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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Lançado o último livro do Juiz Flávio Morais

  
Na antevéspera do feriado de 15 de Novembro, data do golpe militar que implantou a República no Brasil, ocorreu, no Instituto Cultural do Cariri–ICC, na cidade de Crato o lançamento de mais um livro focando da figura do último imperador brasileiro, Dom Pedro II. A obra romanceada, escrita pelo Juiz de Direito Flávio Morais, teve a apresentação do historiador Armando Lopes Rafael. Leia abaixo a íntegra da apresentação:
    
     “Honrou-me, sobremodo, o convite que me foi feito pelo escritor Flávio Morais, para apresentar, nesta ocasião, o seu livro “Rastros Sombrios”, a “obra-caçula” da sua já vasta produção literária. Apresentar este seu livro, no meu entender, implica em falar no autor, no livro e no enredo da obra. De forma suscinta, pois, utilizarei, por isso, três tópicos: O primeiro, sobre o escritor; o segundo, para uma análise do livro e o terceiro tópico sobre o personagem central abordado em “Rastros Sombrios”.

1 – Sobre o autor

    José Flávio Bezerra Morais, um homem de pouca idade, possuidor do vigor da juventude, veio ao mundo em 1970. Nasceu aqui pertinho, no município de Milagres.  Iniciou-se na literatura ainda na adolescência. É dotado das características exigidas a um bom escritor:  memória prodigiosa, facilidade de expressão, senso de observação e habilidades para criar imagens. Resultando numa linguagem escrita com inteligência e riqueza de detalhes, como se depreende nas entrelinhas dos vários livros que já escreveu. Desde a infância, Flávio Morais – um garoto perspicaz e curioso – foi guardando na memória as muitas histórias que lhe eram contadas e que serviriam como subsídios para muitos dos livros que viria a escrever.

     Lendo este livro “Rastros Sombrios” deduz-se que Flávio Morais está em seu pleno amadurecimento intelectual, ou seja, sabe discernir juízos de valor, conhece diferentes culturas, forma a própria opinião sobre diferentes temas.

     Flávio Morais é autor de mais de dez livros, dentre os quais:

 1 – “Milagres do Cariri”
 2 – “Histórias que ouvi contar”
 3 – “Histórias de exemplo e de assombrações”
 4 – “Sete Contos de arrepiar”
 5 – “Padre Ibiapina: Histórias Maravilhosas”
 6 – “Nas veredas do fantástico”
 7 – “A Sombra do Laço” 
 8 – “Carvão”
 9 – “Daniel Alecrim e o talismã de ébano”

          Este último livro citado foi um dos vencedores do Prêmio Rachel de Queiroz de Literatura Infantil, concurso promovido pela Secretaria de Cultura do Ceará.  Cumpre ressaltar, ainda, que o autor publicou outras obras – de teor jurídico – adentrando num terreno que ele conhece muito bem, porquanto tem como atividade profissional a Magistratura togada.
       Conclui-se, pois, que Flávio Morais é um escritor consagrado e renomado, e que muito honra o nome do nosso Cariri, mercê sua produção literária. 

2 – Sobre o livro “Rastros Sombrios”

      Nesta obra, o protagonista é o magnânimo Imperador Dom Pedro II. Os coadjuvantes, Cristóvão e Elise, um casal de namorados. Existem centenas e centenas de livros escritos sobre Dom Pedro II. Parece, pelo visto, que o “Monarca dos Trópicos” se constitui num manancial inesgotável, pois quando se pensa que o filão exauriu, eis que Flávio Morais surge com este “Rastros Sombrios”, adentrando em novo contexto ainda não explorado, dentro da multifacetada personalidade daquele que passou à História como “O Maior dos Brasileiros”. Aliás, Flávio Morais assim escreveu na página 26 desta obra:

“Dom Pedro II era um intelectual. Sempre procurou registrar cada detalhe do seu dia a dia, como governante, viajante ou estudioso. Sabia da importância que os relatos teriam no futuro, para o entendimento do seu governo e do próprio Brasil. Ao todo ele escreveu 43 cadernetas. Atualmente, esses diários fazem parte do Museu Imperial, em Petrópolis, e estão disponíveis ao público, até pela Internet. Em 2010, os diários escritos por Dom Pedro II foram considerados Memorias do Mundo pela Unesco”.

