domingo, 12 de maio de 2024

Sociedade egocentrista - Antonio Alves de Morais.

"Egocentrismo é o comportamento voltado somente para si ou tudo que lhe diz respeito e lhe interessa".

Há poucos dias uma jovem senhorita que não conheço, não sei de qual região é, não sei qual a sua formação intelectual ou profissional, nem sei que atividade estava cumprindo em Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha, postou um vídeo onde declarou que a região é uma África em potencial.

Houve uma grande comoção das pessoas, um rebuliço danado, um alvoroço dos diabos, e, foi considerado  como um insulto inaceitável.

Certamente essa jovem visitou as favelas que proliferam na periferia destas cidades, locais que os prefeitos, vereadores e políticos não visitam, ou visitam apenas no período de campanha eleitoral.

Ali vivem os párias da "sociedade egocentrista", a míngua, sem nenhuma atenção ou assistência do puder público. Saneamento, saúde e educação zero. 

Quem duvidar faça como aquela jovem visite as periferias e comprove que naquelas localidades nem a limpeza é feita, nem o lixo é retirado. Essa é a realidade para quem vê a região pela razão e não pela emoção ou paixão. 

Para os que vivem no conforto da comodidade, o problema não existe, e, se existe não é deles.

sábado, 11 de maio de 2024

ENRASCADA DA TERRA - Por Wilton Bezerra, comentarista generalista.

Achamos e a torcida do Flamengo, também, que o Planeta Terra está numa tremenda enrascada.

E esse enrosco é criado pelos seus inquilinos, que não prestam atenção no serviço.

Se o homem não agir para tirá-la da rota do abismo, vai sobrar pouca coisa. 

Ou melhor: não vai sobrar nem pensamento.

Guerras, tragédias climáticas e raros lampejos de humanidade compõem um triste cenário.

A destruição apavorante da mata é do tamanho da nossa negligência.

Daqui a pouco, não vamos reconhecer o valor de uma brisa.

Afora alguns relinchos, escreve-se sobre a sensação de impotência, embora a crueldade deixe vestígios.

Como disse um amigo meu, que não é analista de coisa nenhuma: "A ordem é normatizar os absurdos".

A Terra é a jóia do cosmo. Só existe vida nela.

O medo de hoje é marcado pelo esquecimento de amanhã.

O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

O QUE A VIDA NOS DEU - Por Wilton Bezerra, comentarista generalista.

Nem todo dia somos capazes de um texto interessante. Os assuntos podem sair em tom menor.

Mesmo porque a crônica nunca tem altas pretensões.

E é fundamental que o cronista escreva com o coração. Sobre si próprio, pois não.

Se elencarmos conquistas obtidas em nossa vida, acho que o tema estará de bom tamanho. 

Certos acontecimentos tiveram enorme significação em nossa caminhada.

O principal deles foi a construção de um porto seguro ancorado na família. 

Seguem-se fatos relacionados à atividade profissional, onde pontificam as realizações.

Conhecer países na cobertura de duas Copas do Mundo: a de 1986, no México, e a de 1990, na Itália.

Foram emoções a mais da conta. Um transbordar de felicidade.

Lançar livros sobre momentos divertidos da vida e reunir pessoas em torno desse acontecimento.

E, finalmente, receber um retorno carinhoso de ouvintes, leitores e amigos.

A arte está no fazer. O importante é o que foi feito.

Foi isso que pretendi dizer naquilo em que a leveza de uma crônica permite.

terça-feira, 7 de maio de 2024

E AÍ? - Por Wilton Bezerra, comentarista generalista.

Não foi nada disso que nos prometeram. E olha que ainda estamos lúcidos e nítidos.

O tempo vai passando e as pessoas não se emendam.

Onde já se viu saborear derrotas e crises e turbinar maus resultados?

Procuramos a racionalidade e damos de cara com um manicômio existencial.

Ligados no modo amnésia, nesse absurdo que chamamos de realidade.

O que acompanhamos é a descartabilidade das coisas e dos nossos semelhantes.

