terça-feira, 30 de junho de 2015

Em jogo, a cabeça de Dilma - Por Ricardo Noblat

O escândalo em torno da roubalheira na Petrobras subiu a rampa do Palácio do Planalto onde despacham o ministro da Secretaria de Comunicação Social Edinho da Silva, o ministro-chefe da Casa Civil da presidência da República Aloizio Mercadante, e a presidente da República Dilma Rousseff.

Em outro front, bateu à porta do Instituto Lula, na capital paulista, onde costuma ser encontrado o ex-presidente.

De duas, uma. Ou o empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC, chefe do cartel de empreiteiras que roubou a Petrobras, é um delirante formidável ou fala a verdade.

Sua delação premiada contém detalhes capazes de causar inveja a bons romancistas. O que um delator conta à Justiça só vale se for provado. Se mentir, perderá o direito a uma pena menor. Qual a vantagem de mentir, portanto?

Pessoa disse que pagou propina a políticos de vários partidos e ao PT com dinheiro desviado de contratos superfaturados para a prestação de serviços à Petrobras.

Edinho, tesoureiro da campanha de Dilma no ano passado, tomou dinheiro de Pessoa. Bem como Mercadante, candidato ao governo de São Paulo em 2010. Bem como Lula, naturalmente, para a campanha que o reelegeu em 2006.

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Dilma viajou de cabeça quente ao encontro de Barack Obama. Por sinal, sempre que o então presidente José Sarney viajava, Fernando Henrique Cardoso repetia: “A crise viajou”.

O comentário não se aplica a Dilma. A crise não é somente ela. A crise tem mais a cara de Lula e do PT. De Lula que inventou Dilma. Dele e do PT que protagonizaram até aqui os maiores escândalos da história do país.

O mensalão é a mais ruidosa obra do primeiro governo Lula. Virou trocado a se comparar com a roubalheira na Petrobras. Dilma não é inocente no caso da Petrobras.

Quem foi ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da Petrobras, e sempre fez questão de cuidar dela, não pode ser inocente. Lula, porém, por obra, graça ou omissão é o responsável por tudo.

Dilma não passa de uma gerentona sem talento, arrogante, refratária a pessoas em geral e dona de ideias econômicas ultrapassadas. Está sobrando na espaçosa cadeira que ocupa.

Para agravar a desdita dela – ou melhor: a nossa – é vítima de algo tão nativo como a jabuticaba. Pois Lula inverteu a ordem natural das coisas e age como o criador que tenta agora destruir a criatura.

Lula elegeu Dilma para mandar no governo dela e sucedê-la depois de quatro anos. Dilma nem deixou que ele mandasse tanto, nem renunciou ao direito de concorrer ao segundo mandato.

Há mais de um ano, Lula só faz criticá-la - ultimamente, porque teme ser preso e acha que Dilma nada faz para defendê-lo. Até que há 15 dias, Lula ultrapassou todos os limites. Declarou guerra a Dilma. Ele e o PT.

Procede como um implacável adversário dela, enfraquecendo-a – e ao seu governo - por toda parte. Emite sinais de que, no limite, poderá entregar a cabeça de Dilma para preservar a sua.

Não duvidem.  Lula é amoral, e dá provas disso com frequência. Se necessário, negociará com o PMDB e outros partidos aliados do PT a substituição de Dilma por Michel Temer, o vice-presidente.

Em 2018, se quiser ou se puder, tentaria voltar ao lugar de onde jamais gostaria de ter saído. (Saudades do sanduíche de ovo servido a qualquer hora da madrugada!) Afinal, foi nele ou a partir dele que descobriu os luxos que só as grandes fortunas proporcionam.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dilma não passará a mão na cabeça de ninguém. Nem na de Lula - Por Ricardo Noblat


Na sexta-feira à noite, quando se reuniu com alguns ministros no Palácio da Alvorada para avaliar por antecipação o que a VEJA publicaria em sua mais recente edição, a presidente Dilma Rousseff perguntou diretamente a Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil, e a Edinho Silva, da Comunicação Social:

- Vocês têm alguma coisa a contar sobre a arrecadação de recursos para as minhas duas campanhas?

Edinho, que foi tesoureiro da campanha do ano passado, respondeu que não. Nada de novo havia para ser contado. E reafirmou sua inocência.

Mercadante, que recebeu dinheiro de Ricardo Pessoa, dono da UTC e da Constran, para sua campanha de 2010 ao governo de São Paulo, disse que estava tudo certo com a sua prestação de contas.