       “Laços Sombrios” aborda um assunto até agora inexplorado: o interesse do Imperador Pedro II, pela hipnose.  A "Hipnose" (palavra que vem do grego hipnos = sono + osis, do latim = ação ou processo) foi introduzida na medicina pelo médico e pesquisador britânico James Braid, nascido em 1795 e falecido em 1860. Braid inseriu essa novidade nos tratamentos médicos, acreditando que essa espécie de sono induzido levaria o paciente a facilitar ao médico–hipnotizador, as informações necessárias para formar o diagnóstico do doente, sem que este se opusesse ao que lhe fosse perguntado. 

       Essa novidade logo chegou a um dos centros médicos mais avançados da Europa: a cidade de Paris. Sabemos que Dom Pedro II tinha entre seus médicos, o renomado clínico francês Jean Charcot. Profissional da escola de Salpetriére, da capital francesa. Charcot foi professor de Freud e estudou os efeitos da hipnose em pacientes à época chamados “histéricos”. Nos seus últimos meses de vida, Dom Pedro II frequentou a escola de Salpetriére, onde se praticava a hipnose. Esta a temática principal deste novo livro de Flávio Morais, desenvolvida com talento e riqueza de detalhes. 

          Pelo que li neste “Rastros Sombrios”, e pelo que conheço da vida de Dom Pedro II, Flávio Morais inseriu – neste livro – cerca de 90% de fatos reais da vida do admirável Imperador brasileiro. E fê-lo, como consta na capa do anverso: “Com desenvoltura entre a ficção histórica e o thriller policial, onde os últimos momentos do imperador ganham vida, cor e rastro”. Mas não só. Uniu com maestria, os fatos verídicos à pequena parte romanceada, conferindo à obra uma linguagem detalhista, escrita com clareza, e num palavreado simples, que torna agradável a leitura.  

         Dir-se-ia que ao escrever sobre este fato pouco divulgado da vida de Dom Pedro II, Flávio Morais resgata da memória do magnânimo imperador um lance pouco conhecido do monarca, um fato inexplorado pelos biógrafos do Imperador. 

       O autor deste livro dá ênfase, com riqueza de subsídios, à visão de futuro de que era possuidor  o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil (como era denominado Dom Pedro II na Constituição Imperial de 1824, a que mais durou dentre as 7 constituições que nosso país já teve, sendo as outras 6 produzidas só nos 130 anos de República). Dom Pedro II era um curioso das novidades científicas da sua época.  O que fazia parelha ao seu reconhecido êxito nas iniciativas nos campos político e administrativo. Hoje, é unanimidade, entre os bons historiadores, que a pessoa do Imperador Dom Pedro II foi o principal fator de união na sociedade brasileira no século XIX.  Não fora ele, ao invés do país continental que temos hoje, o Brasil teria se fragmentado em diversas republiquetas insignificantes, a exemplo do que ocorreu na América Central.

3 – Sobre o Imperador Dom Pedro II

     Josemaria Escrivá, o santo-fundador do Opus Dei, disse, em certa ocasião, esta frase:
"Verdadeiramente a crise do mundo é “crise de santos”!
     Isto é, a crise do mundo decorre do pouco número daqueles que hoje se sacrificam e oram por si e pelos outros. 

     Mutatis mutandis, podemos afirmar que a crise do Brasil atual é uma “crise de estadistas”. Esta sim, é a nossa principal crise – da qual decorrem as demais – e ela advém da ausência de boas lideranças políticas. Muitas das atuais, que pululam por aí, são carentes de elevada estatura moral, de tirocínio, de probidade e retidão. Nossos administradores têm hoje pouca habilidade e pouco discernimento, o que se reflete negativamente na administração do Estado e na gerência das questões políticas.

        Por isso, a data 15 de novembro, que ocorrerá depois de amanhã, assinalante dos cento e trinta anos de aniversário do golpe militar que implantou a forma republicana na nossa pátria, nunca foi comemorada pela população brasileira. Todos os anos, repórteres dos noticiários televisivos saem às ruas para perguntar ao povo a razão do feriado de “15 de novembro”. A grande maioria dos consultados responde simplesmente que não sabe. 

