domingo, 11 de janeiro de 2015

Por que hoje é Domingo - Antonio Alves de Morais

Em 1974, o prefeito de Várzea-Alegre Lourival Frutuoso, em reconhecimento e gratidão a consagradora vitória nas urnas, resolveu promover uma partida de futebol. Para tanto convidou o selecionado Cratense.

Entre as exigências do presidente da liga cratense o médico Antônio Valdir de Oliveira estava a atenção com os atletas. Hospedagem, alimentação e acomodação, nada podia faltar ou ser deficitário. 

O prefeito contratou o melhor hotel da cidade, o Hotel São Raimundo. Dona Emília, a hoteleira, passou a colher informações: o que cada atleta preferia e gostava de degustar.

Quando os atletas se apiaram do ônibus do seu Orlando e se dirigiram ao refeitório do hotel começou o burburinho. Nunca se viu tanta exigência - Chico Curto queria pêssego, Pangaré pedia maçã, Sibito exigia ameixa, Charuto queria figo, Antônio Pé de Pato queria uva, Pirrol queria morango tudo coisa que pra quelas bandas ninguém sabia que existia.

Na hora do almoço, servido numa mesa de "Pau Darco" com seis metros por dois, de tudo tinha, todos bem acomodados, observou-se Fruta Pão misturando o molho pardo da galinha caipira com o arroz e farofa. Anduiá lascou: Larga de ser burro bicho, chouriço agente come é no fim. Tudo isso sob o olhar severo e disciplinador do técnico Alderico de Paula Damasceno.

Para decepão dos atletas o Crato terminou perdendo de 7 X 1 para Várzea-Alegre o mesmo placar de Alemanha e Brasil. Dizem que este placar elástico deveu-se ao fato do Dr. Vasco juiz de direito de comarca e juiz do jogo ter dado uma mãozinha. Eu não duvido. 

O que pouca gente sabe é que Dona Emília, a hoteleira, até hoje não recebeu a conta da prefeitura.


Seleção de Várzea-Alegre.

Em pé da esquerda para direita: Mascote, Carlito, João de Amadeu, Nenen de Canuta, Otacílio Correia, Toim de Abigail, Dr. Vasco, Valdir e Joaquim Diniz.

Abaixados da esquerda para direita:

Rubens Diniz, Inácio, Silva Teté, Perna Santa, Zezinho e Tinteiro.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Duas decisões exemplares da Justiça - Ricardo Noblat


Em menos de 48 horas, o ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), tomou duas decisões importantes destinadas a repercutir política e socialmente. A saber.

Lewandowski reconheceu o direito de cumprir pena em casa da grávida de nove meses Renata Gonçalves Cardoso, de 24 anos de idade, presa em São Paulo.

Uma lei ignorada por juízes e tribunais garante à gestante presa preventivamente o direito de passar os últimos três meses de gravidez em casa. Isso independe do seu estado de saúde.

Lewandowski também suspendeu a decisão de um juiz de São José do Rio Preto (SP) que determinou a quebra de sigilo telefônico das linhas registradas em nome do jornalista Allan de Abreu Aio e do jornal "Diário da Região".

O objetivo da quebra de sigilo era descobrir a fonte que forneceu ao jornalista informações sobre investigação da Polícia Federal a respeito do esquema de corrupção envolvendo fiscais do trabalho na cidade em 2011.

Lewandowski concordou com o argumento da Associação Nacional dos Jornais de que o cumprimento da ordem do juiz implicaria na violação do direito de sigilo de fonte. Sem tal direito, o exercício do jornalismo se inviabiliza.

De volta à decisão do presidente do STF quanto à presa grávida. Em 2013, somente em São Paulo havia 2.422 mães presas. Delas, 147 estavam grávidas, e 247, amamentando. No Rio, hoje, há 25 presas grávidas.

Antes de chegar ao STF, o caso de Renata passou pelo Tribunal de Justiça de São Paulo e pelo Superior Tribunal de Justiça. Ambos negaram à presa o que Lewandowski lhe concedeu.

