segunda-feira, 3 de abril de 2017

O colapso do discurso petista

Editorial do Estadão, 03-04-2017.

Toda a discussão sobre a divisão da sociedade entre “nós” e “eles”, promovida incessantemente pelo PT, é significativa somente para as classes médias e as suas redes sociais

A derrota sofrida pelo PT na eleição municipal de São Paulo foi tão acachapante que o partido resolveu tentar descobrir, com método científico, as razões desse desastre, que foi especialmente doloroso na periferia da capital, antigo reduto petista. Para isso, a Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, foi aos bairros mais pobres da cidade para entrevistar os eleitores que, embora tivessem votado no partido entre 2002 e 2012, se negaram a votar em Dilma Rousseff para a Presidência em 2014 e em Fernando Haddad para a Prefeitura em 2016.

O resultado desse trabalho ilustra o quão descolado da realidade está o discurso petista voltado para os mais pobres. Mais do que isso, permite perceber que esses eleitores, diferentemente do que apregoam os ideólogos petistas, consideram o Estado, e não a “burguesia”, como seu inimigo, valorizam a meritocracia e entendem que a crise ética da sociedade não é resultado de vícios estruturais, e sim de mau comportamento individual, que deve ser resolvido, antes de mais nada, pela família.

A pesquisa foi feita entre 22 de novembro de 2016 e 10 de janeiro deste ano, baseando-se em entrevistas em profundidade com moradores de bairros periféricos de São Paulo, acima de 18 anos, com renda familiar mensal de até cinco salários mínimos e que deixaram de votar no PT. Ao menos 30% dos entrevistados são ou foram beneficiários de programas sociais
implementados pelos governos petistas. Ou seja, é o perfil tido como característico do eleitor petista, ao menos no imaginário dos que consideram o PT representante natural dos “excluídos”.

Como hipótese, o estudo afirma que o padrão de vida na periferia melhorou como resultado direto das políticas dos governos petistas, mas essa melhoria levou os moradores a “se identificarem mais com a ideologia liberal, que sobrevaloriza o mercado”. Com a crise econômica, prossegue a hipótese, esses moradores, ao contrário do que os petistas certamente esperavam, reagiram movidos pela “lógica da competição”, isto é, pela ideia de que é preciso que cada um trabalhe duro para superar os problemas. Tal visão é incompatível com uma ideologia que anula o indivíduo em favor da “classe trabalhadora”.

De um modo geral, a pesquisa concluiu que a política “não é prioridade no cotidiano” dos entrevistados. Quando falam do tema, em geral abordam os escândalos de corrupção. O estudo constatou também que “as categorias analíticas utilizadas pela militância política ou pelo meio acadêmico não fazem sentido para os entrevistados”, isto é, os embates entre “direita” e “esquerda” ou entre “reacionários” e “progressistas” simplesmente “não habitam o imaginário da população”. Além disso, constatou a pesquisa, “a cisão entre a classe trabalhadora e a burguesia também não perpassa o imaginário dos entrevistados”.

Isso significa, em outras palavras, que toda a discussão sobre a divisão da sociedade entre “nós” e “eles”, promovida incessantemente pelo PT, é significativa somente para as classes médias e as suas redes sociais.

O estudo é obrigado a reconhecer que “o principal confronto existente na sociedade não é entre ricos e pobres, entre capital e trabalho, entre corporações e trabalhadores”, e sim “entre Estado e cidadãos, entre a sociedade e seus governantes”. Para os entrevistados, “todos são vítimas do Estado que cobra impostos excessivos, impõe entraves burocráticos, gerencia mal o crescimento econômico e acaba por limitar ou sufocar a atividade das empresas”. A maioria, ademais, se disse favorável a “uma atuação mais integrada entre poder público e iniciativa privada em favor da coletividade”.

Dessa forma, segundo a Fundação Perseu Abramo, “abre-se espaço para o ‘liberalismo popular’, com demanda de menos Estado”. A entidade sugere que, se quiser voltar a prevalecer nas urnas, “o campo democrático-popular precisa produzir narrativas contra-hegemônicas mais consistentes e menos maniqueístas”. É o reconhecimento, afinal, de que a estratégia petista de hostilizar as “elites” fracassou, e é também a prova de que um projeto político que racionalize o Estado, estimule a iniciativa privada e premie os melhores e mais esforçados é eleitoralmente viável.

