quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Tiro ao alvo em Dilma - Ricardo Noblat


Desconstruindo o episódio da saída de Marta Suplicy do Ministério da Cultura:

Ela e Dilma nunca se deram bem. Dilma tolerava Marta, indicada para o cargo por Lula. Marta tolerava Dilma porque não tinha outro jeito. Ou melhor: tinha, caso ela quisesse retornar ao Senado, para onde foi eleita. Mas ela não queria retornar. Retorna porque não tem outro jeito.

Marta foi uma das estrelas do PT que mais se bateram pela candidatura de Lula a presidente, este ano. Não escondeu seu empenho. Dilma viu e não gostou. Se Marta não tivesse pedido demissão, acabaria demitida.

Por que Marta não esperou para sair junto com outros ministros que sairão do governo? Porque não queria que sua saída se misturasse com as deles. Saindo antes, ganharia mais espaço na mídia.

Marta mandou sua carta de demissão depois que Dilma viajou ao exterior para não ter que entregá-la pessoalmente. Queria evitar o último contato com a presidente na condição de sua subalterna. E marcar publicamente sua insatisfação.

Para completar, Marta incluiu um parágrafo venenoso em sua carta de demissão. Nele, deseja que Dilma escolha uma equipe econômica independente e de experiência comprovada. Isso quer dizer que a atual não é. E por que não é? Por culpa de Dilma, que não delega poderes.

De resto, uma equipe econômica independente ajudará o governo a resgatar a confiança e a credibilidade que lhe faltam, sugere Marta na carta. Quer crítica mais direta a Dilma? Anteontem, foi outro ministro, Gilberto Carvalho, quem criticou Dilma. De forma mais direta.

As críticas de Marta e de Gilberto a Dilma dão uma idéia do tremendo incômodo em que se transformou para o PT a presidente reeleita. Dilma resiste à indicação de ministros por Lula e pelo PT. Na semana passada, disse que não representava o PT e que o partido não lhe fazia a cabeça.

Como ficará o projeto do PT de se eternizar no poder caso Dilma não colabore?

Investigação dos EUA na Petrobras preocupa o governo brasileiro - Folha de São Paulo.


As investigações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e da SEC, principal agência reguladora do mercado de capitais americano, sobre irregularidades na Petrobras são as que mais preocupam o governo Dilma por causa do potencial de impactos econômico e financeiro negativos no funcionamento da estatal brasileira.

Segundo um assessor presidencial, as investigações de órgãos brasileiros, como Ministério Público e Polícia Federal, também preocupam, mas as americanas são mais complicadas porque podem interferir em negócios e investimentos da estatal com parceiros estrangeiros. Além de multas e indenizações pesadas, com risco de pedido de prisão de executivos, a imagem da governança da Petrobras no exterior pode ficar "muito arranhada" a partir do que for apurado pelos órgãos dos EUA. Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras. O processo de "depuração" na estatal, segundo o assessor, pode ser mais "profundo" do que o imaginado diante das investigações da SEC e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Na estatal, não está descartada uma nova troca de comando para sinalizar mudanças na empresa, o que pode levar a uma saída de sua atual presidente, Graça Foster. Até o início da noite desta segunda-feira (10), porém, o governo brasileiro ainda não havia sido informado da investigação do Departamento de Justiça dos EUA.

Segundo a Folha apurou, a Petrobras, a Polícia Federal e o Ministério da Justiça não foram notificados sobre a investigação criminal que teria sido aberta pelo órgão americano, revelada pelo jornal britânico "Financial Times". Um auxiliar da presidente disse também à Folha que não necessariamente o governo brasileiro tem de ser notificado, mas isto deve ocorrer pelo menos com a Petrobras porque estaria envolvida diretamente no processo. Ele disse que a orientação do Planalto é de colaborar com todas as investigações, sejam no Brasil ou no exterior, porque o objetivo do governo, diz, é punir todos que tenham praticados atos de corrupção feitos com a estatal. As investigações sobre corrupção na Petrobras começaram neste ano, depois que a Polícia Federal prendeu, na Operação Lava Jato, o ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Yousseff. Os dois fizeram um acordo de delação premiada com a Justiça para reduzir suas penas no processo que apura o escândalo na estatal. Eles revelaram ao Ministério Público e à PF como funcionaria o esquema de desvio de recursos na Petrobras para partidos, como PT, PMDB e PP. Na semana passada, o escândalo, a partir de pressões da PricewaterhouseCoopers, empresa de auditoria da Petrobras, já provocou a queda do presidente da Transpetro, Sergio Machado.

