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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A vingança do tenente Antonio - Parte V



O grupo se divide para confundir as volantes. Contou-nos Antonio de Amelia: Todos os elementos do grupo estavam reunidos. Lampião, tendo ao seu lado a companheira inseparável Maria Bonita, começou a distribuir ordens. Precisava demorar, por muito tempo, naquele acampamento, para repouso, depois de longas caminhadas e reiterados encontros com as volantes policiais e de ataques a indefesas cidades nordestinas. Chamando Suspeita, um dos seus fiés comandados, ordenou que fosse a cidade de Mata Grande. E prosseguiu o rei do cangaço: receba umas encomendas de Sebastião e depois, da Mata Grande mate Alfredo Curim, Zé Horacio da Ipueira e faça 6 ou 7 mortes na familia dos Bentos que é para ficarmos aqui despreocupados. De lá viaje para onde quiser, que passe fora uns 15 dias a um mes. Alegando Suspeita, que os cangaceiros do seu grupo precisavam arrumar certas coisas, Lampião autorizou que retirasse elementos de outros grupos. Foi aí que Fortaleza, que era do grupo de Luiz Pedro, Medalha, que sempre acompanhava o chefe, e Limoeiro, que pertencia a outro, passaram a compor o pessoal de Suspeita para o cumprimento daquelas ordens. Ao mesmo grupo nos incorporamos. Isto é, eu, Sebastião e Antonio Tiago. Mais tarde, quando estavamos de passagem pelo municipio de Santana, Zeca, irmão de Sebastião e Alfredo, seu primo, se reuniram a nós, após as necessarias apresentações.

Em diferentes direções outros grupos sairam. Seguindo as ordens do capitão Virgulino, diversos grupos seguiram em diferentes direções, com o mesmo objetivo de desviar a atenção das volantes e facilitar a permanencia de lampião, naquele local: Um deles, disse-nos Antonio de Amelia, se dirigiu a Matinha de Aguas Brancas, terra da fanosa baroneza, cujas joias foram roubadas por Lampião, no inicio de sua carreira.

Cangaceiros deram para desconfiar. Acampados no meio da mata, Suspeita e sua gente aproveitaram a presença de Zeca, primo de Sebastião, que era bom rabequista, para, ao lado de uma fogueira, dançarem e beberem durante toda a noite.

Antonio de Amelia prossegue na sua narração: aproveitando os cabras entretidos na dança, chamei Sebastião e disse para ele: vamos ter um pouquinho de cuidado com os cabras. Parece que eles estão um pouquinho desconfiados. Chamei depois o meu compadre Antonio Tiago e combinamos: o primeiro tiro será dado por mim em Fortaleza. Compadre Antonio cuida de Limoeiro e Sebastião de Suspeita. Aguardaremos, com cuidado a melhor oportunidade. Neste momento pude observar que Suspeita e Fortaleza se isolaram do grupo e, todos equipados, se dirigiam a um riacho nas proximidades do lugar de nosso acampamento. Foi aí que Sebastião se dirigiu até o local onde os dois se achavam e perguntou: O que está havendo com voce, Suspeita, que está triste e capionga? Ao que Suspeita exclamou: nada não, companheiro. Quem anda nessa vida precisa ter todo cuidado. Precisa confiar desconfiando. Sebastião retrucou: Então está desconfiando de mim que tudo tenho feito por voces e gosto de voce e do Capitão? Neste caso não mande mais me chamar para coisa nenhuma, e saiu para perto da fogueira. Diante da reação de Sebastião tudo voltou ao normal no acampamento, mesmo porque advertir, - disse Antonio de Amelia - para cessar a dança e o barulho da rabeca, pois dada a pequena distancia daquele local para a estrada, poderiam ser surpreendidos por alguma volante.

Andanças e Lembranças.

Continua.

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