O MÉDICO QUE CONTA HISTÓRIAS - Dr. Napoleão Tavares Neves.


Aos 86 anos, Napoleão Tavares Neves cultiva uma memória impecável, um currículo extenso e mil histórias de encantar. Autor de livros sobre o cangaço, cronista talentoso e memorialista por vocação, ele foi também um dos primeiros médicos a se estabelecer em Barbalha, apadrinhado por Pio e Leão Sampaio, que lhe ensinaram que Medicina se faz com o coração. Para a CARIRI, Napoleão resgatou relatos que a história oficial ainda desconhece e que lhe foram contadas pelo povo simples do sertão, gente que pediu a bença a Padre Cícero e que olhou nos olhos de Lampião.

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…”, Socorro Neves interrompe o silêncio mal o carro sai de Barbalha, recitando todo o Salmo 90. Segurando as contas do terço entre os dedos, ela reza por uma viagem segura ao longo dos 137km até Porteiras, enquanto o marido, Napoleão Tavares Neves, leva no colo um estojo com estetoscópio e prontuário e fala com empolgação sobre o que vê na paisagem já seca de agosto. “Aquele é o ponto mais extremo do sul da Chapada do Araripe”, ele ensina. Depois se vira para o banco de trás e pergunta, apontando mais ou menos ao leste: “Já foi em Missão Nova? Todo mundo acha que a primeira igreja do Cariri é a Sé do Crato, mas é uma que foi construída pelos capuchinhos bem ali”. Já chegando ao destino, o doutor mostra um lugar no horizonte: “Ali nas Guaríbas morava Chico Chicote. Sabe a história de Chico Chicote? A manhã em que a tropa do Tenente Zé Bezerra o atacou, em 1927, foi uma verdadeira epopeia nesse sertão”.

O rosário de Socorro durou a distância entre Missão Velha e Brejo Santo, mas a aula de geografia e história com Napoleão, se deixar, dura um dia inteiro. Naquela manhã de domingo, ele visitava as irmãs, Ranilda e Romilda, no distrito do Saco, na casa onde seu pai construiu um dos oito engenhos de rapadura que adoçaram a economia de Porteiras, quando este ainda era um distrito de Jardim. Porteiras tornou-se um município independente, depois veio a ser rebaixado novamente a distrito, ligando-se à cidade de Brejo Santo até se emancipar de vez, em 1953. O sítio foi basicamente batizado pela própria Chapada do Araripe, que o envolve como em um saco – visto de cima, é como se tivessem comido a Chapada em uma dentada. A casa de Joaquim Neves e Maria Tavares, pais de Napoleão, foi erguida justamente no recôndito desse U de 900 metros de altura, um semicírculo de cerca de 20km de comprimento, oito bocas d’água e uma imensidão verde, resistente às mais duras secas.

Do paraíso onde Napoleão passou os primeiros anos de sua infância ainda se avista, a duas léguas, a casa de Manoel Rosendo, seu avô materno, conhecido como Né Rosendo, para onde o menino corria todas as manhãs, montado em um cavalo de pau. Agora octogenário, Napoleão apoia uma bengala na mão e, na outra, carrega seu kit médico, aguardando a oportunidade de realizar uma consulta. Nem o chão entre as duas casas é mais o mesmo, já que a erosão e as chuvas torrenciais que desceram da serra nesse século que se passou criaram morros na área onde antes pastavam 800 cabeças de gado e existia uma plantação de cana-de-açúcar que era moída para mais de 1.500 engenhos do Cariri.

Doria zera a fila de exames de 2016 e cumpre meta do Corujão da Saúde - Por Leon Rodrigues


Zerar a fila de exames de 2016 foi uma das principais promessas de campanha do prefeito

O prefeito de São Paulo João Doria cumpriu uma de suas principais bandeiras de campanha com o programa Corujão da Saúde. Nos três primeiros meses de gestão, zerou a fila de exames do ano passado. 

Eram cerca de 485 mil paulistanos aguardando atendimento. Para atender a demanda, Doria utilizou parcerias com a rede particular de hospitais para que os pacientes fossem atendidos no horário ocioso dessas unidades. O pagamento pelo atendimento terceirizado teve como base a tabela do SUS (Serviço Único de Saúde). 