Das bobagens ditas e ouvidas, estamos cansados.

Quem que não está de bronca? Claro, que os mesmos beneficiários do desespero alheio.

Otimismo é falta de informação.

E aí? Tudo deve ser atribuído à antiga UDN ou o mais importante é saber que a capital de Honduras é Tegucigalpa?

Que as autoridades competentes organizem esse caos, que eu preciso dormir tranquilo.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

A CASA - Por Wilton Bezerra, comentarista generalista.



Uma casa na praia era tudo que eu queria na vida. Com uma planta na mão, junto a alguns pedreiros amigos, construi uma no Icaraí.
Não era na beira da praia, como desejava, mas tinha até piscina.  
Ah, mas como serviu.
Lugar de ajuntamento de gente da família e de amigos para muitas festas regadas a cerveja e muito churrasco.
Lotação, às vezes completa, nos finais de semana.
Necessidade imperiosa me fez vendê-la.
13 anos depois, volto à casa que me pertenceu, para um chá de bebê de uma afilhada.
A princípio, um choque. O novo proprietário pôs abaixo um cajueiro e um frondoso pé de ingazeiras que ornavam o lugar.
Com pequenas alterações, a casa estava intacta, como no tempo das felizes celebrações.
Nostálgico, sou tomado por lembranças e, logo depois,  recordo um texto do escritor Rubem Alves sobre lugares:
"Se você amou muito um lugar, não faça a besteira de visitá-lo. Você não encontrará o seu tempo. Esse lugar não mais lhe pertence".
Ou ainda a poesia do compositor português Rui Veloso, em "Regras da Sensatez":
"Nunca voltes ao lugar onde fostes feliz. Por mais que o coração diga, não faças o que ele diz. Só encontrarás erva rasa por entre as lajes do chão".
Batidas no coração

domingo, 5 de maio de 2024

70 anos da Escola José Correia Lima - Antonio Alves de Morais.

É com muita honra e orgulho que faço essa postagem memorável sobre a Escola José Correia Lima, situada à rua Luiz Afonso Diniz em Várzea-Alegre. Recebi  da nobre professora Isabel Eliane a relação das diretoras desde sua fundação em 1958 até 2010. 

As cinco primeiras são falecidas e ilustram a postagem com suas fotografias. Postagem dedicada a todo aquele que, um dia, ocupou  os seus bancos escolares e  somou conhecimentos para vida.


1948 -1950 - Maria Ivone Alencar Lacerda Moreno


1950 -1953 - Maria Afonsina  Diniz Macêdo


1953 -1955 - Waldira (Marta) Correia Alcântara Silveira


1955 -1981 - Maria Dolores Menezes de Carvalho


1981 - Leonarda Bezerra do Vale (Dadá Piau)

1982 -1986 - Ana Ferreira Rolim (Dona Aniete)

1987 -1989 - Maria Aurinete de Freitas

1990 -2000 - Antônia Félix da Silva

2001 -2004  - Francisco Bastos Gomes (Ossian)

2004 -2008 - Tereza Régia de Carvalho Costa

2008 -2010 - Raimundo Alves Cândido

2010 - Carlos André Bezerra Marques

sábado, 4 de maio de 2024

O varzealegrense - Antônio Alves de Morais.

Foto do Dihelson Mendonça - Várzeas e arrozais do Machado.

O varzealegrense não é, na verdade, como o japonês: Feito na mesma forma! Seu tipo étnico, no entanto, em nada difere do clássico padrão nordestino. Por que seria diferente, mesmo sendo cabra da peste?

Moreno claro, pelo sol e pelo clima que o queimam, com um percentual ínfimo de negros. Fisionomia serena e simpática, sem refletir dramas ou amarguras. Olhos castanhos claros, dentes bem implantados - já agora, melhor cuidados. O cabelo é liso castanho.... pixaim é difícil encontrar, mesmo para remédio. Goza de boa saúde, o que lhe dá força e disposição nos trabalhos. Tem a mania de pensar que a Agua do Machado lhe traz cardiopatias... Apesar disto - ou por isto - tem, existência bem ampla, sendo comum, muito comum, mesmo, viver até morrer.

