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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Por que Cassaco? Você sabe a razão? - Por Antonio Morais

A minha infância, como a de todos  os do meu tempo, foi  muito difícil, de muitas dificuldades. Famílias constituídas de muitos filhos, 08, 09,10 ou mais meninos e meninas. Renda familiar  nenhuma. O chefe da família  vivia da agricultura  arcaica, da produção  de  arroz,  milho, feijão e algodão. Nos anos de  chuvas  colhia-se  legumes que não  tinham valor no mergado devido a grande oferta, já nos anos ruins de inverno  faltava de tudo.

Era previsível para 1970 uma grande seca, o que acabou por  se confirmar.  Restava ao  homem do campo o amparo escasso e oportunista do governo. Criavam-se  frentes de serviços, alistavam-se pessoas e se  engenhavam  alguns afazeres  como recuperação de estradas vicinais, construção de  barreiros ou pequenos açudes, de modo a socorrer paliativamente  os  alistados conhecidos e chamados desrespeitosamente de "cassacos".

Assim é que o meu amigo Joaquim Mendes do Iputy, pai de uma reca de  15 meninos e meninas, enfrentou  os dias difíceis  daquela seca. Um dia,  Joaquim resolveu  se desfazer de um bode de estimação para com a renda  comprar alguns mantimentos. Abateu o bode e  vendeu por quilos na ribeira. Dias depois  resolveu ir  vender o couro do bode   ao comerciante Raimundo Silvino.

De passagem por uma turma de trabalhadores ou cassacos da recuperação de uma estrada, os mesmos resolveram zuar com o Joaquim.  Disse-lhe um deles, Joaquim vai vender o couro do bode?  Sim, estou indo vender. Eu lhe compro, dou-lhe 1 real.

Joaquim Mendes coçou o cangote e respondeu em cima da bucha:  Amigo, eu estou vendendo o couro de um bode que pesou  40 kilos, não é o couro de um "CASSACO" não! - Quem tentou zuar saiu zuado.

Fonte Valdenia Almeida.

9 comentários:

  1. Joaquim Mendes, primo do meu pai e na verdade eram verdadeiros amigos. Certa vez o senhor pergunta a meu pai, onde fica o comércio de Joaquim Mendes???, Meu paio num gesto de humor disse: olhe, você indo aqui pela pista que vai para Lavras da Mangabeira, ao passar nas quatro bocas, onde ficava o engenho velho, a esquerda tem um quartinho você pode passar com uma velocidade de 140 kms, com certeza dar para fazer a contagem do estoque e toda contabilidade do estabelecimento.
    Ele tinha e ainda tem uma grande intriga com feijão com pão. Um cidadão Perguntou Joaquim tu gostas de feijão com pão????, Ele respondeu: depende!!!!, Se for com quilômetro e meu de lingüiça eu posso até comer para não senti o gosto do milho e do feijão.

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  2. João Bitu.

    Um dia recebi o Joaquim Mendes em nossa casa do Crato.

    Chegamos a mesa tinha um apetitoso bolo de puba e uma garrafa de café; Joaquim se abancou e mandou brasa. Quando acabou o bolo, olhou pra mim e disse: Antonio, um bolo desse eu como até furar a "Triagem".

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  3. Compadre Morais:

    O fato realmente se deu, mas quando o trabalhador perguntou ao vendedor se queria um cruzeiro pelo couro, ele respondeu espirituosamente: Couro barato assim é couro de cassaco! Referindo-se aos trabalhadores das frentes de serviços, criadas pelo governo, que eram denominados de "cassacos".

    Valdênia Almeida

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  4. EU ESPERO QUE MORAIS POSSA NOS PASSAR QUAL A RAZÃO POIS NESSA POSTAGEM AINDA NÃO FOI. QUAL A RAZÃO DOS TRABALHADORES DAS FRENTES DE EMERGÊNCIA SEREM CHAMADOS PELA ALCUNHA DE CASSACOS?

