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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


domingo, 25 de junho de 2017

069 - O Crato de Antigamente - Por Antônio Morais.

Paidéguas e paiséguas.
Meu pai, Jorge Lucas de Sousa, foi um cidadão probo, honrado e trabalhador. Com o suor diário de seu rosto de modesto marceneiro, educou todos os sete filhos, formando a maioria deles.

Foi bondoso e compreensivo, sem deixar de ser rígido na observação de suas ordens, que eram cumpridas a risca, por todos nós. O horário de chegada à casa, a noite, era nove horas. Invariavelmente. Pois bem, certo dia resolvi ultrapassar os limites estabelecidos. Cheguei às dez. Com muita cautela, de mansinho, pude chegar a minha rede, de onde ouvi, minutos depois, a voz do meu pai: Sinhá, nome de minha santa mãe e suprema educadora, Osvaldo já chegou? Já, respondeu com a doçura de mãe e a grandeza de protetora.

A experiência do meu pai, entretanto, falou mais alto. O toque da bengala no chão rompia o silencia da noite e fez-me tremer de medo dentro da rede. Ao aproximar-se, curvou-se de modo a alcançar com as mãos os meus sapatos, e sentenciou: " Chegou agora. Os sapatos estão quentes.

Os apelos de Dona Sinhá, coração de mãe e amor de santa, evitou que naquela noite eu fosse dormir com o couro quente, como os meus calçados.

Nove horas, hoje, é o momento de o jovem sair de casa, para voltar só Deus sabe o dia. Foi época dos paidéguas. Tempo, agora, dos pais éguas, que somos nós, da geração moderna.

Osvaldo Alves de Sousa.

2 comentários:

  1. Grande Osvaldo Alves de Sousa. Os escritos de suas lembranças e andanças.

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  2. Ó tempos, Ó costumes... diz o adágio latino.
    Hoje os filhos - em sua grande maioria - destoam do comportamento dos pais.
    Esta crônica serve de reflexão... e da constatação de que os pais hoje já não influenciam a nova geração, via de regra, formada por filhos insubordinados.

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