No sábado, pela manhã, Dilma voltou ao assunto e os dois ministros repetiram o que haviam dito.

Ela orientou o ministro da Justiça a dizer à imprensa que o governo deseja a apuração de tudo, e em seguida embarcou para os Estados Unidos.

Por mais que tenham sido doces as palavras do ministro da Justiça em relação aos seus dois colegas, ficou claro que eles só continuarão em seus lugares se nada de mais grave surgir que possa comprometê-los.

Dilma não passará a mão na cabeça de auxiliares que pisaram na bola. Não passará mesmo. Como nada fará para salvar seu antecessor no cargo caso a polícia bata à porta dele.

É por isso que Lula anda detonando Dilma. Está se sentindo abandonado por ela. Cobra que Dilma use a força do governo para impedir que ele sofra constrangimentos.

Coitado de Lula! Se fossem apenas constrangimentos o que ele enfrentará mais adiante...

domingo, 28 de junho de 2015

Delação de empreiteiro deixa mal governo e oposição - Por Ricardo Noblat

Governo e oposição foram dormir, ontem, sob o peso das primeiras informações vazadas pela imprensa a respeito da delação premiada de Ricardo Pessoa, dono das construtoras UTC e Constran, e apontado como o chefe do cartel das empreiteiras envolvidas com a roubalheira na Petrobras.

Pessoa contou que beneficiou com dinheiro de caixa dois de sua empresa a campanha da presidente Dilma Rousseff em 2014; a campanha de Lula em 2006; a campanha de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo em 2010; e mais cinco senadores e três deputados federais. O Ministério Público Federal vai investigar se as doações foram legais ou não.

Os beneficiados declararam o recebimento das doações à Justiça Eleitoral. E poderão dizer que não sabiam que o dinheiro era de caixa 2 e teve origem em corrupção. Só serão incriminados caso reste provado que eles sabiam, sim, e que agora mentem. É possível que Pessoa tenha fornecido provas irrecusáveis do que disse. Ainda não se sabe.

Sabe-se, por exemplo, que Mercadante, segundo Pessoa, recebeu dele R$ 250 mil. Em 2010, de fato, o atual ministro-chefe da Casa Civil da presidência da República recebeu exatamente os mesmos R$ 250 mil da UTC, declarados à Justiça. Pessoa revelou que doou à campanha de Dilma no ano passado R$ 7,5 milhões. Foi quanto a campanha declarou à Justiça.

A oposição não terá a chance de partir para cima do governo com gosto de sangue na boca porque dois dos seus membros mais ilustres foram citados por Pessoa como tendo sido contemplados com dinheiro de caixa dois – o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), e o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), ex-relator do processo de cassação de José Dirceu.

Os dois distribuíram notas garantindo que as doações foram declaradas e que nada tiveram a ver com dinheiro ilegal. Foi a mesma explicação fornecida por Mercadante e pelos tesoureiros das campanhas de Lula e de Dilma. Um ministro confidenciou ao O Globo o sentimento compartilhado por gente que cerca Dilma no Palácio do Planalto.

A avaliação dessa gente é que a Operação Lava-Jato tomou uma dimensão em que os responsáveis por ela perderam o controle. Quer dizer: se não tivessem perdido o controle, ela não alcançaria a dimensão que alcançou. Por dimensão, entenda-se, a suspeição levantada contra tantas e tão importantes pessoas.

Lula pensa a mesma coisa. Só que critica Dilma por não ter interferido para impedir que a situação chegasse aonde chegou.

No mais cruel dos dias para quem tem culpa no cartório, a roubalheira do Petrolão enlameia o gabinete presidencial - Por Augusto Nunes

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Neste sábado, os leitores de VEJA saberão que a lama do Petrolão chegou ao 3° andar do Palácio do Planalto e invadiu o gabinete presidencial. A sequência de informações assombrosas contidas na reportagem de capa começa com a lista dos favorecidos com boladas desviadas da Petrobras pelo empreiteiro Ricardo Pessoa e a quantia que coube a cada um. O desfile dos recém-chegados ao acervo de alvos da Operação Lava-Jato é aberto por Lula e Dilma Rousseff. As revelações que se seguem são suficientemente devastadoras para reduzir a mera garoa a tempestade provocada pela prisão do manda-chuva da Odebrecht.