As duas decisões do ministro ainda dependem de confirmação pelo plenário do STF.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Ano de 2015 range os dentes no quintal de Lula - Por Josias de Souza.


Caprichoso, o ano de 2015 escolheu um local emblemático para exibir o seu primeiro ranger de dentes. Nesta terça-feira, a Volkswagen anunciou a demissão de 800 trabalhadores de sua fábrica em São Bernardo do Campo, berço político do PT e quintal de Lula. 

A decisão acendeu um pavio que resultou na deflagração de uma greve geral na unidade. Segundo o Sindicado dos Metalúrgicos do ABC, as demissões da Volks somam-se a outras 244 que já haviam ocorrido, no final do ano de 2014, na fábrica da Mercedes.

Simultaneamente, o ministro Joaquim Levy (Fazenda), que Dilma Rousseff trouxe do Bradesco para consertar no segundo mandato os erros econômicos que ela dizia não ter cometido no primeiro quadriênio, prepara o anúncio de um megacorte orçamentário. 

Em campanha, Lula e Dilma convidaram o eleitorado a sonhar com a satisfação de suas ambições ainda não satisfeitas. Agora, a plateia começa a frustrar-se com a perda de uma satisfação que não tinha a menor chance de se satisfazer.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O que o PT mudou no Brasil - Antonio Alves de Morais


Não se pode duvidar  das mudanças implementadas pelos governos do PT. Lula e Dilma mudaram  muita coisa e eliminaram outras. Bons costumes, moral, ética e honestidade  foram eliminadas e entre as mudanças estão:  Caloteiro mal pagador passou a ser inadimplente.  Ladroagem  passou a ser mal feito e, pasmem,  fome passou a ser insegurança alimentar.

A foto acima mostra  bem o respeito  que esses pilantras tem  pelos pobres, e, prova que  esse quadro é de total responsabilidade das massas que com seus votos garantem puder para esses malandros safados  administrarem o pais  em seu favor.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Por que Dilma não demite a presidente da Petrobras - Ricardo Noblat

Um dia ainda será desvendado o mistério da ligação para a vida ou para a morte entre a presidente Dilma Rousseff e a presidente da Petrobras, Graça Foster – a Graciosa.

Conhecedor das entranhas do que já foi apurado até agora sobre a roubalheira na Petrobras, o Procurador Geral da República recomendou a demissão de Graça e dos demais diretores da empresa.

Elegante e diplomático como sempre, o vice-presidente Michel Temer procedeu da mesma forma. Por sinal, não há um só político com juízo que pense diferente disso. E, no entanto...

Sobrou para Moreira Franco, ministro da Secretaria de Aviação Civil, que havia sido escalado por Dilma para permanecer no cargo durante seu segundo governo. Moreira teve um bom desempenho na Secretaria.

Repórteres de O Globo, Simone Iglesias e Geralda Doca apuraram que Dilma resolveu mandar Moreira embora por que ele, em uma reunião do PMDB, defendeu a demissão de Graça.

Amizade apenas não justifica o empenho desmedido de Dilma em manter Graça na presidência da Petrobras. Graça está bichada. Na melhor das hipóteses, foi incompetente por desconhecer o que se passava ao seu redor.

O comportamento de Dilma alimenta a suspeita de que ela e Graça agiram juntas para acobertar o esquema de corrupção da Petrobras montado ainda no governo Lula. Nesse caso, como ela poderia largar Graça de mão?

Dilma não é Lula. Que largou de mão José Dirceu para que uma cabeça rolasse em pagamento pelo escândalo do mensalão.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O desafio de Dilma será o de se reinventar - Por Ricardo Noblat


É de fato indigesto o tamanho do sapo que ela está sendo obrigada a engolir com a escalação dos novos responsáveis pela política econômica do seu segundo governo.

Nomear Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda não foi moleza. Significou uma mudança radical na orientação da política econômica. Saiu de cena a gastança irresponsável. Entrou a ortodoxia no manejo das contas públicas.

