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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Manuel Marcelino - O Bom de Veras - II


Na linguagem simples de homem da roça, habituado as agrurias da vida, incapaz de recuar diante das mil dificuldades que lhe surgem no dia-a-dia penoso do sertão, Antônio Taveira falou a Revista Região.
Com seus 76 anos, natural da cidade cearense de Barbalha, Taveira, durante duas horas, conversou com o repórter. Estávamos na Casa Paroquial da pequenina cidade de Sitio dos Moreiras, ao lado deste formidável e integro Mons. João Câncio, através do qual conhecemos o nosso entrevistado.
A pergunta inicial foi formulada pelo próprio Mons. Câncio: Seu Antônio, por que Manuel Marcelino entrou nessa vida de cangaceiro? Tudo começou por causa de uma simples faca que o velho Ioiô Peixoto mandou tomar de João Marcelino, irmão de Manuel. Nesse tempo, o velho Ioiô era delegado de policia de Caririzinho, hoje distrito de Sitio dos Moreira. João Marcelino, cujo nome de guerra, na época do cangaço, era João Vinte e Dois, estava jogando baralho com alguns amigos. Como é comum no sertão, João trazia a cintura uma faca, dessas fabricadas na Paraíba. Uma excelente faca. Zé Benedito, preposto do delegado, a mando deste, foi desarmar João Marcelino. A arma foi entregue sob protesto deste: O que, Zé Benedito, eu entregar minha faca? Isso não.
É melhor entregar. Você sabe: A policia não pode ficar desmoralizada. Com a aproximação do Delegado e de seus soldados, a faca foi entregue a autoridade. Mais tarde, João Marcelino, julgando-se desmoralizado, procurou o delegado Ioiô, com quem manteve o seguinte dialogo:
Bem, Ioiô, pode ficar com a faca e fazer dela o que quiser. Não me interessa mais recebe-la. Já fui desmoralizado. Deixe de conversa mole. Você é pagão. Converse pouco. Livra de apanhar.
Apanhar? Sim. Você sabe que tenho autoridade. Está bem. Mas você vai ver.
A conversa encerrou aí. João Marcelino dirige-se imediatamente a casa do Velho Daozinho Lopes, com quem trocou duas novilhas por um rifle papo-amarelo.

Atendendo a uma pergunta do repórter, Antônio Taveira esclareceu que os Marcelinos eram filhos de Antônio Marcelino e Dona Nenen. Toda família ali morava na propriedade de nome Olho D'Água, a eles pertencente. Manuel Marcelino, o Bom de Veras, era vaqueiro de João Coelho no minadouro.

Continua.

2 comentários:

  1. Está decisão do Delegado IoIô Peixoto de desarmar Manuel Marcelino custou caro. Os Marcelinos entraram para o Cangaço e o delegado pagou com a propria vida mais tarde. Leia nas proximas postagens.

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  2. Em 24 de dezembro de 1926, em Salgueiro, o Cabo Afonso com 11 praças cercou um grupo de onze bandidos, chefiados por Manuel Marcelino, vulgo Bom de Veras, depois de Lampião o mais temível do grupo. O combate foi prolongado, oferecendo os bandidos uma tenaz resistência. Terminou a contenda com a morte de Manuel Marcelino. O grupo, vendo-se sem um chefe, bateu finalmente em desordenada fuga, deixando animais e objetos roubados além de grande quantidade de armamentos. O cadáver de Bom de Veras foi enterrado no cemitério no cemitério do povoado "Bezerros".
    Extraído do Livro Pernambuco no Tempo do Cangaço. Pág.162. Autor Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho.

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