A meta atingida representa uma vitória dupla para a gestão municipal. Além de cumprir uma promessa de campanha, a prefeitura conseguiu atender a demanda sem que fosse necessária a contratação de mais médicos ou a ampliação de unidades de atendimento com a construção de novas unidades de saúde. Dentre os hospitais particulares utilizados pelo programa foram a Santa Casa de Santo Amaro, Instituto Sírio Libanês, Ghelfond, Beneficência Portuguesa e Hospital Alemão Oswaldo Cruz. 

O convênio com a rede particular também foi proveitoso para os hospitais que contavam com horários ociosos no atendimento. Antes mesmo da finalização da fila de exames de 2016, o programa já contava com o apoio de 67% dos entrevistados pelo instituto Datafolha. A pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 9 de fevereiro. Já o Paraná Pesquisas apontava que o programa era conhecido por 66% dos entrevistados em levantamento feito entre os dias 25 e 28 do mês passado. De acordo com o instituto, o programa é aprovado por 88% dos que conheciam a iniciativa.

Lula quer ser preso - Por O Antagonista.


Lula quer ser preso?

A Veja garante que sim. A Época garante que sim. Nelson Jobim argumenta que, se Lula for preso, ele consegue eleger até Ciro Gomes.

O Antagonista não acredita em nada disso.

Os lulistas querem apenas assustar a Lava Jato. E, como sempre, vão quebrar a cara.

TODA A SABEDORIA DO MUNDO - Por Dr. Napoleão Tavares Neves.

Quando deu à luz Napoleão, no dia 17 de setembro de 1930, Maria já sofria há três dias as dores do parto. 

“Mas, também… Com uma cabeça grande dessas!”, diz o doutor mostrando o chapéu número 60, feito sob medida, e caçoando de si mesmo. 

O parto difícil foi feito por Pio Sampaio, médico que anos depois trabalharia com o menino que ajudou a pôr no mundo. 

Napoleão nasceu na fazenda do avô paterno, o Coronel Napoleão Franco, no Sítio Belo Horizonte, em Jardim, quando a cidade era só um curto trecho que começava na ponte sobre o Rio das Piabas e acabava na Rua da Baixa.

domingo, 2 de abril de 2017

A crise de representatividade

Editorial do jornal “O Estado de S.Paulo”, 02-04-2017.

A cada novo escândalo que vem à luz é como se os brasileiros honestos sentissem as fraturas que fragilizam as fundações de nossa democracia

Há quase um ano, a Câmara dos Deputados, ao acolher o pedido de impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff, expôs ao País a baixa qualidade da atual representação parlamentar. Não pelo resultado – ansiado pela maioria dos brasileiros –, mas pelo tom pitoresco, por vezes humorístico, adotado por cada parlamentar ao anunciar seu voto. Durante quase dez horas de sessão, o Brasil assistiu aos breves pronunciamentos de 504 dos 513 deputados, tempo suficiente para patentear a distância entre eleitos e eleitores, evidenciando o que se convencionou chamar de “crise de representatividade”. A mediocridade dos parlamentares humilhou a Nação.

A chaga da corrupção exposta em quase todas as esferas do poder público – contrária à natureza íntegra que caracteriza a imensa maioria do povo brasileiro – também contribui decisivamente para este descolamento. A cada novo escândalo que vem à luz é como se os brasileiros honestos sentissem as fraturas que, pouco a pouco, fragilizam as fundações de nossa democracia.
Trata-se de uma grave constatação. Já no preâmbulo, a Constituição consagra o Estado Democrático como diretriz basilar de nossa organização política. Imprescindível, também, é o papel exercido pelo Congresso para que os direitos fundamentais não se submetam ao arbítrio do Estado forte. É no Congresso que o povo se faz representar e exerce a sua soberania, ao lado da representação dos Estados.

É paradoxal, portanto, que a expressão “eles não me representam”, referindo-se aos parlamentares, venha sendo constantemente utilizada nos protestos populares. A contestação soa ainda mais descabida posto que nenhum parlamentar recorreu à força para ocupar o seu espaço no Congresso. Ao contrário, ali chegou pelo voto, ou seja, pela vontade do povo. É desta incongruência que trata Jairo Nicolau, cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisando os dilemas da representação em entrevista concedida ao Estado.

