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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


sexta-feira, 30 de junho de 2017

102 - Preciosidades antigas de Várzea-Alegre - Por Antônio Morais.

Os velhos da minha infância.

Quanto a velho. Examinemos o assunto. Velho é substantivo comum, degradante, masculino, singular, nem tão singular assim.

E velho é o Coliseu, como velha é a esfinge de Gizé. Na filosofia e moral chinesas, a pessoa idosa é simbolo de veneração e respeito, consideradas suas condições de mais experientes dos segredos da vida e da dignidade de suas cãs e barbas brancas.
Entre nós, todavia, nos tempos atuais, a coisa não é bem assim. O velho tem valor de excrescência ou algo semelhante. Isto em parte, por culpa dele, que não se dar a respeito, portando-se, muitas vezes, cafajesticamente.

Isto me faz lembrar os velhos dos meus tempos de menino. Um punhado de homens austeros, trabalhadores, exemplares pais de família, daqueles que não precisavam, sequer, dar um fio de bigode para juramentar seus compromissos. Sempre os admirei e respeitei, vendo neles figuras distintas, pessoas diferentes, a quem deviam todos devotar o máximo de atenção e cortesia. Hoje é mentira?
Existem velhos com pinte de play-boy e alguns, até são membros da "International Gay Society". Sinal dos tempos.

Os velhinhos da minha meninice, pobres ou ricos, tinham dignidade no vestir, compostura no andar, decência nos seus gestos e atitudes. Uns, na modéstia de suas posses, vestiam caqui Floriano, mescla Tamandaré ou brim Joffre. Outros, mais afortunados, portavam cruazé de alpaca, nos últimos estágios de uma moda que se extinguia. Em alguns era infalível o colete, principalmente, nos dias de feira, que era no Domingo, também dia de missa ou nas festas de agosto e de fim de ano. Alguns usavam bengalas, outros, simples cipós de marmeleiro ou jucá, conforme as "previsões meteorológicas".
A maioria morava mesmo na rua, enquanto muitos outros vinham dos sítios, nos seus ajaezados cavalos, acompanhados, frequentemente, de parentes e moradores.

Os de fora tinham, normalmente uma casa na vila, onde se hospedavam, depois de livrar suas montarias. Assistia a missa, faziam a feira, vendiam e compravam, davam um dedo de prosa, aqui e ali, e, resolvidos seus negócios, voltavam aos seus pagos, felizes como haviam vindo. Esta visita certa ao centro se fazia sentida, quando algo impedia a qualquer deles de assinar o ponto. Os da rua, pela manha, faziam uma incursão ao comercio, onde havia sempre o pretexto de comprar alguma coisa, ou, simplesmente, para estirar as pernas.

Um comentário:

  1. Os velhos de minha infância. Hoje não temos mais e amanhã talvez não.

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