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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


sábado, 29 de outubro de 2016

Professores de História homenagearam Padre Gomes – por Armando Lopes Rafael


Soube, por um conhecido, que no encerramento do XII Encontro Estadual de História do Ceará, realizado neste final de semana no Cariri, e cuja solenidade final ocorreu ontem à noite no Campus Pimenta, da Universidade Regional do Cariri, foi prestada singela homenagem ao historiador Padre Antônio Gomes de Araujo.

Aleluia!
Numa sociedade ingrata como esta dos dias atuais, qualquer homenagem póstuma merece ser divulgada, pois serve de incentivo ao reconhecimento, por parte das novas gerações.
Padre Antônio Gomes de Araujo nasceu em Brejo Santo (CE) em 6 de janeiro de 1900 e faleceu na sua cidade natal em 26 de janeiro de 1989. Era filho de José Nicodemos da Silva e Maria Gomes de Araújo. No período de 1909 a 1918 fez o curso primário e, para usar palavras suas, textuais, “estudou o primeiro ano do ciclo secundário de seminário com seu tio Joaquim Gomes da Silva Basílio”
Em 1919 entrou para o Seminário São José de Crato, aonde foi ordenado sacerdote em 1927. Residiu a maior parte da sua vida na cidade de Crato. De 1917 a 1932 exerceu seu magistério no Seminário São José. Depois foi residir no Colégio Diocesano, mas foi professor de quase todos os estabelecimentos de ensino da cidade de Crato, e se destacou – tanto no magistério como nos meios intelectuais cearenses – como pesquisador da história e genealogia do Cariri.
Foi também professor de História na Faculdade de Filosofia do Crato, cujo curso foi encampado, posteriormente, pela Universidade Regional do Cariri–URCA. Deve-se ao Padre Gomes o esclarecimento de ocorrências da nossa história onde pairavam dúvidas e interpretações divergentes. Além de História ensinou também outras disciplinas, como o Latim e nunca deu uma aula sem que a tivesse preparado antecipadamente.
Era conhecido por sua franqueza e honestidade a toda prova. Foi um dos fundadores do Instituto Cultural do Cariri e valoroso colaborador da revista “Itaytera”, publicada por aquela instituição.
Padre Antônio Gomes de Araújo foi também colaborador de todos os jornais e revistas editadas em Crato, onde publicou importantes trabalhos sobre fatos da história regional. Na revista “A Província” publicou o trabalho “Do curral ao ciclo agrícola” dissertando sobre a vida econômica do Cariri na época do seu povoamento. Obteve o primeiro lugar num Concurso de História, promovido pela Universidade da Bahia, com o trabalho “Formação das Gens Caririenses”, em 1950.

Publicou ainda outras obras, dentre as quais citamos:

01 - Naturalidade de Bárbara de Alencar (em 1953);
02 - Um civilizador do Cariri e outros estudos”;
03 - Padre Pedro Ribeiro da Silva, fundador e primeiro capelão de Juazeiro do Norte” (em 1955);
04 - Apostolado do Embuste” (em 1956);
05 - Martins Filho, o Magnífico Reitor da Universidade do Ceará-ascendentes e colaterais” (em 1961);
06 - 1817 no Cariri” (em 1962);
07 - Aldeamento da Missão do Miranda e Revelações de sua Arqueologia”;
08 - Alvorada Glória (estes dois últimos em 1967);
09 - A Cidade de Frei Carlos” (em 1971);
10 - Povoamento do Cariri” (em 1973);

Além desses citados, deixou mais 21 trabalhos de muita relevância para a história do Cariri os quais deixamos de citar por questão de espaço. Foi – ao lado de Irineu Pinheiro – o responsável pela preservação para as gerações futuras de importantes pesquisas históricas sobre a nossa região.

9 comentários:

  1. Prezado Armando.

    Um historinha do Padre Gomes que voce não conhece.

    Certa vez eu estava conversando com professora Dalvinisia Esmeraldo, nas proximidades do Colegio Santa Teresa de Jesus, e o Padre Gomes vinha em nosso direção com o Dr.Zè Nilo. Eu perguntei: Padre Gomes porque o Senhor usa sempre batina? Ele respondeu: meu filho, quando voce nos viu de longe, mesmo sem conhecer, voce sabia que era um padre e um homem, se eu viesse sem batina voce diria que eramos dois homens. Sábia resposta que nunca esqueci. A batina é o simbolo sagrado dos grandes padres como padre Gomes.

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  2. Morais:
    Padre Gomes era autêntico e muito seguro nas suas convicções pessoais.
    Era dotado do dom de respostas rápidas e espirituosas.
    Certo dia um aluno perguntou, irreverente, na sala-de-aula:

    -- Padre Gomes quantos ANOS o Senhor tem?
    -- Só um - respondeu Padre Gomes - eu não sou uma taboa de vender pirulito...

    (Você deve estar lembrado como eram as taboas de vender pirulito do passado: cheias de orifícios onde eram colocados os pirulitos enrolados em papel-seda branco...)

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  3. Outro dia o blog CARIRICATURAS publicou uma longa poesia “Um certo Padre Gomes” do excelente poeta cratense Everardo Norões. Destaco delas alguns textos:

    “Dez horas da manhã.
    Na sala de aula, duas altas janelas cortam
    o claro dos céus em pedaços.
    O professor profere a chamada.
    O verbo é ‘proferir’; ele nunca chama: ordena.
    Ele é padre, mas nada tem a ver com seus pares.
    Basta ver o corte da batina, a faixa à cintura
    que mais parece um obi de samurai.
    Postura de quem está sempre à espreita,
    aguarda o ataque.
    Pronuncia os nomes, não os repete; olha a cara de cada um,
    baixa a vista para o livro de anotações, escreve.
    O que contam esses registros?
    Depois, se não aprova o nominado,
    ele o dispensa antes do início da classe.


