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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

18° capítulo do livro: "Cariri: origens e cenários", de Armando Lopes Rafael

 Dona Matildes, a inimiga que protegeu Bárbara de Alencar

Bandeira do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves que vigorava em 1817 na nossa pátria. Durante 8 dias, esta bandeira foi suspensa em Crato, pelos líderes da Revolução Pernambucana de 1817que  declararam  a forma republicana de governo nesta cidade de Crato. 
Para os que dizem que o Brasil era uma "mísera colônia", de Portugal, bom lembrar que a capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves era a cidade brasileira do Rio de Janeiro. Ou seja, toda a corte do Príncipe Regente, Dom João VI, estava sediada no Brasil. As decisões para Portugal partiam do Brasil.

        O episódio que, de forma resumida, relato abaixo consta – mais detalhado – nas páginas 70 e 71 do livro “As Quatro Sergipanas”, escrito  pelo   sacerdote  e   historiador Mons.  Francisco  Holanda  Montenegro. Relembro-o aqui, porque ele é um exemplo emblemático dos frutos colhidos na sociedade católica caririense no primeiro quartel do século XIX.

   Dona Bárbara de Alencar, cognominada, nos dias de hoje, cognominada de A Heroína do Crato, tinha com Dona Matildes Telles, esposa do Capitão Manoel Joaquim Telles e mãe do Juiz Ordinário de Crato – que fora destituído do cargo pelos membros da família Alencar, líderes da Revolução Pernambucana de 1817 no Cariri cearense – uma intriga e rivalidades antigas por causa de política. Bárbara de Alencar e Matildes Telles não se entendiam, não se cumprimentavam e nem se falavam.

   Rechaçada a revolta republicana da família Alencar, pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, sem necessidade de se disparar um só tiro, os filhos de Dona Bárbara foram presos pelas forças monarquistas. Dona Barbara se escondeu dos vitoriosos para escapar da prisão.  Na madrugada de 21 de maio de 1817, Dona Bárbara encontrava-se escondida nas imediações do Sítio Pau Seco, propriedade sua, onde passou o dia oculta num canavial. À noite saiu do esconderijo, e tendo perdido a esperança de ver voltar seu fiel escravo – o negro Barnabé – seguiu vagando sem destino pelas matas existentes, à época, no entorno da Vila Real do Crato. Na sua andança veio parar no Sítio Miranda, onde atualmente existe o bairro Mirandão, zona citadina de Crato. Dona Bárbara esbarrou mais precisamente nos fundos da casa de sua inimiga, Dona Matildes. Soube que estava ali porque viu uma escrava da casa apanhando água. A escrava reconheceu Dona Bárbara e foi avisar a sua patroa.

   Dona Bárbara apresentou-se a Dona Matildes. Esta última, com o coração aberto a tantos sofrimentos porque passava a família Alencar, abraçou a sua inimiga com lágrimas de ternura e num gesto magnânimo de generosidade, respeito e fidalguia levou-a para abrigá-la na sua casa. Fez mais. Dona Matildes mandou chamar seu filho, que era, novamente, o Juiz Ordinário do Crato, readmitido no cargo, e disse a ele:

Mande queimar todos os papéis e atas arquivados pelos contrarrevolucionários que comprometam Dona Bárbara e seus filhos. 

   Naquele tempo os deveres filiais falavam mais alto do que as orientações transitórias do poder. O filho obedeceu à mãe.  Tempos depois, o futuro Senador e Presidente da Província do Ceará, José Martiniano de Alencar – filho de Dona Bárbara – que carpia a agruras dos cárceres no litoral teria afirmado: “Sem provas nós não poderíamos ser licitamente condenados à morte”.

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Fontes de Consulta: MONTENEGRO, Pe. Francisco de Holanda. As quatro sergipanas, Fortaleza: Casa de José de Alencar/Programa Editorial, 1996, Coleção Alagadiço.


2 comentários:

  1. Sim, desde 1808 a sede da monarquia portuguesa e, portanto, do Reino de Portugal, tinha como sede a cidade do Rio de Janeiro, Brasil, devido à invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas. A corte instalou-se na cidade do Rio de Janeiro, transformando-a na capital do império, um feito único na história de uma monarquia europeia.
    Os historiadores ditos “progressistas” escondem deliberadamente este fato. Costumo dizer que a história ensinada nas nossas escolas (principalmente nas decadentes universidades públicas) é falseada...

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  2. Dona Matildes - Grandeza humana sem igual. Parabens amigo Armando por publicar uma materia de tamanha magnitude.

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