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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O Coronel Antônio Correia e a política antigamente - Por Antônio Morais.


Sábado, quatro e meia da tarde, fazia muito calor. Eu andava pelo Sanharol. A esmo, apreciando o que sobrou do antigo sítio, despreocupado com o resto do mundo. Empapado de suor, pelo resplandecente sol do horário de verão, entrei no boteco de Buzuga, o primeiro que encontrei e pedi uma cerveja no balcão, urgente. 

– Uma Brahma, pelo amor de Deus! 

É pra já, meu querido – respondeu, do outro lado do balcão, o rapaz, com esse modo íntimo, embora nunca tivesse me visto antes. 

– No capricho!

Depois do primeiro copo, um homem novinho em folha, respirei fundo e passei a apreciar o interior do botequim, que não via uma reforma desde os anos 60. Balcão e bancos de fórmica, reboco, lâmpadas fluorescentes. A gente só se dava conta de estar em 2016 devido à opulenta nudez de Juliana Paes, nos cartazes da Antártica. 

Para não me apaixonar por uma mulher impossível, voltei à atenção para a conversa de dois tipos ao meu lado. Os dois também bebiam aguardente e se divertiam depois de um dia de batente, contando casos um para o outro, com o delicioso sotaque do lugar. 

Um deles, o mais velho, parecia mesmo um historiador, pelo vozeirão grave e a eloquência narrativa, que se traduzia em uma vasta gama de expressões e gestos. Jubaia era o seu nome. O outro, menor estatura, corado com a aparência de quem  havia um mês sem tomar banho e assemelhada demência mental me disseram se chamar Bugui.

O Tema era politica. Jubaia dissertava  sobre o estrategista Coronel Antônio Correia Lima. Em épocas distantes, como Borges de Medeiros no Rio Grande do Sul, o Coronel Antônio Correia foi prefeito quantas vezes quis na terra do arroz. Jubaia contava para Bugui que certa feita,  o Coronel Tõin determinou que o delegado intimasse e prendesse seu Amâncio, um agricultor do sitio José que era seu adversário. 

Intimado e detido, o coronel mandou sua esposa Maria Vitória visitar a mulher do preso. 

Comadre, o que  o meu compadre fez para está preso? Perguntou  dona Maria Vitoria.  Não sei comadre, respondeu a esposa do Amâncio. Se preocupes não, eu  vou falar com Antônio para mandar soltar. 

À tarde o Coronel Antônio Correia foi a delegacia e retirou o compadre da cadeia. O final da história coincidiu com o fim da minha garrafa de cerveja. Durante algum tempo, esqueci do mundo, nocauteado pelo relato do velho Jubaia. 

Ao voltar a mim, os danados tinham simplesmente desaparecido. Cheguei a me perguntar se os dois haviam estado ali mesmo ou se eu os imaginara numa espécie de delírio. 

Não consegui chegar a uma conclusão. Fui interrompido pelo rapaz do balcão que queria saber:

Outra Brahma, meu querido?

Um comentário:

  1. Apesar do mandonismo dos Correias existiam vários desafetos no município. Quando o portador passava no sitio São Cosme avisando da morte do Coronel Antonio Correia, em 1939, Raimundo Inácio, seu Inácio disse : Oh homi, eu ia matar ele hoje de tarde.

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