A consultoria, a partir de notificação da SEC, condicionou a aprovação das contas da estatal à saída de Machado, que teve seu nome citado como suspeito de participar de atos irregulares. Ele nega.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Um homem sereno que não fala para sectários - O Globo


Livros já foram escritos sobre a vida do Papa Francisco, embora pouco mais de quatro meses tenham decorrido desde a sua eleição para o trono de São Pedro. Mais alguns serão escritos, com certeza, para tentar interpretar o fenômeno de popularidade em que ele se tornou.

A passagem do Papa pelo Rio foi marcada, como se sabe, por graves problemas de organização. Talvez não haja cidade que possa enfrentar incólume a chegada repentina de mais de um milhão de visitantes. Padrões mais altos de eficiência, porém, terão de ser alcançados, se vamos enfrentar desafios como Copa e Olimpíadas. Mas, das muitas confusões, emergiu um evento que será lembrado com saudade — inclusive pelo Papa Francisco.

Suas conotações são quase infinitas, atingindo todos os assuntos que fazem a vida dos seres humanos. Havia, por exemplo, o dado religioso, o fato de que um Papa popular e carismático veio encontrar-se com a maior população de católicos da terra. As multidões que corriam em todas as direções para chegar mais perto do Papa certamente incluiriam pessoas simples, que, para além dos debates teológicos, veem em Francisco, como ensina a Igreja, o sucessor de Pedro.

Mas o fenômeno meio mágico a que o Brasil e o mundo assistiram vai além do terreno religioso. Ao vivo ou pela televisão, massas humanas se defrontaram com o espetáculo notável que é ver alguém chegar aos píncaros da popularidade, do sucesso, e continuar a ser o que, nessas eminências, acaba sendo muito raro: uma pessoa normal, sem qualquer pose.

O Papa Francisco teve uma palavra suave para todos. Confessou-se, ele mesmo, pecador, solidário com os erros dos outros (no voo de volta a Roma deu declaração não discriminatória sobre os gays). Pediu que rezassem por ele. Mas, em nenhum momento, mostrou-se complacente com o comodismo, numa realidade social que pede tantos ajustes.

Ajustes ele se propõe a fazer também dentro da Igreja, ficou claro na entrevista que concedeu ao “Fantástico”. Quase que denunciou uma Igreja “clerical” que transforma os meios nos fins. Criticou os bispos que incorram numa “psicologia de príncipe”. Aos jovens, deixou um grande mote: “Ide, sem medo, para servir.” Quer que eles estejam atentos às realidades do mundo, e que não se deixem instrumentalizar por este ou por aquele caminho demagógico.

Ele falou para todos, e não para mentalidades sectárias. Tudo bem pesado, talvez a sua mensagem mais forte seja a da necessidade do Encontro, para que possamos diminuir o tamanho dos nossos problemas. Num continente como o nosso, repleto de desigualdades, é muito fácil obter dividendos políticos cultivando inimizades, criando bodes expiatórios. Toxinas desta natureza estão bem visíveis em países como a Venezuela e a Argentina. Para esses é que pode fazer bem a palavra do Papa Francisco — lúcida, serena, humana.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Nunca antes - Por Paulo Guedes, O Globo

Com a economia voando, o problema da corrupção na política era simplesmente irrelevante para a maioria da população. A razoável qualidade da política econômica era como uma blindagem para malfeitos do governo. Abusos, tanto no Poder Executivo como no Congresso, foram tolerados pela grata complacência de uma nova classe média emergente.

O histórico julgamento do mensalão foi como um despertar da opinião pública, graças ao brilhante desempenho de Joaquim Barbosa à frente do Supremo Tribunal Federal. Agora, com a forte desaceleração da economia de um lado e recorrentes manifestações disparadas por redes sociais de outro, inaugura-se uma fase de baixa tolerância da opinião pública com as nossas obscuras práticas políticas.

O medíocre desempenho da economia transformou a indiferença popular em irritação incontida. A perda do poder de compra dos salários com a inflação ascendente foi como um nervo exposto tocado pela elevação das tarifas de transporte urbano.

