Aos
sábados...
- Claude Bloc -
Tinha chovido. Quis sentir de novo a estrada de terra e
seus solavancos novos... Despertar, assim, minhas intuições e meus desejos de
vida nova. O sol hoje sorria, mas as poças de lama ainda brincavam de respingar
pelos pneus recém lavados.
Seguimos. Crato foi ficando pra trás. O som dos pneus
percorria todos os ligamentos nervosos de meu ouvido, excitando-os a tal ponto,
que alegria foi tomando conta do meu humor abalado. Meus olhos procuravam
atentamente o verde de todos os lados, resultado das poucas chuvas de novembro.
Fiquei pensando em minhas últimas estações de chuva e já nem sei há quantos
sábados procurei esse oásis de paz... se mil ou dois mil ou sei lá quanto, só
sei que se demorasse um pouco mais, meu coração que tem nem sei quantos mil
sábados não suportaria continuar a procura e eu teria de desistir de todos os
sábados que se seguiriam em minha vida.
Na viagem, lembrei-me de não sei quantos sábados passados.
Mantive os sentidos aguçados, a visão restrita à paisagem e à estrada. Em
compensação, meus olhos viam e imaginavam uma coisa e a boca(desordenadamente) falava
outra, desbancando qualquer possibilidade de me fazer entender. Minha alma era
puro júbilo.
E sei que depois disso será apenas um sábado atrás do
outro, e de lá para cá ou de cá pra lá, e vai sempre estar em mim esta eterna
ciranda na busca de mais sorrisos como se a alegria fosse um baile onde eu
tivesse um espaço imenso para dançar.
Chegando à Fazenda, meus olhos entraram em sintonia com a
boca e trabalharam incessantemente. Olhei para a casa como se nunca mais a
tivesse visto. Desbravei-a. Olhei para a frestas do telhado ainda não
consertados. Para as rachaduras das paredes e quase chorei. Por que as coisas
têm que se desgastar? Deviam permanecer como as guardamos na memória.
Imaculadas !
Um sábado atrás do outro, pensei. E a imaginação voltou a acontecer em mais um
sábado. Meus olhos já foram se perdendo nos detalhes de quem procura sem medo e
a boca, diante da saudade, finalmente aprendeu a se calar, emudeceu. Deixou que
meus olhos implorassem pelas lembranças para que elas voltassem a bailar pelos
cantos da casa onde as marcas se depositaram, embaixo e ao lado de meus olhos.
Aí, meus olhos fizeram descer um gota de água salgada e
entraram em compasso com meu coração. Por diversas vezes eu ouvi o som de uma
cigarra atiçando meus nervos.
Era verdade. Eu voltava ali aos sábados e abundantemente
degustava o sabor desse sábado, mas o relógio não parava. Vi-me atrás de um par de olhos preocupados com
o tempo, mas meu coração clamava por felicidade.
Claude
Bloc
Claude.
ResponderExcluirUm texto de prazerosa leitura e uma foto muito bonita.
É...
ResponderExcluirClaude:
Suas reminiscências sempre nos encantam.
O Seu jeito de contar essas lembranças que você tenta desesquecer, é um jeito gostoso e nos leva até o final do texto...
... Até procurarmos sentir tambem o sabor da água salgada de uma lágrima que em instantes se volatiliaza.
Gostei
Abraços domingueiros do
Vicente Almeida
Obrigada, Morais,
ResponderExcluirPara quem é do interior é fácil entender essas sensações de saudade, de retorno, de alegria
Abraço,
Claude
Vicente,
ResponderExcluirVocê entendeu direitinho tudo o que falei.
Gostei muito seu comentário... É sempre muito prazeroso quando nossos escritos são apreciados. Quem escreve quer ser lido. E é sempre uma delícia saber que de alguma forma tocamos a alma de quem nos leu.
Abraço,
Claude