Das suas caracteristicas mais fortes, sem ser bairrismo de babar, permito-me referir a inteligencia. É de chamar a atenção. Posso garantir que é dos mais elevados o seu Q.I, pode ser analfabeto de pai e mãe, Como Zefelipe - mas a inteligencia implode. Aprende tudo, facilmente, e, com perfeição, tudo é capaz de fazer. Até, o que não presta. Não sei se, dos cearenses, foi o varzealegrense que de um bode tirou dois couros; mas, sei que ele é capaz disto e... mais do que isto.

Meu amigo e colega - Dr. João Suassuna Filho - dos mais afamados oto-rino-laringologista que conheço, homem lido e corrido pelos quatro cantos do mundo, me disse, certa vez: Entre cem brasileiros, espalhados no mundo, um, pelo menos, é de Várzea-Alegre. Resumindo, um informe que, talvez, a ninguém surpreenda: Ainda não produzimos, em Várzea-Alegre, bebês de proveta. Os métodos de confecção continuam os conhecidos e clássicos, o que, afinal de contas, não parece causar mal estar ou desgosto, entre os fabricantes.
Dr. José Correia Ferreira.

Sinceridade matuta - Por Coronel José Ronald Brito.


Açude Thomáz Osterne de Alencar - O Umari.

Na localidade do Umari,  perto da Catingueira, entre Ponta da Serra e Boqueirão, em Crato - Ceará, moravam duas descendências muito unidas, amizade essa já selada por um compadrio.

Numa delas existia um menino muito ativo, que as noticias de suas traquinagens já ultrapassavam os limites  do lugarejo.

Certo dia, a comadre querendo ajudar a mãe do diligente, advertindo-a, mais sem querer melindrá-la,

Saiu-se com esta : Comadre, esse seu menino é tão agoniado que não vai servir nem para ser doido!

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Escola José Correia Lima, V.Alegre - Antônio Alves de Morais.

Considerada uma das pioneiras da educação no município a escola de ensino fundamental e médio José Correia Lima, comemora neste 30 de Novembro de 2024, os seus 77 anos de fundação. 

Foi no dia 30 de novembro de 1947, que a instituição passou a militar em Várzea Alegre e contribuir na vida estudantil de muitos varzealegrenses e na de outros filhos de municípios circunvizinhos.

Composta atualmente por cerca de 60 colaboradores, incluindo professores, auxiliar de serviços gerais, suporte pedagógico e servidores do setor administrativo, a escola abriga 780 alunos distribuídos nos três turnos, manhã, tarde e noite.

Escola José Correia Lima, situada à Rua Luiz Afonso Diniz em Várzea-Alegre. Obtida dos arquivos do Blog do Antonio Morais, trago a relação das diretoras desde sua fundação em 1947 até 2018.

1948 -1950 - Maria Ivone Alencar Lacerda Moreno

1950 -1953 - Maria Afonsina Diniz Macêdo

1953 -1955 - Waldira (Marta) Correia Alcântara Silveira

1955 -1981 - Maria Dolores Menezes de Carvalho

1981 - Leonarda Bezerra do Vale (Dadá Piau)

1982 -1986 - Ana Ferreira Rolim (Dona Aniete)

1987 -1989 - Maria Aurinete de Freitas

1990 -2000 - Antônia Félix da Silva

2001 -2004 - Francisco Bastos Gomes (Ossian)

2004 -2008 - Tereza Régia de Carvalho Costa

2008 -2010 - Raimundo Alves Cândido

2010 -2018 - Carlos André Bezerra Marques

2018 - Anderson Oliveira

Coronel José Correia Lima, terceiro filho de Clara Alves Bezerra, neto do Major Joaquim Alves. Em sua época era considerado por todos como o mais rico de Várzea-Alegre. Proprietário, exportador e pecuarista, foi um dos que muito contribuíram para o desenvolvimento de Várzea-Alegre. 