Mas a verdade é que sobem também as mensalidades escolares, os aluguéis, as despesas com alimentos, em uma alta generalizada e perversa de preços, ao mesmo tempo em que ocorre a desaceleração do crescimento, configurando a ameaça da “estagflação”.

Prisioneiros da armadilha social-democrata do baixo crescimento, temos enorme dificuldade em perceber que a estagflação na economia e a corrupção na política são as duas faces de um mesmo fenômeno: um Estado hipertrofiado e disfuncional.

Suas digitais são visíveis em toda parte pela ininterrupta escalada dos gastos públicos como porcentagem do PIB. Sua arquitetura pertence ao Antigo Regime, mas foi preservada por sucessivos governos de uma social-democracia obsoleta, mas hegemônica por viciosas alianças com o fisiologismo de políticos conservadores.

Tiveram o mérito de democratizar os orçamentos públicos com os programas sociais de transferência de renda, mas não ousaram enfrentar os privilégios, os subsídios e as estruturas ineficientes do Antigo Regime.

A contínua expansão dos gastos públicos sob os governos militares e social-democratas causou outras dificuldades além da corrupção e do baixo crescimento. Nunca houve na História da humanidade um programa de combate à inflação que levasse tanto tempo.

domingo, 9 de novembro de 2014

Departamento de Justiça dos EUA abre investigação criminal sobre caso Petrobras, diz “FT” - O Globo


O Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal contra Petrobras para saber se houve pagamento de propina para a empresa, ou algum de seus funcionários, nas operações americanas da estatal brasileira, segundo o jornal britânico “Financial Times”. Essa investigação ocorre de forma paralela a uma segunda, feita ela pela Securities and Exchange Commission (SEC, o órgão regulador do mercado americano). A Petrobras tem recibos de ações, os chamados ADRs, negociados na Bolsa de Valores de Nova York.

A investigação do Departamento de Justiça busca descobrir se a Lei de Práticas Corruptas Estrangeiras, que proíbe o pagamento de propina para estrangeiros para obter vantagens em negócios, foi violada. A investigação procura comprovar se alguma empresa registrada nos EUA ou indivíduo pagou propina para funcionário ou representante da Petrobras para ter privilégios comerciais.

Quando rolarão outras cabeças da Petrobras? - Ricardo Noblat.


Presidente da Transpetro diz que vai ali e volta já.

Há quantos meses se arrastava o escândalo da roubalheira de cerca de R$ 10 bilhões na Petrobras sem que a direção da empresa cortasse a cabeça de funcionários suspeitos? Quatro meses? Seis?

A contar da primeira ação pública da Polícia Federal em março último, lá se foram quase oito meses.

O doleiro Alberto Youssef está preso, mas ele nunca foi funcionário da Petrobras.

Paulo Roberto Costa, que trocou a prisão pela delação premiada, deixou a Petrobras em 2012. Cercado de elogios, por sinal.

Somente ontem rolou a primeira cabeça – a de Sérgio Machado, presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras. E mesmo assim não foi por obra e graça da direção da empresa.

Machado cedeu o lugar que ocupava há mais de 11 anos por exigência da empresa de auditoria PricewaterhouseCoopers (PwC),responsável pelos balanços da Petrobras.

A PwC recusou-se a considerar válido o balanço do terceiro trimestre da Petrobras alegando que Machado não poderia assinar o documento uma vez que fora citado por Paulo Roberto.

De fato, em depoimento à Justiça do Paraná, Paulo Roberto disse que recebeu R$ 500 mil de Machado para promover uma licitação viciada de navios. Machado nega.

Era para Machado ter sido demitido da presidência da Transpetro.  Mas por cinco votos contra quatro, o Conselho de Administração da Petrobras preferiu apenas afastá-lo por 31 dias.

Por que? Adivinhe! Quer uma pista?

Renan Calheiros, presidente do Senado pelo PMDB. José Sarney, senador pelo PMDB. Bingo! Sim, Machado é ligado aos dois. E também a outros senadores do PMDB.

O Conselho de Administração não quis comprar briga com essa gente. Machado assinou uma nota onde diz que se afasta do cargo espontaneamente e que não teme investigações.

Fica a pergunta: por que Graça Foster, presidente da Petrobras, também não se licencia do cargo até que tudo seja apurado?

