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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

371 - Preciosidades antigas de Várzea-Alegre - Por Antônio Morais.

Dr. José Bitu Moreno.

Ficava olhando para o fundo do cacimbão de tijolos vermelhos, atravessado por troncos de madeira nodosa, e povoado por águas escuras e distantes. Catava algumas pedrinhas e as jogava, avaliando o tempo gasto até ouvi-las: o baque surdo, as vozes escuras, nas águas pesadas que se debatiam em ondas de encontro à parede lodosa. Entre as falhas dos tijolos, sapos e rãs descansavam. Contava-se da história de uma jovem que caiu naquela solidão profunda, onde foi engolida. Uma história imprecisa, mal contada, que de tão antiga parecia até mesmo uma fábula. Como a de Maria de Bil, a da capelinha branca no alto da serra. Difícil imaginá-las na realidade daqueles dias tão pacatos e ingênuos, logo pertenciam a um outro reino, o das histórias escabrosas, o reino da fantasia.

Mas o cacimbão ficava em meio ao algodoal, onde era alcançado por uma trilha estreita de terra e pedregulhos. Para nos protegermos das cobras, cobríamos em pouco tempo esse trecho, repetindo entre os dentes a oração: “São Bento e água benta. Jesus Cristo do altar, O que estiver neste caminho, Arrede e nos deixe passar...” A trilha também nos levava, para além do cacimbão, a uma mata de árvores secas e retorcidas, cipós, moitas espinhentas de jurema, unha-de-gato, e mofumbo. Dessa mata tirávamos a madeira para construirmos baladeiras, badoques, arapucas e cavalinhos de pau. Os galhos para os cavalinhos tinham de ser verdes, para que com a ponta da faca talhássemos desenhos em toda sua extensão, cavalinhos malhados, garbosos, pedaços retos de pau, com rédeas de cordão, em que montávamos e disputávamos corridas.

A casa era caiada. Foi construída numa pequena elevação, de um lado dava para a propriedade, e do outro encostava-se em estreita e sinuosa estrada de areias brancas. À sua frente e também na traseira pedaços da propriedade se aproximavam da estrada, envolvendo a casa em U. Era uma casa de tijolos, quadrada e de paredes grossas como tantas outras, repetindo o estilo arquitetônico da época. Ela se ajeitava pesadamente sobre uma calçada alta de pedra, que lhe avarandava. Tinha piso de tijolos, com exceção da sala estar, de cimento frio. Mais quatro quartos de dormir, uma sala de jantar, cozinha e dispensa amplas, completavam o corpo da casa. Distante da casa, no terreiro, havia um banheiro, com pequeno espaço para banho de pote e um vaso sanitário, que descarregava numa fossa escavada por baixo.

Da outra calçada lateral da casa branca divisava-se a manga. Primeiro o curral e um pé de cajarana. O curral de cerca alta de pau-a-pique, com um mourão central. O pé de cajarana ao lado, onde parecia que sempre esteve, com tronco curto, grosso, resinoso e galhas que se espalhavam tortuosas, quase a tocar no chão, e que ficavam carregadas de cajaranas doces e madurinhas. Trepados em seus galhos podíamos assistir o movimento do gado no curral. Gado lento e silencioso, manso, que não fora o tilintar de chocalhos e mugidos ocasionais, poderiam passar despercebidos. No entardecer cada mugido mais parecia um gemido de entristecer.

Mas seguindo em direção à manga, depois do curral, em linha reta, havia um juazeiro da mais fresca sombra. Mais para frente dois pés de cajás, depois dos quais corria o riacho das marizeiras. Era seco a maior parte do ano, mas no tempo das chuvas, enchia-se de água vermelha, barrenta, até transbordar, inundando as terras baixas. Depois do riacho, vinha a serra cinza e inatingível.

Voltando à casa branca, nos seus fundos havia um pé de Mari, de sombra ampla e fresca. Nessa sombra: terra frouxa, areia branca, estradinhas construídas, pontes com esmero projetadas, precipícios, ladeiras sinuosas, cidades de pedras...Carros de caixas de fósforos, cheios de terra, puxados por cordão. Boiada de barro: vacas de chifres longos, touros majestosos, bezerros, cavalos puros-sangues, selas com estribos, vaqueiros de chapéus garbosos e gibões, e até mesmo com esporas nas botas. Horas a fio brincávamos enfeitiçados nesse mundo, até que vó branca chamava da cozinha para comer.