Um autêntico líder político, trabalhou durante toda sua vida, defendendo a causa dos seus parentes e correligionários, tendo sido, inclusive, o primeiro prefeito de Várzea-Alegre. 

Croniqueta - Antônio Alves de Morais.

Caminhava com o meu pai quando de repente ele  me perguntou : Além do cantar dos pássaros você está ouvindo mais alguma  coisa?

Sim. Estou ouvindo o barulho de uma carroça. Isso mesmo disse-me meu pai, é uma carroça vazia.

Vazia? 

Perguntei ao meu pai: Como sabe que a carroça está vazia se ainda não a vimos?

É muito facil saber que uma carroça está vazia, por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que ela faz.

Tornei-me adulto, e até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, gritando, no sentido de intimidar e tratando o próximo  com grossura, tenho a impreção de ouvir a voz do meu  pai, dizendo: "Quanto mais vazia a carroça mais barulho ela faz". 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Croniqueta - Antônio Alves de Morais.


MEU SENHOR.

"Ajuda-me a dizer a verdade diante dos fortes e a não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos débeis. Se me dás fortuna, não me tires a razão. Se me dás êxito, não me tires a humildade. Se me dás humildade, não me tires a dignidade.

Ajuda-me a ver sempre a outra face da medalha, não me deixe culpar de traição a outrem por não pensar como eu. Ensina-me aos outros como a mim mesmo. Não me deixas cair no orgulho se triunfo, nem no desespero se fracasso. Mas antes recorda-me que o fracasso é a experiência que precede o triunfo. Ensina-me que perdoar é um sinal de grandeza e que a vingança é um sinal de baixeza.

Se me tiras o êxito, deixe-me forças para aprender com o fracasso. Se eu ofender a alguém, dá-me energia para pedir desculpa, se alguém me ofender dá-me energia para perdoar".
Senhor... Se eu me esquecer de ti, nunca ti esqueças de mim.

Uma preciosidade - Dr. José Flavio Pinheiro Vieira.

Dublê de santo -  Por Dr. José Flávio Pinheiro Vieira.

Não, definitivamente aquilo não poderia estar acontecendo! Era caié grande demais para uma paróquia só. Logo no dia da famosa procissão de São Lázaro, quando toda Matozinho se emperiquitava para acompanhar o santo milagroso, como diabos aquilo pode ocorrer? Padre Zeferino, desolado, ruminava tudo isto com os botões da sua puída batina, enquanto contemplava os fragmentos de gesso espalhados pelo chão da sacristia. 

O relojão de badalo marcava já três da tarde e a procissão deveria sair aí por volta das cinco, percorrendo todas as ruas da cidade, com grande acompanhamento, mantendo a tradição dos últimos trinta anos. Santa Genoveva adorava-se como padroeira, mas os matozenses tinham uma profunda veneração por São Lázaro. 

A razão encontrava-se na história não oficial da cidade. Aí pelos idos dos anos 20, a vila viu-se assaltada pela lepra e os casos, pouco a pouco, se foram avolumando, adquirindo ares de epidemia. Os pacientes mais graves iam, naturalmente, se isolando na Serra da Jurumenha, aguardando, resignadamente, entre companheiros de infortúnio, o fim inexorável e terrível. 

O local do leprosário ficou conhecido como “Serrinha do Pitoco”, uma referência popular a tantos e tantos mutilados. Nem médico, nem padre, nem sacristão tinha coragem de andar no “Pitoco”, só lá pisava quem sofria do mesmo mal. Contam os mais velhos que um belo dia por lá chegou um beato da barbona com uma imagem de São Lázaro e passou a viver e rezar com os lazarentos. Em pouco, a peste estava sanada , os casos foram desaparecendo e a “Serrinha do Pitoco” passou a ser apenas mais um acidente geográfico de Matozinho. A vila entendeu aquilo como um milagre e passou a ter São Lázaro como santo de devoção mais arraigada naqueles sertões.