Em seus estudos, Nicolau atribui o “enorme abismo” em que caiu a atividade parlamentar, quando comparada à de 15 ou 20 anos atrás, a dois fatores: os descaminhos do voto – situações nas quais “a intenção original do eleitor, diante da urna, nada tem a ver com o resultado concreto de sua escolha” – e a pouca ou nenhuma atração que a política exerce hoje sobre as elites – intelectual, jurídica, empresarial e artística –, desestimuladas pela sucessão de escândalos que marcaram a atividade na história recente.

Entretanto, o problema pode ter raízes ainda mais profundas. Um terremoto político que ficou conhecido como “Pacote de Abril” propaga ondas capazes de distorcer a representação congressual mesmo 40 anos depois dos atos assinados pelo então presidente Ernesto Geisel.

Sob o pretexto de que o MDB, partido de oposição ao governo, dificultava a aprovação de uma emenda que mantinha indiretas as eleições para os governos estaduais de 1978 – à luz da Constituição em vigor, o pleito deveria se dar por voto direto –, Geisel decretou o fechamento do Congresso e, nesse período, editou 14 emendas à Constituição, à qual acrescentou 3 artigos, e baixou 6 decretos-leis, medidas que, em essência, visavam à manutenção da maioria governista no Legislativo.

Além do intento original, Geisel determinou a ampliação das bancadas de representação dos Estados em que a Arena – partido de sustentação do governo – obtinha bons resultados eleitorais, isto é, no Norte e no Nordeste. Instituiu-se, assim, um modelo de representação que distorceu a realidade política e econômica dos entes federativos e produziu resultados nefastos à boa organização do Estado brasileiro que repercutem até hoje.

Diante deste quadro, agravado pela crise, principalmente a crise moral que corrói a vida política nacional, urge fazer uma reforma política que corrija as distorções históricas e incentive a renovação dos quadros políticos, o que não será alcançado por meio de propostas esdrúxulas como a do voto em lista fechada. Assim agindo, o Legislativo terá oportunidade de reconciliar o povo com sua Casa de representação.

PSDB já não é o que foi e não sabe o que será - Por Josias de Souza.


O PSDB vive uma crise de identidade. Tornou-se o pior tipo de ético —o tipo que não consegue enxergar a ética no espelho. Houve tempo em que o partido se vangloriava até de sua divisão interna. Cada arranca-rabo para a escolha de uma candidatura tucana era tratado como um marco civilizatório na vida política nacional. Dizia-se que uma disputa entre Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra só trazia vantagens, pois nenhuma outra legenda podia levar à vitrine contendores tão qualificados. Agora, o tucanato se esforça para medir não a qualificação dos seus pássaros, mas a quantidade de lama que cada um traz sobre a plumagem.

Até ontem, o PSDB apresentava-se como campeão da moralidade. E se atribuía o direito de denunciar os adversários como salteadores. Apanhados com a asa nas arcas da Odebrecht, os tucanos protegem-se alegando que caixa dois não é corrupção. Suprema ironia: na crise do mensalão, o tucanato achou que poderia sangrar Lula e varrer para baixo de sua hipocrisia a aliança do seu presidente, Eduardo Azeredo, com Marcos Valério. Na era do petrolão, o ninho acha natural ecoar o lero-lero da verba “não-contabilizada” do tesoureiro petista Delúbio Soares. Mandou a credibilidade para o beleléu.

Nas pegadas da derrota apertada de Aécio Neves em 2014, o PSDB foi ao Tribunal Superior Eleitoral. Acusou a coligação adversária de prevalecer na base do abuso do poder político e, sobretudo, econômico. Pedia, então, a cassação da chapa Dilma—Temer e a posse da chapa Aécio—Aloysio Nunes, segunda colocada. O tempo passou. Sobreveio o impeachment. Tucanos viraram ministros. E o PSDB pede ao TSE que condene Dilma à inelegibilidade, mas livre Temer da guilhotina. Sustenta que o dinheiro sujo que bancou a continuidade de madame não contaminou a reeleição do seu substituto constitucional. O tucanato perdeu o nexo.

Sem ética, sem credibilidade e sem nexo, o PSDB já não é o que foi —ou imaginava ser. E ainda não sabe o que será. Deve doer em Aécio, Alckmin e Serra a ideia de encenar o papel de políticos que fazem pose de limpinhos numa peça imunda. Meteram-se num enredo em que a personagem principal é a Odebrecht e cujo epílogo é uma candidatura presidencial do prefeito João Dória fazendo cara de nojo e alardeando na televisão que é um empresário, não um político.