Engaiolado em Curitiba desde novembro, quando acumulava a presidência da construtora UTC e a coordenação do clube de empreiteiras formado para saquear a estatal, Ricardo Pessoa animou-se a contar o que sabia graças ao acordo de delação premiada longamente negociado com os procuradores federais que investigam a roubalheira colossal. Homologado pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, o acerto resultou em cinco dias de depoimentos prestados em Brasília.

É improvável que outro participante do escândalo saiba tanto quanto Ricardo Pessoa. “As confissões deram origem a 40 anexos recheados de planilhas e documentos que registram o caminho do dinheiro sujo”, informa um trecho da reportagem de 12 páginas, dividida em 9 blocos, que expõe o que há de mais relevante no copioso material obtido por VEJA.

O mais recente lote de revelações impressiona pela fartura de detalhes e pelo cinismo do elenco. Os canastrões do faroeste à brasileira agiram com o desembaraço do bandidão depois do quinto uísque no saloon do vilarejo sem xerife. Já descobriram que ainda há homens da lei no Brasil. Vão ver o fim do filme numa cela de cadeia

A lista de políticos a quem Pessoa diz ter dado dinheiro obtido no PetrolãoDinheiro ilegal doado para candidatos dentro da lei é crime? É a primeira questão levantada pela delação premiada do dono da UTC

Ricardo Pessoa revela detalhes do esquema de corrupção da Petrobras e entrega a lista dos beneficiados com o dinheiro desviado: as campanhas eleitorais de Dilma e Lula, deputados, senadores e ministros do governo(VEJA.com/VEJA)

O engenheiro Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, tem contratos bilionários com o governo, é apontado como o chefe do clube dos empreiteiros que se organizaram para saquear a Petrobras e cliente das palestras do ex-presidente Lula. Desde a sua prisão, em novembro passado, ele ameaça contar com riqueza de detalhes como petistas e governistas graúdos se beneficiaram do maior esquema de corrupção da história do país. Nos últimos meses, Pessoa pressionou os detentores do poder - por meio de bilhetes escritos a mão - a ajudá-lo a sair da cadeia e livrá-lo de uma condenação pesada. Ao mesmo tempo, começou a negociar com as autoridades um acordo de delação premiada. o empresário se recusava a revelar o muito que testemunhou graças ao acesso privilegiado aos gabinetes mais importantes de Brasília. O Ministério Público queria extrair dele todos os segredos da engrenagem criminosa que desviou pelo menos 6 bilhões de reais dos cofres públicos. Essa negociação arrastada e difícil acabou na semana passada, quando o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou o acordo de colaboração entre o empresário e os procuradores.

VEJA teve acesso aos termos desse acerto. O conteúdo é demolidor. As confissões do empreiteiro deram origem a 40 anexos recheados de planilhas e documentos que registram o caminho do dinheiro sujo. Em cinco dias de depoimentos prestados em Brasília, Pessoa descreveu como financiou campanhas à margem da lei e distribuiu propinas. Ele disse que usou dinheiro do petrolão para bancar despesas de 18 figuras coroadas da República. Foi com a verba desviada da estatal que a UTC doou dinheiro para as campanhas de Lula em 2006 e de Dilma em 2014. Foi com ela também que garantiu o repasse de 3,2 milhões de reais a José Dirceu, uma ajudinha providencial para que o mensaleiro pagasse suas despesas pessoais. A UTC ascendeu ao panteão das grandes empreiteiras nacionais nos governos do PT. Ao Ministério Público, Pessoa fez questão de registrar que essa caminhada foi pavimentada com propinas. 

sábado, 27 de junho de 2015

Planalto monta linha de defesa frágil para Dilma - Por Josias de Souza



Ao confirmar que transferiu R$ 7,5 milhões do dinheiro roubado da Petrobras para a tesouraria da campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2014, o empreiteiro Ricardo Pessoa transformou a presidente da República numa personagem irreconhecível —uma mistura de administradora ingênua com candidata distraída. Na presidência do Conselho de Administração da Petrobras, Dilma não viu a ação dos assaltantes. No palanque eleitoral, usufruiu do produto do roubo.

Consumado o constrangimento, o Planalto montou uma linha de defesa precária. Nesse enredo, a presidente continuará fazendo pose de aliada dos investigadores. Repetirá que a Lava Jato só avança porque os governos do PT criaram as condições. Tomará distância do caixa de sua campanha, mas ecoará o discurso de que o dinheiro da eleição foi 100% legal. E seus auxiliares cuidarão de relaçar que as construtoras enroladas doaram verbas também a candidatos da oposição.