Levy trabalhou com Antonio Palocci, ministro da Fazenda do primeiro governo Lula e da Casa Civil do primeiro governo Dilma. Palocci e Dilma nunca se bicaram. Tão logo pôde, Dilma livrou-se dele.

Pois Levy escolheu para os principais cargos de sua equipe nomes que trabalharam diretamente com Palocci - três dos seis anunciados ontem. Um deles havia sido demitido por Guido Mântega, que antecedeu Levy no cargo.

Espera-se que Dilma se reinvente descentralizando o poder, rendendo-se a uma política econômica que pouco tem a ver com o que ela pensa, e gastando mais seu tempo em conversas com políticos do que com leitura de relatórios.

Isso será possível? A conferir. Eu duvido.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A velha Dilma de sempre - Ricardo Noblat

Ninguém em Brasília, por mais próximo que fosse de Dilma, acertaria um bolão que perguntasse assim: “No segundo governo, quanto tempo a presidenta levará para desautorizar publicamente um dos seus auxiliares?”

O mais esperto dos apostadores talvez cravasse “uma semana”. E logo seria apontado como desafeto de Dilma.

Resposta certa: menos de um dia. A vítima: Nelson Barbosa, ministro do Planejamento.

No meio da tarde da última sexta-feira, uma vez empossado, Barbosa se viu no centro de uma roda de jornalistas carentes de informações sobre o ajuste fiscal que vem por aí.

Quem circula com passe livre pelo Palácio do Planalto informa que o ajuste será mais duro do que o imaginado aqui fora. Crivado de perguntas, o ministro resolveu saciar a curiosidade dos jornalistas.

E disse que o governo irá propor ao Congresso uma nova regra para o reajuste do salário mínimo a partir de 2016. A regra atual, criada em 2008, cairá em desuso até dezembro.

Barbosa teve o cuidado de garantir que “continuará a haver aumento real do salário mínimo”, cláusula pétrea da Era PT. Segundo ele, “a política do reajuste do salário mínimo é correta, mas precisa ser reavaliada”.

Dilma não gostou quando soube da entrevista. E no sábado de manhã, na Base Naval de Aratu, na Bahia, onde descansa, subiu nas tamancas ao ler o que os jornais publicaram a respeito.

Um telefonema de Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil da presidência da República, deu conta a Dilma da reação negativa das centrais sindicais à entrevista de Barbosa.

Se não fosse a pessoa autoritária que é, acostumada a infundir medo e a humilhar subordinados, de uma simples secretária ao general que um dia saiu chorando do Palácio do Planalto depois de tratado aos gritos, Dilma poderia ter telefonado para Barbosa e tirado tudo por menos.

Afinal, o ministro nada disse que não tivesse sido antes negociado com ela. E aprovado por ela.

Uma Dilma tolerante, disposta a criar um ambiente favorável ao trabalho em equipe, a ouvir antes de falar, e a compartilhar o poder, na verdade seria outra Dilma e não essa que temos.

Dividir o poder não se resume ao loteamento de cargos do governo entre partidos que o apoiam, mais ainda sabendo que tal prática favorece a corrupção acima de tudo. Como demonstrado.

Mas quem disse que Dilma admite abrir mão de nacos do poder? Somente ela mesma...

Barbosa distribuiu uma nota oficial na tarde do sábado dando o dito pelo não dito: “A proposta de valorização do salário mínimo a partir de 2016 seguirá a regra atualmente vigente”.

Ou seja: um ponto importante da nova política econômica foi revogado mal o governo começou. E começou mal.

Para provar que manda, Dilma desmoralizou seu ministro. Não satisfeita em fazê-lo, deixou que assessores vazassem para a imprensa sua indignação com “declarações consideradas inoportunas”.

Ligado ao PT há muitos anos, Barbosa desmoralizou-se. Aceitou a reprimenda sem chiar. Baixou a cabeça. Aferrou-se ao emprego com gosto. E sem um pingo de vergonha.

Nos fim do governo passado, Guido Mantega, da Fazenda, foi um ministro demissionário no exercício do cargo. Dilma antecipou que o mandaria embora caso se reelegesse.