Jovita Feitosa. Heroína trágica da guerra maldita

Matéria do jornal O POVO, edição de 02-04-2017.
Ela vestiu-se de homem para lutar uma guerra sem propósito, foi usada como instrumento de propaganda pelo Império e teve desfecho misterioso

Nesta semana, o nome de uma cearense morta há 150 anos, aos 19, passou a figurar no Livro dos Heróis no Panteão da Pátria e da Liberdade. Conhecida pela maioria como avenida de acesso à zona oeste de Fortaleza, Antônia Alves Feitosa — a Jovita Feitosa — é inocente personagem de uma história misteriosa e trágica.

Disfarçou-se de homem para tentar lutar no mais brutal e despropositado conflito armado da história da América do Sul. “Maldita guerra”, nas palavras do Barão de Cotegipe. Não teve permissão para combater no Paraguai, mas foi explorada como instrumento de propaganda pelo Império. Na versão oficial, cometeu suicídio ao ser abandonada por um amor.

Nasceu em Brejo Seco, local que seria o atual município de Araripe, em 8 de março de 1948, naquele que, 129 anos mais tarde, seria declarado pelas Nações Unidas o Dia Internacional da Mulher. Perdeu a mãe em epidemia de cólera e foi morar com tio na vila de Jaicós, no Piauí. Ao tomar conhecimento da invasão das tropas de Solano López a Corumbá (no então Mato Grosso), decidiu se alistar no corpo de Voluntários da Pátria. Como ouviu dizer que mulheres não eram aceitas no Exército, cortou os cabelos a faca, amarrou os seios com uma cinta, vestiu as roupas do tio e seguiu para se alistar em Teresina. Foi descoberta por uma feirante e denunciada.

“Voluntários” era forma de dizer. A elite fazia doações ou entregava escravos para os filhos não irem. Mas, pobres eram caçados e levados à força. Alguns se fantasiaram de mulheres para não combater. Jovita era a antítese disso.

Sabia atirar, tinha vontade de lutar e estava disposta a aprender o que lhe ensinassem. Era mais do que ofereciam praticamente todos os homens. Como não havia norma que proibisse, o comando militar piauiense não apenas a aceitou nos treinamentos. Deu a ela divisas de primeiro sargento. Passou a usar farda com saiote.

Ela foi ainda informada de que chegaria do Rio de Janeiro um jornalista interessado em escrever sobre ela. Afinal, logo se percebeu que a jovem de 17 anos era poderoso instrumento de propaganda de guerra, apresentada como exemplo de coragem enquanto homens fugiam. Foi recebida com honras em São Luís e Recife. No Rio de Janeiro, os “Voluntários” foram homenageados no Theatro São Pedro e Jovita recebeu aplausos entusiasmados. Porém, em 16 de setembro de 1865, foi informada pelo Ministério da Guerra de que não poderia integrar o corpo de combatentes, mas apenas “serviços compatíveis com a natureza do seu sexo”.

O que ocorreu depois é motivo de mistério. Teria vivido romance com o engenheiro Guilherme Noot, cuja casa pegou fogo em outubro de 1867. Dentro foi encontrado corpo de mulher carbonizado, com punhal encravado no peito.
Jornais informaram que seria Jovita. Conforme as notícias, cometeu suicídio ao saber que Noot retornaria à Europa. Nunca ficou claro como reconheceram o corpo carbonizado e depois se soube que Noot jamais tinha saído do Rio. Havia perguntas não respondidas, mas o assunto foi deixado para lá.

O desfecho talvez tenha sido outro. Em outubro de 1865, Jovita escreveu carta publicada na imprensa na qual agradeceu ao carinho popular e informou que retornaria ao Piauí. Mas, tinha plano diferente. Contou a Noot que pediria ao cabo Euzébio, que conhecera na viagem ao Rio, para levá-la ao front de batalha como sua mulher. Prestaria serviços de vivandeira, ajudaria com os feridos e cuidaria das coisas de Euzébio. Não há registros de que realmente tenha ido. Todavia, havia uma mulher combatente em campos paraguaios. Atirava bem, matava sem hesitar. Na maior parte do tempo, dedicava-se ao cuidado dos feridos, a quem levava para a brava enfermeira Ana Néri.

Quando o cabo que a levou como companheira morreu, tomou a farda dele, manteve o cabelo cortado bem rente e passou a guerrear.