Essa linha de defesa é frágil porque exige que a plateia aceite Dilma como uma cega atoleimada. E supõe que a Procuradoria, o STF o próprio TSE aceitarão passivamente a conversão da Justiça Eleitoral em lavanderia de verbas mal asseadas. Se tudo funcionar como planejado, Dilma chega ao final do mandato como uma presidente de desenho animado.

Às vezes parece faltar-lhe o chão. Mas Dilma continua caminhando no vazio. Se reconhecer que está pisando em nada, despencará. Acha que, simulando que não se deu conta, conseguirá atravessar o abismo. Torce para que ninguém estranhe nada e para que não lhe façam muitas perguntas. Só não pode olhar para baixo.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O significado das palavras no país maravilhoso de Alice Odebrecht - Por Ricardo Noblat

Quando Alice atravessa o espelho, ela conhece um personagem das histórias que os avós contam aos netos desde muito tempo. Figura estranha, é um ovo, mas não gosta que o chamem de ovo. Atende pelo nome de Humpty Dumpty.

Alice para junto ao muro onde Humpty Dumpty está sentado e começam um papo bastante curioso. Palavras novas, que Alice nunca ouviu, como “desaniversário”, ou com novos significados que Humpty Dumpty lhes dá.

“Quando uso uma palavra”, diz Humpty Dumpty em tom levemente sarcástico, “ela significa exatamente aquilo que escolhi como significado, nem mais nem menos”.

“A questão é”, retruca Alice, “se você pode fazer as palavras terem significados tão diferentes”.

“A questão é”, replica Humpty Dumpty, “quem é o chefe, só isso”.

Humpty Dumpty tem inteira razão? A questão é só essa: quem é o chefe?

Adiante.

O que significa “sobrepreço”?

A Polícia Federal apreendeu na sede da Odebrecht, em São Paulo, um e-mail enviado pelo executivo Roberto Prisco Ramos para executivos da empresa, incluindo Marcelo Odebrecht, seu presidente.

No e-mail, cujo assunto é “sondas”, havia menção a sobrepreço.

A existência deste e-mail é uma das principais provas apresentadas pelo Ministério Público Federal contra o presidente da Odebrecht. Quer dizer que ele sabia das manobras do cartel de empreitras dentro da Petrobras e que participava diretamente delas.

Segundo o Dicionário Aulete, sobrepreço quer dizer preço cobrado acima da tabela ou do normal.

No Dicionário online de português quer dizer “valor exigido acima ou sobre o preço normal assinalado em tabela”

No Houaiss, preço cobrado além do que seria normal, ou do preço tabelado”.

É a língua que falam a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro.

Na língua particular dos advogados da Odebrecht, “sobrepreço” não passa de “uma expressão de mercado”. Nada a ver com preço cobrado além.

Adiante.

E o que significa "destruir?"

Houaiss: demolir; por no chão; eliminar; exterminar; destroçar; devastar; estragar; desfazer; extinguir; reduzir a nada.

O Aurélio concorda com o Houaiss.

A Polícia Federal, anteontem, apreendeu um bilhete manuscrito de Marcelo Odebrecht endereçado aos seus advogados, onde ele manda “destruir e-mail sonda”.

Advogados dele acusaram a Polícia Federal de querer “tumultuar o processo”. Argumentaram que “destruir”, no caso, não se referia à destruição de provas.

Destruir queria dizer "descontituir", "rebater" e "infirmar".

Sem dispor de advogados tão caros e talentosos como os que estão a serviço de Marcelo Odebrecht, o ex-deputado Carlos Margno Ramos, de Rondônia, envolvido na roubalheira da Petrobras, encontrou uma maneira bem mais barata de safar-se.

Ouvido pela Polícia Federal, disse que perdeu parte da memória. Justamente a parte que poderia lhe causar embaraços. Ou força-lo a mentir.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A solidão de Dilma - Por Ricardo Noblat

Pobre Dilma. Na última quinta-feira, Lula a criticou duramente, ao seu governo e ao PT. Disse que ela e ele estavam no “volume morto” e o PT, abaixo do volume morto.

Anteontem, voltou a bater no governo e no PT. Quanto a ele, se disse cansado, velho. Tem razão.

Fora o líder do governo na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT-CE), ninguém saiu em defesa de Dilma. Nem ela mesma.

