregado.
No meio do caminho, um ser lamacento surgiu das águas e me chamou, perguntando:
- Quem és tu que vens antes do tempo?
- Venho - respondi, - mas não demoro, mas quem és tu tão revoltoso?
- Eu sou um dos que chora, como podes ver.
- Com choro e com luto, espírito maldito, que assim permaneças, pois eu te conheço, mesmo tão sujo!
Depois que eu lhe respondi, ele irritou-se e saltou sobre o barco, tentando me agarrar. Virgílio, porém, foi mais rápido e conseguiu lançá-lo de volta ao rio.
- No mundo este homem foi pessoa orgulhosa - disse o mestre - e nada de bom resta em sua memória. Por isto é que sua alma está aqui tão furiosa. Vês, quantos lá em cima se julgam grandes reis e aqui estarão como porcos na lama?
- Mestre - falei, - muito me agradaria também vê-lo aqui afundado na lama antes que saíssemos deste lago.
- Antes que apareça a outra costa - respondeu o mestre - teu desejo será satisfeito.
Pouco depois, ouvi seus companheiros o massacrarem. Eles gritavam: "Vamos pegar Filippo Argenti!".
Deleitei-me ao ver aquele florentino arrogante morder a si mesmo com os dentes de raiva.
E lá o deixei, e disso não falo mais. Comecei, então, a ouvir vozes dolorosas, que me impeliram a olhar adiante.
- E agora meu filho - chamou-me o mestre - nos aproximamos da cidade que se chama Dite, com seus tristes cidadãos e grande companhia.
- Mestre, - observei - já posso ver as suas mesquitas logo acima do vale infernal! Elas brilham, vermelhas como ferro em brasa.
- É o fogo eterno que arde no seu interior que faz esse brilho rubro se espalhar pelo baixo inferno. - completou Virgílio.
Entramos no fosso que cerca a cidade e Flégias deu uma grande volta em torno dela, onde pude observar seus muros que pareciam ser de ferro. Quando chegamos diante da entrada da cidade, Flégias gritou alto com toda a força:
- Saiam! Saiam logo! É aqui a entrada.
Demônios barrando a entrada de Dante e Virgílio na cidade de Dite
Gravura de Gustave Doré


Descendo do barco, fomos recepcionados por um grupo de demônios. Eles chegaram e perguntaram:
- Quem é esse que, sem morte, anda pelo reino da morta gente?
O sábio mestre veio em meu auxílio. Dirigindo-se aos demônios, fez sinais indicando que gostaria de falar com eles secretamente. Responderam os diabos, disfarçando sua arrogância:
- Tudo bem, mas vem tu sozinho. E esse outro aí, que achava que podia andar como rei nesta terra, que prove que pode voltar sozinho se souber, pois tu que o guiaste até aqui vais ficar conosco!
Apavorei-me diante dessas palavras e temi não mais poder voltar a ver o mundo outra vez.
- Caro meu guia - chorei, em desespero -, que tantas vezes me deste segurança, não me deixes, por favor! Se não pudermos prosseguir nesta jornada, que voltemos já sem demora!
Mas ele, confiante, me respondeu:
- Não temas, porque o nosso passo, ninguém pode impedir. Mas espera aqui e descansa. Não deixes de ter esperança, pois podes ter certeza que não te deixarei sozinho neste mundo baixo.
Ele falou e foi encontrar-se com os diabos, e eu fiquei só a observar de longe. Não ouvi a conversa. Só vi a briga de longe e a porta da cidade se fechar diante de Virgílio, que voltou para mim cabisbaixo, em um passo lento.
- Olha só quem me nega a cidade da dor! - disse, triste - Mas não temas, pois ainda vencerei esta prova. A esta hora já deve estar no portal deste inferno alguém por quem esta entrada será aberta.

No Canto IX, veremos o Círculo 6 - da heresia

23/06/2011