Na batalha de Acosta Ñu, em agosto de 1869, a brava mulher morreu em incêndio. Era chamada Maria ou, por vezes, Florisbela. Jovita?

sábado, 1 de abril de 2017

Jardim e Porteiras - Por Dr. Napoleão Tavares Neves.

Jardim e Porteiras são cidades vizinhas, separadas pela serra alta, por onde a estrada faz o longo contorno que Napoleão percorria a cavalo. 

Nos anos em que viveu aos pés da Chapada, ele brincava de correr entre as caldeiras do engenho e de acompanhar os vaqueiros na lida. 

A convivência com os sertanejos que trabalhavam no Saco marcou a personalidade do pequeno Napoleão, impressionado com as histórias do cangaço, que para sempre assustariam sua mente de menino e, mais tarde, formariam o historiador que ele viria a ser.



Em VEJA desta semana: Operador do mensalão quer contar tudo o que sabe na Lava Jato

Fonte: VEJA desta semana –por Gabriel Mascarenhas e  Hugo Marques

 Marcos Valério pretende delatar desde os nomes dos mandantes do assassinato de Celso Daniel até o plano do PT para subornar um ministro do STF
  (Foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press/VEJA)

Um inventário de crimes
Condenado a 50 anos de cadeia e preso há quatro, o publicitário Marcos Valério quer se transformar em delator na Operação Lava Jato. Em fevereiro, o operador do mensalão apresentou ao Ministério Público um cardápio do que pode contar. São sessenta itens de histórias que presenciou e participou na última década, enquanto esteve à frente de esquemas ilegais para financiar campanhas, pagar propinas e calar desafetos de políticos.

A papelada está sob análise em Brasília, porque envolve autoridades com foro privilegiado. As últimas investidas de Valério para conseguir um acordo de colaboração não vingaram. Mas o que ele falou se confirmou. Em 2012, bem antes de vir a público o escândalo do petrolão, Valério revelou num depoimento a procuradores da República que um esquema de corrupção na Petrobras servira como fonte de dinheiro sujo para calar um chantagista que ameaçava envolver o ex-presidente no assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, ocorrido em 2002.

Cinco anos depois, a Lava-Jato encontrou provas que corroboravam o que ele dissera e levou à condenação do empresário Ronan Maria Pinto, o tal chantagista que teria recebido 6 milhões de reais de forma fraudulenta, entre outros personagens. O publicitário agora promete responder a uma pergunta que permanece um mistério: Quem mandou matar Celso Daniel? VEJA apresenta uma síntese dessa e de outras histórias que Valério ameaça detalhar, como a operação do PT para subornar um ministro do Supremo, mesadas distribuídas aos cabeças do partido e o caixa dois que abasteceu campanhas do PSDB.

Temer rompe com Renan Calheiros depois de senador voltar a atacar propostas do governo.

Separação litigiosa Michel Temer desistiu. Após receber sucessivas críticas do líder de seu partido no Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o presidente afirmou a aliados na noite de quinta (30) que, se o alagoano buscava o rompimento, conseguiu. A fagulha que levou à implosão da aliança foi um vídeo postado pelo senador na internet, no qual ele ataca propostas do governo. A decisão de usar as redes sociais para divulgar conteúdo explosivo rendeu um apelido a Renan no Planalto: “Trump do agreste”.

Vai sem ele A ordem no Planalto é seguir com a defesa de reformas, como a da Previdência, sem contar com qualquer ajuda de Renan. Para o governo, o senador vinha sinalizando uma ruptura. “Não existe casamento forçado”, resumiu um auxiliar de Michel Temer.

É guerra O Planalto não engole a tese de que o senador está se realinhando com o PT só de olho na eleição em Alagoas. Acredita que Renan busca, acima de tudo, suporte em diversas alas da Casa para segurar o tranco que se aproxima com os desdobramentos da Lava Jato.

Nem aí Por enquanto, Renan tem feito graça da situação. Disse recentemente que “nem lembrava mais como era bom ser oposição”. Sabe que pode atrapalhar os planos do governo. Como líder, tem a prerrogativa de indicar relatores de projetos e integrantes de comissões.

De qualquer jeito O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), vai para o tudo ou nada. Quer levar à votação na próxima semana o projeto que trata da dívida dos Estados. Governadores se recusam a apoiar a exigência de contrapartidas, mas o Planalto não abre mão.