Guimarães disse que Lula deveria ter feito as críticas no âmbito do governo e do partido. Para não fornecer munição aos adversários.

E Dilma reconheceu o direito de Lula criticá-la. Ordenou aos seus ministros que nada comentassem a respeito.

Para completar o quadro de solidão da presidente da República, a bancada do PT no Senado lançou uma nota de apoio a...A Lula, vítima de uma “campanha sórdida”, movida pelo “ódio”, apesar de ser “uma das raras e fantásticas lideranças que conseguem transcender os limites de sua origem social, de sua cultura e do seu tempo histórico".

Bonito, não?

Dilma está acuada pela Operação Lava Jato, o ajuste fiscal que se arrasta, as péssimas notícias sobre a economia, a rejeição popular e, agora, as críticas disparadas por Lula.

Não sabe como sair do buraco em que se meteu – a não ser dar tempo ao tempo e torcer pelo sucesso do ajuste.

À crise econômica soma-se a política. É grande o vazio de líderes. E num regimento presidencialista como o nosso, se o presidente não lidera... 

terça-feira, 23 de junho de 2015

O que Lula diz não bate com o que ele fez. Nem com o que Dilma faz - Por Ricardo Noblat

No dia em que Lula disse: “Hoje a gente só pensa em cargo, a gente só pensa em emprego, a gente só pensa em ser eleito e ninguém mais trabalha de graça”, a coordenação política do governo anunciou mais uma rodada de liberação de emendas parlamentares ao Orçamento e de distribuição de cargos em troca de votos para aprovação no Congresso do resto do ajuste fiscal.

O dinheiro das emendas e os cargos não contemplarão apenas o PT, é claro.  De resto, enquanto governou por dois mandatos, foi Lula que viciou o PT em cargos, empregos, eleições e trabalho pago. Mas a coincidência da crítica feita por Lula com a revelação das miçangas a serem usados pelo governo para seduzir o Congresso, confirma que o buraco é bem mais embaixo. Lula prega o que não fez e o que Dilma, sua criatura, não fará.

O mensalão foi uma maneira explícita, descarada de pagar a parlamentares para que votassem como o governo queria. Parte do dinheiro empregado na compra dos votos acabou desviada dos cofres públicos, segundo o

Supremo Tribunal Federal, cuja maioria dos ministros deve seu emprego a Lula e Dilma. A liberação de dinheiro para honrar emendas ao Orçamento faz parte da lei.

Nem por isso, junto com a ocupação de cargos por afilhados dos políticos, deixa de ser outra maneira de comprar votos. Uma maneira menos sem vergonha, digamos assim. Mas é só. O dinheiro das emendas deveria servir para a realização de pequenas obras nos redutos eleitorais de deputados e senadores. O governo está careca de saber que parte dele enriquece os autores de emendas e seus apaniguados.

Interessado, a se acreditar no que diz, em promover uma revolução no PT que se esclerosou, Lula poderia começar a refletir sobre como governar sem distribuir dinheiro e cargos.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Dilma é pesadelo do qual Lula não pode acordar - Por Josias de Souza


O governo Dilma Rousseff tornou-se uma espécie de latifúndio improdutivo que ninguém quer dividir. Num instante em que o Datafolha informa que apenas 10% dos eleitores aprovam a atuação da presidente, até Lula se afasta do alambrado. O criador refere-se à criatura como um conto do vigário em que ele também caiu.

Munido de pesquisas próprias, Lula teve um surto de óbvio. Em conversa com religiosos, disse que o prestígio da ex-supergerente “está no volume morto”. Mas Lula não enxerga um culpado no espelho. Ele se vê no rol das vítimas que Dilma puxa para o fundo. “O PT está abaixo do volume morto. Eu estou no volume morto.”

A taxa de reprovação de Dilma bateu em 65%, informa o Datafolha. Lula lava as mãos: “Gilberto [Cavalho] sabe do sacrifício que é a gente pedir para a companheira Dilma viajar e falar. Porque na hora que a gente abraça, pega na mão, é outra coisa. Política é isso, o olhar no olho, o passar a mão na cabeça, o beijo.”