Barbosa poderá atravessar no cargo os próximos quatro anos. Nem por isso recuperará a autoridade perdida em menos de 24 horas.

A sorte do novo governo depende cada vez mais de Joaquim Levy, sucessor de Mantega. Saiba Dilma que ele não é de levar desaforo para casa. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Dilma sob ataques - Por Merval Pereira


A presidente Dilma terá grandes problemas pela frente por que a esquerda do PT e os sindicalistas já começam a se movimentar tanto contra Joaquim Levy quanto contra as medidas de contenção de custos dos benefícios sociais. Ao mesmo tempo, também o PSDB saiu ao ataque contra as novas medidas de contenção, acusando o governo de estar traindo seus eleitores e classificando de “neoliberalismo petista” as medidas anunciada.

A questão central é que mexer em valores que são importantes para trabalhadores e sindicalistas dá a sensação de que o governo está traindo seus eleitores, ao mesmo tempo que dá margem a que o PSDB assuma uma maneira petista de fazer oposição. 

Mas na verdade o governo está fazendo o que tinha que fazer mesmo, há distorções no seguro desemprego, no sistema de pensões, e em diversos outros mecanismos de benefícios sociais, é necessário, mas desgastante, dar uma controlada nisso. A ideia é economizar cerca de R$ 18 bilhões por ano, o que não é pouca coisa para um país que está precisando desesperadamente cortar custos. 

Mas mexe com interesses de sindicalistas, que já estão muito agitados, e com políticos também. Até setores do PMDB estão questionando as medidas, chamando a atenção para o fato de que o governo começa a cortar custos pelos trabalhadores, e não pelos gastos excessivos da máquina governamental. 

A esquerda do PT está se sentindo afastada da composição desse segundo ministério da presidente Dilma, e acha que a direita tomou conta do governo. Há setores da esquerda, dentro e fora do PT, que não apoiam a presidente por estar tomando medidas que criticava nos seus adversários na campanha eleitoral, e este é um fato que denota a incongruência de um governo que tem que abandonar suas crenças ideológicas na economia para reverter uma situação desastrosa que ele mesmo criou.

 Dilma está tomando medidas que mudam a direção que apontou nos discursos durante a campanha eleitoral, mas não são medidas “de direita”, como equivocadamente apontam seus críticos internos, mas medidas necessárias para recuperar o equilíbrio das contas públicas. 

Ao que tudo indica, teremos pela primeira vez um déficit fiscal ao final deste 2014, pois para chegarmos a um superávit de R$ 10 bilhões anunciado pelo (ainda) ministro Guido Mantega teríamos que ter um superávit de quase R$ 30 bilhões em dezembro, o que é inviável a esta altura, pelo menos sem malabarismos fiscais. 

Dilma já anunciou que vai abrir o capital da Caixa Econômica para investimentos privados e precisa fazer isso mesmo por que o governo não tem dinheiro. O problema da presidente Dilma é que ela não terá o apoio nem de seu partido, o PT, já liberado pelo ex-presidente Lula para críticas, e nem dos movimentos sociais, que ao contrário estarão mobilizados numa ação conjunta de Lula com os líderes sindicais para ir para as ruas defender os interesses da esquerda. 

Isso quer dizer que a pretexto de defender o governo do ataque da “direita”, esses movimentos sociais estarão indo contra setores que estão encastelados no ministério de Dilma, como Gilberto Kassab, do PSD, que no ministério das Cidades terá que dialogar Guilherme Boulos, do Movimento dos Sem Teto, o novo enfant terrible da esquerda brasileira. 

A futura ministra da Agricultura, Kátia Abreu, também terá que se confrontar com João Pedro Stedile e o MST, que prometeu guerra nas ruas caso Aécio Neves vencesse a eleição, e vê a presidente da Confederação Nacional de Agricultura como uma inimiga tão grande quanto o candidato tucano, com o agravante de estar dentro do governo. 