         Talvez por isso, 128 anos depois da morte do nosso último Imperador, ele ainda sobreviva   – no imaginário popular - como “O maior dos brasileiros”. O que justifica que esse soneto, atribuído a Dom Pedro II, que tem por título: “Terra do Brasil”, escrito quase ao fim da existência terrena do velho imperador, ainda comova a muitos. Permita-me ler o soneto:

“Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e neste creio
Brando será meu sono e sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de glória,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A justiça de Deus na voz da história!”

      É também, atualíssimo, o parágrafo abaixo, tirado de uma anotação escrita por Dom Pedro II, poucos dias antes da sua morte, ocorrida em 5 de dezembro de 1891, durante o seu banimento e exílio forçado, na França, que agora leio:

          “No alto de uma folha de papel escrevam a data do meu nascimento e o dia que subi ao trono; no fim, quando faleci. Deixem todo o intervalo em branco, para o que ditar o futuro; ele que conte o que fiz, as intenções que sempre me dominaram e as cruéis injustiças que tive de suportar em silencio, sem poder jamais defender-me”.

      As reminiscências, registros e manifestações de tantos memorialistas, jornalistas, escritores e historiadores, consolidaram um juízo favorável ao velho soberano, cuja atuação austera e competente marcou durante quase 50 anos a história do Brasil. Ele foi, verdadeiramente, um homem consciente da sua missão histórica, a qual exerceu com honestidade e ética. Serviu, ele e a sua Família Imperial, de arquetípicos de uma sociedade ainda em formação.

     Parabéns, Flávio Morais por seu “Rastros Sombrios”. O Sr. se houve muito bem no seu desiderato. Teve sua pena habilidosa, posta, mais uma vez, a serviço da boa literatura e de uma sadia produção cultural. Desejo ao Sr. e ao seu novo livro muitos sucessos, Ad multos anos...

4 comentários:

  1. Prezado Armando - Inicialmente parabéns pela honra de apresentar o trabalho do ilustre escritor Flavio Morais. Você merece. Numa segunda ordem eu quero informar a minha descrença, tristeza e reprovação pela republiqueta de meia pataca instalada no Brasil. Cada dia somam-se fatos novos que desonram o Brasil e seu povo. A pendenga denunciada, ultimamente, que levou o Bolsonaro a não aceitar o príncipe como seu vice é simplesmente vergonhosa e repugnante, especialmente para quem tem filhos do porte do Flavio e do Eduardo. Que pena Jair.

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  2. – 1 –

    Mui caro Morais:
    O termo certo é o que você escreveu: “REPUBLIQUETA”. O golpe que rasgou a Constituição do Império do Brasil de 1824 (a que mais durou: 67 anos de estabilidade), extinguindo um Império respeitável e implantando esta republiqueta já foi responsável por mais 6 (seis) Constituições de vida efêmera em apenas cem anos da experiência republicana.

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  3. – 2 –

    Amanhã é mais um aniversário do golpe republicano de 15 de novembro de 1889, o qual os brasileiros não comemoram. Nunca comemoraram. A maioria do povo nem sabe a razão do feriado de amanhã. Basta dizer que a matéria principal do jornal “Estadão de hoje é esta: “Herdeiro de Dom. Pedro II busca princesa para manter dinastia”. Ou seja, o maior jornal do país sequer fala no feriado do golpe. E fica especulando sobre um provável noivado de Dom Rafael, que em breve estará no segundo lugar da sucessão do Trono brasileiro.

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  4. – 3 –

    Eis como começa a matéria do Estadão: “ A Monarquia terminou no País há 130 anos, mas os descendentes de d. Pedro II seguem cumprindo os costumes da alta nobreza europeia. Trineto da princesa Isabel, d. Rafael Antônio Maria José Francisco Gabriel Gonzaga de Orleans e Bragança, de 32 anos, busca uma princesa para se casar e, assim, seguir na linha sucessória da família imperial brasileira” (...) “Ele está em 4.º lugar na linha sucessória e, considerando apenas os parentes de sua geração, ele é o primeiro da fila. D. Rafael se tornou o primeiro em 2009, após o irmão mais velho, Pedro Luiz, morrer no acidente do voo 447 da Air France, que ia do Rio para Paris e caiu no Oceano Atlântico”.
    Moral da “opereta buffa”, que é esta reportagem do Estadão: O tiro saiu pela culatra!!! Os brasileiros se interessam mais pela Monarquia derrubada pelos golpistas há 130 anos, do que por essa “Ré -Pública” desmoralizada dos dias atuais.,,

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