A aversão a Dilma alastra-se inclusive pela base da pirâmide, de onde o PT costuma extrair mais votos. Entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, apenas 11% aprovam a presidente, enquanto 62% a rejeitam. Lula enxágua as mãos:

“Tem uma frase da companheira Dilma [na camanha presiodencial] que é sagrada: ‘Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa’. E mexeu. Tem outra frase que é marcante, que é a frase que diz o seguinte: ‘Eu não vou fazer ajuste, ajuste é coisa de tucano’. E fez. E os tucanos sabiamente colocaram Dilma falando isso [no programa de TV] e dizendo que ela mente. Era uma coisa muito forte. E fiquei muito preocupado.”

A ruína de Dilma, ilusão suprema, dá a Lula a sensação de que sua preocupação é útil.

Para 63% dos entrevistados do Datafolha, o ajuste fiscal de Dilma afeta sobretudo os mais pobres. E Lula, limpando o seu discurso de orador inocente: “Falar é uma arma sagrada. Estamos há seis meses discutindo ajuste. Ajuste não é programa de governo. Em vez de falar de ajuste… Depois de ajuste vem o quê?”

Deterioram-se também as expectativas dos eleitores. Para 73%, informa o Datafolha, o desempego irá aumentar no próximo período. Em fevereiro, pensavam assim 62% dos pesquisados. Para Lula, falta gogó à gestão Dilma. “Os ministros têm de falar. Parece um governo de mudos.” Irrita-se especialmente com o mutismo da Casa Civil. Eu disse “pelo amor de Deus, Aloizio [Mercadante], você é um tremendo orador. É certo que é pouco simpático…”

Todos são culpados pela crise, menos o criador do mito da gerentona infalível. A crise faz Lula insinuar que seu retorno seria algo restaurador em 2018. Mas um detalhe escapa ao sábio da tribo petista: assim como um ovo é algo que não pode ser desfritado pelo cozinheiro, Dilma é um pesadelo do qual Lula não tem como acordar.

domingo, 21 de junho de 2015

Depois de ter criado Dilma, Lula a destrói - Por Ricardo Noblat


A oposição foi incapaz de produzir um diagnóstico tão devastador do governo da presidente Dilma e da situação do PT. Todo o mérito cabe a Lula, segundo reportagem de Tatiana Farah e Julianna Granjeia publicada, hoje, em O Globo. Durante encontro com religiosos, Lula não poupou sequer ele mesmo.

Sua frase “Dilma e eu estamos no volume morto. O PT está abaixo do volume morto”, entrará certamente para a História da política recente do país como a mais emblemática do período de 12 anos e seis meses do PT no poder. Como Lula é um bom frasista, não se descarte a possibilidade de ele cometer ainda uma frase melhor.

A reunião de Lula com religiosos aconteceu anteontem, no Instituto Lula, em São Paulo. Contou com a presença de Gilberto Carvalho, ex-secretário da presidência da República no primeiro governo Dilma. Ligado aos chamados movimentos sociais, foi Gilberto que levou os religiosos para conversar com o ex-presidente.

Por sinal, a essa altura, depois da prisão dos presidentes das empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez, as duas maiores do país, e de novas revelações trazidas pelas edições de fim de semana das revistas VEJA e ÉPOCA, é possível que Lula viesse a admitir que não somente o PT está abaixo do “volume morto”, mas ele também.

O desabafo de Lula deve ter sido gravado. O que sugere isso é a citação de tantas frases com começo, meio e fim, além do colorido da fala costumeira de Lula. Ficará difícil para ele desmentir o que lhe foi atribuído. Quanto a Dilma... Só lhe restará o silêncio. E a indignação com o que disse seu criador.

Um dos momentos mais constrangedores para Dilma no desabafo de Lula é este, quase ao final do encontro do ex-presidente com os religiosos:

- Tem uma frase da companheira Dilma que é sagrada: “Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa”. E mexeu. Tem outra frase, Gilberto, que é marcante, que é a frase que diz o seguinte: “Eu não vou fazer ajuste, ajuste é coisa de tucano”. E fez. E os tucanos sabiamente colocaram Dilma falando isso (no programa de TV do partido) e dizendo que ela mente. Era uma coisa muito forte. E fiquei muito preocupado.

Ou seja: Lula endossou a crítica mais frequente feita pela oposição à Dilma. Reconheceu que ela mexeu no direito dos trabalhadores. E que mentiu ao dizer que não faria ajuste fiscal. De resto, batizou o governo Dilma de “governo de mudos”. E censurou “a companheira” por não viajar para defender seu governo. Injustiça! Dilma tem viajado muito.