Um pé de fico benjamim bem frondoso e eternamente verde com raízes retorcidas e grossas, destacava-se no terreiro defronte à casa. Depois do terreiro um pedaço da propriedade onde se alternavam plantações de milho e de arroz. Quando tinha inverno, o milharal floria, e logo ficava cheinho de espigas, que depois se tornavam em bonecas, com cabeleiras fartas e coloridas, que minhas irmãs e primas enrolavam em pedaços de pano e faziam penteados.

Nas noites de lua acendia-se uma grande fogueira, com gravetos, pedaços de madeira e excremento seco de vaca para afugentar as muriçocas. Os adultos sentavam-se na calçada para conversar, e as crianças brincavam de esconde-esconde, adivinhações, e cantigas-de-roda, meninos e meninas, repetindo os diálogos cantados, aquelas cantigas tristes de tão belas, que pareciam até mesmo, no feitiço do momento, roubar de cada um, cada vez que as cantasse, um bocadinho a mais da infância.

Dentro de casa, lamparinas de querosene ardiam afastando as sombras. Ao redor de suas chamas, besouros diferentes voavam em círculos, de forma caótica, barulhenta, trombando-se entre si, nas paredes, e recomeçando depois do chão. Na escuridão pegávamos vagalumes com as mãos, e os colecionávamos por dentro da camisa abotoada.

No mato e se eram noites de inverno, onde brejos se formavam, cantavam grilos, coaxavam sapos, de todos os lados e de todas as vozes. Alguns, os sapos-cururus invadiam os terreiros e por vezes se aventuravam em casa, olhos esbugalhados, o papo bojudo e flácido enchendo e secando, dizia-se até que o seu mijo podia cegar. E dos pássaros noturnos,o medo, medo quando se ouvia o cantar solitário de uma coruja, medo do seu voo que se dizia rasgando mortalha, medo das histórias de trancoso, contadas a meia voz, as crianças deitadas em redes que se entrecruzavam, silenciosas, olhos arregalados, cruzando os dedos, e puxando as varandas da rede sobre o corpo, para se proteger das almas penadas que rastejavam pelo chão. Depois era o sono profundo e, se Deus queria, embalados por uma chuva varando a madrugada, até que os mugidos das vacas nos currais, precedidos pelo cheiro de café vindo da cozinha, nos acordava para um novo dia.


18 comentários:

  1. Este foi mais um presente do Dr. Jose Bitu para o Blog do Sanharol. Uma obra prima, conheço a Casa Branca, conheço tambem partes destas historias narradas pelo autor. Agradeço ao Raimundo Wiltom por ter enviado esta obra literaria para o deleito dos leitores.

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  2. Morais.
    Mais uma vez corei,vendo esta bela foto,lembrei toda a minha infância,
    toda a molecada tudo o que nos aprontavamos esta foi uma bela história.
    Dr jose Bitu quase cai da cadeaira.

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  3. Morais é chorei meso,sei que até mudei de cor também

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  4. nossa voltei a minha infância no umari dos tindades e nas gamelas texto belissimo que vai amanhã pro meu blog, eita esse Zé Bitu é um escritor de mão cjheia consegue nos emocionar, parabéns primo por mais essa obra prima

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  5. Prezado Luiz Lisboa.

    Chorar, corar são sentimentos nobres. Esta foto do Wilton Moreno resgata grande parte do nosso passado. Bem aí a frente o meu pai e o seu foram socio numa plantação de arroz em 1951. Rendeiros de Jose Bitu avô. A saudade quanta mais velha mais judia.
    Abraços.

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  6. Israel.

    Esta postagem leva de volta todos nós. Todos que tem sentimentos nobres.

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  7. Por mais que o leitor seja seletivo, não dá para filtrar tudo que encontra na internete. Morais, essa você não me avisou, quase que fico sem ler essa obra prima da nossa literatura. Como a cultura de um povo tem o poder de unificá-lo! Cada observação do autor ao descrever o ambiente, é como se eu estivesse alí presente. Bem, não vou aqui tentar lapidar, o que já se encontra pronto, pois a estrela é o Dr. José Bitu. Eu apenas quero registrar a minha satisfação.
    Parabéns e muito obrigado.

