Páginas


"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


sexta-feira, 24 de março de 2017

Antônio Conselheiro, caluniado e injustiçado (por Armando Lopes Rafael)

   Ah! As voltas que o mundo dá...
   Um dos personagens mais desconhecidos (e também dos mais caluniados) na história do Brasil é Antônio Vicente Mendes Maciel, o célebre Antônio Conselheiro. O papel que ele realmente desempenhou, no Arraial do Belo Monte (mais conhecido pela mídia e historiografia como Canudos), ainda está para ser fielmente divulgado para conhecimento dos brasileiros. Mas, como bem lembra Charlie Chaplin,  “O tempo é o melhor autor; ele sempre encontra um final perfeito”. Quem sabe, um dia, a verdade aflorará para Antônio Conselheiro, pois a verdade sempre aparece!
O DIA DEPOIS DO CRIME - Sertanejos aprisionados pelo Exército em Canudos: eles não ansiavam pelo fim do mundo (Foto e legenda da revista "Veja")

    Graças às pacientes pesquisas do historiador Pedro Lima Vasconcellos foi recentemente publicado um bem preparado Box, composto por dois volumes, com o título: “Antônio Conselheiro por ele mesmo”. Trata-se de duas obras que desmistificam o que erroneamente vem sendo publicado – ao longo de 120 anos – sobre o injustiçado  Conselheiro. No  volume 1 – Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Salvação dos Homens –, de autoria do próprio Antônio Conselheiro, consta uma coletânea de reflexões sobre temas variados, de matiz fundamentalmente religioso, escrito durante a época em ele era o líder do vilarejo, por ele batizado de Belo Monte. Já o volume 2, de autoria de Pedro Lima Vasconcellos – Arqueologia de um Monumento Os Apontamentos de Antônio Conselheiro –, apresenta um estudo sobre o conteúdo das reflexões de Antônio Conselheiro, mostradas no volume 1. 

   A mais importante revista brasileira, “Veja”, edição de 22 de março de 2017, dedicou quatro páginas às obras acima citadas. Da matéria, sob o título “Um sereno messianismo”, transcrevo os textos abaixo:
INIMIGO DA REPÚBLICA - O provável cadáver de Antônio Conselheiro: obediência só aos poderes que vêm de Deus (Foto e legenda da revista "Veja")

“Escritos até hoje inéditos de Antônio Conselheiro apresentam o líder de Canudos como uma figura bem diversa do fanático milenarista pintado por Euclides da Cunha”.

“(...) os Apontamentos constituem uma novidade: encontra-se ali um Antônio Conselheiro diverso do líder messiânico e milenarista consagrado pela tradição. E nada sugere as patologias psiquiátricas e degenerescências raciais que Euclides da Cunha atribui ao Conselheiro no clássico maior sobre a Guerra de Canudos, Os Sertões. Será difícil encontrar aqui as “aberrações católicas”, o “fetichismo bárbaro” e o” misticismo feroz e extravagante” de que fala Euclides. No geral, o estilo é sereno, plácido, até enfadonho. Não há profecias sobre a transformação do sertão em praia e da praia em sertão, nem se prefigura o retorno de dom Sebastião, o jovem rei português morto na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578”.

“Os temas sobre os quais o Conselheiro discorre são convencionalmente católicos: os dez mandamentos– há uma prédica para cada um deles –, a missa, a confissão, a paixão de Cristo, entre outros. Na prédica dedicada à “Justiça de Deus”, o tema é o Juízo final – mas não há nenhuma indicação de que o autor acreditasse na iminência do apocalipse: recomenda-se apenas que os fiéis “deixem a estrada da perdição e entrem na vereda da vida”, preparando-se para a hora da morte”.

“Nos anos 70, por obra do estudioso Ataliba Nogueira, já fora editado um outro caderno de escritos do Conselheiro, datado de 1897, ano em que o Arraial de Canudos foi massacrado pelo Exército”.  “Nos cadernos publicados por Ataliba Nogueira, havia um sermão contra a República. Nos Apontamentos, a recusa ao novo regime (implantado no Brasil pelo golpe militar de 15 de novembro de 1889) se faz pelo silêncio”.

“(...) Portanto, deve-se obedecer “ao Pontífice, ao Príncipe, ao Pai”. O presidente não consta dessa sequência de pês, o que configura, como observa Pedro Vasconcellos, uma omissão eloquente”.

“Talvez o mais inusitado seja ver o homem que Euclides chamou de “gnóstico bronco” recorrer a excertos de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, entre outros doutores da Igreja. Não, Antônio Conselheiro não terá lido as Confissões ou a Suma Teológica. Buscou essas citações em duas obras de proselitismo católico: Compendio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira e Missão Abreviada, de Manoel José Gonçalves Couto”.

“Missão Abreviada é um livro de antipática rigidez doutrinária, O Conselheiro, muito diferente, preferia exortar o amor de Jesus Cristo a amedrontar com a visão dos suplícios eternos do inferno”.