Para ilustrar as dificuldades enfrentadas pelo PT e por ele, Lula citou uma pesquisa de opinião pública aplicada em parte do ABC paulista, justamente onde o PT nasceu.

- Acabamos de fazer uma pesquisa em Santo André e São Bernardo, e a nossa rejeição chega a 75%. Entreguei a pesquisa para Dilma, em que nós só temos 7% de bom e ótimo — comentou Lula.

Lula relembrou uma recente conversa que teve com Dilma – e ao fazê-lo diante de pouco mais de 30 pessoas, foi, no mínimo, desleal com Dilma. Não se revela conversa com presidente.

- Eu fiz essa pergunta para Dilma: “Companheira, você lembra qual foi a última notícia boa que demos ao Brasil?”. E ela não lembrava. Como nenhum ministro lembrava. Como eu tinha estado com seis senadores, e eles não lembravam. Como eu tinha estado com 16 deputados federais, e eles não lembravam. Como eu estive com a CUT, e ninguém lembrava.

Lula deu um tiro de bazuca no governo de sua companheira. Ele a criou. Ele a destrói.

sábado, 20 de junho de 2015

Marcelo Odebrecht para Lula e Dilma: “É para resolver essa lambança. Ou não haverá República na segunda-feira” - Por Marcelo e Otávio


Os presidentes da Andrade Gutierrez, Otávio, e da Odebrecht, Marcelo, presos pela operação que lava a jato a alma do Brasil

Revoltado com sua prisão, Marcelo Odebrecht ameaçou entregar Lula e Dilma Rousseff.

Antes de ser levado pela Polícia Federal na manhã de sexta-feira, segundo a Época, ele fez três ligações.

Uma delas para um amigo que tem interlocução com Dilma e Lula – e influência nos tribunais superiores em Brasília.

“É para resolver essa lambança”, disse Marcelo ao interlocutor, determinando que o recado chegasse à cúpula de todos os poderes. “Ou não haverá República na segunda-feira.”

Ui!

Nas últimas semanas, segundo fontes ouvidas pela revista, o presidente da Odebrecht teve encontros secretos com petistas e advogados próximos a Dilma e a Lula.

“Transmitiu o mesmo recado: não cairia sozinho. Ao menos uma dessas mensagens foi repassada diretamente à presidente da República. Que nada fez.

Quando os policiais amanheceram em sua casa, Marcelo Odebrecht se descontrolou.”

Que bom.

Antes mesmo de chegar à carceragem em Curitiba, ele estava “agitado, revoltado”, nas palavras de quem o acompanhava.

Ótimo.

Seu pai, Emilio Odebrecht, patriarca da família que ergueu a maior empreiteira da América Latina, já vinha tendo acessos de raiva com o avanço da Operação Lava Jato:

“Se prenderem o Marcelo, terão de arrumar mais três celas”, repetia ele. “Uma para mim, outra para o Lula e outra ainda para a Dilma.”

Perfeito. Estamos na torcida para não haver República do PT na segunda-feira.

O fim do 'grande demais para ser preso' - Por Mirian Leitão.


A operação Erga Omnes mostra que os investigadores da Lava-Jato não acham que exista alguém que seja grande demais para ser preso. Marcelo Odebrecht, presidente da Odebrecht, é talvez o mais importante empresário do país hoje. A empreiteira tem operações no Brasil e no exterior há três gerações, e não apenas obras das quais se fala muito ultimamente, como o porto de Mariel, mas até o aeroporto de Miami. Segundo os investigadores, a empresa teria pago propina a Paulo Roberto Costa.

No primeiro depoimento de Alberto Youssef, cujo áudio chegou a vazar pela internet, no ano passado, ele fala especificamente de reuniões com Carlos Farias, executivo da empreiteira que também está preso.

O presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, comandou a empresa e foi presidente do conselho de administração da Telemar, hoje Oi.