Imaginem, pois, a sinuca de bico em que estava metido Padre Zeferino. Minutos atrás, o vigário pedira a “Meia Sola” para retirar São Lázaro do seu altar, limpando-o e preparando-o para a solenidade . De repente, a imagem escapuliu das mãos do coroinha e espatifou-se no chão. O que sobrara fora justamente aquilo: caco para tudo que é lado! E agora? Que fazer? Impossível cancelar a procissão quando todo o povo, piedosamente, se espremia na praça e na igreja, a banda de música já ensaiara seus primeiros dobrados e a sacristia já estava repleta de ex-votos. 

Como explicar uma tragédia daquelas ao povo? Corriam o risco de linchamento. “Meia Sola”, consciência pesada, pensou rápido e propôs uma saída. Existia um rato de Igreja ali chamado Valadão, um velho baixo, sanguíneo, careca, magricela e que poderia muito bem , posto no andor e devidamente fantasiado, fazer as vezes do milagroso S. Lázaro. O velho, com estas características físicas, tinha um apelido que o tirava do sério e que já o tinha metido em inúmeras emboanças : “Piroca” .

Zeferino achou esquisito, mas não havia tempo e não conseguiu pensar numa saída melhor. Rápido trouxeram Valadão e o explicaram a sua importante missão. Ninguém sabia, mas a imagem se quebrara e ele havia sido escolhido para desempenhar o santo papel de Lázaro na procissão daquele ano. Quem sabe não havia sido um desígnio dos céus? 

O homem, beato de carteirinha, não podia declinar de tamanha honraria. Pediram que tirasse a roupa, lhe cobriram apenas com uma manta transversal avermelhada improvisada de uma velha colcha de chenile. Com um pincel atômico lhe colocaram várias chagas por todo o corpo. Pediram ainda que ele trouxesse seu cachorro velho pé-duro apelidado de Cruvina. Estava tudo pronto: ator, cenário, figurino.

Zeferino, então, paramentou-se e resolveu celebrar uma missa com o fito de deixar a procissão para um pouco mais tarde, após o entardecer, utilizando, assim, os recursos da iluminação, usando assim cinematográficos efeitos especiais. Acomodaram Valadão no andor, tendo ao lado Cruvina e iniciaram a procissão. Nosso ator fez-se uma espécie de estátua de cera e não piscava o olho. Até Cruvina parecia entender perfeitamente o seu papel. O vigário respirou fundo, as coisas se iam desenvolvendo conforme o esperado. 

O primeiro atropelo, no entanto, aconteceu nas proximidades da “Botica de Janjão”. Juvenal Fogueteiro lá estava com duas dúzias de fogos e uma tição aceso, pronto a pagar promessa que fizera ao santo milagroso da sua devoção. Quando o primeiro foguete risco nos ares, Cruvina de cá já assuntou e esperneou. Valadão sem mexer um músculo, tentou segurá-lo, mas quando a bomba pipocou nas beiradas da orelha de Cruvina, este fez finca pé e saiu miúdo, rua abaixo, juntando perna e cabeça. 

O andor pendeu prum lado e pro outro e nosso santo, tentando se equilibrar, abriu o compasso das pernas . Umas velhinhas que vinham logo embaixo, olharam para cima e viram uma santa brecha, por entre a santa manta do santo. A velha Vitalina então, agoniada, sussurrou para as outras :

Oxente, Vije Santa! E santo tem piroca , meu senhor?

Quando ouviu aquilo que parecia ser a palavra mágica, o abre-te-sésamo do desaforo, Valadão não resistiu e imprecou: Piroca o quê, rapariga velha sem vergonha! Piroca é a puta que pariu!

Diante da santa baixaria, os carregadores derrubaram São Lázaro de cima do andor que caiu de mal jeito, com a focinheira no meio fio . Lá ficou grogue, meio inconsciente. 

Jojó Fubuia que vinha no séquito em seu estado normal de embriagues, aproximou-se do santo e com a voz engrolada, levantou o braço, como um Moisés em frente ao mar morto e gritou a todos pulmões: Lázaro, seu bunda mole lazarento, levanta-te e anda!