Ao lado disso, o governo não contará com o apoio da oposição, ao contrário do que aconteceu no início do primeiro governo Lula. A Força Sindical, que apoiou Aécio Neves na eleição presidencial, se juntará aos demais sindicatos ligados ao PT para combater as mudanças nas regras de concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários, que considera nocivas aos trabalhadores. 

A Força Sindical toca num ponto nevrálgico: o país vive expectativa de aumento de desemprego, de inflação e dos juros, e as novas medidas serão adotadas nesse novo ambiente econômico de crise. 

O PSDB está disposto a ser oposição até mesmo ao ministro da Fazenda Joaquim Levy, que veio de suas hostes. O deputado Antonio Imbassahy já deu a direção ao dizer que as medidas anunciadas representam o “neoliberalismo petista, que provocará desemprego e prejudicará os trabalhadores”. 

O próprio presidente do PSDB, senador Aécio Neves, soltou uma nota afirmando que a presidente “faz agora o impensável: coloca em prática as suas medidas impopulares, prejudicando aqueles que deveriam ser alvo da defesa intransigente do seu governo: os trabalhadores e os estudantes".

O embate será duro e incessante, e a presidente Dilma não parece estar equipada politicamente para enfrentá-lo. 

Ajuste traz Dilma de volta à vida real - Editorial O Globo

Fazendo jus à fama de “ilha da fantasia”, a Brasília da posse de Dilma Rousseff no segundo mandato patrocinou um evento sem sintonia com a realidade do país. O principal pronunciamento da presidente, perante o Congresso, passou longe do Brasil real, ao adotar um modelo de discurso palanqueiro, de campanha eleitoral.

Por exemplo, quando, na série de autolouvações, proclamou a convicção da presidente “sobre o valor da estabilidade econômica, da centralidade do controle da inflação e a necessidade da disciplina fiscal (...)” Ora, se assim houvesse sido, Dilma não precisaria, no mesmo discurso, anunciar um ajuste nas contas públicas.

Também condizente com o estilo de campanha, o pronunciamento foi perpassado pelo cacoete petista típico de alimentar o confronto entre “nós” e “eles”. Se a postura de estimular conflitos nunca é a melhor no exercício da política, a atmosfera se torna ainda mais pesada depois de uma eleição acirrada, da qual o PT saiu vitorioso por apenas três pontos percentuais. Nada que reduza a legitimidade da vitória, mas algo que não pode escapar da sensibilidade dos políticos.

A esperança é que Dilma tenha descido do palanque logo no dia seguinte à posse. Há um trabalho duro para recuperar o terreno perdido na estabilização econômica, no primeiro mandato, e ela é peça-chave na ação política com este objetivo.

O trabalho até já começou, com a edição, nos últimos dias do ano, por medidas provisórias, de necessárias readequações nas normas de concessão de benefícios como pensões por morte, seguro-desemprego etc. Faz tempo benefícios previdenciários e seguros precisavam ser reordenados, mesmo que não houvesse a premência do ajuste fiscal.

Com regras irreais, inexistentes mesmo em países ricos, gastos do INSS, por exemplo, crescem exponencialmente em relação ao PIB. De 1991 a 2015, as despesas totais previdenciárias terão escalado cerca de cinco pontos percentuais do PIB.

A luta para aprovar essas MPs no Congresso, essenciais para o ajuste, com uma redução estimada de R$ 18 bilhões em gastos, trará a presidente para as dificuldades da vida real, com os embates que serão travados em torno das medidas.

No lado da oposição, prenuncia-se uma guerra ao governo nos moldes do radicalismo do PT quando estava fora do poder. Ora, o PSDB sabe que o ajuste é necessário e precisará distinguir o que se trata de ação política oposicionista de sabotagem contra os interesses da nação.

Entende-se que o baixo nível da campanha eleitoral, muito devido ao PT, deixou marcas. Mas elas precisam ser superadas quando estiverem em debate temas estratégicos como este. E virão outros, contrários a interesses de corporações e grupos abrigados na base do governo.

Será um equívoco se o PSDB e aliados se juntarem ao que há de mais retrógrado no Congresso, à esquerda e à direita.