    (Comenta-se que presa à faixa não há uma katana,
    o sabre japonês, mas um Smith&Wesson .38 duplo.
    Única concessão que faz ao império do Tio Sam.)


    A aula começa.
    O professor comenta a diferença entre os homens do interior
    e os que ficaram pelos litorais,
    a arranharem a terra como caranguejos,
    dixit Frei Vicente do Salvador, ou Vicente Rodrigues Palha,
    nome laico do jesuíta baiano que descreveu a vida na Colônia.
    A linha de pensamento do mestre se insinua
    pelos meandros do rio São Francisco.
    É regida pelas observações do mais brilhante historiador
    de seu tempo, Capistrano de Abreu, ateu e, para seu desgosto,
    pai de uma freira que se refugiou no claustro
    e fez voto de silêncio.

    (continua)

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  4. Voltemos ao Padre, seu outro lado,
    seu silêncio martirizado no quarto de estudos,
    onde dormir é privilégio.
    Aí doma seus fantasmas, suas letras.
    Não tem com quem conversar, aprofundar argumentos,
    buscar o verme que contamina o miolo de seu fruto,
    o fruto vermelho da História.
    Busca nos alfarrábios, cruza garatujas de batistérios.
    E sempre Nascimento e Morte de permeio,
    desmontados em árvores desenhadas em páginas coladas,
    para chegar ao mais idiota descendente
    de um coronel qualquer da Guarda Nacional.

    O Álbvm do Seminário do Crato, de 1925
    – álbvm com ‘v’, para imitar o latim da Santa Igreja –,
    registra o aluno na página 202; o clérigo, na 207.
    A fotografia da página 189, carcomida pela traça, revela:
    batina, barrete, mas sem a capa romana
    que o acompanharia durante tantos anos,
    tremulante e negra sob o sol dos Cariris.
    Pois assim reza o artigo 12
    do capítulo III do Regulamento do Seminário Maior:
    “Uma modéstia sem afetação e um porte digno
    resaltem do seu todo, mormente nos actos religiosos
    e quando estiverem recebendo instrucção” (sic).

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  5. É necessário lupa para recompor feições e formas.
    Segundo da segunda fila, da direita para a esquerda.
    A cabeça encoberta inclinada à direita;
    deixa-se ver o relógio de algibeira,
    quem sabe um Patek Philippe.
    O rosto é magro; o nariz, aquilino, mouro;
    as orelhas não se deixam passar despercebidas.
    Não mira a objetiva do fotógrafo.
    É uma visão para o largo,
    um ar que o distingue da bonomia do grupo.
    Tem um ar triste, inquieto.

    Um homem sozinho atravessa a cidade:
    batina negra, capa romana, faixa à cintura.
    Segue o trajeto que vai da igreja da Sé ao Ginásio.
    Quantas vezes terá feito esse percurso?
    Saúda Tandô, sentado no meio-fio da praça.
    “Em que pensa esse padre, com jeito de homem”,
    se pergunta o anão?
    Aqui tudo é vigiado.
    A cada janela há um olho à espreita.
    O padre caminha sem prestar atenção a quem passa,
    nem atentar para quem se furta por detrás das gelosias.
    Anda rápido para dar tempo à chamada do refeitório e,
    logo depois, recomeçar reflexões e leituras.
    Abrirá a porta de vidro da estante de cedro
    com a chave escondida dentro do sapato, enrolada na meia.
    Lembrança do regulamento, de quando era regente:
    “Só poderão fazer leituras extra-programma mediante prévia
    autorização do Padre Prefeito” (sic).



    Passa o Padre Gomes e Tandô, o anão, se pergunta:
    “Em que diabo está pensando esse homem?”
    Somente hoje é possível compreender
    o porquê daqueles passos apressados,
    daquela inquietação permanente,
    de sua genialidade e equívocos.



    A fotografia:
    não é mais necessário lupa para recompor as feições.
    Não mira a objetiva do fotógrafo.
    É uma visão para o largo,
    um ar que o distingue do resto.
    Tem um ar triste, inquieto.
    Pensa num mundo mais largo, sem cadeias,
    distante do jugo das genealogias,
    longe de um sol que é o mesmo sol de todos os dias,
    segundo Machado de Assis,
    onde nada existe que seja novo,
    onde tudo cansa, tudo exaure...

    Até aqui a poesia de Everardo Norões

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  6. Monica Aquino.

    Muito obrigado por sua visita ao Blog do Sanharol. Parabens pelos belos textos e comentarios. Apostagem do Armando para o Padre Gomes foi perfeita e ficou divina com os agregados comentarios seus. O Padre Gomes merece todo esse reconhecimento. Parabens ao Armando e a você. Voltem sempre.

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  7. Armando,

    Parabéns pelo resgate. muito bom seu artigo. Padre Gomes é uma figura que precisa ser lembrada em meio a nossa história.

    Abraço,

    Claude

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  8. O Padre Gomes, é uma Pena que a sua cidade natal que é Brejo Santo, pouca gente sabe o ele escreveu ou pelo menos como Professor, e na cidade do Crato se faz Reverencias a este Sábio. Parabéns mesmo ao Povo culto do Crato.

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  9. Como posso obter uma cópia da obra Martins Filho ascendência e colaterais?

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