
O chapeu deixou Mundim bem sertanejo, o sorriso do Dr. Savio mostra que a homenagem partiu do coração, Melyne Bitu testemunha e o Blog do Sanharol registra para posteridade - Foto de Renata Bitu.
A. Morais
Segue:
Poema dedicado ao amigo Mundin do Vale, para que ele não voe tão alto tornando esse sonho realidade. Peço aos seguidores deste blog que cobrem do grande poeta a promessa feita em 12 de Junho de 2010 na residência do senhor Renato Bitu. FUMAR NUNCA MAIS.
Dr. Savio Pinheiro.
Ei-la:
Bisneto de Cabeleira,
Que passou a ser defunto
É achado numa feira,
Na cidade de Pé Junto,
Morto de morte morrida
Ou matada, é o assunto.
Por ser homem conhecido
Numa brava região
Fez o povo comentar
E falar com precisão:
- Ele foi assassinado
Com um disparo no pulmão.
-Ele só fede a fumaça!
-Bradou alto o Zé Silvino.
-Eu reconheço este cheiro
De titica de caprino.
Por isso, eu acuso, agora,
O matador assassino.
O primo de Antônio Silvino
Que se expôs desta maneira
Gritou para todo mundo:
-Não anuncio besteira,
Mas o bafo do finado
Deu a pista derradeira!
Nesta hora de aflição
E tanta expectativa
O povo pede silêncio
Para ouvir sua narrativa,
Quando um outro transeunte
Salva-lhe da ofensiva.
Um neto de Jesuíno
Que por ali passeava,
Agindo com sensatez,
Um culpado procurava
Para àquela morte evitável
Que o mau destino mandava.
-Quem matou este rapaz
De morte tão violenta
É um ser muito perverso,
Que o cemitério alimenta,
Daí, acuso o culpado
De verve tão agourenta!
-O estrago que ele fez
No pulmão deste ex-vivente
Não se faz com homem, não!
Que tragédia deprimente,
Pois um ser assim tão mau
Não conhece o Deus clemente.
-Não pretendo declarar
O assassinato em questão
Sem lançar mão da certeza
E culpar qualquer cristão;
Porém, acuso dois réus:
Zé Tabaco e Lampião.
O neto de Jesuíno
Demonstrou muita coragem
Ao acusar estes dois,
De mil mortes na bagagem,
Pretendendo assim prendê-los
Durante a sua passagem.
Terminada a acusação
O fuxico se apresenta:
A notícia cria força
E detona violenta
Tirando a dupla da toca
Com um furor que arrebenta.
Lampião, endiabrado,
Sai fumando num tição
E pronuncia em voz alta
Que soube da acusação:
- Eu sou homem muito macho
Pra vingar uma traição!
Ele diz ser paciente
E não gostar de asneira,
Que vai apurar o caso
De maneira verdadeira
E que o avô do delator
Foi pessoa justiceira.
-O Jesuíno Brilhante
Era um ser muito envolvente:
Foi Cangaceiro Romântico
E matador pertinente;
Porém, o neto é covarde
E bastante prepotente.
Enquanto isso acontecia...
Na toca, no meio do mato,
No lastro do fumaral
Escondia-se Zé Tabaco
Com medo de aparecer
E provocar desacato.
Zé Tabaco é apelidado
De Zé Cachimbo e Fumaça
De Charuto e de Cigarro,
Rapé guardado em couraça,
De Torrado e Masca Fumo,
Velha da foice e desgraça.
Zé Tabaco se esconde
Na plantação lucrativa
Porém, chega o João Real
Com nova iniciativa
Para levá-lo à cidade
Com idéia resolutiva.
- Zé Tabaco, se entregue!
- Pronunciou João Real.
-Siga pra a delegacia
De forma bem natural,
Pois o senhor delegado
Quer ouvi-lo em alto astral.
Numa Sexta-Feira, Treze,
A dupla compareceu
Pra prestar os depoimentos
Sobre o homem que morreu
Já encontrando na platéia
Cajarana e Zé Bedeu.
Na saleta de espera
Um soldado fumador
Acomodou o Zé Tabaco
Em poltrona, sem temor,
Defendendo o Rei do Fumo
Com o maior esplendor.