Ao que se sabe, seu nome não foi citado por Paulo Roberto Costa. Nem por Youssef.

Mas ela preside a empresa no pior momento de sua história. Desconhecia o que se passava a poucos metros do seu gabinete. E somente forçada tem agido para que se revolva o mar de lama que ameaça tragar a Petrobras.

Não tem pé nem cabeça a cogitada indicação do governador Jaques Wagner, da Bahia, para a vaga de Foster. Ele mesmo não aceitaria a indicação.

Wagner foi o padrinho de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, supostamente envolvido nas negociatas denunciadas por Paulo Roberto. 

Embora com seus bens bloqueados, Gabrielli é Secretário de Planejamento do governo de Wagner.

Pois é... Pegaria mal.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Dê-se por fundada a nova oposição - Ricardo Noblat.


O PT ainda não se recuperou do susto de quase ter perdido a eleição.

Caso não se registre mais adiante nenhum tipo de recuo, dê-se por fundada nos últimos dois dias a oposição brasileira desaparecida desde que o PT chegou ao poder com Lula em janeiro de 2003.

É de celebrar, mesmo até se você for petista de carteirinha. Uma democracia não se consolida sem que haja oposição. Um partido não se reinventa se reinar sozinho.

O PT tentou ser governo e oposição ao mesmo tempo, não deixando espaço a ser ocupado pelos adversários. Mas ninguém chega ao poder impunemente. O poder entorpece e corrompe. O PT não escapou da escrita.

Foi mais por falta de hábito, preguiça, distanciamento do distinto público e medo de enfrentar o carisma de Lula que a oposição comandada pelo PSDB cruzou os braços nos últimos 12 anos. Perdeu a voz. Refugiou-se nos gabinetes.

Finalmente, parece ter saído da toca sob o impacto dos 50 milhões de votos colecionados por Aécio Neves. E dos discursos exemplares que ele fez desde que se reapresentou ao Senado onde ficará por mais quatro anos.

Aécio rompeu com o jeitinho brasileiro de se compor por cima ou de conciliar por conciliar, fugindo do choque aberto e afirmativo. Seu discurso não tem sido de um perdedor – pelo contrário. Foi para cima do governo. E o fez com especial dureza.

É assim nas democracias amadurecidas. Quem perde vai para a oposição. E tenta enfraquecer o governo para substituí-lo um dia. Assim procedeu o PT entre 1989, quando Lula concorreu à presidência pela primeira vez, e 2002 quando ele se elegeu.

O PT ainda não se recuperou do susto de quase ter perdido a eleição. Está perplexo com o comportamento do PSDB e de seus aliados. Por enquanto ainda não sabe como reagir.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Cunha acerta apoio do 'blocão' para presidir Câmara - NIVALDO SOUZA - ESTADÃO CONTEÚDO


Líder do PMDB e desafeto de Dilma recebe adesão de líderes de partidos insatisfeitos com governo, que somam 152 deputados na próxima legislatura

Brasília - O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), conseguiu fechar nesta terça-feira, 4, o apoio de quatro partidos para montar uma chapa e disputar a presidência da Casa em 2015. O deputado selou acordo com PTB, PR, PSC e Solidariedade (SD). Essas legendas terão 152 deputados dos 513 parlamentares da legislatura que toma posse em fevereiro.

A continuidade do “blocão” que desafia o Palácio do Planalto desde 2013, reunindo legendas da base do governo Dilma Rousseff descontentes com a presidente, foi a principal condição para o apoio ao nome do líder do PMDB. “Se o bloco for mantido, ele vai ter muita força em 2015. Ele já nasce com 160 deputados e será a segunda força da Câmara”, disse o líder do SD, Fernando Francischini (PR).

Os deputados alegam que o blocão é uma forma de garantir autonomia ao Legislativo e evitar que a Câmara fique “atrelada ao Palácio do Planalto”. Cunha tem usado esse discurso para atrair apoio como o obtido nesta terça no almoço realizado em seu apartamento.

O presidente do SD, deputado Paulinho da Força (SP), saiu do encontro confirmando o acordo. “Foi feita essa discussão durante a semana (passada) e tem apoio da bancada do Solidariedade para a candidatura (de Cunha)”, disse.

O líder do PTB, Jovair Arantes (GO), falou em “um grande entusiasmo com a candidatura” do peemedebista em sua bancada, que vai decidir sobre isso nos próximos dias.

