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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


quarta-feira, 22 de março de 2017

054 - Preciosidades antigas de Várzea-Alegre - Por Antônio Morais.

Dr. José Correia Ferreira - Foi o segundo filho de Várzea-Alegre a se formar em medicina, 1936. O primeiro foi seu tio Dr. Leandro Correia 1915.

Sua primeira receita, paciente recomendada da tia Ester Correia. Entra com o marido, um sujeito afogueado, torado no grosso, olhos de espanto, chapéu de couro, toco de cigarro de palha no canto da boca, jeito de quem está vendo alma, por todos os lados.

A mulherzinha parecia a alma que se procurava: pequena, magra, amarela, cabelos zangados com a disciplina, uns tics no canto direito da boca, pra completar, a coisa mais encabulada do mundo.

Sentindo seu jeitão e a dificuldade que teria em lhe ouvir as queixas, procurei deixá-la a vontade, falando-lhe palavras afáveis, animadoras, tentando um bom relacionamento, como se diz. Depois de lhe perguntar, umas três ou quatro vezes, de que se queixava, o que sentia, sem que ela desse uma palavra, perguntei ao marido: sua mulher não fala? É surda-muda? Foi então, que ela, rompendo o mutismo, falou: Minha doença quem sabe é Zé.

Aí o homem pegou pressão, assim como quem está foleando formigas e foi falando num ritmo irregular: ora, soprando para fora, ora, aspirando para dentro. E tome verbo: Seu doutor, esta muié tá se acabando viva. Voimincê credite que ela num drome, ela num come, ela num tem sustança pra nada e tem uma dor de cabeça afitiva, qui quando dá nela, lá nos tapumes da testa, a pobrezinha só farta correr doida. Enche os oios d'água, pega minhas mão, bota na cabeça dela e fica dizendo: Incaica Zé.

A muito custo, conseguir tomar a pressão, examinar-lhe os olhos, sentir-lhe o pulso, auscultar, percutir. Ela todo tempo se esquivando, se afastando, no mais inocente e desnecessário recato.

Decorridos umas três semanas, em outro dia de feira, volta o Zé. E de melhor aspecto. Ao me ver, foi logo dizendo: vim só lhe dizer, meu doutor, qui a muié tá muito amiorada. Quaje boa, mesmo.

Deus te proteja.

3 comentários:

  1. Alem de um médico humanitarista um grande escritor.

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  2. Olá Sr. Antônio. Meu nome é Letícia, tenho 42 anos e o senhor não tem noção da emoção que foi encontrar este registro (principalmente pela data da postagem). Este homem foi - de fato - um médico humanitarista e grande escritor e, tb continua sendo meu grande ídolo. Meu "voinho" Ferreira! :D Gostaria de saber mais informações sobre a vida dele aí em Várzea Alegre. Obrigada novamente pelo registro.

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  3. Letícia - Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Parabéns pelo avô, pelo legado de grandes exemplos deixados por ele, legado herdado de seu Ferreira, o pai dele, homem honrado, digno e probo.

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