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  8. É gente, o texto do Dr. José
    Bitu Moreno, merece comentários
    de pessoa mais qualificadas do que Mundim do Vale.
    Mas eu vou arriscar um pequeno comentário.
    Dr. Bitu me provocou muita saudade
    desse local, eu passei muitas vezes
    nesse paraíso. E o melhor do texto é que o autor confessa que rezava pra São Bento, antes da cobra morder. É muita fé.

    Parabéns Dr. Bitu.O seu trabalho enriquece o nosso blog e o nosso município.

    Nanum da Vazante

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  9. É de se emocionar mesmo....Eu que não moro na Várzea, lendo esta narrativa e vendo se aproximar o momento mais saudoso da nossa terrinha(festa de agosto), o coração fica apertado, onde meu único consolo é que no final do mês se Deus e São Raimundo permitir estarei lá.

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  10. Morais, obrigado por postar meu texto em seu blog e pelas palavras carinhosas.
    Luiz Lisboa, Israel Batista,Magnólia, Francisco Gonçalves de Oliveira, Raimundinho, Enio Menezes...Minha maior satisfação é saber que os sentimentos que foram meus na infância, também foram seus, ainda são nossos, irmãos e conterrâneos nessa grande e vasta rede da vida.
    Grande e carinhoso abraço para todos e, mais uma vez, obrigado pelo carinho de suas palavras,
    Bitu

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  11. Dr. Jose Bitu.

    Sabemos que o seu tempo é precioso. O seu carinho com o Blog e com os leitotes é um sinal de sua humildades e consideração com os seus conterraneos. Deus lhe abençoe.
    A. Morais

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  12. muita gente tem estória prá contar daquela calçada, que na verdade é um patrimônio do povo aquela casa, que só nos traz saudades de um tempo muito bom, quando madrinha BILUCA MORAVA LÁ e a família toda vinha de Fortalza . parabéns, Doutor e receba meu abraço e de D. Carmelita.

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  13. A qualidade literária da crônica de Zé Bitu o consagra como escritor talentoso. Como poeta, já o conhecia e admiro. Sou fã desse amigo, brindado pela natureza com essa memória tão prodigiosa, que vai buscar, nos detalhes mais sutis, o despertar de emoções já cravadas no mapa do tempo, expondo-as com um estilo e uma elegância impressionantes.
    Grande abraço, Zé.

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  14. nesta foto, dar para observar os pés de pau-mocó todos floridos por completos, uma ótima experência para um bom inverno no próximo ano ( quando não tinha aquecimento global)

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  15. Excelente texto, me fez recordar da minha infância. Parabéns pelo privilégio que a vida e a natureza te proporcionou.

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  16. Prezado Marcelo.

    Esta deve ser a sua primeira visita ao nosso Blog. Muito obrigado. Continui visitando-nos.

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  17. A poesia contida na crônica do talentoso Zé Bitu é de uma dimensão impressionante. Fui seu colega nos bons tempos de colégio, sou seu colega de profissão, o conheci muito bem na sua infância, fui seu leitor em "Voo Livre, Pés no Chão", e conheço muito bem as locas onde vivem rãs e caçotes nos cacimbões da vida, daí entender a profundidade de sua poesia e de suas reminiscências. Deleitei-me com esse magnífico texto, que somente hoje pude lê-lo. Parabéns e um forte abraço.

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  18. Caros
    Paulo Viana e Sávio Pinheiro,

    Fiquei muito orgulhoso ao ouvir de vocês considreações tão elogiosas sobre o meu trabalho.
    Somos conterrâneos e contemporâneos. Cruzamos muitas vezes nossos caminhos e saboreamos a mesma raspinha de vida no tempo que nos coube e nos tem cabido aqui na terra. Por isso nos entendemos tão bem e o que um escreve é o complemento do que o outro tentou dizer.
    E tudo isso comungo com todos os escritores e poetas desse blog.
    Grande abraço a todos,
    Bitu

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