Aliás, os tucanos sabem do que se trata, pois apoiaram Lula nas alterações feitas na previdência do funcionalismo público, em 2003.

Faz de conta - Por Merval Pereira.

A presidente Dilma Rousseff que tomou posse ontem para um segundo mandato continua vivendo no mundo de “faz de conta” que o marqueteiro João Santana criou para a campanha eleitoral, e trouxe de lá mais um lema que se choca com a realidade que a presidente insiste em negar.

Quando afirma que o projeto de Nação que representa prevaleceu nas urnas, ela entra em contradição com a admissão de que o país exige mudanças, que se propõe a realizar mesmo que afirme sempre que tudo vai às mil maravilhas. E deleta da memória que “fez o diabo” para se reeleger, utilizando ferramentas nada democráticas que nada têm a ver com um projeto de nação, mas com um projeto de poder.

“Brasil, Pátria Educadora” seria um bom mote para um governo renovador, se não fosse apenas um achado propagandístico, e refletisse um verdadeiro objetivo prioritário, desmentido logo de cara com a escolha do ex-governador Cid Gomes para o ministério da Educação, sem o menor contato com a área e sem projeto educacional digno de nome.

O improviso da escolha do ministro, que chegou a recusar o cargo, indicando o quanto lhe importa a “pátria educadora”, mostra bem que o projeto que a presidente Dilma anunciou ontem é oco de conteúdo, e entra na lista de mais um dos muitos passes de mágica com que a presidente se acostumou a ganhar eleições e a governar da boca para fora.

Ao tentar dar um sentido mais amplo ao dístico, afirmando que ele indica que “devemos buscar, em todas as ações do governo, um sentido formador, uma prática cidadã, um compromisso de ética e sentimento republicano”, a presidente Dilma só fez ampliar mais ainda a falsidade da afirmativa, pois a escolha do ministro da área, que será “a prioridade das prioridades”, deveu-se apenas à necessidade de dar um lugar de destaque ao PROS, um partido criado de improviso para dar abrigo à dissidência dos Gomes e permitir que fizessem a campanha de Dilma contra a candidatura original de Eduardo Campos do PSB.

Uma distorção do presidencialismo de coalizão que gerou escândalos como o mensalão e agora o petrolão, na prática do toma-lá-dá-cá que pode ser tudo, menos ético. E se o compromisso é com a ética republicana, como explicar o surgimento de escândalos de tamanha magnitude na Petrobras?

Quando se referiu ao esquema de corrupção na estatal, a presidente Dilma mais uma vez fugiu da realidade que a envolve diretamente, por ter sido a controladora da área nos últimos 12 anos de governos petistas, ao dizer que a empresa foi vítima de servidores que não souberam honrá-la.

Ora, a empresa foi vítima de uma armação política engendrada pelo Palácio do Planalto para financiar partidos políticos aliados, e o que aconteceu em consequência nada teve de ocasional ou dependeu deste ou daquele funcionário da Petrobras.

A empresa foi usada pelo PT como alimentadora de um esquema político que não quer largar o poder tão cedo. Ao longo de seu discurso no Congresso a presidente Dilma desfilou por um mundo paralelo em que parece ainda viver, sem assumir a responsabilidade pela situação caótica em que entregou o país para si mesma, e parecendo não se sentir responsável pela correção de rumos que terá que ser feita nesse segundo mandato.

O mais próximo de uma autocrítica, se quisermos ter boa vontade, foi quando reconheceu que as mudanças que precisam ser feitas dependem da credibilidade e da estabilidade da economia. Mas então se desdisse, afirmando que isso “nunca foi novidade”, pois sempre orientou suas ações pela centralidade do controle da inflação e o imperativo da disciplina fiscal.

Se sempre foi assim, o que aconteceu para que tudo desandasse nos quatro anos anteriores em que esteve à frente do governo que agora precisa de ajustes tão duros e prolongados? A única explicação plausível é que, ao contrário do que todos dizem, era o ministro Guido Mantega quem comandava a economia, e a presidente Dilma não tinha nada a ver com as decisões tomadas. Como na Petrobras.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Patria Educadora.


