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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


segunda-feira, 24 de abril de 2017

067 - Preciosidades antigas de Várzea-Alegre - Por Antônio Morais.

José Raimundo de Morais, Zé André do Sanharol.

Você já ouviu falar em colar como corda em caçoar? Mel em cabaça? Cangalha em besta? Assim foi o Chagas de Clara no Sanharol.

Chagas era um sujeitinho baixo, moreno, enjoado e bebedorzinho da teimosa. Um dia ele estava numa roda de amigos na Rua dos Lobos, bem em frente à capela de São Vicente e se desentendeu com o Chiquinho de Pedro Belo.

Rolaram pelo chão, foram a cima e foram a baixo e quando o Chiquinho viu que o Chagas tinha a companhia e ajuda de Seu Tõe de Cota e de Damião dos Bonecos, seu primos legítimos, o jeito que encontrou foi capar o gato, fazer bunda de ema.

Quando Chiquinho chegou em casa, todo melado de lama, sua irmã resolveu chamar a policia. O Chagas sabendo da noticia fez finca pé no giro do Sanharol. Na casa de Zé André, depois de uma boa conversa, ouviu do dono da casa: Fique aqui, se a policia vier lhe leva, se não vier, amanhã eu vou à cidade e converso com o delegado e dependendo do que ele me falar tomamos a direção certa.

No outro dia Zé André foi falar com Antônio Costa e o delegado nem sabia da historia da briga e de volta Zé André informou ao Chagas o seguinte: O delegado disse que deixe de beber tanta cana e passe um período sem andar na cidade. Chagas mandou apanhar as suas coisas na rua e fixou residência no Sanharol ocupando um armazém ao lado da casa.

Trabalhava na lavoura de arroz e se comportou conforme recomendara o delegado até a semana santa quando por causa de feriados prolongados e tempo frio resolveu ir à bodega do Raimundo Sabino e encheu a cara da melopeia.

De volta da bodega para casa fez  show. Botou boneco. Um bêbado no Sanharol? Coisa nunca vista. Uma blasfêmia inaceitável para uma semana santa de 1962.

No outro dia só se assuntava o porre de Chagas. Quando chegaram as primeiras queixas do Meninim Bitu e do Antônio de Gonçalo, Zé André chamou o Chagas para uma conversa séria: Olhe Chagas, no Sanharol não tem um bêbado, não tem uma mulher desmantelada, não tem ladrão, não tem mentiroso, ninguém bebe pinga. Para viver no Sanharol tem que ser serio, você não pode mais beber suas canas e sair fazendo besteira no Sanharol não, ouviu?

O Chagas foi até o armazém e saiu com os teréns num saco e disse: Zé André vamos acertar minhas contas que eu vou embora. Surpreso Zé André perguntou: como é? Sim vou embora, "eu não vou morar no céu antes de morrer".

4 comentários:

  1. Com o passar do tempo, o Sanharol se igualou aos outros lugares. Passou a ter as mesmas coisas. Bebados nem se fala. Quando o Borginho soube da historia do Chagas e o meu irmão Anacleto andou bebendo umas a mais da conta, Borginho fez esta observação: Meninos e o que Tio Ze Andre vai fazer com Anacleto?

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  2. Caro Morais,
    Bons tempos aqueles. Para as novas gerações pode até parecer ficção. Mas para você e para mim – que ainda conhecemos nossa pátria com aquele mentalidade – é motivo de grata recordação uma história como essa, acontecida no Sanharol.
    Outro dia li um artigo do íntegro senador Cristóvão Buarque onde ele escreveu, dentre outras frases, as seguintes:
    ... ....
    “A crise moral brasileira é tão grande, que ao despertarmos para a corrupção jogamos a culpa apenas nos outros, especialmente os políticos, como se não tivéssemos, cada um de nós, uma parte na degradação do capital moral de todo o País.Durante décadas, o Brasil concentrou seu projeto de desenvolvimento nos resultados que obteria de investimentos de capital econômico. Procurou financiamento externo, mobilizou capital estatal, investiu em indústrias, proibiu importações, montou uma sofisticada infra-estrutura econômica, mas o País continuou subdesenvolvido. O Brasil esqueceu que seu futuro depende também de capital moral.
    Foi o prêmio Nobel de economia Amartya Sen quem chamou a atenção para a necessidade de capital moral na promoção da riqueza de um país. Segundo ele, a honestidade do povo, especialmente dos líderes políticos, empresariais e profissionais, a auto-estima elevada e a motivação coletiva para os projetos nacionais têm um papel tão importante quanto os investimentos diretamente financeiros.
    Em nossa estratégia de desenvolvimento, esquecemos o capital moral. Mas nada degrada mais o capital moral de um país do que pesar suspeita sobre parte da Justiça. Uma Justiça que não julgue a todos igualmente. Que use seu poder para, por vezes, acusar injustamente ou fechar os olhos diante dos corruptos. Não há possibilidade do Brasil ser desenvolvido enquanto toda a Justiça não for parte do capital moral do País: julgando sem diferenciar por amizade, perseguição ou conivência, sem condenar alguns e perdoar outros pela mesma falta. O tratamento diferenciado dado por uma parte da Justiça brasileira, conforme a simpatia ou a conivência com o réu é uma das provas da degradação do capital moral no Brasil”.

    ... ...
    Não são palavras lúcidas, reais, pertinentes???

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  3. Parabens Armando.

    Infelizmente a primeira justificativa dada, hoje em dia, é; Fulano tambem fez. O Presidente acabou de falar: As passagens aereas do congresso não são problemas. Quando era deputado usei minha cota para transportar sindicalistas.

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  4. Vinte anos mais tarde, já na década de 80 do século passado Pedro de Chico André contou essa historia para Borginho, que reagiu com uma pergunta : Pedro o que Tio José vai fazer com Anacleto?

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