Mesmo diante dos apoios declarados, Cunha saiu do almoço afirmando que havia convocado “uma conversa bastante simples” sobre a intenção de formalizar o blocão para dar autonomia à Câmara em relação ao Planalto, resguardando o direito dos deputados de “sugerir, opinar e divergir” da pauta do governo. “Se a gente não pode divergir, não temos uma democracia.”

O peemedebista falou que vai conversar com outros partidos, a fim de compor uma chapa com apoio da maioria dos deputados. “É uma etapa de um processo em construção.”

Cunha considerou “não harmônica” a hipótese de enfrentar um candidato do PT nessa disputa. “O clima hoje não está harmônico para que o comando do Legislativo fique sob comando do Executivo”, referindo-se ao fato de o PT chefiar o Executivo.

O discurso do presidente do PT, Rui Falcão, de que estaria disposto a apoiar um nome que não fosse petista foi recebido com ironia por peemedebistas. “O Rui Falcão deu uma boa declaração quando disse que o PT quer lançar candidato ou influir na eleição. Ele pode influir apoiando (Cunha)”, provocou o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA). “O governo vai fazer todo um trabalho (para evitar a eleição de Cunha), mas, se a gente amarrar bem, a gente ganha”, disse Paulinho da Força.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Crato - Por Alves de Oliveira.

Tanto me afiz bela urbe, a tua natureza
Pelos meus respirada, exuberante e pura,
Que, ausente dos teus céus, nas horas de ternuras
Afloras-me ao cismar, bem fadada princesa.

Venho as auras haurir-te. E ao ver-te, que leveza
Blandiciosa me invade, e se aviva, e perdura,
Sentindo-me ingressar na região da fartura.
Sentindo-me extasiar na zona da beleza.

E o Cristo Redentor, e as torres, e a serena
Verdura a emoldurar te... Em fim, para que a pena
Deslize no papel, feliz, ágil, fagueira.

Basta-me a aparição, na tarde que se encerra
De uma casa a alvejar num côncavo de serra
Ou o simples flabelar de um leque de palmeira.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Diálogo ou novas imposturas? - Fernando Henrique Cardoso.


Em uma democracia não cabe às oposições, como ao povo em geral, senão aceitar o resultado das urnas. Mas nem por isso devemos calar sobre o como se conseguiu vencer, nem sobre o por que se perdeu.

Os resultados eleitorais mostram que a aprovação ao atual governo apenas roçou um pouco acima da metade dos votos. Ainda que a vitória se desse por 80% ou 90% deles, embora o respeito à decisão devesse ser idêntico ao que se tem hoje com a escassa maioria obtida pelo lulopetismo, nem por isso os críticos deveriam calar-se.

É bom retomar logo a ofensiva na agenda e nos debates políticos. Para começar, não se pode aceitar passivamente que a “desconstrução” do adversário, a propaganda negativa à custa de calúnias e deturpações de fatos, seja instrumento da luta democrática.

Foi o que aconteceu, primeiro com Marina Silva, em seguida com Aécio Neves. O vale-tudo na política não é compatível com a legitimidade democrática do voto.

Marina, de lutadora popular e mulher de visão e princípios, foi transformada em porta-bandeira do capital financeiro, o que não é somente falso, mas inescrupuloso. Aécio, que milita há 30 anos na política, governou Minas duas vezes com excelente aprovação popular, presidiu a Câmara e é senador, foi reduzido a playboy, farrista contumaz e “candidato dos ricos”.

Até eu, que nem candidato era, fui sistematicamente atacado pelo PT, como se tivesse “quebrado” o Brasil três vezes (quando, como ministro da Fazenda, ajudei o país a sair da moratória), como se tivesse deixado a Presidência com a economia corroída pela inflação (como se não fôssemos eu e minha equipe os autores do Plano Real, que a reduziu de 900% ao ano para um dígito), como se os 12% de inflação em 2002 fossem responsabilidade de meu governo (quando se deveram ao temor de eventuais desmandos de Lula e do PT).

Não me refiro à língua solta de Lula, que diz o que quer quando lhe convém, mas ao fato de a própria presidenta e sua campanha terem endossado que o PSDB arruinou o Banco do Brasil e a Caixa, quando os repôs em sadias condições de funcionamento.