***   ***   *** 

     Abro um parêntesis, antes de citar a frase final da reportagem de “Veja”, para lembrar que Antônio Conselheiro teve, intuitivamente, quarenta anos antes das verdades reveladas por Nosso Senhor Jesus Cristo, nas aparições década de 1930, à Santa Faustina. Naqueles anos, dentre outras coisas, Jesus Cristo garantiu à freira polonesa: “Não quero castigar a sofrida humanidade, mas desejo curá-la estreitando-a ao meu misericordioso coração”.  “(...) escreve que sou mais generoso para com os pecadores do que para os justos. Por eles desci à terra... por eles derramei meu sangue. Que não tenham medo de se aproximar de mim; são eles que mais necessitam da minha misericórdia”.

       Dito isso transcrevo a frase final da reportagem da revista “Veja”:
“À luz desse documento, a eliminação de Canudos talvez pareça ainda mais   ignominiosa. Nesse ponto, Euclides da Cunha ainda está certo: foi um crime”.

DISTORÇÕES Euclides da Cunha: para o autor de Os Sertões, Antônio Conselheiro era um caso de "misticismo bárbaro" (Legenda da revista "Veja")

Postado por Armando Lopes Rafael

7 comentários:

  1. Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Nova Vila de Campo Maior (hoje Quixeramobim,no Estado do Ceará) em 13 de março de 1830 e falecido em Arraial do Belo Monte (hoje Canudos) , 22 de setembro de 1897), mais conhecido na História do Brasil como Antônio Conselheiro, que se autodenominava "o peregrino", foi um líder religioso brasileiro.
    Aos 27 anos, perdeu o pai e começou a cuidar da loja da família, com a qual sustentava as quatro irmãs. Ficou dois anos à frente do negócio e, depois, passou a dar aulas numa escola de fazenda. Graças aos seus estudos e esforço tornou-se escrivão de cartório, solicitador (encarregado de encaminhar petições ao poder Judiciário) e rábula (advogado sem diploma). Estaria encaminhado profissionalmente, caso um problema pessoal não viesse mudar radicalmente sua vida.
    Depois de casado, Antônio Maciel foi traído pela mulher que fugiu com outro homem. Transtornado pela humilhação, começou a perambular sem destino certo pelo interior do Ceará e de outros Estados do Nordeste. Para sobreviver, trabalhou como pedreiro e construtor, ofício aprendido com o pai. Restaurava e construía capelas, igrejas e cemitérios.

    ResponderExcluir
  2. --- 2 ---
    Esse trabalho e as pregações do padre Ibiapina - que peregrinava pelo sertão fazendo obra de caridade - influenciaram Antônio Maciel. Ele passou a ler os Evangelhos e a divulgá-los entre o povo humilde, ouvindo também os problemas e aconselhando-os. Daí vem o nome de “Conselheiro”. Padre Ibiapina sugeriu que ele procurasse outros estados do Nordeste para continuar suas pregações junto aos humildes.



    Figura carismática, adquiriu uma dimensão messiânica ao liderar o arraial de Canudos, um pequeno vilarejo no sertão da Bahia, que atraiu milhares de sertanejos, entre camponeses, índios e escravos recém-libertos, e que foi destruído pelo Exército da República na chamada Guerra de Canudos em 1896.

    ResponderExcluir
  3. --- 3 ---
    A imprensa dos primeiros anos da República e muitos historiadores, para justificar o genocídio, retrataram-no como um louco, fanático religioso e contrarrevolucionário monarquista perigoso. Antônio Conselheiro liderou e organizou o Arraial de Canudos de forma que o local cresceu e começou a causar preocupações nas autoridades políticas e nos fazendeiros da região. Foi chamado de monarquista e inimigo da República.


    O governo federal, com auxílio de tropas locais, organizou uma grande ofensiva militar contra o arraial liderado por Conselheiro. O conflito armado, conhecido como Guerra de Canudos, ocorreu entre 1896 e 1897. Ocorreu aí um verdadeiro genocídio em relação aos sertanejos que foram atacados onde moravam e apenas se defenderam.

    Antônio Conselheiro foi morto durante as batalhas em 22 de setembro de 1897, provavelmente, por ferimentos causados por uma granada.

    ResponderExcluir
  4. Tempos depois deste episodio lamentável, se repetiu no Caldeirão as mesmas atrocidades até hoje mal contadas, como no caso do Antonio Conselheiro.

    ResponderExcluir
  5. Ambos os casos mostram a truculência das autoridades republicanas.

    ResponderExcluir
  6. Diz Hoornaert, Antônio Conselheiro, quando jovem, foi caixeiro viajante e auxiliar de cartório e também professor.

    ResponderExcluir
  7. Blog da Filia - Obrigado pela visita e pelas informações importantes a cerca do Antonio Conselheiro.

    ResponderExcluir