Dispostos a atacar o lema 'pátria educadora', com o qual a presidente Dilma Rousseff pretende marcar seu segundo mandato, os colunistas conservadores Merval Pereira e Dora Kramer elegeram o ex-governador Cid Gomes, agora ministro da Educação, como o primeiro alvo de sua artilharia; segundo Dora, Cid não tem 'reconhecido saber' para conduzir o setor; para Merval, Cid não tem 'o menor contato com a área' nem qualquer 'projeto educacional digno de nome'

"A desconexão entre as palavras e os fatos é uma constante nos pronunciamentos da presidente Dilma Rousseff. Raramente surpreende nesse quesito, mas, ontem, no discurso de posse no Congresso Nacional, ela superou-se em vários momentos", disse Dora Kramer. "Em especial quando anunciou em tom solene o lema do segundo mandato: "Brasil, pátria educadora", significando que o governo dará à educação total prioridade nos próximos quatro anos. 

Fosse real, essa primazia deveria necessariamente corresponder à escolha de alguém de reconhecido saber na área para comandar o ministério da Educação. A realidade, no entanto, faz daquele emblema um mero slogan: o ministro é o ex-governador do Ceará, Cid Gomes, nomeado para contemplar o PROS (11 votos na Câmara) e recompensá-lo pela saída do PSB quando o partido deixou a base do governo."

O lulista Gabrielli chama Dilma para a briga - Por Reinaldo Azevedo

O lulista Gabrielli chama Dilma para a briga; Planalto prefere ficar calado; oposição aponta o óbvio: mais um motivo para a CPI

A então ministra Dilma com Gabrielli: se ela achou compra errada, por que não fez nada?

José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, concedeu uma entrevista ao Estadão de domingo e afirmou que Dilma não pode fugir à sua responsabilidade na compra da refinaria de Pasadena. O que isso quer dizer?

Quer dizer que os grupos lulista e dilmista do PT estão em guerra nessa história, como já escrevi aqui. O lulista Gabrielli disse duas coisas na entrevista ao Estadão. A primeira: o conselho de administração, de fato, desconhecia as cláusulas “Put Option” e “Marlim” quando aprovou a compra da refinaria de Pasadena. A primeira obrigava a Petrobras a adquirir os outros 50% da empresa no caso de desentendimento entre os sócios. A segunda garantia à Astra Oil uma rentabilidade anual de 6,9%, independentemente das condições de mercado. Muito bem! Dilma poderia ter ficado contente: afinal, ela afirmou que, de fato, não sabia da existência das ditas-cujas.

Ocorre que Gabrielli não parou por aí. Ele afirmou uma segunda coisa: que Dilma, apesar disso, não deve “fugir a sua responsabilidade”. Atenção! Ele empregou essa expressão mesmo! E isso quer dizer que o ex-presidente da Petrobras, hoje secretário do Planejamento da Bahia — cujo governador é Jaques Wagner, petista como ele e um dos conselheiros da Petrobras quando Pasadena foi comprada —, está acusando Dilma de tentar tirar o corpo da reta. Gabrielli sustenta, a exemplo do que fez Nestor Cerveró, o tal diretor que fez o memorial executivo, que as cláusulas eram irrelevantes.

Isso traduz uma luta interna, intestina mesmo — para usar um termo com uma significação mais ampla e adequada ao caso. A Petrobras hoje divide em dois grupos o petismo: há os lulistas, que acham que a presidente Dilma fez uma grande besteira ao censurar publicamente a compra de Pasadena e afirmar que só concordou porque estava mal informada. E há os dilmistas, que acreditam que ela não é obrigada a arcar com erros evidentes do passado. Gabrielli, como todo mundo sabe, joga no time de Lula. É mais um, diga-se, que já afirmou que não aceita ser usado como boi de piranha do partido.