E assim por diante, num rosário de mentiras e distorções, insinuando terem sido postos embaixo do tapete vários “escândalos”, como o “da Pasta Rosa” ou o “do Sivam”, ou “da compra de votos” da minha reeleição etc., factoides construídos com matéria falsa, levantada pelo PT, submetida a CPIs, investigações várias e julgamentos que deram em nada por falta de veracidade nas acusações.

Mas isso não é o mais grave. Mais grave ainda é ver a reeleita colocando-se como campeã da moralidade pública. Entretanto, não respondeu à pergunta de Aécio Neves sobre se era ou não solidária com seus companheiros que estão presos na Papuda.

Calou ainda diante da afirmação feita no processo sobre o Petrolão de que o tesoureiro do PT, senhor Vaccari, era quem recolhia propinas para seu partido. Havendo suspeitas, vá lá que não se condene antes do julgamento, mas até prova do contrário deve-se afastar o indiciado, como fez Itamar Franco com um ministro, e eu fiz com auxiliares, inocentados depois no caso Sivam. Então por que manter o tesoureiro do PT no Conselho de Itaipu?

Pior. A propaganda incentivada pela liderança maior do PT inventou uma batalha dos “pobres contra os ricos”. Eu não sabia que metade do eleitorado brasileiro, que votou em Aécio, é composta por ricos... É difícil acreditar na boa-fé do argumento quando se sabe que 70% dos eleitores do candidato do PSDB, segundo o Datafolha, compunham-se de pessoas que ganham até três salários mínimos.

A propaganda falaciosa, no caso, não está defendendo uma classe da exploração de outra, mas enganando uma parte do eleitorado em benefício dos seus autores. Isso não é política de esquerda nem de direita, é má-fé política para a manutenção do poder a qualquer custo. Igual embuste foi a insinuação de que a oposição é “contra os nordestinos”, como se não houvesse nordestinos líderes do PSDB, assim como eleitores do partido no Nordeste.

Também houve erros da oposição. Quem está na oposição precisa bradar suas razões e persistir na convicção, apontar os defeitos do adversário até que o eleitorado aceite sua visão. Para isso precisa organizar-se melhor e enraizar-se nos movimentos da sociedade. Felizmente, desta vez, Aécio Neves foi firme na defesa de seus pontos de vista e, sem perder a compostura, retrucou os adversários à altura, firmando-se como um verdadeiro líder.

Diante do apelo ao diálogo da candidata eleita, devemos responder com desconfiança: primeiro, mostre que não será leniente com a corrupção. Deixe que os mais poderosos e próximos (ministros, aliados ou grandes líderes) respondam pelas acusações.

Que se os julgue, antes de condenar, mas que não se obstruam os procedimentos investigatórios e legais (Lula tentou postergar a decisão do STF sobre o mensalão o quanto pôde). Que primeiro a reeleita se comprometa com o tipo de reforma política que deseja e esclareça melhor o sentido da “consulta popular” a que se refere (plebiscito ou referendo?).

Que se debata, sim, na sociedade civil e no Congresso, mas que se explicite o que ela entende por reforma política. Do mesmo modo, que tome as medidas econômicas para vermos em que rumo irá o seu governo.

Só se pode confiar em quem demonstra com fatos a sinceridade de seus propósitos. Depois de uma campanha de infâmias, fica difícil crer que o diálogo proposto não seja manipulação. Só o tempo poderá restabelecer a confiança, se houver mudança real de comportamento. A confiança é como um vaso de cristal, uma pequena rachadura danifica a peça inteira. 

O fantasma de Dilma.

domingo, 2 de novembro de 2014

Sergio Moro, o juiz na mira dos acusados do petrolão - Daniel Pereira e Robson Bonin


Os envolvidos no escândalo que desviou bilhões da Petrobras se movimentam para impedir o avanço das investigações. O alvo principal é o magistrado responsável pelo processo

A história recente do Brasil tem algumas lições para o juiz federal Sérgio Fernando Moro.