Ausente nos protestos, Lula ganha apoio e gritos de ‘traidor’ em protesto em SP

Grupo de black blocks diz ‘nem coxinha nem PT’ e critica petista; maioria, no entanto, usa adesivo prometendo apoiá-lo em Curitiba durante depoimento a Moro

Fonte: Site VEJA
 Manifestante usa adesivos com mensagem de apoio a Lula no dia em que ele for depor ao juiz Sergio Moro (Eduardo Gonçalves/VEJA.com)
Embora não esteja na manifestação desta sexta-feira na Avenida Paulista contra as reformas trabalhista e da Previdência propostas pelo presidente Michel Temer (PMDB), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi a estrela da manifestação do dia 15 de março – no mesmo local e com a mesma pauta -, divide participantes do protesto.
À frente da manifestação, que saiu do Museu de Arte de São Paulo (Masp) em direção à Praça da República, um grupo de cerca de 30 black blocks (manifestantes mascarados) grita “nem com os coxinhas nem com o PT, trabalhadores, estamos com vocês” e critica o ex-presidente:”Ô ô ô Ô, o Lula é traidor“.

Ex-carcará da política, Cunha virou um pardal - Por Josias de Souza.

Ao arrostar a primeira de uma série de condenações judiciais, Eduardo Cunha acentuou o seu drama. Com o poder estilhaçado, o ex-czar da Câmara já tinha perdido a vergonha na face, o recato, a infantaria parlamentar e a pose de vítima. Com uma sentença de 15 anos e 4 meses a persar-lhe sobre os ombros, Cunha começa a perder também as esperanças de recuperar a sanidade mental. Ao chamar Sergio Moro de “justiceiro político” e apresentar-se como “troféu” do juiz da Lava Jato, Cunha aperta o nó da corda que traz no pescoço.

Cunha caiu do pedestal sozinho. Não precisou de ajuda de rivais. Eleito presidente da Câmara, prestou depoimento espontâneo numa CPI. Inquirido, atirou conta o próprio pé a mentira de que jamais teve contas no exterior. Pilhado com dinheiro escondido na Suíça, saiu-se com a piada do “truste”. Desmascarado, adotou a chantagem como tática política. Apressou o impeachment de Dilma sem se dar conta de que, depois dela, seria a bola da vez.

Antes de morrer, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, envernizou sua biografia ao empurrar Cunha para fora da poltrona de presidente da Câmara e do mandato parlamentar. Suspenso, o bicho-papão foi perdendo a capacidade de assustar. Virou um aliado tóxico. Após uma embromação de nove meses, os soldados de sua milícia parlamentar ajudaram a passar-lhe o mandato na lâmina.

Enviado a Curitiba, Cunha revelou-se capaz de tudo, menos de refletir. Diferentemente de personagens análogos, como o correligionário Renan Calheiros, Cunha age dez vezes antes de pensar. Mesmo trancafiado, anotou Sergio Moro na sentença, o réu tramou “alguma espécie de intervenção indevida” do ex-parceiro Michel Temer em seu socorro. Endereçou perguntas constrangedoras ao presidente, impregnadas de segundas intenções.

O comportamento de Cunha, escreveu o juiz, ''apenas revela que sequer a prisão preventiva foi suficiente para fazê-lo abandonar o modus operandi de extorsão, ameaça e chantagem''. Indefeso, Cunha costuma ficar fora de si. E mostra com mais nitidez o oco que tem por dentro: ''Esse juiz não tem condição de julgar qualquer ação contra mim, pela sua parcialidade e motivação política'', escreveu.

Com o vazio a subir-lhe à cabeça, Cunha anuncia: ''É óbvio que irei recorrer, e essa decisão não se manterá nos tribunais superiores, até porque contém nulidades insuperáveis.'' Alguém precisa avisar que será necessário levar à balança do TRF-4, sediado em Porto Alegre, algo mais consistente do que o lero-lero habitual.

Desnecessário lembrar que uma confirmação da sentença de Moro na segunda instância transformará a cadeia de Cunha de temporária em perene. Nos seus áureos tempos, Cunha gostava de se comparar com o carcará, aquele pássaro que pega, mata e come. Hoje, o personagem mais parece um pardal de si mesmo. Esforça-se para sujar a testa da estátua de bronze que imagina merecer.