Eu já escrevi aqui algumas vezes que Gabrielli sempre soube de tudo, desde o princípio. Era o manda-chuva inconteste da empresa. Mas é preciso que fique evidente também — e há vários posts meus a respeito — que não tardou para que Dilma tivesse ciência plena do que estava em curso. Ela, de fato, liderou a rejeição à compra da segunda metade da empresa, mas, derrotada na Justiça americana, não tomou providência nenhuma para punir os faltosos: nem como ministra da Casa Civil e presidente do Conselho nem como presidente da República.

É claro que Gabrielli está puxando a faca. O Planalto, por enquanto, preferiu ficar calado. Também, convenham: vai dizer o quê? A oposição cumpre o seu papel, que é o óbvio e o lógico. Se o petista Gabrielli está dizendo que Dilma não pode fugir às suas responsabilidades, só resta afirmar que aí está mais um motivo para que se instale a CPI da Petrobras. A ministra Rosa Weber, do Supremo, pode decidir nesta terça o destino do pedido de liminar da oposição.

Uma coisa vocês devem ter em mente: Gabrielli não é um franco-atirador. Quando joga Dilma no centro da fogueira, está agindo a serviço do grupo que quer Lula candidato à Presidência da República pelo PT. Para isso, eles leiloam a própria mãe. Por que não leiloariam Dilma Rousseff?


Dilma esqueceu de descer do palanque! - Ricardo Noblat

Faltaram verdades no discurso. Sobraram falácias

Eis o nó da questão: Dilma 2 tentará compatibilizar o ambicioso ajuste fiscal concebido por sua nova equipe econômica com  a preservação das conquistas sociais alcançadas por Lula 1 e 2 e Dilma 1.

A certa altura do seu discurso de posse, ontem, no Congresso, disse a presidente reeleita:

- Mais que ninguém eu sei que o Brasil precisa voltar a crescer. Os primeiros passos desta caminhada passam por um ajuste nas contas públicas, um aumento na poupança interna, a ampliação do investimento e a elevação da produtividade da economia. [...] Faremos isso com o menor sacrifício possível para a população, em especial para os mais necessitados. Reafirmo meu profundo compromisso com a manutenção de todos os direitos trabalhistas e previdenciários.

Palavras ao vento...

Dilma é economista por formação. E sabe que o arranjo das contas públicas atingirá de alguma forma as contas particulares de muita gente. Dos mais pobres, inclusive. Daí... Daí que ela sofisma.

Não sei de onde os mais puros de coração tiram a certeza de que políticos que mentem durante campanhas dizem a verdade depois que se elegem. Negativo.

Faltaram verdades mesmo que incômodas no discurso de Dilma e sobraram falácias.

Dilma afirmou, por exemplo, que o Brasil é a sétima maior economia do mundo. Omitiu que era a sexta maior economia quando seu primeiro governo começou.

“Governo novo, ideias novas” cedeu a vez a “Brasil, pátria educadora”, nova palavra de ordem a orientar o governo de caras velhas e de ideias repetitivas.

Nem o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Getúlio Vargas no século passado teria sido capaz de imaginar um slogan tão antigo.

Não faltou lugar no discurso para o mantra da reforma política. Nem para a quimera da corrupção que pede para ser extirpada. Mantra e quimera que frequentaram em 2011 o discurso de posse de Dilma 1.

Faltou lugar no discurso para que Dilma fizesse algum aceno à oposição. Com mais razão ainda por ter sido reeleita por uma margem estreita de votos.

Cadê o “diálogo” que pontuou uma dezena de vezes o discurso da vitória de Dilma em outubro do ano passado?

O gato comeu. Ou a arrogância de Dilma.

A presidente reeleita comportou-se no Congresso como a candidata à caça de votos. Esqueceu-se de descer do palanque.

Foi incapaz de pronunciar uma frase inspiradora. De propor um desafio instigante. De arrancar aplausos entusiasmados da assistência.

O que é “um grande pacto nacional” para combater a corrupção? Não explicou.

O que significa defender a Petrobras dos seus inimigos internos e externos? De que modo fará isso?

Blábláblá!

De fato, Dilma perdeu uma preciosa oportunidade de inspirar confiança a seus governados.