Relator do processo do mensalão, o ex-ministro Joaquim Barbosa recebeu do PT a alcunha de traidor e foi atacado, de forma impiedosa, antes mesmo de decretar a prisão da cúpula do partido. Autor do pedido de condenação no caso, o então procurador-geral Roberto Gurgel foi transformado por petistas e asseclas em personagem de uma CPI, sendo ameaçado, inclusive, com um processo de impeachment. Os dois resistiram, e o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou os mensaleiros. Descrita como “ponto fora da curva”, a decisão, em vez de atenuar, agravou uma lógica perversa -- quanto maior o esquema de corrupção, maior o peso de certas forças para engavetá-lo. Moro agora é quem carrega as responsablidades que foram de Barbosa e Gurgel. Ele está na mira dos interesses contrariados.

Nascido em Maringá, no norte do Paraná, Moro é um dos maiores especialistas do país na área de lavagem de dinheiro. Obstinado pelo trabalho e discreto a ponto de a maioria de seus colegas desconhecerem detalhes de sua vida pessoal, como a profissão da esposa (advogada) e a quantidade de filhos (dois). Aos 43 anos de idade e dezoito de profissão, Moro é um daqueles juízes intocáveis, incorruptíveis, com uma carreira cujos feitos passados explicam seu comportamento no presente e prenunciam um futuro brilhante. Moro conduziu o caso Banestado, que resultou na condenação de 97 pessoas de diversas maneiras rsponsáveis pelo sumiço de 28 bilhões de reais. Na Operação Farol da Colina, decretou a prisão temporária de 103 suspeitos de evasão de divisas, sonegação, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro - entre eles, um certo Alberto Youssef. No ano passado, um processo sob a responsabilidade de Moro resultou no maior leilão de bens de um traficante já realizado no Brasil. Foram arrecadados 13,7 milhões de reais em  imóveis que pertenciam ao mexicano Lucio Rueda Bustos, preso em 2006. Com sólida formação acadêmica, coroada por um período de dois anos de estudos na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Moro também atuou como auxiliar da ministra do STF Rosa Weber no processo mensalão. Com frequência, suas teses eram citadas por colegas dela nos debates em plenário.

Um roteirista de filme diria que o destino preparou o juiz Sérgio Moro para seu atual desafio - a Operação Lava Jato, que começou localmente em Curitiba, avançou por quase duas dezenas de estados e foi subindo, subindo na hierarquia política do Brasl até chegar a inimaginável situação de ter um ex-presidente e a atual ocupante do cargo citadas por um peixe grande caído na rede. Moro começou investigando uma rede de doleiros acusados de lavagem de dinheiro, mas enredou em um esquema de corrupção na Petrobras armado durante os governos do PT com o objetivo financiar campanhas políticas e, de quebra, enriquecer bandidos do colarinho branco. Lula teve o Mensalão. Dilma agora tem o Petrolão. 

Bondade também se aprende - Cora Coralina.


Cora Coralina.

Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. E digo prá você: não pense. Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velha. Eu não digo.

Eu não digo que estou ouvindo pouco. É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso. Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida. O melhor roteiro é ler e praticar o que lê. O bom é produzir sempre e não dormir de dia.

Também não diga prá você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais. Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima. Eu não digo nunca que estou cansada. Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica. Você vai se convencendo daquilo e convence os outros. Então silêncio!

Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha não. Você acha que eu sou? Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes.

O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade. Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça. Digo o que penso, com esperança.
Penso no que faço com fé.
Faço o que devo fazer, com amor.
Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.

sábado, 1 de novembro de 2014

Bandeira anticorrupção murcha na semana seguinte às campanhas - Marina Rossi, El País


Às pressas, senador inclui em texto de Medida Provisória um artigo que alivia multas a quem desvia dinheiro público. Quem seria beneficiado? O próprio autor

Uma das bandeiras mais levantadas durante a campanha eleitoral nas eleições deste ano foi o combate à corrupção. Em discursos inflamados, candidatos ao Congresso, ao Senado e à presidência, criticaram veementemente os crimes de corrupção na Petrobras e no poder público, de modo geral, prometendo combatê-los. Mas dizem que santo de casa não faz milagres.

Ou ao menos não tão facilmente. Prova disso foi a votação da Medida Provisória 651, primeiro pelo Congresso, a uma semana do segundo turno das eleições, e depois pelo Senado, três dias depois da vitória de Dilma Rousseff. 

A MP 651 trata, essencialmente, da desoneração da folha de pagamento de diversos setores. Um dos seus mais de 100 artigos, porém, se tornou polêmico. O artigo 35, que abriria uma brecha para aliviar as dívidas de condenados por desvios de dinheiro público.