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  5. O CASSACO ONTÕE FRIMINO

    Quando é seca no nordeste
    É mais pio qui feitiço
    Pruquê o Cabra da Peste
    Vai pra frente de seiviço.
    Mealembro cuma vortei,
    Quando na frente cheguei
    Pru mode me alista.
    O qui o feitô inzigiu,
    Num tem ome no Brasil
    Qui consiga arranjá.

    Fui falá cum o feitô
    Ele nem oiô pra mim,
    Cum a voz de ditadô
    Foi logo dizendo assim:
    - Não ache que sou ridículo
    Mas me traga o seu currículo
    Para poder se alistar.
    O anel de formatura,
    Diploma de arquitetura,
    Você tem que apresentar.

    Traga uma folha corrida
    Do poder judiciário,
    Um atestado de vida
    Com o visto do vigário.
    Carteira de identidade,
    Canudo da faculdade
    E o anel de doutor.
    Depois vá no C.P.D.
    Para provar que você
    Conhece o computador.

    Traga do sul ou do norte
    Sua naturalidade,
    Quero vê seu passaporte
    Se ainda tem validade.
    Não esqueça de trazer,
    Depois que reconhecer
    A firma do batistério.
    Traga o óbito carimbado,
    De quando foi enterrado
    Seu avô no cemitério.

    Traga do seu nascimento
    Comprovante de batismo,
    Certidão de casamento
    E o curso do catecismo.
    Para fazer seu fichário,
    Preciso do formulário
    Do seu imposto de renda.
    Para saber se é honesto,
    Se não tem nenhum protesto
    Pendurado na fazenda.

    Também quero de você
    Documentação total,
    Da carta de A.B.C.
    Até o segundo grau.
    Coloque também na lista,
    Carteira de reservista
    Do serviço militar.
    O título de eleitor,
    Carteira de doador
    Que eu preciso arquivar.

    Foi quando eu dixe: - Dotô!
    Tô aqui mode iscapá,
    Sou ome trabaiadô
    Num gosto de cunvesá.
    Eu nunca qui fui casado,
    Sempre fui amansebado
    E nunca fui aiquiteto.
    Mais sou um cassaco forte,
    Nun cunhêço passaporte
    Pruquê sou anafabeto.

    Eu intendo de fazenda
    Pruquê tem lá na rebêra,
    Mais só intendo de renda
    Qui fais a muié rendêra.
    Vosmicê pede um ané,
    Uma ruma de papé
    E nem fala na inxada.
    Lá im nóis é deferente,
    O trabái é no sol quente
    Sem cunhecê papelada.

    Vosmicê me pede carta
    Mais eu num sei iscrevê,
    Do sabe eu sinto farta
    Pois num aprindí a lê.
    Meu tito de inleitô,
    Um candidato tomô
    Pruquê num sube votá.
    Eessa tá de reservista,
    É mió tira da lista
    Qui eu num sô militá.

    Num cunhêço C.P.D.
    Nem tombém cumputadô,
    Mais eu juro a vosmicê
    Qui sou um trabaiadô.
    Meu nome é Ontõe Frimino,
    Derna o tempo de minino
    E nunca qui dei cavaco.
    Mais vortando pru assunto,
    Eu agora lhe pregunto
    Dá prumode eu sê cassaco?

    Eu não sei de onde vem o nome cassaco,mas sei que o cassaco homem é um sofredor.

    Mundim do Vale.

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  6. Os nordestinos humildes, geralmente são cordatos, não costumam reagir as maldades e preconceitos que recebem. Veja neste caso, alem de humilhados pela natureza com a falta de inverno, nas frentes de trabalho era tratado como um animal qualquer. Fica o pedido de esclarecimento: por que Cassaco?

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  7. Morais, nao sei se estou certo,mas para mim este nome de Cassaco,e mais antigo,ou seja ja existia antes de 1970.

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  8. É verdade Geraldo. Em 1932 os varzealegrense trabalhavam na famosa Barragem de Lima Campos, localidade conhecida a època por Estreito. E, os trabalhadores já recebiam essa denominação degradante.

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  9. NA ENTRADA DA CIDADE DE PIANCÓ-PB, TEM UM MONUMENTO EM HOMENAGEM AOS CASSACOS. MUITO BONITO E OPORTUNO. RETRATA A HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA MIGRANTE.

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