A operação Erga Omnes chegou à elite do empresariado brasileiro e se torna, desde a manhã de hoje, a mais profunda tentativa de combater a corrupção e é o fim da ideia de que uma pessoa pelo seu tamanho constrangeria a Justiça e a Polícia Federal.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Renan comemora decisão do TCU e Cunha defende análise das contas pelo Congresso DAIENE CARDOSO E ISADORA PERON - O ESTADO DE S. PAULO

Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, o TCU foi criado como linha auxiliar do Parlamento e é um órgão de assessoramento do Poder Legislativo
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), avisou nesta quarta-feira, 16, que o Congresso vai retomar, após 12 anos, o julgamento de contas presidenciais. O anúncio foi feito horas depois de o Tribunal de Contas da União (TCU), em decisão inédita, fixar prazo de 30 dias para a presidente Dilma Rousseff explicar pessoalmente, por ofício, irregularidades de R$ 281 bilhões no balanço apresentado pelo governo federal em 2014, entre elas as chamadas "pedaladas fiscais", no valor de R$ 37,1 bilhões.
Depois que vencer o prazo concedido a Dilma, os ministros do TCU, que estavam rachados entre a aprovação e a inédita reprovação das contas, vão dar o parecer final, que será encaminhado ao Congresso. Tradicionalmente, o Congresso ignora as decisões do TCU, como fez durante o governo Lula e em relação aos balanços do governo Collor. Pela primeira vez em 80 anos, as contas do governo podem ser reprovadas por causa de 13 distorções verificadas. A corte nunca adiou seu parecer para questionar diretamente o chefe do Executivo. A tradição é a aprovação, com ou sem ressalvas.
'Se a nossa prerrogativa é analisar contas, que analisemos', disse Cunha
'Se a nossa prerrogativa é analisar contas, que analisemos', disse Cunha
Cunha, que impõe na Câmara uma pauta de oposição ao governo, se reuniu na tarde desta quarta-feira com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para definir qual a melhor forma de fazer a votação: por sessão do Congresso ou apreciação de cada Casa. "As instituições têm de funcionar: se a nossa prerrogativa é analisar contas, que analisemos", justificou.
O peemedebista preferiu não comentar o posicionamento do TCU, mas lembrou que o tribunal foi criado como linha auxiliar do parlamento. "Ele (TCU) não é um tribunal de decisão, é um tribunal de assessoramento do Poder Legislativo para que a gente faça o nosso papel - que já devíamos estar fazendo - de apreciar contas", disse, acrescentando ser "obrigação constitucional" analisar o balanço. "Esse episódio vai produzir um ganho importante de a gente voltar ao tema."
Na mesma linha, Renan sinalizou que levará o julgamento adiante. "Acho que os poderes estão cada vez mais tentando cumprir a sua parte. Isso é muito bom para a democracia."
A oposição comemorou a decisão, por entender que a tese do impeachment foi reforçada. "A presidente está agora encurralada. Trata-se de um fato inédito que gera constrangimento para Dilma", afirmou o líder do PPS na Câmara Rubens Bueno (PR).
Mas, na avaliação do advogado-geral da União (AGU), Luis Inácio Adams, Dilma foi favorecida. "O governo ganha com essa decisão porque poderá apresentar o contraditório, poderá explicar as contas", disse, logo após o fim da sessão no TCU. "O governo tem condições de esclarecer tudo, como já tem esclarecido em relação ao tema que se convencionou chamar de pedalada fiscal."
Evidência. A pressão sobre o governo deve crescer. Ao longo de 30 dias, até que a defesa de Dilma seja recebida e analisada pelo TCU, a deterioração das contas públicas continuará em evidência no meio político e também no mercado financeiro. O acórdão foi aprovado pelos ministros por unanimidade, sob o argumento de que, frente às graves distorções verificadas, não há condições de apreciar as contas agora para envio ao Congresso, como ocorre todos os anos.
Os integrantes do tribunal justificaram que, diante da possibilidade de que as contas sejam rejeitadas, a decisão de ouvir Dilma dará "segurança jurídica" a uma futura opinião do TCU. O governo poderia anular na Justiça um eventual parecer pela reprovação, alegando desobediência ao princípio da ampla defesa.
Ao ler seu voto, o relator do processo, Augusto Nardes, fez duras críticas às manobras da equipe econômica do governo. "Se existe uma Lei de Responsabilidade Fiscal, ela tem de ser para todos, não só para o prefeito, para o governador. Tem de ser para a Presidência da República e a presidente tem de dar exemplo para os outros gestores", afirmou o relator ao fim da sessão. "Essa é a mudança de comportamento que todo o País quer", acrescentou.
A presidente não é obrigada a responder. Pode se pronunciar "caso manifeste interesse e entenda necessário". Mas no Palácio do Planalto, auxiliares presidenciais garantiam que ela responderá. Na decisão, o TCU cobra explicações. Os questionamentos são feitos diretamente a ela porque, conforme a Constituição, as contas são apresentadas pelo presidente da República. "As contas são dela", disse Nardes.