Neste momento importante
Daquela delegacia
Uma algazarra acontece
E o delegado anuncia:
- Vem chegando Lampião
Louvando Santa Luzia!
O Rei do Cangaço adentra
Com roupa bem engomada
Cumprimenta os conterrâneos
Da sua Serra Talhada
E comunica aos presentes:
- Não estou pra caçoada.
Olhando pra Zé Tabaco
Fala-lhe em tom zombeteiro:
- Vamos ver quem é o pior
Se o gatilho ou o isqueiro
Pois produzindo fumaça
Mata o que acender primeiro.
Zé Tabaco, embora tímido,
Falou fazendo pirraça:
- Não venha me acusar,
Pois depois de uma cachaça
Até mesmo o Lampião
Dá um trago e faz fumaça.
Naquele exato momento
Chega Cazeca, apressado,
Explicando para os dois
O que é ser prevaricado
E os chamam a adentrar
Pra falar com o delegado.
A indumentária dos dois
Chamava muito à atenção:
O traje de Zé Tabaco
Era só divulgação
De cigarro e de charuto
Mostrando o fumo, à nação.
Lampião de cartucheiras
Cruzando o seu peito, em xis,
Com chapéu alto e algibeira
Expôs-se o tanto que quis
Mostrando os anéis de ouro
E os enfeites cor de anis.
O delegado interrompe
Com bastante autonomia
A exibição desta dupla
Demonstrando simpatia
E o seu interrogatório
Neste momento, inicia.
- Fui obrigado a anotar
No Boletim de Ocorrência
O registro de uma morte,
Feita com maledicência,
Pois neto de Jesuíno
Relatou-me com eloqüência.
- Ele acusa com veemência
Após ter investigado
Que a morte deste rapaz
De pulmão esburacado
Foi provocada por tiro
Ou por cigarro fumado.
- Estudando bem os autos
Constatei e vos exponho:
O culpado deste crime
De resultado tristonho
Foi o consumo de Tabaco
Ou foi um matador medonho.
- Minha primeira pergunta
Vai pra você, Lampião:
Onde estavas tu na noite
Desta triste execução
Em que furaram, sem pena,
Do rapaz, o seu pulmão?
- Delegado eu lhe respondo
Com verdade verdadeira
Eu estava com Maria,
Minha linda companheira,
Num forró muito animado
E de muita bebedeira.
- E você seu Zé Tabaco,
Onde o senhor pernoitou?
- Eu estive no forró
Que o Lampião lhe falou
Estando bem próximo dele
Todo o tempo em que ficou.
Zé Tabaco ao dizer isto
Criou grande confusão
Pois o grande Virgulino
E famoso Lampião
Desmentiu-o na mesma hora
Com muita convicção.
- Não queira desafiar
O grande Rei do Cangaço,
Pois você está mentindo,
Desmerecendo o espaço,
Tentando me desmentir
Ou me fazer de palhaço.
- Se eu exponho pra vocês
Que estive naquela festa
É porque eu fui inalado,
Isto ninguém me contesta,
Já que eu fui o fumo fumado
Sou fumaça que não presta.
.
-- Entendi o seu disfarce
Velha da foice enrustida
Você se diz matador,
Já que a morte é garantida,
Porém o mal que tu fazes
É só pra morte morrida.
- Você pensa que é o maior
Bandido desta nação,
Já que estupra, fere e mata
As moças por perversão,
Pois saiba, que eu, Zé Tabaco,
Mato em toda ocasião:
Mato por inanição
Por trombose e isquemia
Causo o parto prematuro
Dando, ao feto, asfixia
Deixo você deprimido
Dia e noite, noite e dia.
O delegado temendo
Uma tragédia fatal
Tenta mudar a conversa
Para uma prosa informal
Porém, a briga entre os dois
Já é um fato real.
Volta à cena, Lampião
Sentindo-se ofendido:
- Quem você pensa que é,
Taco de fumo vencido?
Eu sou o herói cangaceiro,
O mais temido bandido!
- O fumo que você inala
Tu o aspiras fumando
Teu pai o usou no cachimbo
Você o engole mascando
Faz um charuto asqueroso
E rapé de vez em quando.
- Eu só fumo pra espantar
Os mosquitos picadores,
Para tirar o cheiro ruim
Das pingas de maus odores
E para expulsar da mente
Um magote de temores.
- Tudo isto que tu dizes
Só confirma a minha ação,
Pois tu és um cangaceiro
E eu sou a dominação,
És tu um dependente
Preso pelo alcatrão.
.
- Onde foi que já se viu
O Lampião dominado?
Os Lopes da Vila Velha
Não se curvam em seu reinado
E os Feitosa de Inhamuns
Sempre estão em bom estado.
Conheço a sua ascendência
Oh! Fumante Lampião,
Mas tu sendo um dependente
Terás câncer de pulmão
E se não te assassinarem
Morrerás do coração.
- E você, seu Zé Tabaco,
Que está com a vida marcada,
Pois o povo vai deixar
De fumar em debandada
uma vida bem saudável
Está sendo estimulada.
- Mas o povo viciado
Não crer na educação,
Pois o dependente químico
Possui auto-enganação
com a minha nicotina
Derrubo a tua ereção.
.
-Você largue de besteira
E a ponta de cigarro,
Pois sou criado na roça
E nunca sinto um pigarro.
Só bebo leite de cabra
E na doença eu esbarro.
- Vai pensando que é fácil
Escapar deste tormento,
Pois fumar é considerado
Desvio de comportamento
E um terço dessa nação
Tem este vício ao relento.
- Eu fui aluno aplicado
Do Domingos Soriano
Tive com o Sinhô Pereira
E não encontrei desengano
Pra, agora, você dizer-me
Que eu vou entrar pelo cano.
- Uma só certeza, eu tenho
Oh! Cangaceiro do mal:
Eu, sozinho, fiz crescer
A mortandade global
E a expectativa de vida
Caiu de forma letal.
- Um cangaceiro valente
Não vê a morte morrida!
Por isso eu fumo! E eu masco!
E bebo toda bebida!
E não é qualquer tabaco
Que me tirará a vida!
- A Doença Pulmonar
Dita Obstrutiva Crônica,
O Infarto do Miocárdio,
A voz se tornando afônica,
A Hipertensão, a Diabetes
E as mortes darão à tônica.
- Ninguém diz a Lampião
O que se deve fazer:
Pois amansei burro brabo,
Fiz marido estremecer,
Toquei sanfona e viola
E na trova eu fiz valer.
.
-As mortes pelo tabaco
Atrasam muito o Brasil
Pois as substâncias tóxicas
Somam mais de quatro mil
E os cânceres que provocam
Destroem de forma hostil.
O público deste evento
Ouvia com atenção
A conversa dos bandidos
Zé Tabaco e Lampião
Sem entender o motivo
Desta grande encenação.
Foi quando o Rei do Cangaço
Disse em tom de vencedor
Que produziu nesta prosa
Uma trama de valor
Induzindo o Zé Tabaco
A conversar sem temor.
- Seu delegado, o duelo
Que eu bem fiz acontecer
Com o senhor Rei do Fumo
Para todo o mundo ver
Foi pra mostrar ao senhor
Quem fez o homem morrer.
O povo, neste momento,
Consciente da desgraça
Sabia que Lampião
Já armara uma trapaça,
Todavia, Zé Tabaco,
Bem tranquilo achava graça.
- Virgulino Lampião
Ver-se tão inteligente...
Pensando em subestimar
A inteligência da gente.
Pois te digo, delegado:
Não houve crime dolente.
- Ora veja! Pessoal
O engodo do matador:
Se o homem que morreu
Foi bem morto, sim senhor!
Zé Tabaco é réu confesso
Como ouviu o relator.
- Pois aí está o grande engano
Deste debate formal.
No meu vil raciocínio
Não houve morte ilegal
Sendo o fato um suicídio
Já que fumar é fatal.
- Eu que sou o delegado
E assinarei a sentença
Entendo que não há crime
E sim, grande desavença
Porém, foi bastante útil
Esta briga em tom de crença.
Aprendemos que o cigarro
Mata muita gente boa,
Bem mais do que Lampião
E Zabelê, em pessoa,
E que apesar de violento
A mídia o defende, à toa.
Também, aqui, aprendemos
Que o assassino Zé Tabaco
É um grande matador
Levando a massa ao buraco
Porém, ficamos sabendo
Que o viciado é um fraco.
.
Dr. Jose Sávio Pinheiro.